Modelo Adaptado de Desenvolvimento de Produto no Setor de Laticínios

Modelo Adaptado de Desenvolvimento de Produto no Setor de Laticínios

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Centro Universitário do Sul de Minas - UNIS/MG

Engenharia de Produção - 9º período Trabalho de Conclusão de Curso – 2010

Modelo Adaptado para Desenvolvimento de Produtos no Setor de Laticínios

Daniel Teotonio Martins (UNIS/MG) daniel@injesul.com.br

Marcelo César de Moura (UNIS/MG) marcelomoura1979@yahoo.com.br

Thiago Mendes Martins (UNIS/MG) thiagomendesm@bol.com.br Liliane Fagundes Dolores (UNIS/MG) engenhariadeproducao@unis.edu.br

Resumo: O presente artigo apresenta um modelo simples para desenvolvimento de produtos novos utilizado no setor de laticínios, mais precisamente no processo de injeção de plásticos. Modelos consagrados no campo acadêmico e industrial foram a base para adaptar um modelo para o setor e adequar o produto à legislação específica para a comercialização de produtos derivados do leite. Como resultado apresenta-se um modelo de desenvolvimento enxuto e praticável em pequenas e médias empresas do setor de Laticínios. Tal elaboração justifica-se pela crescente participação destas empresas no mercado nacional e internacional, que necessitam cada vez mais adequar-se aos exigentes clientes do mercado globalizado e pela escassez de trabalhos acadêmicos desenvolvidos para o setor. Palavras-chave: Desenvolvimento; Laticínio; Produtos novos.

1. Introdução

Devido à crescente globalização do mercado, empresas de pequeno e médio porte podem hoje vislumbrar o mercado internacional de uma forma tangível e realista. Dentro desta demanda, encontram-se clientes cada vez mais exigentes, tanto no quesito qualidade, quanto no diferencial de preço. De acordo com as afirmações de Baxter (1998), caso tais especificações não fossem atingidas o produto deveria ser eliminado, pois, estas constituem critérios mínimos para aceitação do produto no mercado.

“Existem dois tipos de vantagem competitiva: Custo e diferenciação”. (GONÇALVES FILHO, 2003). Fazer o correto desenvolvimento de um produto, atendendo às expectativas do consumidor, com preço e prazo de entrega competitivos, podem, então, ser o limiar entre o sucesso e o fracasso de um projeto.

Partindo dessa necessidade notória, o presente trabalho apresenta o caso de um projeto de um tanque de resfriamento para leite desenvolvido para o setor de laticínios na região do Sul de Minas Gerais. O artigo apresenta este projeto desde sua concepção, até o seu lançamento.

2. Material e Métodos 2.1 Metodologia de Pesquisa

O método de pesquisa aplicado neste trabalho foi o de Pesquisa-ação, pois um dos integrantes da equipe trabalha na empresa envolvida e participou ativamente da elaboração do projeto. “A pesquisa-ação é um tipo de pesquisa social com base empírica que é concebida e realizada em estreita associação com uma ação ou com a resolução de um problema coletivo e na qual os pesquisadores e os participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos de modo cooperativo ou participativo” (THIOLLENT, 1997).

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Segundo Lindgren et al (2004), pode-se caracterizar a pesquisa-ação como um método intervencionista que permite ao pesquisador testar hipóteses sobre o fenômeno de interesse, implementando e acessando as mudanças no cenário real. Ainda segundo Lindgren et al (2004), neste tipo de pesquisa, o pesquisador assume a responsabilidade não apenas de assistir os atores envolvidos através da geração de conhecimento, mas também de aplicação deste conhecimento, sendo, então, o modelo mais adequado para o artigo apresentado aqui.

“Caracteriza-se pela interação entre os pesquisadores e o grupo social pesquisado, ocorrendo entre eles um certo envolvimento de modo cooperativo ou participativo e supõe o desenvolvimento de ações planejadas, de caráter social”. (MICHALISZYN e TOMASINI, 2005)

Conforme Gil (2002), este método tem sido objeto de controvérsia, porque exige envolvimento ativo do pesquisador e a ação por parte dos grupos envolvidos, ou seja, a pesquisa tende a ser vista como desprovida de objetividade. Mas ainda segundo o mesmo autor, esta metodologia de pesquisa vem tendo grande reconhecimento: “A despeito, porém, dessas críticas, vem sendo reconhecida como muito útil, sobretudo por pesquisadores identificados por ideologias reformistas e participativas” (GIL, 2002).

2.2 Justificativa para o artigo

De acordo com dados da Secretaria do Desenvolvimento e da Produção, apresentados de acordo com a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) do Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC) o Brasil ocuparia hoje a sexta posição na Produção Mundial de veículos automotores e a nona posição na produção de aço bruto.

Figura 01 – Produção mundial de veículos em mil unidades (Fonte: Anuário Estatístico, MDIC, 2010)

Figura 02 – Produção Mundial de aço bruto em milhões de toneladas (Fonte: Anuário Estatístico, MDIC, 2010)

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Estes dados estatísticos justificam o grande número de projetos industriais e de artigos acadêmicos desenvolvidos para estes setores. Porém, o escasso número de artigos e trabalhos desenvolvidos para o setor de Laticínios é contraditório ante à crescente produção de leite no país e à crescente demanda pelo produto inspecionado, conforme se pode constatar nos dados da tabela 01, montada com fonte fornecida pelo IBGE até o ano de 2008:

Tabela 01 – Produção de Leite no Brasil (Fonte: Anuário Estatístico 2010, IBGE)

Deste modo, o presente artigo é justificável e vem trazer a elaboração do projeto de um produto que atende aos produtores de derivados do leite e que irá armazenar corretamente o produto, garantindo suas características exigidas em uma inspeção.

2.3 Justificativa do Produto

De acordo com os estudos de Gonçalves et al (2008) o leite, por ser um alimento perecível, pode estar contaminado por diversos microrganismos indesejáveis, podendo trazer danos à saúde do consumidor, ou à qualidade do produto.

A figura 03 demonstra o comportamento das bactérias presentes no leite, quando expostas a diferentes temperaturas, sendo que o tanque de resfriamento apresentado neste artigo mantém o produto justamente na faixa de 4°C até 8°C, diminuindo significativamente a proliferação de microorganismos.

Figura 03 - Desenvolvimento bacteriano em leite cru (FONTE: DELAVAL, 2010)

Justamente devido a essa capacidade do tanque, justificou-se o desenvolvimento deste produto, que vem trazer solução para este problema característico do setor de laticínios.

2.4 Justificativa para o Projeto É importante comentar que o mercado atual já conta com um produto similar ao tanque,

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Engenharia de Produção - 9º período Trabalho de Conclusão de Curso – 2010 porém feito completamente de aço inox. Devido a esse fator, seu custo é significativamente mais alto. O grande diferencial para o produto novo desenvolvido pela empresa foi justamente substituir a parte externa do tanque por um polímero do tipo termoplástico. Com esta adequação, pretendeu-se criar um diferencial competitivo para o produto, agregando valor de custo na medida em que se barateava o tanque, sem a perda de desempenho da função de resfriamento e conservação.

Figura 04 - Representação gráfica do Ponto de Equilíbrio. (Fonte: Wernk, 2001 - adaptada)

De acordo Wernk (2001) o ponto de equilíbrio representa o nível de vendas em que a empresa opera sem lucros ou prejuízos, ou seja, o número de unidades vendidas é suficiente para que a empresa pague seus custos fixos e variáveis sem gerar lucro. Pode-se perceber na figura 04 a zona de maior lucro buscada pela empresa desenvolvedora do projeto.

3. Etapas do Desenvolvimento

Como orientação para o desenvolvimento do produto, foram comparadas as etapas de alguns modelos de desenvolvimento de projeto já existentes, conforme tabela 02 abaixo:

Advanced Product Quality Planning (AIAG, 1995)

Phased Product Development

Processo de Desenvolvimento de Produto (PDP) (Rozenfeld et al. 2006)

Planejamento: Início Avaliação Preliminar do Mercado Planejamento Estratégico dos Produtos Concepção do Produto Desenvolvimento do Conceito Projeto Conceitual

Desenvolvimento do Processo:

Aprovação do Programa Projeto Preliminar Detalhado Planejamento do Projeto

Desenvolvimento do Produto:

Protótipo Desenvolvimento do Protótipo Projeto Informacional

Homologar Processo: Lote

Piloto Projeto Detalhado

Planejamento da Produção Preparação da Produção

Lançamento: Produção Lançamento do Produto Lançamento do Produto Avaliação e ações corretivas Acompanhar Produto/Processo

Descontinuar Produto Fonte: Tabela comparativa elaborada pelos autores

Tabela 02 – Similaridades entre modelos de Desenvolvimento de Produtos

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Foram selecionados estes três modelos para a orientação do projeto, devido ao fato de se encontrarem fases semelhantes entre eles e portanto facilitar a adequação para um novo modelo, além de se tratar de modelos respeitados no setor industrial e acadêmico.

Conforme pode-se verificar na figura 05, com base nas similaridades entre estes modelos foi criada a Estrutura Analítica do Projeto (EAP), que se trata de uma “estrutura de decomposição do trabalho, que organiza e define o real escopo do projeto” (PMI, 2000)

Figura 05 – Estrutura Analítica do Projeto: Tanque de Resfriamento (Fonte: Elaborado pelos autores)

“A definição do que deve ser feito num projeto é crucial. Ela está ligada à definição de seu objetivo e seu desdobramento impacta profundamente na duração e orçamento do projeto” (MENEZES, 2009), logo, definir os marcos do projeto é de extrema relevância.

3.1 Concepção

“Novos produtos são todos aqueles produtos que contenham alguma diferença identificável e comercialmente relevante, seja para a empresa, seja para o mercado” (MOECKEL, 2000). A partir desse conceito e com o apoio importante da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), foi proposto o desafio de criar um tanque de resfriamento que fosse significativamente mais barato e que oferecesse aos pequenos e médios produtores os mesmos benefícios do produto já existente no mercado (totalmente fabricado em aço inox). Assim, com a ideia criativa de substituir as partes externas do produto similar por um material mais barato, o polímero termoplástico, a empresa idealizou um produto com um forte diferencial competitivo: o preço.

É importante comentar que a fase da concepção do projeto precisa ser muito bem elaborada, pois, é justamente nas fases iniciais que se concentram os maiores riscos para a empresa, pois, conforme Vargas (2005), as incertezas de um projeto tendem a diminuir conforme o projeto avança para as fases posteriores do seu Ciclo de Vida.

Pode-se afirmar de acordo com o capítulo 1 do PMIBoK que: “o risco de um projeto é um

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Engenharia de Produção - 9º período Trabalho de Conclusão de Curso – 2010 evento ou condição incerta que, se ocorrer, tem um efeito positivo ou negativo sobre os objetivos do projeto” (PMI, 2000). Desta forma pode-se concluir que os riscos podem ser tanto ameaças, quanto oportunidades para o projeto. Pode-se verificar na figura 06 o desenho do tanque de resfriamento, que deveria ser desenvolvido para o mercado

Figura 06 – Modelo de tanque de resfriamento (Fonte: Manual do produto, INJESUL, 2010)

3.2 Amadurecimento

Na etapa de desenvolvimento dos detalhes do Projeto, a equipe precisava garantir que o projeto fosse robusto o suficiente para atender às expectativas dos clientes, haja vista que estes estariam comparando o novo produto com um similar já tradicional no mercado.

Juran (1992) define Planejamento da Qualidade como a atividade de estabelecer metas de qualidade e desenvolver os produtos e processos necessários à realização dessas metas. Nesta fase a empresa teve grande apoio da EMBRAPA, que tinha interesse em oferecer aos pequenos e médios empresários, um equipamento que proporcionasse maior qualidade para produtos derivados de leite no mercado , sem que fosse economicamente inviável. Na Figura 07 encontramos o modelo final do tanque desenvolvido.

Figura 07 – Tanque de resfriamento completo (Fonte: Manual do produto, INJESUL,2010)

3.3 Validação

Conforme definido na NBR ISO9000:2008 “A validação do projeto e desenvolvimento deve ser executada conforme disposições planejadas, para assegurar que o produto resultante seja capaz de atender aos requisitos para o uso e aplicação especificada, ou uso intencional, onde conhecido”, ou seja, antes de se iniciar a produção, o fabricante deve ter a certeza de que seu produto irá atender às necessidades de seus clientes, com riscos de desacreditar a sua marca, caso não observe estas condições.

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Nesta etapa de validação, houve novamente envolvimento dos técnicos da EMBRAPA que avaliaram o protótipo desenvolvido e com sua aprovação, a empresa teve segurança para produzir um pequeno lote piloto que foi testado e aprovado por alguns produtores de leite das cidades circunvizinhas.

3.4 Produção

Segundo o modelo de desenvolvimento proposto por Rozenfeld et al (2006) foi idealizada uma etapa denominada de Produção, onde deveriam ser verificados todos os requisitos técnicos, financeiros e econômicos, antes da etapa de lançamento do Projeto, sendo:

- Requisitos Técnicos: A empresa possui maquinário específico, mão-de-obra qualificada e sistema logístico (suprimento e distribuição) capacitado para a demanda prevista? - Requisitos Financeiros: A empresa possui capital disponível e suficiente para lançar e produzir o novo produto? - Requisitos Econômicos: Foi realizado um estudo sobre o retorno do investimento e a que prazo isto se fará?

Respondidas estas questões e realizadas as devidas adaptações o projeto mostrou-se viável e a alta direção da empresa aprovou sua próxima etapa.

3.5 Lançamento

Segundo a matriz de Crescimento/Participação do Boston Consulting Group (Matriz BCG) desenvolvida por Henderson na década de 70 e citada por Kotler (2000), existem dois tipos de produtos em que se devem investir: Produtos “Estrela” e Produtos “Interrogação”. Ainda segundo Kotler (2000) os “Produtos Estrelas” são os com grande participação no mercado e que os concorrentes não tem tecnologia suficiente para copiá-los, já os produtos “Interrogação” são os que ainda não tem grande destaque nas vendas, mas que possuem um grande potencial e precisam de grande atenção para que possam se tornar “Estrelas”.

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