Cadernos de Saúde do Trabalhador - Exposição a ruído

Cadernos de Saúde do Trabalhador - Exposição a ruído

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Exposição a ruído:

efeitos na saúde e como prevení-los

Ubiratan de Paula Santos

Médico formado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1978. Especialização em Clínica

Médica e Medicina do Trabalho. Exerceu atividades junto ao Programa de Saúde dos Trabalhadores da Zona

Norte, de Salto, e do ABC e na Fundacentro. Atualmente é Médico Assistente da Divisão de Doenças Respiratórias do Instituto do Coração (InCor) – Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da USP.

Marcos Paiva Santos

Técnico em química industrial e em segurança do trabalho. Trabalha na Fundacentro desde 1984. Exerceu atividades junto ao Programa de Saúde dos Trabalhadores da Zona Norte, do ABC e Santos e na Vigilância Sanitária de São Paulo. Atualmente trabalhando na Regional da Fundacentro em Salvador, Bahia, onde cursa engenharia.

INTRODUÇÃO5

Exposição a ruído

CAUSASURDEZ5
CARACTERÍSTICAS8
DE TRABALHO É ELEVADO8
FUNCIONAAAUDIÇÃO12
NAAUDIÇÃO13
AAUDIÇÃO14
SUAAUDIÇÃO15
ASPECTOS DALEGISLAÇÃO20
CONTROLAR AEXPOSIÇÃO ARUÍDO2

ALGUNS EXEMPLOS PRÁTICOS DE COMO Índice

Adiminuição da capacidade de ouvir adequadamente os sons é uma doença freqüente que compromete a comunicação em cerca de 10% das pessoas com mais de 65 anos. Entretanto, são os trabalhadores os mais acometidos devido a exposição a ruído e ou a outros agentes tóxicos para a audição, afetando, em certas atividades, 50% dos trabalhadores com menos de 50 anos de idade.

É a doença ocupacional mais comum, pelo fato do ruído ser o agente nocivo presente em grande parte dos ambientes de trabalho, nos mais diversos ramos de atividade industrial e em diversas áreas do setor de serviços.

Apesar de não se constit u i r, de maneira geral, em doença grave e letal, diminui a capacidade de milhões de trabalhadores para suas atividades cotidianas de trabalho, de estudo e lazer, comprometendo sua qualidade de vida e da família.

Pela extensão do problema, afetar milhões de trabalhadores e por ser possível e relativamente fácil a sua prevenção, a surdez ocupacional merece destaque nas ações de saúde do trabalhador.

Procuramos neste manual abordar aspectos relacionados aos riscos de desenvol- ver surdez, quando e porque ocorre, como o trabalhador pode ficar sabendo, como diagnosticar a doença, como prevenir sua ocorrência ou a progressão e aspectos legais.

Empregamos no texto algumas expressões, embora tecnicamente não recomendadas, para maior facilidade de compreensão, tais como nível de ruído elevado, significando valores de pressão sonora elevados, surdez por ruído, significando diferentes graus de hipoacusia.

Descrevemos a seguir os principais riscos ao desenvolvimento da surdez presentes nos ambientes de trabalho, com ênfase particular ao ruído, por ser o mais comum agente nocivo encontrado nos ambientes de trabalho e no meio ambiente. São abordados resumidamente algumas causas não ocupacionais.

Exposição a ruído

O maior risco para a surdez ocupacional é a exposição a ruído nos locais de trabalho. O ouvido humano apresenta uma elevada sensibilidade para ouvir sons, é capaz de perceber sons que a ele chegam com uma energia vibratória muito baixa, da ordem de 0,000000000001 Watt/m2 até sons com elevada energia como os produzidos pela turbina de aviões a jato da ordem de 10.0 Watt/m2. É o mais sensível dos órgãos do sentido do corpo humano, mais do que a visão e o olfato.

Provavelmente, esta alta sensibilidade se desenvolveu na evolução da espécie humana para dar conta das necessidades de sobrevivência. Na antigüidade só se ouvia os sons emitidos pelos animais, pela natureza e os sons produzidos pelos homens por instrumentos rudimentares de música e posteriormente nas guerras. Com o advento da industrialização, do crescimento das cidades, do tráfego e a conseqüente geração de níveis elevados de ruído, que não existiam na antigüidade e que o ouvido humano não estava preparado para defenderse, o homem passou a apresentar problemas de audição, até então pouco freqüentes e restritos apenas à pessoas idosas. Aexposição a ruído pode acometer indiví- duos fora dos ambientes de trabalho, como moradores em áreas de tráfego intenso, da vizinhança de empresas, mas na grande maioria dos casos o responsável pela alta incidência de surdez são as condições e ou o ambiente de trabalho.

Qualquer ruído provoca surdez?

Para provocar danos na audição é preciso que o trabalhador se exponha a níveis de ruído ou de pressão sonora elevada. Os diversos estudos realizados demonstram que a exposição a ruído com valores acima de 85 decibéis, emitido por exemplo por um torno mecânico, é lesivo ao ouvido humano, dependendo do tempo que o trabalhador ficar exposto.

Quanto maior for o nível do ruído, menor o tempo que a pessoa pode ficar exposta, sob pena de desenvolver surdez. Na tabela 1s ã o apresentados valores de ruído e o tempo máximo de trabalho permitido por dia, para

Exposição a ruído

TABELA 1

Níveis de pressão sonora em decibéis(NPS) e tempo de exposição máxima permitida para ruído contínuo ou intermitente

(Norma NHO 01, 1999, FUNDACENTRO)

NPStempo de exposição Locais/ equipamentos diária máxima com risco

85 dB8 hssolda elétrica 8 dB4 hsusinagem peças 91 dB2 hstupias e prensas 94 dB1 hsserra circular 97 dB30 mincalderaria 100 dB15 minjato de areia, ar comprimido 115 dB*28 segmartelete pneumático

* Limite máximo permitido pela legislação brasileira, NR-15, Portaria 3214/78, para trabalho sem proteção. Mais um absurdo da legislação ao permitir-se trabalhar exposto até 115 dB, sem proteção alguma, ou melhor permitir a manutenção de ambientes funcionando com este nível de ruído.

evitar que o trabalhador fique surdo após meses ou anos de trabalho.

Toda vez que alguém se expõe a níveis acima de 85 decibéis, corre o risco de ocorrer lesões no ouvido, que podem ser reversíveis se o trabalhador não ficar exposto durante muito tempo, e permaneça pelo menos 14 horas, em ambiente com níveis inferiores a 80 decibeis, ou seja existe uma lesão que o organismo consegue reparar. Mas, no caso do trabalhador se e x p o r, por exemplo, a ruído de 90 decibeis durante 8-9hs de trabalho por dia, a lesão provocada aumenta de maneira que mesmo ficando sem exposição durante 14 horas não há uma recuperação completa e no dia seguinte o trabalhador começa a trabalhar de novo já com o ouvido alterado.

Para detectar isto basta um trabalhador que tenha audição normal e que trabalha nestas condições, fazer um exame chamado audiometria no primeiro dia de trabalho da semana pela manhã, antes de iniciar o turno, repetir o exame ao final do turno e repetir novamente no dia seguinte antes de começar o turno e comparar os valores.

O ouvido funciona como todo o nosso corpo, se for submetido a muito esforço e ou não puder descansar o tempo necessário para se recuperar, acaba adoecendo.

Outros riscos ocupacionais

*Solventes, metais e gases:Outras exposições nos ambientes de trabalho tem sido descritas nos últimos anos como causadoras de redução da capacidade auditiva. Aexposição à solventes como tolueno, estireno, hexano, xileno, tricloroetileno, dissulfeto de carbono e a metais como mercúrio, chumbo, arsênico e cobalto e a monóxido de carbono, tem sido associadas a surdez tanto pela exposição isolada à estas substâncias como em locais onde ocorre exposição a ruído e à uma ou mais destas substâncias. Neste caso pode existir uma somatória dos efeitos agravando a perda auditiva nos trabalhadores, como em indústrias gráficas por exemplo.

Riscos não ocupacionais

*Medicamentos e doenças: Outras situações também podem provocar surdez como o uso de determinados antibióticos como os aminoglicosídeos( estreptomicina, garamicina, amicacina), algumas drogas usadas em tratamento de câncer e doenças infecciosas como a cachumba, sarampo e meningite. *S e ns ib il idade individual:As pessoas não são iguais, uns altos, outros baixos, uns mais resistentes a infecções outros menos, uns apresentam problemas de visão outros não, uns desenvolvem diabetes ou hipertensão e outros não e da mesma maneira a sensibilidade da audição é variável, com alguns indivíduos podendo ficar surdos antes dos outros. Isto vale para a maioria das doenças, porque a população é assim, variada, heterogênea. Entretanto, é preciso ter presente que a maioria das pessoas só adoecem devido a fatores ambientais criados pelo homem e apenas uma minoria por fatores genéticos isolados.

Para enfrentar os riscos que o próprio homem criou com a industrialização é que os conhecimentos tecnológicos devem ser colocados a seu serviço, principalmente para proteger sua saúde, ou seja, é preciso considerar que a as diferenças genéticas entre as pessoas, precisam ser levadas em conta em todas atividades da sociedade, permitindo a proteger a todos e não os fisicamente mais fortes. Por isto é que os limites de tolerância devem ser fixados de maneira a proteger a maioria dos trabalhadores. No caso do ruído o ideal é que os ambientes de trabalho não ultrapassem 80 decibéis.

Som ou ruído é o nome dado a qualquer vibração que ocorre em um meio elástico, geralmente o ar, que é capaz de ser percebido pelo ouvido humano.

De maneira geral reserva-se o nome de ruído aos sons desagradáveis, indesejáveis e de som à uma sensação prazerosa, desejada, como a produzida pela música. Entretanto, é preciso ter claro que, seja prazeroso ou não, se estiver elevado, som ou ruído podem provocar danos à audição.

O som ou ruído tem duas características principais

*I n t e ns id a d e :que indica a quantidade de energia transmitida por uma onda sonora emitida por uma máquina, equipamento ou grito de uma pessoa que, quanto maior, mais nociva para a audição.

Aintensidade do som, é medida em decibel, uma unidade convencional assim como o metro e o quilo. Os equipamentos existentes captam e medem a energia transmitida no ar e expressam os valores do Nível de Pressão Sonora em decibéis, que quanto maior, significa que a intensidade do som é maior. *Freqüência:indica o número de vibrações sonoras produzidas em um segundo. Os aparelhos que medem as freqüências indicam os resultado em hertz(Hz). Os sons com fre- qüência menores do que 10 Hz são chamados infra-sons e os sons com freqüência acima de 10000 Hz são chamados ultra-sons. Nosso ouvido só consegue perceber sons entre 16 e 20.000Hz, assim não ouvimos os infra-sons e a maioria dos ultra-sons.

Tipos de ruído

Existem 3 principais "tipos" de ruído nos ambientes de trabalho, veja figura 1na página 9. É preciso levar este aspecto em consideração quando se vai realizar a avaliação num determinado ambiente.

Existem diversas maneiras de sabermos ou suspeitarmos que o ruído no local de trabalho é elevado, desde as mais simples até através de medições com aparelhos. *Duas pessoas conversando normalmente, emitem sons com nível de pressão sonora em torno de 65-70 dB. De uma maneira grosseira, sempre que o ruído existente no ambiente dificultar a conversa entre duas pessoas com audição normal, é porque o nível de ruído muito provavelmente está acima de 85 dB *Uma segunda maneira, é através do relato de trabalha-

Exposição a ruído

dores que estão há mais tempo no trabalho, que informam sobre a diminuição da audição que eles ou outros trabalhadores sofreram. Evidentemente não se deve esperar esta situação para avaliar o ambiente, mas na prática isto acaba ocorrendo *Existem maneiras mais precisas de saber o nível de ruído através da medição com equipamentos específicos. Eles medem a energia sonora e apresentam os valores em decibéis, são os Medidores de Pressão Sonora(muitas vezes chamados de decibelímetro) e os A n a l isadores de Freqüência que registram o espectro de freqüências que compõem o ruído. Os ruídos com freqüências maiores, chamados de ruídos agudos são os mais lesivos para a audição e mais desconfortáveis.

Estes equipamentos, são em sua maioria portáteis e fáceis de utilizar, devendo ser disponíveis em todas as empresas onde exista risco de ruído elevado. É importante medir os níveis de pressão

sonora e o espectro de freqüência do ruído, não apenas para comprovar a existência do risco, mas principalmente para permitir a indicação de medidas de controle adequadas.

Para avaliar os níveis de ruído ambiental devem ser obedecidos alguns procedimentos tais como: 1. O primeiro passo é realizar um mapeamento sonoro. Esta avaliação deve ser feita através de um medidor de nível de pressão sonora, utilizando a escala ponderação (A), e circuíto de resposta Slow (lenta) do equipamento. Deve-se realizar medições instantâneas, por toda a área. 2.Se forem atingidos níveis de 80 dB(A) deve-se ficar alerta, porque significa que se está entrando na faixa do limite de intervenção para controle. Situações de descontrole em serviços de manutenção poderão elevar este valor. 3 .Quando os níveis forem atingindo 85 dB(A) é sinal que a exposição já pode estar acima dos limites de tolerância, devendo ser realizada uma avaliação mais detalhada do ruído. 4.Se o ruído for do tipo contínuo ou intermitente, a avaliação da exposição, sempre que possível, deve utilizar aparelhos conhecidos como dosímetros de ruído, que são medidores integradores de pressão sonora, fixados no corpo do trabalhador, que o acompanha durante sua atividade diária, acumulando os níveis diferentes de ruído a que o trabalhador se expõe, ao final do tempo de amostragem. Deve-se realizar a dosimetria por no mínimo metade da jornada de trabalho diária.

Na falta de um dosímetro, pode ser realizada a medição com medidores integradores do nível de pressão sonora instantâneo, que realiza as medições durante 1 minuto ou mais e expressam os resultados como a somatória dos valores instantâneos medidos, durante um determinado período de tempo, geralmente 1 minuto. Nas atividades que apresentem variação significativa da exposição na jornada de trabalho, como por exemplo as atividades de manutenção ou que envolvam movimentação constante do trabalhador, deve ser evitada a avaliação de dose de ruído com medidores instantâneos, pois, além de ser muito trabalhoso, é pouco precisa. Nestas situações deve ser utilizado dosimetro de ruído.

O limite de exposição ocupacional diária ao ruído contínuo ou intermitente corresponde a dose diária igual a 1 ou 100% da dose. Sempre que o dosímetro acusar dose superior a 1 ou 100% considera-se exposição excessiva. 5 .Se o ruído for impulsivo ou de impacto deve ser utilizado medidor de nível de pressão sonora operando em circuito linear com resposta para medição de impacto.

Em caso de não se dispor de medidor com resposta de impacto, pode ser usado circuito de resposta rápida (fast), com filtro de compensação C.

Quando o medidor de nível de pressão sonora, operando em circuito linear e circuito de resposta de impacto atingir 140 dB, ou quando em resposta rápida (fast) e circuíto de compensação C atingir 130, considera-se risco grave e iminente à saúde do trabalhador, que tem o direito de recusar a trabalhar nessa condição.

Quando o número de impactos ou de impulsos diário exceder a 10.0 o ruído deverá ser considerado como contínuo ou intermitente.

Na ocorrência simultânea de ruído continuo ou intermitente e ruído de impacto, a avaliação da exposição ocupacional a ruído de impacto deve ser realizada de forma independente.

Na tabela 2são apresentados os valores máximos de exposição relacionados com o número de impactos medidos durante a jornada diária de trabalho. 6.Para que a avaliação seja representativa da exposição de toda a jornada de trabalho, é importante que o período de amostragem seja adequadamente escolhido. Aa m o s t r a g e m

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