Setor Florestal

Setor Florestal

(Parte 1 de 6)

Thais Linhares Juvenal René Luiz Grion Mattos*

* Respectivamente, gerente setorial e engenheiro da Gerência Setorial de Produtos Florestais do BNDES.

O Brasil apresenta grande competitividade no mercado de produtos florestais, em razão de suas características edafoclimáticas (solo e clima) e do desenvolvimento tecnológico obtido na área de silvicultura.

Em 2001, o PIB florestal brasileiro atingiu R$ 21 bilhões e as exportações somaram US$ 4 bilhões. Somente a indústria de papel e celulose gerou receitas com vendas externas de US$ 2,2 bilhões, no mesmo ano, e um saldo comercial positivo de US$ 1,4 bilhão. Outros produtos como carvão vegetal, painéis de madeira e serrados contribuem para fazer do Brasil um player importante do mercado mundial de produtos florestais, seja como produtor, consumidor ou exportador.

O crescimento da atividade florestal no País, contudo, encontra-se ameaçado pelo pequeno nível de investimentos na formação de florestas. Nesse contexto, este artigo se propõe a caracterizar o setor florestal brasileiro, abordando suas diversas atividades, e identificando a importância do reflorestamento para seu crescimento e sustentabilidade.

O Setor Florestal no Brasil e a Importância do Reflorestamento

Resumo 4

O presente artigo tem por objetivo caracterizar o setor florestal no Brasil, buscando trazer subsídios para uma análise de sua importância para a economia brasileira. Pretende-se contribuir para o entendimento da dinâmica do setor florestal brasileiro, suas potencialidades, seus pontos críticos e a evolução de seus diversos segmentos.

A questão florestal no Brasil, em geral, é abordada parcialmente, através dos diversos setores que utilizam a madeira como insumo principal – freqüentemente o de celulose e papel –, ou sob a perspectiva ambiental. Observa-se, contudo, que o setor florestal e a atividade de extração de madeira possuem uma dinâmica específica, determinada pela oferta de madeira e pela produtividade das florestas. Ainda que cada um dos produtos florestais possua um mercado próprio, as condições para o seu desenvolvimento estão associadas à base florestal, tornando-os interdependentes.

Um outro ponto a ser ressaltado é a dimensão econômica do setor florestal. Em vários países do mundo, a atividade madeireira e a cadeia produtiva a ela associada são objeto de investimentos e transações comerciais de elevado valor. As florestas, mais do que matéria-prima, são um ativo de alta liquidez. O Brasil, além de possuir a segunda maior cobertura florestal do mundo, desenvolveu tecnologia avançada para a exploração de florestas e para a transformação industrial da madeira.

Para efeito de análise e adotando o conceito utilizado por várias organizações internacionais, a atividade florestal será definida como a extração de madeira para fins industriais e de geração de energia, excluindo-se os produtos não-madeireiros. A cadeia produtiva da madeira, conforme a Figura 1, contempla a produção de madeira para energia (carvão vegetal e lenha), serrados, painéis e polpa para a produção de papel e outras finalidades. Neste trabalho, a única polpa considerada será a celulose utilizada para a fabricação de papel.

De acordo com a Food and Agriculture Organization of

United Nations (FAO), em 1999, a produção mundial do setor florestal atingiu US$ 450 bilhões, sendo o setor de celulose e papel responsável por 62% desse valor. No Brasil, a atividade florestal é de grande importância, não só pela extensa cobertura de florestas existente no País, mas também pela capacidade de geração de emprego e renda do setor. Dados da Sociedade Brasileira de Silvi-

BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 16, p. 3-30, set. 2002 cultura (SBS) indicam que, em 2001, o PIB florestal brasileiro atingiu R$ 21 bilhões e as exportações, US$ 4 bilhões, com a geração de 2 milhões de empregos diretos e indiretos (Tabela 1).

A cobertura florestal do território brasileiro, associada às excelentes condições edafoclimáticas (solo e clima) para a silvicultura, confere ao País grandes vantagens comparativas para a atividade florestal. Esses fatores, aliados ao desenvolvimento tecnológico no plantio de florestas, transformam as vantagens naturais em competitividade real.

Esse quadro favorável, contudo, é ameaçado pelo iminente déficit de oferta interna de madeira, conhecido como “apagão flores-

O Setor Florestal no Brasil e a Importância do Reflorestamento6

Aglomerados

MDF Chapas de fibra OSB

Reconstituídos

Compensados LâminasMadeira Sólida

Pastas de alto rendimento

Celulose

Carvão Lenha COMBUSTÍVEL

Figura 1 Cadeia Produtiva da Madeira

Tabela 1 Brasil: Exportação de Produtos Florestais (Em US$ Milhões)

PRODUTOS 1997 1998 1999 2000 2001 tal”, que atingirá mais drasticamente as regiões Sul e Sudeste e os segmentos de serraria e laminação, incluindo a indústria moveleira. A indústria dessas regiões já deslocou parte de seu abastecimento de matéria-prima para as regiões Centro-Oeste e Norte e para países do Mercosul. Uma outra fonte de madeira tem sido, em pequena escala, o excedente de reflorestamentos realizados pela indústria de celulose e papel.

A situação no Sul/Sudeste/Nordeste é diferenciada por ter sido a cobertura florestal original dessas regiões explorada à exaustão e por ter se reduzido o ritmo dos reflorestamentos. Na região Norte, onde ainda há uma grande extensão de florestas nativas, o problema que se coloca é a exploração sustentável dessas florestas, envolvendo proteção às espécies ameaçadas, métodos de exploração menos invasivos e aumento de produtividade no processamento industrial.

De acordo com o Ministério do Meio Ambiente (MMA), a partir de 2004, parte da indústria brasileira processadora de madeira terá obrigatoriamente que importar sua matéria-prima principal. O reflorestamento, fundamental para o crescimento e competitividade da cadeia madeireira, teve sua expansão limitada pela ausência de fontes de financiamento adequadas, tendo se restringido, após o fim do Fundo de Incentivo Setorial (Fiset), em 1987, basicamente, às indústrias de celulose e papel, siderúrgica e de painéis de madeira. O BNDES figura, hoje, como a principal alternativa de financiamento para o plantio de florestas de fins industriais.

A formulação de estratégias e instrumentos que dêem apoio à atividade florestal, enfrentando as questões relativas ao uso das florestas tropicais e do reflorestamento, tornaram-se cruciais para a manutenção das vantagens competitivas do Brasil na cadeia produtiva da madeira. Nesse contexto, considera-se fundamental a reunião de informações sobre o setor florestal, objetivando identificar a importância do reflorestamento, o crescimento e a sustentabilidade desse segmento.

A cobertura florestal no mundo soma 3,9 bilhões de hectares, dos quais 47% correspondem às florestas tropicais, 3% às boreais, 1% às temperadas e 9% às subtropicais. Considerando-se a distribuição regional, Europa e América do Sul concentram 50% das florestas mundiais, sendo a outra metade dividida entre África, Ásia, América do Norte e, com pequena participação no total, Oceania (Gráfico 1).

Dos 886 milhões de hectares que estão no continente latino-americano, 61% encontram-se no Brasil, tornando o País o segundo em cobertura florestal no mundo, superado apenas pela

BNDES Setorial, Rio de Janeiro, n. 16, p. 3-30, set. 2002

O Potencial Florestal Brasileiro

Rússia. Os principais ecossistemas existentes em território brasileiro são a Amazônia, a Caatinga, a Mata Atlântica, o Cerrado, o Pantanal e os Campos Sulinos (Gráfico 2). Desses, os que se encontram menos preservados são a Mata Atlântica, cuja cobertura atual corresponde a apenas 9% da original, e os Campos Sulinos, que possuem apenas 10% de sua cobertura original. A Amazônia, alvo freqüente de denúncias de devastação, ainda possui 85% de cobertura original.

As regiões Nordeste, Sul e Sudeste, onde estão concentrados 85% da população brasileira, foram as mais atingidas por desflorestamentos provocados pelas necessidades de urbanização e crescimento econômico. Ocupadas originalmente pela Mata Atlântica, pela Caatinga e pelos Campos Sulinos, atualmente, a vegetação nativa remanescente nessas regiões está protegida, sendo a exploração legal restrita aos reflorestamentos.

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Ásia 14%

Oceania5%América do Norte

América do Sul

Área total: 3,9 bilhões/ha

Gráfico 1 Distribuição Mundial da Cobertura Florestal

Fonte: FAO.

Milhões de ha

Amazônia Cerrado MataAtlântica Caatinga CamposSulinos

Pantanal

Gráfico 2 Ecossistemas Brasileiros

Fonte: MMA.

No Sul e Sudeste, as indústrias mais capitalizadas têm investido recursos significativos na aquisição de florestas plantadas, de novas áreas para reflorestamento e em novos plantios. No Nordeste, a Caatinga continua sob ameaça constante, pois, apesar das restrições legais, a baixa renda da população, a ausência de outras fontes de energia, inclusive de reflorestamentos, em determinadas localidades, tornam a lenha a base da matriz energética da região.

Em paralelo a esse quadro alarmante para as regiões onde se localiza a maior parte da população e da atividade econômica brasileira, cerca de 48,5% do território nacional são cobertos por florestas. Com tal extensão de cobertura florestal, além de posição estratégica nas questões ambientais globais, o Brasil possui um grande potencial produtivo de produtos madeireiros e nãomadeireiros.

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