felipe et al 2009

felipe et al 2009

(Parte 1 de 3)

Felipe de Araújo Pinto Sobrinho1 , Alexandre Gabriel Christo2

, Rejan Rodrigues Guedes-Bruni3

Alexandre Francisco Silva4

1Eng. Florestal, M.Sc., Doutorando em Geografia Física, USP, São Paulo, SP, Brasil - felipesobrinho@usp.br 2Eng. Agrônomo, Mestrando em Botânica, ENBT, Rio de Janeiro, RJ, Brasil - achristo@jbrj.gov.br

3Bióloga, Dra ., Instituto de Pesquisas Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil - rbruni@jbrj.gov.br

4Biólogo, Dr., Prof. UFV, Viçosa, MG, Brasil - in memoriam

Resumo Este estudo foi desenvolvido em um fragmento de Floresta Estacional Semidecidual aluvial na

Fazenda São Luiz, Viçosa (MG). A composição florística e a estrutura florestal foram investigadas através de um censo. No levantamento foram incluídos todos os indivíduos com diâmetro do tronco à altura do peito (DAP) iguais ou maiores que 3 cm. Foram identificados 375 indivíduos em uma área de 0,5 ha, distribuídos em 58 espécies, 46 gêneros e 25 famílias. O índice de diversidade de Shannon (H’) foi de 3,41. As espécies com maior valor de cobertura (VC) foram Cecropia glaziovii, Nectandra reticulata e Anadenanthera colubrina. O remanescente florestal é composto predominantemente por espécies secundárias iniciais, caracterizando-se como uma etapa seral pioneira, cujo valor de sua conservação se estende à proteção do manancial hídrico a ela associado, onde atua como barreira natural ao assoreamento dos cursos dágua. Palavras-chave: Florística e estrutura florestal; mata ciliar; estado de Minas Gerais.

Abstract

Floristic composition and structure of a fragment of alluvial Semi-deciduous Tropical Forest in Viçosa (MG). This study was developed in a fragment of riparian forest settled in Fazenda São Luiz, Viçosa (MG). The floristic composition and forest structure was investigated through a census. All individuals with diameter at breast height (DBH) equal to or greater than 3 cm were evaluated. A total of 375 individuals distributed in 58 species, 46 genera and 25 families were surveyed in 0,5 ha. The Shannon diversity index (H’) was 3.41. The species with the highest Cover Value (CV) were Cecropia glaziovii, Nectandra reticulata, Anadenanthera colubrina. This forest remnant is composed mostly by initial secondary species characterizing it in a pioneer seral stage and with conservation value extending to the protection of the associated water resources, acting as a natural barrier to the sedimentation of the water course. Keywords: Floristic and forest structure; riparian forest; state of Minas Gerais.

A Zona da Mata de Minas Gerais, caracterizada por seu relevo acidentado e pela predominância de minifúndios, foi uma das regiões mais atingidas pela ação predatória no estado, devido aos diversos ciclos econômicos. Atualmente, os remanescentes florestais restringem-se a pequenos fragmentos, localizados na maioria das vezes em áreas de difícil acesso e em áreas de preservação permanente protegidas por lei. No caso específico do município de Viçosa, segundo Arruda (1997), um dos principais problemas ambientais é o comprometimento do manancial formado pelo Ribeirão São Bartolomeu, pois a bacia hidrográfica do qual faz parte experimentou intenso processo de substituição da cobertura vegetal original. As cabeceiras destinaram-se à implantação de pastagem e cultivo agrícola, enquanto a parte baixa foi afetada pela crescente urbanização do município. A consequência dessa substituição é o comprometimento da qualidade e da quantidade de água do manancial, colocando em risco sua utilização.

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Nesse cenário, o desmatamento não atingiu somente as áreas propícias às atividades agrícolas e pecuaristas, mas igualmente áreas de matas ciliares que margeavam, no passado, os afluentes e o próprio Ribeirão São Bartolomeu, as quais se encontram, atualmente, praticamente erradicadas.

Alvarenga et al. (2001) destaca importantes funções ambientais desempenhadas pelos ambientes ciliares: manutenção da qualidade da água, estabilidade dos solos e das áreas marginais, regularização do regime hídrico, formação de corredores para o fluxo gênico das espécies vegetais e animais e manutenção do ecossistema aquático.

No contexto da paisagem regional, as formações ciliares estão sob condições muito específicas do ambiente, que acabam por diferenciá-las das formações do interflúvio (não ciliar). Muitas vezes essas diferenças se expressam apenas nos parâmetros quantitativos das populações, e em outras até a fisionomia da vegetação é alterada (RIBEIRO; WALTER, 1998). Diversos autores (OLIVEIRA-FILHO, 1989; OLIVEIRA-FILHO et al., 1990; FELFILI; SILVA JÚNIOR, 1992; SILVA JÚNIOR et al., 1998) destacaram a elevada riqueza florística como característica principal dessas formações. Esse fato, segundo Rodrigues; Nave (2001), se explica pela grande heterogeneidade ambiental dessas áreas, que, influenciadas pela umidade, cria uma condição ecotonal que favorece a formação de um mosaico vegetacional.

O estudo da florística e da fitossociologia dessas florestas ciliares representa o passo inicial para o seu conhecimento, pois, associado ao conhecimento sobre sua estrutura e dinâmica, pode-se construir uma base teórica que subsidie a conservação dos recursos genéticos, a conservação de áreas similares e a recuperação dessas áreas, contribuindo dessa forma para o seu manejo.

Levando em consideração a raridade dessas formações ciliares na região da Zona da Mata

Mineira e sua importância ecológica, este estudo objetivou analisar os aspectos florísticos e fitossociológicos de um remanescente de Floresta Estacional Semidecidual Aluvial no município de Viçosa, Minas Gerais, buscando contribuir para o melhor conhecimento e caracterização dessa formação florestal e ao mesmo tempo compará-la com outras formações ciliares do estado. Esse embasamento teórico será útil para subsidiar futuros trabalhos de recuperação, manejo e conservação dessas formações na região da Zona da Mata Mineira, reconhecidas, pela legislação, como prioritárias à conservação da diversidade biológica e dos recursos hídricos associados.

Área de estudo

O presente estudo foi desenvolvido em um fragmento de mata ciliar, situada na Fazenda São

Luiz, localizada na coordenada métrica UTM central de E 718707 e N 7700447, com altitude média de 700 metros, no Bairro Romão dos Reis, localizado no município de Viçosa (MG). A área estudada possui aproximadamente 0,5 ha e se distribui ao longo do curso de um riacho que nasce dentro da fazenda e que, mais à jusante, deságua no Ribeirão São Bartolomeu.

O clima da região é do tipo Cwb (subtropical moderado úmido), segundo a classificação de

Köppen, apresentando déficit hídrico no período de maio a setembro e um excedente de precipitação entre dezembro e março (GOLFARI, 1975). As médias anuais de precipitação, umidade relativa e temperatura do ar são 1340 m, 80% e 19 ºC, respectivamente (CASTRO et al., 1973).

Os solos no município de Viçosa apresentam predominância de duas classes. Nos topos de morros e encostas predomina o Latossolo Vermelho-Amarelo Álico, enquanto nos terraços a predominância é de solo Podzólico Vermelho-Amarelo Câmbico fase terraço (RESENDE, 1997; CORREIA, 1993).

A microbacia hidrográfica do Ribeirão São Bartolomeu, inserida dentro do município de Viçosa

(Figura 1), com sua área total de 5.510 ha, é responsável por parte do abastecimento de água da cidade de Viçosa (FERREIRA; DIAS, 2004), cuja população é de 64.854 habitantes residentes (IBGE, 2005).

A região da microbacia é descrita por Vilela (1998) como de topografia fortemente acidentada, com porções reduzidas de área plana e presença de vales cujos fundos correspondem ao leito maior, periodicamente inundável, seguido de terraços assimétricos onde é mais frequente a prática de agricultura e habitações.

A vegetação local é caracterizada como Floresta Estacional Semidecidual Submontana (OLIVEIRA-FILHO; FONTES, 2000), sendo o termo “aluvial” utilizado nesse estudo de acordo com

Veloso et al. (1991) e FIBGE (1992), uma vez que o relacionam com as formações ribeirinhas, sobre terraços quaternários, que apresentam características comuns com a vegetação de origem ou do interflúvio, mas que apresentam também particularidades ambientais e vegetacionais que justificam essa divisão. Para fins desse estudo, ao longo do trabalho será adotado o termo “mata ciliar” para designar a floresta estudada.

Figura 1. Localização geográfica da área de estudo inserida na bacia do Ribeirão São Bartolomeu,

Viçosa (MG). (Adaptado de Ferreira; Dias, 2004).

Figure 1. Geographical localization of the study area inserted in the Ribeirão São Bartolomeu watershed, Viçosa (MG). (Adapted of Ferreira; Dias, 2004).

Inventário da comunidade arbórea

Para o levantamento florístico-fitossociológico, foi realizado um censo no qual todos os indivíduos com diâmetro à altura do peito maior ou igual a 3 cm (DAP ≥3 cm) foram mensurados e identificados taxonomicamente.

O material botânico coletado foi herborizado segundo métodos usuais em botânica, e a identificação foi realizada através de bibliografia especializada, bem como através de comparação com exsicatas do herbário VIC (Departamento de Biologia Vegetal da UFV) e submetidas, quando necessário, aos especialistas nos grupos taxonômicos complexos. O material botânico testemunha foi depositado no Herbário VIC.

O sistema de classificação adotado foi o APG I (2003). A nomenclatura taxonômica foi conferida através das bases de dados do MOBOT (w.tropicos.org.br) e do TreeAtlan1.0 (OLIVEIRAFILHO, 2007).

A diversidade da área de estudo foi estimada através do índice de Shannon (H’) (MAGURRAN, 1988). Os parâmetros fitossociológicos abordados foram os de densidade, dominância e índice de valor de cobertura, interpretados segundo Mueller-Dombois; Ellenberg (1974) e Rosot et al. (1982). Utilizou-se o software Fitopac I (SHEPHERD, 1996) para calcular os referidos parâmetros.

A similaridade florística entre a área de estudo e outras sete florestas ciliares no estado foi verificada por meio de uma análise de agrupamento utilizando-se o índice de similaridade de Sørensen (MUELLER-DOMBOIS; ELLEMBERG, 1974). Para tal análise, foi checada a sinonímia botânica de todas as espécies listadas para as áreas.

Para analisar a estrutura vertical da área, utilizou-se o critério recomendado por Souza (1996), em que o perfil vertical é dividido nos seguintes estratos de altura: estrato inferior (EI), estrato médio (EM) e estrato superior (ES), sendo as alturas dos limites entre os três estratos assim calculados: EI = H <

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(Hm – 1σ); EM = (Hm – 1σ) ≤ H< (Hm + 1σ); ES = H ≥ (Hm + 1σ), sendo H a altura total, Hm a altura média e σ o desvio padrão das alturas.

A classificação das espécies em seus respectivos grupos ecológicos baseou-se em estudos realizados na região da Zona da Mata Mineira (LOPES et al., 2002; SILVA et al., 2003; PAULA et al., 2004; ARAÚJO et al., 2006). As espécies cuja classificação sucessional não foi encontrada em literatura ou cujos dados não coincidiam nas diferentes literaturas tiveram sua classificação baseada em observações de campo. Os grupos ecológicos pioneiras (Pi), secundárias iniciais (Si) e secundárias tardias (St) foram definidos segundo Gandolfi et al. (1995).

Aspectos florísticos e diversidade

Foram identificadas 58 espécies (Tabela 1), subordinadas a 25 famílias. As famílias com maior riqueza foram: Fabaceae, com 16 espécies (Mimosoideae e Caesalpinioideae com seis cada e Faboideae com quatro); Lauraceae e Euphorbiaceae, com 5; e Meliaceae, com 4. Essas quatro famílias reuniram 51,72% das espécies amostradas. Meira-Neto et al. (1997), estudando uma Floresta Estacional Semidecidual Aluvial em Ponte Nova, também encontraram Fabaceae (Mimosoideae e Caesalpinoideae) como a mais rica em espécies. Essas quatro famílias destacadas acima também foram as mais ricas nos estudos de Meyer et al. (2004) em uma mata de galeria em Belo Horizonte, e de Pinto et al. (2005), estudando a distribuição de espécies ao longo de nascentes em Lavras (MG). Rodrigues; Nave (2001), analisando 43 trabalhos em florestas ciliares do Brasil extra-amazônico, destacaram igualmente Fabaceae, Lauraceae, Euphorbiaceae e Meliaceae dentre as de maior riqueza específica.

Tabela 1. Relação das espécies arbustivo-arbóreas amostradas na mata ciliar do sítio São Luiz, Viçosa

(MG), com seus respectivos parâmetros fitossociológicos e categorias sucessionais: CS: classificação sucessional (Pi: pioneira, Si: secundária inicial, St: secundária tardia e Sc: sem classificação); N.I: número de indivíduos; DR: densidade relativa; DoR: dominância relativa; VC: valor de cobertura.

Table 1. Relation of shrub and tree species sampled in riparian forest of Fazenda São Luiz, Viçosa

(MG), with their respective phytossociological parameter and sucessional categories; CS: succecional categories (Pi: pioneer species, Si: early secondary species, St: late secondary species, Sc: without data); NI: number of individuals; DR: relative density; DoR: relative dominance; VC: value covering.

O primeiro grupo (0,31% de similaridade) foi formado pelos fragmentos de floresta ciliar presentes nas regiões do Alto Rio Grande (MDM, IT, CVB), junto com a floresta ciliar estudada em Belo Horizonte (GBH), todas pertencentes à Floresta Estacional Semidecidual Baixo-Montana (OLIVEIRAFILHO et al., 2000). As três áreas do Alto Rio Grande, por estarem em cotas altitudinais semelhantes (Tabela 1) e pela proximidade geográfica, justificam a assembléia. Um fator que provavelmente está influenciando a presença do remanescente estudado na região metropolitana de Belo Horizonte nesse grupo é que todas essas áreas estão situadas em regiões próximas à disjunção entre as florestas semideciduais e o cerrado (MEYER et al., 2004), recebendo dessa forma influência tanto do Domínio Atlântico quanto do Cerrado, conforme mostra mapa do IBGE (FIBGE, 1992).

De todas as espécies amostradas no presente estudo, 19% (1) são citadas por Silva (2003) como as mais abundantes em dez levantamentos na Zona da Mata de Minas Gerais: Alchornea triplinervia Müll. Arg., Allophylus racemosus SW., Anadenanthera colubrina (Vell.) Brenan, Apuleia leiocarpa J. F. Macbr., Casearia decandra Jacq., Cassia ferruginea Schrad. Ex DC., Endlicheria paniculata (Spreng.) J. F. Macbr., Machaerium nyctitans (Vell.) Benth, Nectandra lanceolata Nees, Nectandra oppositifolia Nees e Piptadenia gonoacantha (Mart.) J. F. Macbr.

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