Cuidando da Mulher no Ciclo Reprodutivo: Bases Para o Cuidado de Enfermagem

Cuidando da Mulher no Ciclo Reprodutivo: Bases Para o Cuidado de Enfermagem

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Programa de Aprimoramento Profissional – Proficiência Nível Superior

Cuidando da Mulher no Ciclo Reprodutivo: Bases Para o Cuidado de Enfermagem

Núcleos Temáticos

01 - Política nacional de atenção à saúde da mulher no período gestacional: cuidados de Enfermagem e atuação profissional.

02 - Cuidado de Enfermagem à mulher durante o trabalho de parto, parto e nascimento.

03 - Cuidados de Enfermagem à mulher durante puerpério e o aleitamento materno.

2 Núcleo Temático I - Unidade de Estudo 1

Política Nacional de Atenção Integral à Saúde da mulher no período gestacional: cuidados de Enfermagem e a atuação profissional

“As políticas públicas de atenção à saúde da mulher no ciclo reprodutivo: avanços e conquistas”

Caro colega

.1 Ao iniciarmos o nosso núcleo temático que aborda o cuidado à mulher no período gestacional, precisamos inicialmente, refletir sobre as políticas públicas de saúde de nosso país criadas para beneficiá-las.

Comecemos então!

Parir e nascer, historicamente é considerado natural, íntimo e feminino. Porém, a partir da institucionalização do parto, na década de 40, esse momento da vida da mulher, passou a ser caracterizado como evento médico, e, portanto, vivido de maneira pública.

As mulheres, principalmente as moradoras das grandes metrópoles, deixaram de parir com a ajuda de outras mulheres e passaram a ser assistidas em instituições de saúde, com a presença de profissionais, que por vezes, transformam e medicalizam o cenário do nascimento.

No Rio de Janeiro, por exemplo, vivemos o resgate da fisiologia do nascimento com a inauguração da 1a Casa de Parto, no dia 08 de março de 2004, não por acaso, no dia em que comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Experiências desse tipo surgem no Brasil, no final da década de 70, e foram regulamentadas pelo Ministério da Saúde (MS) em 1999, com a implementação de um plano para o estabelecimento de Centros de Partos Normais (CPN) que proveriam o fácil acesso ao atendimento perinatal.

Esses centros tinham o objetivo de reduzir as taxas de mortalidade materna e infantil, como parte de uma política de estímulo ao parto normal e humanização da assistência prestada. No processo de organização desses CPNs, em uma escala nacional, o MS junto com o governo japonês, promoveu o treinamento de enfermeiras obstetras no atendimento ao parto humanizado.

Diante dessa iniciativa, não podemos deixar de registrar a importância do movimento pela humanização do parto e nascimento no Brasil. Ele tem congregado profissionais, gestores e serviços de saúde; associações de classe como a ‘Associação Brasileira de Obstetrizes e

Enfermeiros Obstetras – ABENFO’; organizações não governamentais como as ‘Amigas do Parto’ e redes como a ‘Rede de Humanização do Parto e do Nascimento (REHUNA)’, comprometidas com a implementação de uma atenção ao parto e nascimento com segurança e dignidade.

Nessas organizações, o conceito de parto como evento isolado é substituído por um processo, em que a visão humanística visa à promoção da saúde e da felicidade de forma aliada.

Veja este interessante site das amigas do parto. Eu recomendo!

A ABENFO tem como compromisso social a melhoria das condições da saúde da mulher e do recém-nascido, assim como, congregar esforços multiprofissionais e multissetoriais em prol da defesa dos direitos da mulher assegurados na Constituição Federal.

Nesse sentido, o MS instituiu o Programa de Humanização no Pré-Natal e Nascimento no ano 2002, com destaque à reorganização da assistência, por meio da vinculação do prénatal1 ao parto e puerpério, o que alarga o acesso das mulheres aos serviços de saúde e amplia opções e estratégias para que a mulher tenha o direito de escolha para a realização desses procedimentos.

Para saber mais acesse o Manual Técnico Pré-Natal e Puerpério - Atenção Qualificada e Humanizada, disponível em nossa biblioteca virtual.

Verifica-se cotidianamente, nos cenários em que se desenvolvem os processos de gestação, parto e puerpério, que a assistência segura, de qualidade e humanizada (na garantia dos direitos da cidadania das mulheres, de seus recém-nascidos e sua família), ainda está longe de ser uma realidade, tendo em vista o modelo biomédico2 ainda predominante no Brasil. Ele faz com que as usuárias se afastem do acompanhamento no pré-natal, o que resulta no aumento das taxas de mortalidade materna e neonatal.

No que se refere aos direitos institucionais, com relação ao parto e nascimento, podemos citar: acompanhamento pré-natal, escolha da maternidade (local em que a mulher será atendida no parto), atendimento humanizado no parto e puerpério, além da adequada assistência ao recém-nascido.

Embora a adoção do Programa de Humanização de Parto e Nascimento na maioria das maternidades públicas, ainda, nos deparamos com situações e atitudes que não condizem com o preconizado pela atual política pública do nosso país.

Outro destaque significativo é a proposta do Pacto Nacional para a Redução da

Mortalidade Materna e Neonatal, firmado em março de 2004, com todos os órgãos de saúde e universidades do Brasil. Esta proposta evidenciou a necessidade de um profissional com perfil seleto para esse atendimento, que, além de competência técnica, tenha o compromisso de oferecer à clientela um espaço para o diálogo, a fim de captar as reais necessidades, expectativas e dúvidas, para que a assistência seja planejada e implementada de acordo com a realidade das usuárias desse serviço de saúde.

O Manual do Comitê de Mortalidade Materna do MS aponta a redução da mortalidade materna e neonatal no Brasil ainda como um desafio para os serviços de saúde e a sociedade como um todo. Ressalta que as altas taxas encontradas se configuram como uma violação dos direitos humanos de mulheres e crianças e um grave problema de saúde pública, que atinge desigualmente as regiões brasileiras com maior prevalência entre mulheres e crianças das classes sociais com menor ingresso e acesso aos bens sociais.

Se você se interessa por esse assunto, acesse nossa biblioteca e conheça o que o Comitê de Mortalidade Materna fala a respeito.

Caro colega, até aqui, procuramos contextualizar um pouco das políticas públicas de atenção à mulher no ciclo reprodutivo. Agora chamamos sua atenção para os diferentes tipos de assistência, as quais indicam os avanços nesse atendimento.

Podemos prosseguir com a assistência ao pré-natal?

Quando pensamos em uma mulher grávida não podemos nos deter especificamente no trabalho de parto e nascimento. É necessário reforçarmos a importância de um pré-

4 natal de qualidade, pautado no acolhimento e com a garantia de acompanhamento que assegure à mulher a realização dos exames laboratoriais e o cumprimento das etapas da consulta: verificação da pressão arterial, acompanhamento do peso/edema, ausculta dos batimentos cardiofetais, mensuração da altura uterina.

Nesse sentido, em caso de risco, por exemplo, Doença Hipertensiva Específica da Gravidez (DHEG)3 , devemos assegurar a gestante a sua inclusão no pré-natal de alto risco, com o acompanhamento pelo profissional médico.

Cabe aqui ressaltar que as ações da enfermeira são diferenciadas do profissional médico, portanto, devemos estar atentos e prontos para atuar com segurança e competência.

No entanto, para que essa harmonia no pré-natal aconteça, é de suma importância que a gestante se sinta acolhida, quer seja no pré-natal de baixo ou alto risco, respeitada e atendida com dignidade. Muitas vezes, ela percebe no profissional de saúde uma possibilidade de esclarecimento de dúvidas, para conversar e sentir-se confiante.

Portanto, devemos somar esforços para, de fato, acolhermos as mulheres gestantes, não importa a faixa etária, a fim de diminuir o índice de mortalidade materna e neonatal em doenças preveníveis.

É preciso que os serviços de saúde façam parcerias com as escolas técnicas e universitárias – humanizando o ensino – aliando o conhecimento técnico e científico às práticas sensíveis, principalmente a de escutar o outro.

Abordaremos agora alguns aspectos da assistência ao parto normal. Podemos avançar?

Em 1996, uma reunião conjunta da região européia da Organização Mundial de Saúde e da Organização Pan-Americana de Saúde, realizada em Fortaleza, o Brasil fez uma série de recomendações com base nas práticas da OMS com o objetivo de esclarecer, à luz dos conhecimentos atuais, as boas práticas na assistência ao parto normal, com a proposta de torná-lo o mais fisiológico possível.

Após a discussão das evidências apontadas, esse grupo de trabalho classificou suas recomendações em quatro categorias:

Categoria A: práticas, demonstradamente úteis e que devem ser estimuladas; Categoria B: práticas, claramente prejudiciais ou ineficazes e que devem ser eliminadas;

Categoria C: práticas, em que não existam evidências suficientes para apoiar uma recomendação clara e que devem ser utilizadas com cautela, até que mais pesquisas esclareçam a questão; Categoria D: práticas, frequentemente utilizadas de modo inadequado, divulgadas no documento denominado - Assistência ao Parto Normal: um guia prático.

Como percebemos, a categoria A se refere a práticas que são úteis e que devem ser estimuladas. Portanto, listamos abaixo algumas das ações referentes a esta categoria:

Categoria A: respeito ao direito da mulher à privacidade; apoio empático pelos profissionais; respeito à escolha da mulher sobre seus acompanhantes; fornecimento às mulheres de todas as informações e explicações que desejarem; utilização de métodos não invasivos e não farmacológicos de alívio da dor, como massagens e técnicas de

5 relaxamento; liberdade de posição e direito a deambulação; contato cutâneo direto precoce entre mãe e filho e apoio ao início da amamentação na primeira hora.

Essas, são ações que devem ser realizadas no dia-a-dia das maternidades e casas de parto no Brasil. No entanto, é preciso uma ação direta dos enfermeiros para a diminuição do círculo vicioso “medo-tensão-dor-medo” que as parturientes apresentam no pré-parto, uma vez que, na maioria das maternidades, ainda não é permitida a presença do acompanhante na sala de parto.

Uma das queixas mais frequentes das mulheres de camadas populares acerca de suas experiências de parto é o isolamento em relação aos seus entes queridos e a desatenção ou abandono por parte da equipe profissional. Esta questão tem sido considerada como manifestação de violência institucional e uma violação dos direitos humanos.

Sabemos que, infelizmente, a maioria das mulheres brasileiras dá à luz desacompanhada, mesmo tendo uma Lei Federal que as assegure um acompanhante.

Nessa perspectiva, precisamos refletir sobre nossas ações, a fim de que não testemunhemos a formação de uma “teia” que cubra o cenário da assistência ao parto e nascimento cujo roteiro, guiado pela medicalização4, transforma a mulher e o recémnascido em objeto da ação dos profissionais.

Sendo assim, associam-se diversos fatores, fazendo com que a mulher não seja a protagonista desse cenário tais como: a falta do apoio empático, profissionais de saúde atarefados, estudantes ávidos para aprender, o não incentivo a deambulação e livre movimentação, o desrespeito aos direitos da mulher, a não utilização de evidências científicas atuais – e, tudo isso pode gerar o descumprimento das políticas de saúde voltadas para a humanização e a melhoria da qualidade de assistência ao parto.

A atenção ao recém-nascido deverá ser caracterizada pela segurança da atuação profissional e a suavidade no toque durante a execução dos cuidados imediatos e durante a sua estada no alojamento conjunto. A humanização do nascimento compreende todos os esforços para evitar condutas intempestivas e agressivas para o bebê, na garantia da assistência segura e de qualidade, além de fortalecer os vínculos afetivos logo após o nascimento.

Precisamos destacar nessa unidade de estudos que uma prática realizada sem critérios, como a medicalização do parto, altera um evento fisiológico. Portanto,precisamos refletir nossas ações, pois o objetivo da monitorização do processo fisiológico do parto é alcançar melhores resultados para as mulheres e seus bebês. No entanto, ações indiscriminadas podem gerar intervenções, por vezes inoportunas, inadequadas ou desnecessárias, acarretando altas taxas de cesarianas, transformando um evento fisiológico em ato cirúrgico.

Portanto, nessa tensão entre o que vivemos e o que desejamos, entre a realidade e as possibilidades; entre anúncios e denúncias é importante que assumamos como profissionais uma luta ética, no respeito às evidências científicas e às políticas públicas, para devolver à mulher o papel de protagonista no processo do parir, aliada a uma assistência segura, imprescindível para a humanização deste processo.

Muito temos a discutir sobre o que acabamos de estudar, não acha? Pois bem, ainda precisamos falar na assistência no puerpério, então vamos lá?

Você tem conhecimento de que o acompanhamento da mulher não termina após o nascimento, certo?

Ele continua e é importante estar ao lado das puérperas, desde o 4o período clínico do parto5, no sentido de evitar hemorragias. Em relação ao neonato, devemos buscar a erradicação total dos berçários de adaptação nas instituições públicas e privadas com a implantação dos alojamentos conjuntos.

Nesse sentido, sabemos que é nesse tipo de acomodação é reforçado o vínculo mãe-filhofamília, e que nele o aleitamento materno também é incentivado por seus benefícios fisiológicos. Portanto, é necessário que a mulher compreenda e tenha o desejo de amamentar, não de forma impositiva, mas pela compreensão da importância do leite materno, e aceitando suas vantagens também para o corpo feminino.

É preciso ter consciência, como profissionais, de que a mulher não é uma boa mãe ou menos dedicada se decidir não amamentar. Algumas mulheres, simplesmente não gostam da idéia de ’dar o peito’, e outras até tentam, entretanto, não lhes dá prazer. Podem existir várias explicações para esta decisão, e é possível que a mulher não consiga expressar seus sentimentos sobre isso. Nesses casos, o profissional não deverá impor a prática da amamentação.

Uma boa relação entre o profissional, a mulher, o recém-nascido e a família faz com que tenhamos menos desmame e consequentemente a diminuição na morbidade neonatal.

Afirmamos ainda que este espaço é sem dúvida de “criação” do enfermeiro, no sentido do desenvolvimento de suas competências e habilidades, com vistas a melhor interação e fortalecimento da nova família que surge com o nascimento do bebê.

Portanto, cabe ao enfermeiro entender a necessidade de cada mulher, já que esse é um período de descobertas, ansiedade, do ainda desconhecido, principalmente, para as mães de primeira viagem.

Ao finalizar esta UE, é importante ressaltar como avanços e conquistas a implementação efetiva dos Programas de Políticas Nacionais a que nos referimos. Dessas ações dependem que todas as mulheres tenham acesso a uma assistência segura, de qualidade e humanizada, no alcance dos direitos da sua cidadania e de seus recém-nascidos.

Temos consciência de que o modelo assistencial biomédico, predominante no Brasil, dificulta o alcance dessa nova realidade. Para isso, é necessário que continuemos ampliando nossos conhecimentos e incorporando atitudes benéficas no exercício da profissão.

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