Caracterização de sítios agroflorestais em comunidades localizadas na RDS Mamirauá na Amazônia

Caracterização de sítios agroflorestais em comunidades localizadas na RDS Mamirauá...

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TITULO: Caracterização de sítios agroflorestais em ccoommuunniiddaadess localizadas em RDS na Amazônia -- Estudo de caso de acordo com a percepção dos aggrriiccuullttoorreess

RESUMO: O sítio é a denominação utilizada pelos agricultores das Reservas de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá e Amanã (RDSM e RDSA) para definir os consórcios multiestratificados de plantas frutíferas, sejam eles pomares ou quintais domésticos. De forma geral predominam um ou alguns tipos de espécies de grande valor econômico, como abacate, cupuaçú e banana. Entretanto estas coexistem com diversas outras espécies, silvestres frutíferas e madeireiras, caracterizando sistemas agroflorestais.

REDATORA DA FICHA: NOME: RAMALHO, Ana Luiza Melgaço - estudante de Biologia (USU).

TEXTO: A agricultura familiar nas RDSM e RDSA caracteriza- se por apresentar dois sistemas de produção: a roça e o sítio. A roça é uma terminologia utilizada exclusivamente para identificar as áreas onde é realizado o cultivo de diversas variedades de mandioca (Manihot sp.). Gradativamente algumas roças vão se tornado sítio, os(as) agricultores(as) vão introduzindo outras culturas, plantas frutíferas, e até mesmo mantendo as espécies silvestres. Os objetivos deste trabalho é compreender a dinâmica dos sítios, o que se produz nestes, como e porque gerando informações para que as ações do Programa de Agricultura Familiar (PAF) do Instituto de Desenvolvimento Sustentável (IDSM) ocorram num contexto participativo;

Este trabalho foi realizado com duas famílias da comunidade de Vila Alencar (03° 06’ S e

064° 50’ W) e com uma família do Caburini (03° 09’ S e 064° 46’ W), ambas comunidades da RDSM; E na RDSA, foi realizado com quatro famílias da comunidade de Boa Esperança

Este estudo teve início com a apresentação da proposta nas comunidades. Depois de constatado o interesse de algumas famílias, a disponibilidade de área e de tempo dos(as) agricultores(as) tanto em comunidades de várzea (Vila Alencar e Caburini) como de terra firme (Boa Esperança), foi dado início a mais uma etapa deste trabalho com visitas às unidades de produção para reconhecimento das áreas de sítios a serem pesquisadas. Os estudos nas áreas de sítio foram sempre acompanhados de agricultores(as), que explicavam toda a história de implantação do local, manejo, uso, composição de espécies e relação destas com o ambiente. Para a obtenção das informações, foram feitas entrevistas semi-estruturadas. Estes estudos foram baseados firmemente no saber dos comunitários, valorizando seus conhecimentos empíricos.

As famílias da comunidade de Vila Alencar são de origem indígena, e a do Caburini é de origem nordestina. Mas todos aprenderam a atividade agrícola com seus ascendentes, herdaram conhecimentos de práticas agrícolas e as aprimoraram com experiências próprias, tanto os descendentes de índios quanto de nordestinos. Os agricultores já conheciam os sítios através das práticas de seus pais, que praticavam agricultura itinerante, a área era preparada por meio de derruba e junta, e posteriormente tornavam gradativamente o roçado em sítio, que não era tão enriquecido e rentável como é hoje. “Para fazer sítio tem que fazer na roça (...) tira a roça e fica já o outro” (Seu Sandro-Caburini).

As famílias da comunidade de Boa Esperança são descendentes de nordestinos que vieram para o Norte trabalhar “tirando leite da seringa”, aprenderam a fazer sítio observando o mato, pensaram que se no meio da capoeira alta tem uma planta lá dando fruto, no sítio deles ia dar também, e saíram plantando tudo junto. Hoje, a comunidade Boa Esperança, tem sítios bem desenvolvidos e diversificados, que produzem bem. Antes o sonho das famílias era ter um sítio com frutas para comer, agora é ter condições para comercializar todo o excedente.

De acordo com a categoria utilizada pelos agricultores de Boa Esperança, o solo é do tipo areiusca (mistura de areia e barro) e grandes parcelas de terra preta de índio. Enquanto que em ambiente de várzea não difere muito, foi definido dessa forma:“A camada de cima é paú (terra preta); a do meio é barro; e um metro para baixo é areia. Quando vai cavar para construir uma casa, encontra areia!” (Seu Sandro-Caburini). Os solos estudados não correspondem à idéia disseminada de que os solos amazônicos são pobres e impróprios para a agricultura, a terra preta e os solos da várzea são extremamente férteis (devido à dinâmica das águas, cheias e vazante, as partículas orgânicas e os minerais são transportados pelos rios de águas brancas e vão sendo depositados nos solos que vão renovando seus nutrientes periodicamente).

Dentre as espécies presentes nos sítios estudados em ambiente de várzea e terra firme, das quais as famílias tiveram lembrança soma-se setenta espécies(spp) de uso familiar. Sendo que o maior número de diferentes espécies se encontram nos sítios de várzea, a média é de 28 spp/ sítio, enquanto que na terra firme a média é de 23 spp/ sítio. As espécies presentes nos sítio tanto de várzea quanto de terra firme são utilizadas principalmente para alimentação (42 spp; 41 spp respectivamente) da família, comercialização (21spp; 18spp) e uso medicinal (9spp; 9spp); Nas comunidades em ambiente de várzea seis espécies madeireiras são manejadas enquanto que na Boa Esperança é somente uma espécie. Acontece também de nas comunidades de várzea ter mais espécies (5 spp) do sítio utilizadas para fabricação de artesanatos que na comunidade de terra firme (2 spp). Há ainda a utilização de uma espécie para facilitar a pesca na comunidade Boa Esperança, e a utilização de uma espécie do sítio como utensílio nas comunidades de várzea.

Os agricultores mostraram ter algumas percepções ecológicas sobre as espécies presentes em seus sítios, tiveram facilidade em identificar as plantas que gostam de sombra e as que gostam de luz, identificaram algumas plantas “amigas” (companheiras), os agricultores da várzea identificaram quais as plantas que se dão bem com a alagação e as que não suportam.

As decisões de práticas de manejo nos sítios da terra firme são tomadas coletivamente em casa, enquanto que na várzea a decisão final é a do homem. A mão de obra nos sítios da várzea é essencialmente familiar, só quando necessário é que são organizados ajuris (mutirões). Com as famílias estudadas na terra firme foi constatado que a maioria dos filhos jovens vão para a cidade dar continuidade aos estudos, nesse caso a mão de obra familiar fica deficiente, então quando necessário é pago diária para pessoas da própria comunidade auxiliar nas atividades do sítio. Nessa comunidade as principais atividades realizadas nos sítios são: plantio, colheita, descascar árvores, arrancar cipó, desgalhar árvores (podar), roçar e torar. Nas comunidades em ambiente de várzea as práticas citadas foram: plantar, colher, limpar (roçar), desgalhar árvore, derrubar Embaúba, “juntar caroço (sementes) pra plantar”. Tanto em comunidades de várzea como de terra firme as mulheres tem participação de peso no manejo do sítio, e em comunidades de várzea há maior participação das crianças nas atividades do sítio do que na comunidade de terra firme, onde as crianças somente participam da colheita, as crianças da várzea plantam, colhem e juntam as sementes.

Algumas das limitações enfrentadas pelos agricultores da várzea são as alagações periódicas, que mesmo implantando os sítios em terras mais altas estes sofrem alagações, cada ano com uma intensidade diferente, tem ano que nem alaga, mas o trajeto até o sítio fica mais complicado, essa é uma limitação também, pois na várzea os sítios não são dentro da comunidade, são em ilhas mais altas próximas à comunidade, mas quando a água do rio sobe, mesmo que o sítio não alague há alguns trechos que ficam alagados, então tem de entrar na terra carregando a canoa para poder usar nas partes que estão alagadas até o sítio. Outra limitação também, segundo os próprios agricultores, é que eles estão envolvidos em outras atividades além da agricultura, alguns com manejo de madeira, artesanato e outros com ecoturismo, o que os impedem de estarem zelando mais pelo sítio.

Na comunidade de terra firme o fator limitante está na distância da comunidade aos centros urbanos, todos os agricultores manifestaram o desejo de viver só dos produtos dos sítios, mas por enquanto o que os sustentam é o dinheiro da farinha, continuam a abrir roça. Mas hoje eles vem desenvolvendo algumas atividades de beneficiamento dos produtos do sítio junto ao PAF, para dessa viabilizar a comercialização dos produtos, pois eles tem muita perda dos frutos que são levados para a cidade.

“Olha, agora nóis planta, porque nóis tem coragem. Porque se nóis fosse uma pessoa que não tivessem coragem, nem plantava mais, porque se tá estragando para que plantar mais. Mas a gente planta, porque a gente sonha, por isso é que a gente ainda está plantando”(Seu Luís - Boa Esperança).

COMENTÁRIOS: Com essa vivência ficou claro o quanto os agricultores(as) que participaram desse trabalho são grandes experimentadores; no caso da comunidade de Boa Esperança os agricultores desenvolveram suas técnicas através de observações do ecossistema natural, já os agricultores das comunidades de várzea herdaram de seus ascendentes as práticas agrícolas e as aprimoraram com o tempo. Mesmo com a presença dos extensionistas do PAF, os sítios são planejados e desenvolvidos pelos próprios agricultores que já trabalham com sistemas agroflorestais a muitos anos, de forma natural, eles mesmos desenvolveram essa cultura agroflorestal.

NOTAS: Essa pesquisa foi realizada entre fevereiro e julho de 2004, como parte do estágio no Programa de Agricultura Familiar (PAF) do Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá(IDSM). Esse trabalho foi desenvolvido com a proposta de melhor entender a dinâmica dos sítios nas Reservas de Desenvolvimento Sustentável Amanã e Mamirauá (RDSA e RDSM), e identificar as demandas dos agricultores. O trabalho contém outras informações significativas que não entraram nessa ficha.

PALAVRAS CHAVE GEOGRÁFICAS: BRASIL LOCALIZAÇÃO GEOGRÁFICA: Amanã, Mamirauá, Médio Solimões, AM. TIPO DE FICHA: EXPERIÊNCIA ORIGEM DA INFORMAÇÃO: DOCUMENTO ESCRITO

AUTOR DA EXPERIÊNCIA: PESSOA CONTATO/ENTREVISTA COM: MELGAÇO, Ana Luiza Email - bioluiza@yahoo.com.br Outros contatos: LIMA, Bianca – engenheira florestal – coordenadora do PAF

(Programa de Agricultura Familiar) - Instituto de Desenvolvimento Sustentável

Mamirauá DATA DA ENTREVISTA: 2004/1/03 ÓRGÃO-CONTATO: IDSM = Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá ENDEREÇO-CONTATO: Av. Brasil, 195- Juruá, cep. 69.470-0 Tefé, AM, Brasil. Tel/fax 0++ 97 343 2736; email: bianca@mamiraua.org.br // website w.mamiraua.org.br

PEREIRA, K. J. C. Caracterização dos Agroecossistemas de Várzea e Terra Firme da RDSA, Amazonas, Brasil. Tefé: IDSM, 2003.

ABBOT , J.; GUIJT, I.; tradução de: John Cunha Comerford- I. Novas visões sobre mudança ambiental: abordagens participativas de monitoramento. ed - Rio de Janeiro: AS-PTA; London (Inglaterra): IIED,1999. 96p.

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