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Planejamento com PERT/CPM: um caso prático em uma pequena empresa rural que atua na produção e processamento de tilápias

Stella Jacyszyn Bachega Luiz Marcelo Antonialli

Resumo: A presente pesquisa teve como objetivo aplicar a técnica de planejamento PERT/CPM em uma pequena empresa rural localizada no sul de Minas Gerais que atua na produção e processamento de tilápias. Quanto a metodologia, trata-se de uma pesquisa qualitativa, especificamente um estudo de caso, na qual os dados foram coletados por meio do método da pesquisa-ação. A criação de tilápias é uma atividade em crescimento no Brasil e no mundo, na tentativa de acompanhar o aumento do consumo desse peixe. Com o intuito de agregar valor ao produto, os produtores de tilápias vêm investindo no processamento do peixe e produzindo filés, nuggets, entre outros derivados. Sob essa perspectiva, torna-se interessante introduzir entre esses produtores, técnicas que auxiliam no planejamento empresarial visando aumentar a eficiência administrativa e produtiva nesse novo segmento de mercado agroindustrial. Por outro lado, deve ser ressaltado que muito ainda deve ser feito para que a tilápia processada possa ter condições de competir no mercado com a merluza e outros tipos de peixes que atualmente dominam o mercado brasileiro. Os resultados dessa pesquisa evidenciaram a possibilidade e importância da utilização do método de planejamento PERT/CPM em uma pequena empresa rural. Nesse sentido, sugere-se que seja aplicado em outros processos produtivos, em outros casos de pequenas e médias empresas rurais, na tentativa de quebrar o paradigma que tal técnica gerencial aplica-se somente às grandes organizações.

Palavras-chave: Rede PERT/CPM, tilápia, planejamento empresarial.

1. Introdução

O consumo de tilápia vem crescendo mundialmente e, para atender a demanda, sua produção tem se destacado entre os demais peixes de água doce (Aquabel, 2003).

o cultivo de tilápia

Diante desse fato, diversos frigoríficos no Brasil estão se estruturando para atender a este mercado. Paralelamente, estão surgindo vários projetos que tem como atividade principal

Nos últimos anos, a piscicultura vem experimentando incremento de melhoria na qualidade, tanto da tecnologia de produção incluindo seus insumos (alevinos, ração e equipamentos), quanto na qualificação profissional dos produtores.

Originária do continente africano, a tilápia vem recebendo melhoramento genético em diversas regiões do planeta, sendo que os melhores desempenhos regionais foram observados nas linhagens provenientes da Tailândia. Esse peixe possui hábitos onívoros, rápido crescimento, reproduz naturalmente em cativeiro e adaptou-se muito bem às condições de clima ameno do Brasil. Devido a essas características, tornou-se atualmente o “carro chefe” da piscicultura industrial brasileira, notadamente daqueles produtores que realizam engorda em sistema de tanques-rede (Ceccareli, Senhorini e Volpato, 2000).

Segundo Shirota e Sonoda (2003), a piscicultura brasileira, até o momento, tem concentrado seu mercado principal nos pesque-pagues, entretanto, a atividade encontra-se em fase de transição e busca organizar a cadeia produtiva. De acordo com o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (2003), os principais elos da cadeia produtiva da tilápia são: a) os setores relacionados ao suporte técnico e infra-estrutura operacional à produção; b) o setor produtivo; finalmente, c) os setores relacionados ao processamento, distribuição e comercialização.

A industrialização do pescado cultivado é uma possibilidade de alavancar a produção e se estabelecer definitivamente como uma excelente oportunidade de negócios. Nesse sentido, a grande barreira para pleno sucesso da atividade está na comercialização. Os produtores encontram dificuldades na colocação de seus produtos no mercado devido as diferentes exigências e preferências dos consumidores (peixe vivo, filé ou com cortes específicos, filé empanado, nuggets, fishburguers e carne moída de peixe (Jornal Nossa Terra, 2003). Essa diversidade de gostos e preferências dos consumidores vem exigindo coordenação da cadeia produtiva da tilápia que, atualmente, vem enfrentando dificuldades (falta de infra-estrutura dos frigoríficos, desorganização dos produtores e falta de planejamento para atender ao mercado com regularidade).

Diante dessa tendência de crescimento de mercado e oportunidade de negócio, tornase necessário planejar as atividades de processamento da tilápia para atender a demanda. Diante desse fato, propõe-se a utilização de técnicas auxiliares de planejamento para que não haja falta de produtos no mercado, e uma dessas técnicas é a rede PERT/CPM.

O problema da presente pesquisa baseia-se no fato que o processamento de tilápias é uma tarefa complexa que envolve diversas atividades que consomem tempo e recursos. Nesse sentido, a técnica de planejamento PERT/CPM pode ser útil para gerenciar o processo e aumentar sua eficiência.

O presente trabalho teve como objetivo aplicar a técnica de planejamento PERT/CPM em uma pequena empresa rural localizada no sul de Minas Gerais que atua na produção e processamento de tilápias.

2. Fundamentação Teórica 2.1. PERT/CPM como instrumento auxiliar do planejamento

Em 1956, a Companhia Dupont de Nemours, localizada nos EUA, com receio de não conseguir realizar os lançamentos de novos produtos nos prazos contratados, formou um grupo de trabalho com a missão de estudar novas técnicas de administração no setor de engenharia. Assim, desenvolveu-se o método CPM (Critical Path Method ou Método do Caminho Crítico), para a realização de seus objetivos (Boiteux, 1985).

O método PERT (Program Evaluation and Review Technique ou Técnica de

Avaliação e Revisão de Programa) começou a ser utilizado pela Marinha dos EUA no início de 1959, na direção do programa Polaris. Entretanto, esse método teve sua origem em 1956, quando a Oficina de Projetos Especiais da Marinha começou a estudar idéias sobre o controle desse projeto para terminá-lo em tempo previsto (Getz, 1969).

Stoner (1985), afirma que o uso do PERT e CPM difundiu-se rapidamente e influenciou significativamente no planejamento e controle de projetos e programas.

programa de construção do Projeto Polaris

Embora a aplicação original de sistemas tipo PERT tenha sido usado na avaliação de programação para programas de pesquisa e desenvolvimento, segundo Hillier e Lieberman (1988), esses sistemas também são usados para medir e controlar o progresso de numerosos outros tipos de projetos especiais. Stanger (1976), afirma que a aplicação desse método vai desde o planejamento de peças teatrais ou de um supermercado, ao desenvolvimento do

O planejamento com os métodos PERT/CPM é realizado através de uma rede, apresentando uma seqüência lógica do planejamento, com as interdependências entre as operações, a fim de alcançar um determinado objetivo. São colocadas na rede as durações das tarefas, para permitir uma análise de otimização de tempo e/ou de custo e programação em calendário (Hirschfeld, 1978).

O PERT é um método de planejamento, replanejamento e avaliação de progresso, com a finalidade de melhor controlar a execução de um programa. Seu princípio fundamental é que o planejamento e programação constituem funções distintas e, portanto, devem ser tratadas separadamente (Stanger,1976).

A rede e o emprego da estatística e dos computadores são os elementos que permitem distinguir o PERT de outras técnicas de planejamento (Evarts, 1972). Segundo o autor, o PERT foi criado com a intenção de avaliar o progresso feito na consecução de objetivos, realçar problemas reais ou potenciais que se apresentam em um projeto, oferecer aos administradores relatórios freqüentes e acurados, relativos ao andamento do projeto, estimar a possibilidade de se alcançar o alvo desejado e determinar o prazo mais curto para completarse um projeto. Segundo Stoner (1985), a principal diferença entre os métodos PERT e CPM encontra-se no tratamento das estimativas e na capacidade de incluir atividades repetitivas ou não repetitivas. Boiteux (1985) afirma que o CPM utiliza uma única estimativa de tempo para cada atividade, baseada no conhecimento prévio adquirido em trabalhos idênticos. Entretanto, no PERT são empregadas três estimativas: tempo otimista, tempo mais provável e tempo pessimista.

De acordo com Martin (1972), PERT e CPM são métodos basicamente semelhantes e podem ser usados normalmente para proporcionar a informação programada desejada.

Segundo Hirschfeld (1978: p.52), os princípios de elaboração de uma rede PERT/CPM são os seguintes:

1) Elaborar o programa, que consiste em determinar a relação das atividades de acordo com o desenvolvimento do empreendimento, caracterizando as interligações de dependência e de seqüência; as durações das atividades de acordo com pesquisas ou tabelas de dados; e as características bem delineadas com relação aos eventos inicial e final;

2) Verificar as atividades que podem ser executadas em paralelo, apresentando uma economia de tempo;

3) Lembrar sempre que as atividades consomem tempo e/ou recursos financeiros; e eventos não consomem nem tempo nem recursos financeiros;

4) Saber que o evento atingido é o que tem concluído todas as atividades que a ele chegam;

5) Lembrar que uma atividade somente pode ser executada desde que o evento inicial tenha sido atingido;

6) Ter em mente que entre dois eventos sucessivos existe somente uma atividade;

7) Observar que tudo que pode atrasar em um planejamento e pode ser previsto é uma atividade e não deve ser desprezada;

8) Investigar para certificar-se de que não existe circuito na rede, pois se existisse teríamos o fato de que uma atividade poderia dar origem a si mesma.

Acrescenta Boiteux (1985) que quando refere-se a elaboração de uma rede

PERT/CPM, é necessário ater à regra dos cinco P’s, ou seja, política, prazo, preço, probabilidade e performance. Segundo o autor, a política à seguir para a solução de determinado problema, através do sistema PERT/CPM, é estipulada quando as atividades são listadas, determinadas as precedências e a rede é elaborada. Quando há atribuição de tempos às diversas atividades e à execução dos cálculos correspondentes, estabelece-se as folgas e determina-se o caminho crítico (ou seja, aquelas atividades cuja folga é zero), assim, resolve-se o problema do prazo, sendo a solução conhecida como PERT/TEMPO. Já, o processo denominado PERT/CUSTO é determinado quando há inter-relacionamento entre os problemas relativos a prazo e preço, permitindo-se a utilização do diagrama PERT/CPM.

Para problemas probabilísticos relacionados com a rede PERT/CPM, há o

PERT/RISCO e, para os problemas relacionados com o controle de qualidade, mais especificamente com a performance, há o PERT/PERFORMANCE.

Com o PERT /TEMPO, de acordo com a Federal Eletric Corporation (1968:p.29), pode-se obter as seguintes informações sobre o projeto:

1) Quando é esperado o seu término em relação a quando se deve terminá-lo, baseando-se no planejamento atual;

2) Quais atividades que devem ser observadas com mais cautela para garantir o tempo de execução;

3) Quais atividades em que os recursos devem ser concentrados, supondo uma abreviação do tempo de entrega;

4) Atividades nas quais há alguma possibilidade de reformular o tempo de entrega e quais as possibilidades dentro de cada uma das áreas;

5) Atividades das quais pode-se transferir recursos a utilizar e melhorar áreas mais críticas;

6) Os efeitos das decisões alternativas para reduzir o tempo projetado de entrega de todo o projeto.

Contudo, torna-se importante advertir que o CPM/PERT não são a solução para todos os problemas de planejamento, programação e controle de um projeto. Qualquer aplicação incorreta acarretará em resultados adversos (Catalytic Construction Company, 1970).

2.2. Conceitos básicos do método PERT/CPM

O método PERT/CPM foi estudado por diversos autores (Hartung, 1969; Evarts, 1972;

Stanger, 1976; Hirschfeld, 1978; Federal Electric Corporation, 1982; Hillier e Lieberman, 1988), que destacam os conceitos básicos necessários para se trabalhar com o método, os quais:

• Evento: são pontos no tempo quando se toma uma decisão. Nestes pontos não é necessário trabalho, já que são considerados os objetivos. Um evento satisfatório deve ser: 1) positivo, específico, tangível e útil para o projeto; 2) claramente distinguíveis em um ponto específico no tempo; 3) facilmente compreendido por todos envolvidos com o projeto;

• Atividade: É a execução efetiva de uma tarefa, na qual se consome recursos e tempo. As atividades podem ser: 1) paralelas, ou seja, atividades que ocorrem paralelamente entre dois eventos; 2) dependente, ou seja, para que a atividade seja realizada, esta depende do cumprimento de outra (s); 3) independente, ou seja, não depende integralmente das atividades que chegam ao nó de onde ela partiu; 4) fantasmas (ou dummy), pode existir uma única atividade entre dois eventos sucessivos, e para evitar este problema, há o artifício de se usarem atividades fantasmas que não consomem tempo nem recursos; finalmente, 5) condicionantes, ou seja, atividades que podem ser executadas somente sob determinadas condições ou tempo pré-estabelecido;

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