Mário Perini - Sofrendo A Gramática

Mário Perini - Sofrendo A Gramática

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==in25=5==nd4=20==SOFRENDO A GRAMÁTICA - Mário A. Perini.

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Ensaios sobre a linguagem.

3ª edição.

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SUMÁRIO.

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Apresentação . 9.

1. Nossa sabedoria gramatical oculta 11.

(que significa "saber português"?)

2.Ver ou não ver 17.

(verdades e ficções sobre a língua).

3. Um Prometeu da lingüística brasileira 23.

(a obra lingüística de Capistrano de Abreu).

4. As duas línguas do Brasil 31.

(qual é mesmo a língua que falamos?).

5. O adjetivo e o ornitorrinco 39.

(dilemas da classificação das palavras).

6. Sofrendo a gramática 47.

(a matéria que ninguém aprende).

7. As gravatas de Mário Quintana 57.

(não basta saber uma língua para entendê-la).

8. Karl Verner, detetive 69.

(três momentos na história da lingüística) 9. Pesquisa =em .gramática 77

(e será possível?).

10. O rock português 87.

(a melhor língua para fazer ciência).

11. Quando um adjetivo é um verbo 95.

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APRESENTAÇÃO.

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O interesse pela linguagem não é privilégio dos =profissionais

(qual é a relação entre palavras e coisas?) - é =algo que todos nós sentimos em maior ou menor grau.

Desde o lingüista que se dedica ao esclarecimento dos grandes

Mistérios da linguagem humana até o leigo que se pergunta =qual

Será a forma "correta" de uma palavra, somos todos em certa

Medida pesquisadores da linguagem - se entendermos como ="pesquisador" aquele que faz perguntas sobre a linguagem, não apenas =aquele que tenta respondê-las. No decurso de uma vida dedicada ao =estudo e ao ensino da lingüística, tenho me defrontado

Constantemente com esse interesse quase universal. E aprendi a

Avaliar meus colegas de profissão não em função do =quanto sabem

Da teoria lingüística, mas em função do quanto são =dominados

Pela paixão do estudo da linguagem.

Há muitos tipos de lingüistas: alguns passam meses ou anos em =uma aldeia, aprendendo e descrevendo pela primeira vez (e, infelizmente, =às vezes pela última) uma língua indígena. Outros teorizam sobre a linguagem da maneira mais abstrata. Uns =trabalham em grandes departamentos universitários, outros (como

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Capistrano de Abreu, herói de um dos ensaios deste livro) em =isolamento quase completo. Uns arriscam a vida procurando os últimos falantes de um dialeto quase extinto nos altos do Himalaia, =outros apenas acumulam gordura e problemas de coluna em frente ao =computador.

Mas são todos impelidos pela mesma força, que pode mais do =que todos nós: o incrível fascínio que encerra o estudo da =linguagem - a mesma força que leva o homem da rua a se maravilhar com =a diferença entre as línguas, ou com o fato de que utilizamos hoje muitas das mesmas palavras =que eram usadas em Roma, no tempo de César.

Neste livro reuni alguns ensaios que venho escrevendo há anos. =Em cada um deles considero um problema lingüístico de valor atual, =ou descrevo o trabalho dos pioneiros da nossa disciplina. Tive a =preocupação de me dirigir não aos lingüistas profissionais, mas às pessoas interessadas em geral, em um =texto que, espero, será acessível à maioria dos leitores. Cada =ensaio é, pois, uma pequena janela,mostrando um fragmento do mundo da linguagem =e de seu estudo. Em cada um deles procuro dar uma idéia da =complexidade e do pitoresco da linguagem, assim como dos esforços que =vêm sendo feitos há séculos pelos lingüistas em sua difícil tarefa de descrever um fenômeno que nos =governa e ultrapassa em tão grande medida.

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M.A.P

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Belo Horizonte, 1997.

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1. NOSSA SABEDORIA GRAMATICAL OCULTA.

(que significa "saber português"?)

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"Saber gramática", ou mesmo "saber português", é =geralmente considerado privilégio de poucos. Raras pessoas se atrevem =a dizer que conhecem a língua. Tendemos a achar, em vez, que=20falamos "de qualquer jeito", sem regras definidas. Dois fatores =principais contribuem para essa convicção tão generalizada: primeiro, o fato de que falamos com uma facilidade muito =grande, de certo modo sem pensar (pelo menos, sem pensar na forma do que =vamos dizer), e estamos acostumados a associar conhecimento a uma =reflexão consciente, laboriosa e por vezes dolorosa. Segundo o ensino escolar =nos inculcou, durante longos anos, a idéia de que não conhecemos a =nossa língua; repetidos fracassos em redações, exercícios e =provas não fizeram nada para diminuir esse complexo.

Pretendo trazer aqui boas notícias. Vou sustentar que, apesar =das crenças populares, sabemos, e muito bem, a nossa língua. E =tentarei mostrar que nosso conhecimento da língua é ao mesmo tempo altamente complexo, incrivelmente exato e extremamente seguro. isso se =aplica não apenas àqueles que sempre brilharam nas provas de =português, mas também a praticamente qualquer pessoa que tenha o =português como língua materna.

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Será preciso, primeiro, distinguir dois tipos de conhecimento, =aos quais se dão as designações de "implícito" e ="explícito". Vamos partir de um exemplo: eu sou capaz de andar com =razoável eficiência, e em geral ando bastante durante o dia. Nunca ninguém me chamou =a atenção, insinuando que não ando correta mente, ou que =deveria fazer um curso para aprender a andar melhor. Minha maneira de =andar atende às finalidades práticas=20às quais aplico essa atividade, e não se distingue notavelmente da =maneira de andar da maioria dos meus conhecidos. No entanto, não sou =capaz de explicar os processos musculares e nervosos que ocorrem quando =ponho em prática essa minha habilidade tão corriqueira. A fisiologia do andar =é para mim um completo mistério.

Pergunta-se, então: tenho ou não tenho conhecimento adequado =da habilidade de andar? A resposta é que tenho esse conhecimento em =um sentido importante, ou seja, "sei andar"

- tenho conhecimento implícito adequado da habilidade de andar. =Já meu conhecimento explícito dessa habilidade é deficiente, =pois sou incapaz de explicar o que acontece com meu corpo quando estou =andando. O que nos interessa aqui é o seguinte:

sou detentor de um conhecimento implícito altamente complexo e =eficiente, e nesse sentido pode-se dizer que tenho muito pouco a =aprender no que se refere a andar, O que eu não sei é explicitar o =que faço para andar: não conseguiria dar uma aula a respeito ou colocar tudo no papel.

É importante observar que ninguém diria que eu ando "de =qualquer jeito" só porque não tenho conhecimento explícito =dessa atividade. Meu andar se submete a regras muito específicas, que =poderão eventualmente ser estudadas por um especialista e, por exemplo, =colocadas no papel na forma de uma descrição detalhada. Mas, =independentemente de haver ou não essa descrição, meu =conhecimento (implícito) da habilidade de andar é completo.

Voumostrar que qualquer falante de português possui um =conhecimento implícito altamente elaborado da língua, muito embora =não seja capaz de explicitar esse conhecimento. E veremos que esse =conhecimento não é fruto de instrução recebida na escola, mas foi adquirido de maneira tão natural e =espontânea quanto a nossa habilidade de andar. Mesmo pessoas que =nunca estudaram gramática chegam a um conhecimento implícito =perfeitamente adequado da língua. São como pessoas que não conhecem a anatomia e a fisiologia das pernas, =mas que andam, dançam, nadam e pedalam sem problemas.

Para passar logo a um exemplo, digamos que encontramos em algum =texto a seguinte seqüência de palavras:

(1) Os meus pretensos amigos de Belo Horizonte

Essa é uma expressão bem-formada em português, e qualquer =pessoa pode ver isso. Mas esse reconhecimento de que se trata de uma =expressão bem-formada requer o conhecimento de uma ordenação =estrita dos elementos que formam a expressão. Tanto é assim que sabemos que qualquer das expressões abaixo =é malformada (o asterisco se usa tradicionalmente para marcar =expressões malformadas ou agramaticais):

(2) * Os meus amigos de Belo Horizonte pretensos (3) * Meus os =pretensos amigos de Belo Horizonte

(4) * Os meus de Belo Horizonte amigos pretensos (5) * Meus amigos =pretensos de Belo Horizonte os

Observe-se a precisão do nosso julgamento de como se devem =ordenar as palavras nesses exemplos. Creio que a imensa maioria dos =falantes (escolarizados ou não) concordaria comigo que apenas (1), =das cinco expressões vistas, é aceitável em português.

Isso é algo que sabemos com exatidão, e não é tão =simples assim. Como explicaríamos a um estrangeiro por que só (1) =é bem-formada? A maioria das pessoas não conseguiria explicar isso =com eficiência, e no entanto seu conhecimento implícito não deixaria de =identificar as más-formações quando ocorressem.

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