(Parte 1 de 4)

Kátia Yuri Okawa* Maria Emilia Mello Zanquetta**

Este artigo teve o objetivo de conhecer alguns Surdos que se destacam na comunidade surda. Para a construção desse artigo, foram coletados depoimentos das próprias situações vivenciadas pelos Surdos e com base nessa coleta foram montadas suas biografias. Suas opiniões sobre as metodologias de ensino também foram levadas em conta, o processo até construírem suas identidades, o apoio familiar que é muito importante, os vários tipos de preconceitos que tiveram, as dificuldades que sofreram com a falta de interpretes, como superaram todas as dificuldades e como eles se encontram atualmente. Os resultados foram satisfatórios, pois todos apesar de sofrerem no início, acabaram colocando esse sofrimento como mais um obstáculo entre muitos que enfrentaram, tornando-se fortes para alcançar os seus objetivos. No entanto, toda essa trajetória foi de extrema importância para que eles não desistissem dos seus sonhos e hoje, relatam com muito orgulho todos os momentos que viveram e lutam pelos seus direitos como cidadãos para que os outros surdos não sofram o que eles sofreram.

Palavras-chave: Surdez. Biografia dos Surdos.

1 INTRODUÇÃO

O objetivo desse artigo é conhecermos os Surdos que se destacam em sua própria comunidade, para isso é necessário um esclarecimento sobre o que é a construção de identidade, quais são os tipos de identidade, a cultura e comunidade surda. Com esses esclarecimentos podemos compreender e entender o trabalho árduo desses Surdos para se destacarem em sua comunidade. Neste artigo, as biografias citadas foram analisadas pessoalmente pelos próprios lutam pelos seus direitos e o quanto é gratificante ver que eles conquistam cada vez mais o seu espaço em meio ao mundo ouvinte.

* Pós-graduanda do Curso de Especialização em LIBRAS/Língua Portuguesa: Educação Bilíngüe para

Surdos/2009 do Instituto Paranaense de Ensino. E-mail; katiayokawa@hotmail.com

** Professora orientadora. Professora de Métodos e Técnicas de Pesquisa – Instituto Paranaense de ensino..

Surdos, o que realmente faz grande diferença, pois todos foram minuciosamente analisados e só depois redigido. Nessas biografias, iremos perceber o quanto todos. As grandes mudanças que os Surdos tiveram durante toda a sua história foram muito significativas, como a transição do Oralismo para a comunicação total e finalmente para o bilingüismo. Essa luta não foi tão fácil e rápida como parece. Muitos séculos se passaram e uma trajetória muito árdua foi percorrida por eles.

Inicialmente com o Oralismo muitos Surdos eram tratados como deficientes e limitados, e seu objetivo maior era transformá-los em ouvintes, assim muitos aspectos cognitivos, afetivos e sociais eram deixados de lado e com isso não se desenvolviam plenamente. Além dos métodos de aprendizagens serem extremamente traumáticos, eles eram submetidos muitas vezes a situações constrangedoras e assim muitos eram “domesticados”. O Surdo era ensinado a pronunciar palavras e não a falar, a ênfase nos exercícios de articulação trazia um prejuízo ao desenvolvimento da linguagem (GÒES, 1995, p.35). Com isso, era quase que impossível um Surdo se destacar em sua comunidade e menos ainda na sociedade ouvinte.

Depois veio a Comunicação Total que tinha como objetivo melhorar os processos comunicativos entre a comunidade surda e também a comunidade ouvinte. Algumas mudanças já são visíveis, como a preocupação com os aspectos cognitivos, sociais e emocionais do Surdo. Reconhece também que existem vários recursos para facilitar a comunicação como, por exemplo, à utilização de recursos como a fala, a leitura labial, a escrita, o alfabeto manual, a língua de sinais etc. Quando foi criada teve mérito por reconhecer a língua de sinais como direito do Surdo, mas ainda não é considerada como língua e sim como mais um recurso facilitador de comunicação. Alguns Surdos, embora muito poucos começam a ter seu espaço.

O grande “BOOOM!!!” para o desenvolvimento pleno do Surdo, veio com o surgimento do bilingüismo, que reconhece o Surdo não mais como um deficiente e sim pela sua diferença e especificidade. A língua oral não é mais utilizada, e o reconhecimento da Libras como língua natural e oficial do Surdo. Com isso, o Surdo começa a criar sua própria identidade surda, sua comunidade e principalmente a sua própria cultura. Reconhecidos como indivíduos com potencialidades, são notórios os inúmeros Surdos que se destacam em toda a sociedade surda e ouvinte. É esse o meu objetivo desse artigo, mostrar que existem Surdos que conseguem se destacar em sua comunidade e que de fato são grandes exemplos pra todos. Com a luta constante do povo Surdo, algumas vitórias já ocorreram como a lei da oficialização de libras, o direito ao intérprete em instituições educacionais e em qualquer local público ou privado em que houver necessidade. Atualmente, alguns Surdos são bem sucedidos, e conseguiram seu espaço com muita dedicação e muita luta. Alguns são doutores, mestrandos, profissionais de sucesso, famosos. Vejamos alguns Surdos que se destacam e que dão grande contribuição para a comunidade surda e que principalmente estão dando exemplos aos Surdos que estão lutando pra conseguir seu espaço.

2GLOSSÁRIO

Para que possamos entender um pouco mais sobre a cultura surda é preciso compreender as palavras que eles os Surdos utilizam constantemente.

Surdo – pessoa com surdez. É escrita com letra maiúscula, pois segundo o autor Oliver Sacks, grande pesquisador na área da Surdez, utiliza sempre com letra maiúscula para designar o individuo lingüístico e cultural, ou seja, o indivíduo que tem sua própria cultura, sua singularidade na forma de pensar e agir, e não apenas pensando somente nos aspectos biológicos e clínicos, ligados a surdez. (SACKS, 1990).

Identidade surda - O conceito de identidade implica no processo de consciência de si próprio, ocorrendo por meio de relações de comunicações lingüísticas, experiências sociais e culturais. Assim, autoproduzem significados a partir de informações intelectuais, artísticas, jurídicas, éticas desenvolvendo então a cultura Surda (Sá, 2006, p. 126).

Comunidade Surda - A comunidade surda são todos os indivíduos que participam e que ajudam o surdo a se identificar e construir sua identidade. Assim, a comunidade surda, na verdade não é só de Surdos, uma vez que ouvintes como familiares, intérpretes, professores, amigos e outros participam compartilhando os mesmos interesses em comum. Esses interesses fazem com que os Surdos cresçam, se desenvolvam e se beneficiam em sua comunidade.

Cultura Surda - A cultura surda é todo jeito Surdo de ser, perceber, de sentir, vivenciar, de comunicar, de transformar o mundo de modo a torná-lo habitável (PERLIN, 2003). Assim, os Surdos vêem o mundo de maneira diferente, com experiências visuais, compartilhando experiências, valores, hábitos de modo a construir sua própria cultura e sua identidade como pertencente a um povo de uma cultura diferente aos dos ouvintes (STROBEL, 2009)

Oralismo – método de ensino para Surdos, impondo exclusivamente a língua na modalidade oral, com o objetivo da integrar o Surdo na cultura ouvinte e seu afastamento da cultura surda. É extremamente proibida a íngua de sinais. As formas de organização cultura, cognitiva, afetiva são deixados de lado, assim, sem essa base, fica inviável a instrumentalização lingüístico-cognitiva do Surdo (SÀ, 2006, p. 78)

Comunicação Total – tinha como um dos objetivos os processos comunicativos entre os Surdos e Surdos e entre Surdos e ouvintes. Acreditava que os aspectos cognitivos, emocionais e sociais não deviam ser deixados de lado em prol do aprendizado exclusivo da língua oral, defendendo a utilização de recursos espaço-visuais como facilitadores da comunicação (GODLDFELD, 1997, p.35)

Educação Bilíngüe – é uma situação lingüística que compreende a utilização de duas línguas na escolarização dos Surdos: a língua brasileira de sinais – libras e a língua portuguesa. É a possibilidade de incluir a análise da educação dos Surdos dentro de um contexto mais apropriado a situação lingüística, social, cultural, dos sujeitos Surdos (SKLIAR, 2001, p. 14).

LSB – abreviação de Língua de Sinais Brasileira, mais conhecida e oficializada no Brasil como Libras. É a língua natural dos Surdos.

Libras – Língua brasileira de sinais, é a língua oficial da comunidade surda brasileira, é uma língua gesto-visual, com estrutura gramatical própria.

INES – Instituto Nacional de Educação dos Surdos, é o centro nacional de referência na área da surdez, no Brasil, sendo órgão do Ministério da Educação. Foi a primeira Instituição no Brasil ( pt.wikipedia.org/wiki/INES).

FENEIS – Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos. É uma entidade filantrópica sem fins lucrativos com a finalidade de integração sócio-cultural, assistencial e educacional. Lutando pelos direitos da Comunidade Surda Brasileira. Suas atividades são reconhecidas como Utilidade Pública Federal, Estadual e Municipal (pt.wikipedia.org/wiki/FENEIS).

APADA – Associação de Pais e Amigos dos Deficientes Auditivos. É uma entidade sem fins lucrativos com a finalidade de promover a inclusão dos Surdos na sociedade brasileira, bem como capacitar profissionais voluntários (intérpretes) para o aperfeiçoamento da comunicação entre Surdos e ouvintes.

ARPEF – Associação de Reabilitação e Pesquisa Fonoaudiológica. Surgiu com a finalidade de reabilitar os Surdos na sociedade, por meio da comunicação oral, que depois foi ampliado para uma perspectiva bilíngüe, onde os Surdos são ensinados a falar e também aprender a língua de sinais.

CES – Centro de Estudo Surdo. Foi criado para tender a comunidade Surda de todo o Brasil.

CAS - Centro de Apoio aos Profissionais de Educação de Surdos.

ILSB – Instituto de Língua de Sinais Brasileira. Tem como princípio contribuir para a valorização divulgação da arte e da comunidade Surda, promovendo e estimulando a inclusão social.

UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina.

CONADE – Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência. É um órgão superior de deliberação colegiada criada para acompanhar e avaliar o desenvolvimento de uma política nacional para inclusão da pessoa com deficiência e das políticas setoriais de educação, saúde, trabalho, assistência social, transporte, cultura, turismo, desporto, lazer e política urbana dirigidos a esse grupo social.

UCDB - Universidade Católica Dom Bosco. Instituição de ensino superior situada em Mato Grosso do Sul.

Essas palavras deste glossário são muitos utilizados pelos Surdos citados abaixo, muito deles foram e são membros dessas associações, ajudando toda a comunidade Surda na luta pelos seus direitos, vejamos a seguir.

3 “AUTOBIOGRAFIAS” DOS SURDOS

Alguns Surdos contam sua história de vida, os obstáculos que enfrentaram e que enfrentam até hoje, a maioria deles enfrentaram a mesma dificuldade com a educação, todos aparentemente com a mesma idade, passaram pela educação oralista, pela construção da sua identidade até chegarem onde estão, sempre lutando pelos seus ideais. Os depoimentos estão em ordem alfabética para melhor entendimento. Vejamos a história de cada um deles

Antonio Campos de Abreu

“O objetivo de ter escolhido o curso foi conhecer um pouco mais da historia dos Surdos, sua luta através das associações de surdos e os movimentos dos Surdos,...”

Nasceu em 1 de maio de 1956, em Abaeté em Minas Gerais. Surdo desde que nasceu, aprendeu a se comunicar através de sinais que ele próprio inventava. Como a sua cidade não havia recursos para educação de surdos, ele só foi à escola com 1 anos, quando realmente aprendeu a Língua Brasileira de Sinais. A partir daí sua vida mudou completamente, pois passou a se comunicar com maior desenvoltura e aprender sobre o mundo que o cercava.

Sua infância foi como a de qualquer criança, sua casa sempre estava cheia de gente, e para comunicar-se ele utilizava o português sinalizando as palavras para a família, amigos e vizinhos com os sinais que ele próprio inventava. Sua família já estava habituada com as diferenças, pois havia parentes com outras diferenças, seus pais embora tradicionais faziam questão de estimular o diálogo para orientar os seus filhos. Sua mãe e seu pai sempre estiveram preocupados em educá-lo, mas sua situação financeira não era boa, seu pai não concordava com a escola especializada, queria que ele estudasse na escola normal junto com seus outros irmãos, então com 1 anos, seu primo financiou a sua viagem para estudar no INES (Instituto Nacional de Educação de Surdos, no Rio de janeiro. Em 1973 saiu do INES e foi para Belo Horizonte estudar o ensino médio na escola comum. Teve um pouco de dificuldade, pois não tinha recursos como intérprete de Libras. Então sua irmã teve um papel fundamental porque foi ela quem o ajudou e ensinou tudo. Com 27 anos terminou o ensino médio e começou a trabalhar como colaborador da Associação de Surdos em Minas Gerais e depois foi trabalhar na Usiminas. Em 2004, voltou a estudar fazendo supletivo, dessa vez em um projeto inclusivo, com a presença de intérprete. Em 2005, passou no vestibular da Universo, no curso de História onde concluiu em 2007, o objetivo de ter escolhido o curso foi conhecer um pouco mais da história dos Surdos, sua luta através das associações de Surdos e os movimentos dos Surdos, teve a oportunidade de comparar os diversos contextos da História dos Surdos e ouvintes, encontrando documentos sobre a trajetória da comunidade surda.

Sua primeira experiência foi como diretor, depois foi da Associação dos Surdos de Minas Gerais, onde atuou durante 32 anos. Depois fundou a Federação Mineira Desportiva de Surdos e a Confederação Brasileira de Desportivo dos Surdos, trabalhando como voluntário, mais tarde uniu-se com um grupo de Surdos e fundou a Federação Nacional de Educação e Integração de Surdos. Publicou vários livros entre eles “Livro da Libras - Língua Brasileira de Sinais” no ano de 1996, o livro sobre surdez da FENEIS entre outros trabalhos publicados. Sempre teve o objetivo de estimular a integração entre Surdos e ouvintes, valorizando a cultura do Surdo, o uso da Libras e a prática de esportes.

Teve a oportunidade de fazer um curso “Pessoas Surdas trabalhando juntas” em 1989 nos Estados Unidos, na Universidade Gallaudet. É membro da Federação Mundial dos Surdos. Uma das suas maiores contribuições quando estava na Feneis foi a aprovação da Lei de Libras e o movimento ao MEC para a capacitação de instrutores Surdos e professores. Em 1995, foi para Áustria no IV Congresso Mundial de Surdos da F.M.A onde defendeu seu trabalho sobre os direitos humanos dos Surdos. Em 2000, foi para Venezuela como conferencista falando sobre “A Comunidade Brasileira Atualidade Surda no Brasil”.

Para ele, a Libras é um instrumento de comunicação e de interação com as pessoas, salientando sempre que as crianças devem ter acesso a comunicação o quanto antes, para que elas tenham condições de criar uma identidade na sociedade, podendo então se desenvolver desde que tenham oportunidade, como acesso à universidade, pósgraduação, para que possam competir no mercado de trabalho.

Cláudio (Cacau) Henrique Nunes Mourão

peito ou pescoço ou cabeça oumeu coração!!!! Como se

“Não sei de onde estou ouvindo, pode ser meu braço ou minha alma estivesse escutando as musicas e eu acompanhando...”.

Nasceu em fevereiro de 1973. Apesar de ter nascido com surdez profunda, o maranhense conhecido como Cacau Mourão é um bailarino talentoso. Foi descoberto por Fabio de Mello em 1997, que desempenhou em abrir caminhos para sua especialização no Rio de Janeiro, conseguiu superar todas as descrenças em relação ao seu talento. Tem um currículo invejável como bolsas integrais de estudos de balé clássico na Academia Dalal Achcar, de dança moderna na Academia Heloisa Menezes, de aperfeiçoamento em balé na Escola Maria Olenewa, de dança de salão na casa de Dança Carlinhos de Jesus. Junto ao INES faz atividades artísticas sob orientação do grupo de teatro Lado a Lado, participou de diversas apresentações e foi primeiro colocado masculino em audição nacional para a companhia profissional de dança de Carlinhos de Jesus.

Tem leitura labial, pois sua mãe incentivava a substituir os gestos pela fala, sempre que conversa com alguém costuma olhar nos olhos enquanto vai lendo os lábios da pessoa que conversa. Domina a Libras que foi ensinada pelo professor e amigo Nelson Pimenta, o qual se comunica com outros Surdos. Seus maiores incentivadores foram o seu ex-professor de jazz Henrique Serra, Fernando Bicudo e Antonio Gaspar. Também os bailarinos da Ópera Brasil, Fabio Mello e a Companhia Carlinhos de Jesus.

Quando dança, senti a vibração de sons. E com ajuda da matemática, calcula os passos da coreografia, ele costuma fazer uma marcação, contar os passos e decorar a coreografia. Aos vinte e dois anos foi convidado a estudar bale clássico, depois de assistir algumas aulas de um bailarino cubano não parou mais, depois ganhou uma bolsa de estudo no Teatro Arthur Azevedo, sob a direção de Antonio Gaspar onde acabou se formando e fazendo parte do corpo de balé da Opera Brasil, dirigido por

Fernando Bicudo, onde participou dos espetáculos “Catirina”, “Nordestenamente”, “Orfeu e Euridinice”, que foram as maiores emoções da sua vida.

Atualmente é professor de dança de salão e jazz para jovens e adultos na Casa da Cultura do Silêncio, especializada em deficientes auditivos, com o auxilio do ator Nelson Pimenta e o coreógrafo Fabio de Mello. Seu maior desejo é a de que os Surdos lutem e enfrentem todas as barreiras para a realização de seus sonhos seja eles de dança ou não, se dedicando ao máximo, pois certamente terá um grande retorno.

Galdis Perlin

(Parte 1 de 4)

Comentários