linfogranuloma venéreo

linfogranuloma venéreo

  1. INTRODUÇÃO

Doenças sexualmente transmissíveis são relatadas desde o século XVI, de forma que assolaram a Europa neste período. Várias foram a formas contraceptivas criadas a fim de evitar não somente a gravidez, mas indiretamente, como uma forma de isolar as doenças no seu indivíduo portador. A De Morbo Gallico foi uma camisinha feita de bainha de tecido leve, criada pelo anatomista Fallopio em 1564, o próprio Shakespeare denominou-a de “luva de Vênus”.

Contudo, todas as tentativas foram frustradas e, com a chegada do século XX as DST passaram a serem tratadas com medicamentos e o ramo da bacteriologia passou a voltar-se com mais ênfase para microorganismos que seriam os responsáveis por tais males.

No que se refere ao estudo das DST, atenciosamente transmitida pelo contato sexual, existe o Linfogranuloma, que durante aproximadamente um mês, em que o indivíduo recebeu a bactéria causadora, a Chlamydia trachomatis, começa a expressar os primeiros sintomas. Também é conhecida como doença de Nicolas-Favre (um renomado médico francês, descobridor da doença), linfogranuloma inguinal, e os nomes populares mula e bubão.

Como na maioria das demais DTS, os sintomas no homem são diferentes na mulher, no entanto, na maioria das vezes a procura por um médico decorre, em ambos os sexos, pelo aparecimento de uma elevação ou uma ferida na área genital ou anal. O tratamento para a doença passou a ser direcionado a partir do isolamento do seu agente etiológico, uma bactéria gram- negativa, que parasita de maneira intracelular e onde o diagnóstico é feito em bases clínicas, não sendo rotineira a comprovação laboratorial.

As sequelas são consequências desta doença, que vão desde um comprometimento ganglionar, a uma elefantíase anal, que na mulher também é denominada de estiômeno.

  1. CONCEITO

Doença sexualmente transmissível que causa inflamação e drenagem dos linfonodos inguinais e da parte inferior do abdome, bem como a destruição e a formação de cicatrizes no tecido adjacente. Esta lesão é passageira (3 a 5 dias) e frequentemente não é identificada pelos pacientes, especialmente do sexo feminino.

Após a cura desta lesão primária, em geral depois de duas a seis semanas, surge o bubão inguinal que é uma inchação dolorosa dos gânglios de uma das virilhas (70% das vezes é de um lado só). Se este bubão não for tratado adequadamente ele evolui para o rompimento espontâneo e formação de fístulas que drenam secreção purulenta.

O linfogranuloma venéreo (LGV) é causado por três subtipos de Chlamydia trachomatis, que se distinguem dos tipos que causam doenças nos olhos e cegueira, assim como da clamídia genital mais comum.

O linfogranuloma venéreo é mais comum nas Américas Central e do Sul do que na América do Norte. O LGV tem um período de incubação que varia de alguns dias a um mês.

  1. AGENTE ETIOLÓGICO

O agente causador do linfogranuloma venéreo (LVG) é uma bactéria gram-negativa e imóvel, a Chlamydia trachomatis. Essa bactéria está entre os patógenos mais freqüentes para o ser humano, e estão associadas a diversas infecções, tais como tracoma, uretrite, pneumonia, linfogranuloma venéreo e psitacose. Pertence à ordem Chlamydiales e ao gênero Chlamydia, único constituinte da família Chlamydiaceae.

Há algum tempo acreditava-se que a Chlamydia se tratava de um vírus, mas essa suposição foi desconsiderada quando foram reconhecidas características de bactérias, tais como a presença de DNA e RNA, organização celular definida, reprodução por divisão binária, síntese protéica própria e sensibilidade a antibióticos.

O isolamento destabactéria permitiu que a mesma fosse dividida em dois sorogrupos:

  1. Sorogrupo A: os agentes pertencentes a esse sorogrupo são iodo- positivos e incluem causadores de tracoma, conjuntivite de inclusão, LVG e várias uretrites não gonocócicas. Este sorogrupo ainda pode ser dividido em vários sorotipos (A, B, C, D, E, F, G, H, I, L1, L2, L3);

  1. Sorogrupo B: os agentes pertencentes a esse sorogrupo são iodo-negativos e incluem agentes causadores da psitacose e ornitose, e várias infecções em animais.

Essas bactérias são parasitas intracelulares obrigatórios e dependem do metabolismo da célula hospedeira para obtenção de energia já que não possuem enzimas necessárias para a síntese se ATP e NADH.

A Chlamydia possui um ciclo reprodutivo bifásico no qual é possível identificar duas formas distintas: os corpos elementares (CE) e corpos reticulares (CR).

Os corpos elementares são a forma infecciosa, e estes se instalam no endossoma da célula hospedeira. Aproximadamente 8 horas após a entrada na célula começa a replicação por divisão binária.

Os corpos reticulares são a forma metabólica e não infecciosa. Entre24 e72 horas após a entrada na célula, os CR retornam a forma de CE, formando um vacúolo que contem de 10 a 1000 CE. Esse vacúolo substitui praticamente todo o citoplasma celular, levando à lise, o que faz com que sejam lançados corpos elementares para o meio extracelular, propiciando o início de um novo ciclo de infecção.

  1. SINTOMAS DA DOENÇA

Os sintomas começam aproximadamente de 3 a 12 dias após a infecção. No pênis ou na vagina aparece uma pequena bolha indolor cheia de líquido. Em geral, esta se converte numa úlcera que sara rapidamente e costuma passar despercebida. Mais tarde, os gânglios linfáticos da virilha de um ou de ambos os lados podem aumentar de volume e tornar-se sensíveis ao tato. A pele que cobre a zona infectada adquire uma temperatura mais elevada e torna-se avermelhada. Se não se tratar, podem aparecer orifícios (fístulas) na pele que os cobre. Estes orifícios descarregam pus ou líquido sanguinolento e geralmente curam-se, mas podem deixar uma cicatriz e recorrer. Outros sintomas incluem febre, mal-estar, dor de cabeça e das articulações, falta de apetite e vômitos, dor de costas e uma infecção do reto que produz secreções purulentas manchadas de sangue.

Depois de episódios prolongados ou repetidos, os vasos linfáticos podem obstruir-se e isso faz com que o tecido se inflame. A infecção retal causa ocasionalmente cicatrizações que redundam num estreitamento do reto.

  1. TRANSMISSÃO

Esta infecção é essencialmente de transmissão sexual. O contágio pode ocorrer desde o momento da contaminação até a cura completa.

É importante, também, referir que em alguns casos o linfogranuloma venéreo pode ser assintomático, podendo, no entanto, ocorrer transmissão.

Os grupos considerados de risco na transmissão desta doença são os indivíduos sexualmente promíscuos (com vários parceiros sexuais) e os homens homossexuais.

  1. DIAGNÓSTICO LABORATORIAL

O diagnóstico diferencial do LVG inclui outras doenças sexualmente transmissíveis, tais como sífilis, cancróide, proctite gonocócica, disenteria amebiana, doença de Crohn, retocolite ulcerativa e carcinoma anal.

Atualmente o diagnóstico depende da sorologia ou da identificação da Chlamydia trachomatis em amostras clínicas apropriadas. Quando possível o exame histopatológico de amostras de tecidos retiradas por biópsia pode colaborar com o diagnóstico.

O teste sorológico da fixação do complemento ( FC) é gênero-específico e, assim ,não distingue entre as espécies de clamídia ,tais como Chlamydiatrachomatis ,Chlamydia psittaci e ao patógeno respiratório comum Chlamydiapneumuniae.

O teste da microimunofluorescência ( MIF) pode distinguir infecções com diferentes espécies de clamídias ,porém não tem sido utilizado na rotina comercial ,posto que requer microscópio de fluorescência e técnico habilidoso e treinado na técnica .Pode detectar anticorpos da classe IgM e IgM, espécie-específico, MIF com título de IgG >1:128 sugere fortemente o diagnóstico de LVG .Dessa forma ,a maioria dos exames sorológicos não distingue a infecção causada por diferente sorotipos da Chlamydia trachomatis.

A Chlamydia trachomatis pode ser isolada em cultura tecidual usando-se a cepa de células Hela-229 ou células de McConkey, técnica, porém, não amplamente disponível. De forma alternativa a Chlamydia trachomatis pode ser identificada pela microscopia de fluorescência direta, utilizando–se um conjugado de anticorpos monoclonais no material colhido do bubão ou de ulceração. Esse método também requer microscópio de fluorescência e técnico treinado na execução e interpretação do exame.

Chlamydia trachomatispor imunofluorescência direta

  1. PREVENÇÃO

A abstinência é a única maneira infalível de prevenir as doenças sexualmente transmissíveis. Práticas sexuais seguras podem reduzir o risco. Uma relação sexual monogâmica com uma pessoa que se sabe não ser portadora de DST é aconselhável. O uso de preservativos, tanto do tipo masculino como do tipo feminino, reduz consideravelmente a probabilidade de se contrair uma doença sexualmente transmissível, desde que usados corretamente.

O preservativo deve estar bem posicionado do começo ao fim da atividade sexual e deve ser usado toda vez que a pessoa se envolver em atividades sexuais com um parceiro não monogâmico ou suspeito. Os preservativos são eficazes e baratos, considerando-se as conseqüências de se contrair uma doença sexualmente transmissível.

  1. TRATAMENTO

O linfogranuloma venéreo pode ser curado com terapia antibiótica adequada. Os medicamentos mais comumente prescritos incluem:

Tetraciclina, 500 mg (miligramas) via oral, quatro vezes ao dia durante 3 semanas;

Doxiciclina, 100 mg via oral, duas vezes ao dia durante 3 semanas ;

Sulfisoxazol, 500 mg via oral, quatro vezes ao dia durante 3 semanas;

Eritromicina, 500 mg via oral, quatro vezes ao dia durante 3 semanas .

Obs.: A tetraciclina oral normalmente não é receitada para crianças até que sua dentição permanente esteja completa, pois esse medicamento pode descolorir de forma irreversível os dentes que ainda estão em formação.

Expectativas (prognóstico):

A recuperação e um período curto da doença é o que se espera com o tratamento.

  1. CONCLUSÃO

A nossa cultura que dissemina o impudor, que exarceba uma liberdade sexual que em décadas passadas só existia após o matrimônio, é uma das significativas explicações para o alastramento das DST e a linfogranuloma, juntamente com as demais doenças, apresenta dados epidemiológicos bastante escassos em nosso país. Seus portadores continuam sendo discriminados em virtude do preconceito, primeiramente, e em segundo, por sua indiscrição, alterando em casos mais avançados a anatomia genital do indivíduo.

Como se sabe, qualquer infecção gera uma alteração na fisiologia normal do organismo e, precisa ser combatida o mais rápido possível. Para a Linfogranuloma, o tratamento com antibióticos apresenta-se eficaz para a cura de sintomas, contudo, não revertem as sequelas que surgem como a elefantíase genital e esteanose retal.

REFERÊNCIAS

Coordenação Nacional de DST/AIDS do Brasil. Manual de controle das doenças sexualmente transmissíveis. Disponível em: <http://www.acemfc.org.br/modelo1/down/manual_controle_dst.pdf > Acessado em 10 de Maio de 2010.

GOMES, Soares Cálide. DST - Linfogranuloma venéreo ou moléstia de Nicolas-Favre. In: Saúde na net. Disponível em: <http://www.saudenainternet.com.br/portal_saude/dst---linfogranuloma-v. php > Acessado em 10 de Maio de 2010.

Hospital Albert Einstein. A História da Camisinha. In: GIV Grupo de Incentivo a Vida. Disponível em: < http://www.giv.org.br/dstaids/camisinha.htm > Acessado em 10 de Maio de 2010.

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