Admissão em centro cirurgico

Admissão em centro cirurgico

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ADMISSÃO  EM CENTRO CIRÚRGICO COMO ESPAÇO DE CUIDADO

 

Enêde Andrade da Cruz1

Zulene Maria de Vasconcelos Varela2

 

CRUZ, E. A.; VARELA, Z. M. V.  Admissão em Centro Cirúrgico como espaço de cuidado. Revista Eletrônica de Enfermagem (on-line), v. 4, n. 1, p. 51 – 58, 2002. Disponível em http://www.fen.ufg.br.

INTRODUÇÃO

METODOLOGIA

ADMISSÃO NO CENTRO CIRÚRGICO COMO ESPAÇO DO CUIDADO

CONSIDERAÇÕES FINAIS

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

 

ADMISSÃO  EM CENTRO CIRÚRGICO COMO ESPAÇO DE CUIDADO

RESUMO: Objetivamos nesteestudo com abordagem qualitativa,descrever o cuidado da enfermeira na admissão de pessoas em Centro Cirúrgico, a partir da observação assistemática deste profissional, realizando este procedimento. Na instituição escolhida, o espaço para admissão é comum a todos os elementos da equipe, ao fluxo de pessoas e clientes, que permanecem próximos um dos outros, gerando interpretações errôneas na comunicação, dificultando a efetivação desse cuidado. A preocupação da enfermeira, em desenvolver a admissão, como prerrogativa própria e humanização foi evidente. A continuidade desse procedimento, é dificultada pela equipe cirúrgica, para liberação do paciente, o que está marginalizando as alternativas de cuidado e gerando insatisfação nas profissionais.

 UNITERMOS: Cuidado, Enfermagem, Admissão em Centro Cirúrgico.

 

NURSING ASSISTANCE FOR PATIENTS IN SURGICAL CENTER ADMISSION

ABSTRACT: We objectified in this study with qualitative handling, to analyze the nurse's care in the people's admission in Surgical Center, starting from this professional's assistematic observation, accomplishing this procedure. In the chosen institution, the space for admission is common to all the elements of the team, to the people's flow and customers, that stay close one of the other ones, generating erroneous interpretations in the communication, hindering of that the efective care. The nurse's concern, in developing the admission, as own prerogative and humanização was evident. The continuity of that procedure, it is hindered by the surgical team, for the patient's liberation, what is leaving out the care alternatives and generating dissatisfaction in the professionals. 

 KEY WORDS: Care, Nursing, Admission in Surgical Center.

  

INTRODUÇÃO 

 

Ao longo de sua experiência profissional, como docente em campo de prática em Centro Cirúrgico (CC), a autora tem convivido com situações complexas, no momento da entrada do paciente nesse setor.

Sabe-se que a chegada de uma pessoa que necessita de cirurgia, nesse setor, é sempre precedida da sensação de medo: medo do desconhecido, do ambiente estranho, medo da cirurgia e do seu resultado, medo da anestesia, das alterações da imagem corporal, enfim, medo da morte, além de outros tidos como grandes inimigos do homem. Assim, a necessidade de  receber informações, atenção e apoio, como um cuidado especial, é imprescindível, até porque sua percepção está, muitas vezes,  aguçada tentando captar algo que possa estar interferindo ou que venha a interferir na sua dita operação. São situações como essas, que podem aumentar os seus temores e, conseqüentemente, sua ansiedade e insegurança, frente à perspectiva imediata da cirurgia.

Para quem se encontra nessa situação individual, particular e mesmo única, as circunstâncias também apresentam características específicas, uma vez que, ao se aproximar o momento da cirurgia, é comum à pessoa sentir-se atemorizada ou mesmo ameaçada, não só pelo ambiente estranho, equipamentos, paramentação da equipe, pessoas estranhas etc. como, também, pela forma como é recebido considerando que cada pessoa reage de maneira diferente aos seus temores e preocupações já destacados por D’ASSUMPÇÃO (1994, p.16) no apelo de um paciente aos médicos:

 

”ao me levarem para a sala de cirurgia, por favor não me deixem sozinho e sem qualquer informação sobre o que irá acontecer, ... para mim, tudo é novidade, tudo é assustador. Porém, se alguém que eu já conheça, estiver junto de mim, estarei seguro e me será mais fácil enfrentar tudo aquilo que virá em seguida”.

 

Justamente, nesse momento, é que o paciente pode exteriorizar o estresse emocional, pelo que precisa ser ouvido, cumprimentado, valorizado e chamado pelo nome, não por apelidos como freqüentemente acontece, tipo “tio”, “vô” ou “vó”. CASTELLANOS et al (1985), destacaram situações dessa natureza, como negativas e indicadoras de desrespeito ao paciente, com probabilidade, inclusive, de aumentar seus temores e insegurança.

O sentir-se ameaçado e inseguro, pode ser conseqüência de outros fatores, ao exemplo de ocorrências no contexto do ambiente de CC, pois tudo aquilo que o paciente  vê e escuta nesse local, tende a gerar um sentimento até certo ponto ameaçador, fazendo aumentar a sua ansiedade e insegurança, além de caracterizar um cuidado desumano e com baixo nível de qualidade.

Dentre as ocorrências que podem surgir no contexto do ambiente em CC, encontram-se aquelas referentes à própria dinâmica do trabalho de equipe, além de outras relacionadas ao fluxo de pessoas, de  vez que o ambiente é único e compartilhado por todos. Tem-se, como exemplos, o transporte de grandes frascos com conteúdo sanguinolento, aspirado de cirurgias anteriores; o transporte de peças cirúrgicas mal acondicionadas e descobertas; o abandono do paciente para cumprimentos efusivos e demorados com companheiros (as) de trabalho; o surgimento inoportuno, naquele local e naquele momento, de funcionário, dirigindo-se à enfermeira próxima ao paciente, para informar que: “o aspirador desta sala não está funcionando”, ou  “está faltando oxigênio nesta sala”, ou “o ar condicionado desta sala não está funcionando” ou, ainda, “o anestesista desta sala não chegou”. Essas situações podem ser comuns e naturais para a equipe, mas não o são para o paciente. Para esse, elas se colocam como  ameaçadoras e geradoras de conflitos e ansiedades, trazendo-lhe desconforto, desconfiança, insegurança, e estresse, ao ponto de muitas, determinar, a suspensão da cirurgia.

Nesse ambiente, a vida diária da enfermeira, como administradora e coordenadora da assistência de enfermagem, está inserida em um mundo intersubjetivo, compartilhado com seu semelhante, sendo portanto,  um mundo comum que pode ser vivenciado e interpretado por todos. Agindo sobre os outros e sendo por esses também afetada por eles a enfermeira, como coordenadora da assistência, pode estabelecer um relacionamento mútuo de comunicação terapêutica  envolvendo  a equipe e a pessoa necessitada de cirurgia,  para um cuidado de qualidade, ou, caso contrário, para o desencadear de desajustes.

O cuidado da  enfermeira, na admissão do paciente em CC, deve ter como um dos objetivos o de reduzir os agentes estressores, que podem ocorrer nesse momento, proporcionando o conforto, a ajuda e o apoio exigidos para o bem-estar da pessoa necessitada de cirurgia. As ocorrências oriundas do ambiente e/ou do contexto social,  podem interferir no sucesso da cirurgia.

O Contexto ou espaço social, segundo CHINN et al (1995), é o local dentro do qual a experiência e os valores surgem e interagem, colocando-se na dependência da importância cultural e da influência da representação mental dessa experiência, que envolve julgamento. Este julgamento, segundo as autoras, abrange a exploração de significados adquiridos em função do contexto e da imagem mentalmente construída, como resultado prático do significado conceitual do contexto estudado.

É nesse instante que a pessoa precisa da atenção da enfermeira, tida, no caso, como a  profissional capacitada para prestar o cuidado e o conforto de que necessita, a fim de reduzir o nível de ansiedade e dissipar seus temores, readquirindo por conta disso, a confiança abalada.

A enfermeira deve, pois, receber a pessoa e mostrar sua presença, mostrando que sua existência ali  significa, segundo SANTIN (1998 p.129), “estabelecer laços pessoais de intersubjetividade, onde há espaço para a confiança e esperança”. É preciso, assim, que o paciente sinta a enfermeira como uma brisa suavizante, capaz de lhe trazer  novas esperanças  (ZEN & BRUTSCHER, 1985).

Estar presente requer, por conseguinte, um comportamento de mostrar-se por inteiro, ou seja estar diretamente ligada à demonstração de afeto e de dar atenção ao outro. Tal se expressa na forma de ouvir o outro, um ouvir atento e reflexivo, para uma maior compreensão do que se passa com o outro. É uma forma essencial de cuidado (SILVA, 1999).

É nesse momento que o cuidado dos profissionais, junto à pessoa necessitada de cirurgia, torna-se indispensável ao bem-estar da mesma, pela interdependência que se cria entre ambiente interno e externo interferindo nas percepções dessa pessoa, tornando o ambiente ameaçador ou não (Watson, 1979 apud GEORGE, 2000; TALENTO, 1993). A interdependência de ambientes, aqui referenciada,  pode ser possível através da experiência de integração de ações humanitárias, entre enfermeira e paciente; é como se, por alguns instantes, pudesse haver troca de papeis, lançando mão de técnicas e estratégias reconhecidas no trabalho em Enfermagem, como essenciais, ao compartilhamento e compreensão mútuos. É sentir-se em um estado de ser mais, sendo pessoa, no sentido ontológico,  na busca do ser mais junto com o outro.

Essa busca só pode alcançar resultados através do diálogo, que se constitui no “ser do homem”, com uma forma de relação em que a pergunta e resposta, funcionam como meios de comunicação. Comunicação de um  ser que fala, uma tradição que precisa ser reconhecida e compreendida, uma  historia de vida expressada através da linguagem, com suas idéias e conjecturas  (pré-julgamentos e julgamentos) e que têm importância na interpretação de possíveis resultados da ação terapêutica da enfermagem. Essas constituem possibilidades de abertura de novas alternativas, para a interpretação e compreensão  do que se passa consigo naquele momento de sua história de vida (GADAMER, 1990).

A interpretação só pode ser efetivada a partir do que se ouve e do que se sabe do outro, através da linguagem; na verdade, o que se sabe muda no curso da história de vida e de novas experiências que vão sendo acumuladas, mudando, também, as perspectivas segundo BARRETO et al (1999), que são necessárias à compreensão, para correção ou eliminação de necessidades de cuidado.

A pessoa, nesse momento, está precisando de cuidado – admissão – atenção, preocupação e valorização da sua condição – necessitada de cirurgia – a fim de que a enfermeira, possa compreendê-la e controlar toda e qualquer situação no ambiente, capaz de interferir na aceitação do procedimento, readquirindo, assim, a confiança no sucesso da operação. Para tanto, nesse instante, a enfermeira precisa assumir a posição de mãe carinhosa, compreensiva e protetora; de psicóloga, na identificação, compreensão e conforto em presença de alterações comportamentais; de assistente social, na identificação e compreensão dos problemas relativos à sua cultura e necessidades pessoais, ajudando a resolve-los. Assume até mesmo, a posição de uma religiosa, para dar apoio espiritual à pessoa, auxiliando-a, conforme sua religião, a utilizar a meditação e a crença em si e no aspecto espiritual, para o enfrentamento de situações difíceis (Watson, 1979 apudGEORGE, 2000). Não raro se coloca como advogada, para defendê-la e apoiá-la em todas intercorrências decorrentes da dinâmica do trabalho, do ambiente e do próprio procedimento cirúrgico e de mensageira, para manter o elo de ligação com a família da pessoa que está sendo operada, até sua saída desse setor.    

A   manutenção  de  um  ambiente  seguro  é  uma  das  primeiras necessidades, recomendadas, inclusive por TUDOR  (1994), quando fala da expansão do papel do enfermeiro de centro cirúrgico.

Também,  Roy apud GALBREATH (2000), lembra que os estímulos provenientes do ambiente, ou seja, as condições, circunstanciais e situações encontradas ou que circundam o mesmo, podem afetar o comportamento de pessoas ou grupos, dificultando sua adaptação. Essa dificuldade é decorrente dos estímulos negativos do ambiente, produzindo respostas também negativas de adaptação e de enfrentamento, pela interferência no subsistema  regulador do organismo, de natureza química, neural ou endócrina.  Portando, a percepção do paciente, distorcida da realidade, pode constituir um acontecimento estressante e ameaçador, conduzindo, muitas vezes, à suspensão da cirurgia.

É só de posse dessa compreensão, que a enfermeira pode promover uma assistência humanizada, assim entendida como o ato de receber e de assistir o paciente com humanidade, levando-o a perceber, ou mesmo, a sentir, que suas necessidades imediatas, no momento em que adentra ao CC, estão sendo satisfeitas  (FERREIRA, 1971).

Considerando que o momento da admissão em CC é um dos poucos momentos em que a enfermeira desse setor pode atuar diretamente com o paciente, deve essa profissional centralizar sua atenção no cuidado - admissão  e no ambiente, a fim de proporcionar  melhores condições de atendimento ao mesmo. O cuidado, é um ato profissional do enfermeiro e se expressa na interação com a pessoa necessitada de assistência e de  apoio para sua sobrevivência e seu bem-estar e/ou de ajuda, compreensão e capacitação para enfrentar situações de risco. Nesse sentido, busca-se, com este trabalho, descrever o cuidado da enfermeira,  frente ao fenômeno da admissão do paciente em CC, vez que, de um lado, está a profissional e seu universo  de trabalho, e, do outro, a pessoa necessitando de cirurgia, com uma visão de mundo diferente, até porque se encontra fora de sua cultura, (Leininger apud GEORGE, 2000).

Espera-se, com este trabalho, oferecer uma contribuição à construção do conhecimento, especialmente, à reflexão da enfermeira sobre os aspectos essenciais de cuidado, a serem considerados na admissão do paciente em CC.     Topo

 

METODOLOGIA

 

Trata-se de um relato de experiência a partir da observação do cuidado da enfermeira, durante a admissão da pessoa necessitada de cirurgia, em CC.

Contamos com o apoio de uma colega que, trabalhando na Instituição, facilitou sobremodo  nosso acesso à mesma, desde a Diretoria até o setor de observação, no caso o CC.  Nessa unidade, fomos muito bem recebidas e apresentadas, de logo, aos sujeitos da pesquisa. Para continuidade do trabalho e respeitando os aspectos éticos determinados pela Resolução 196/96 BRASIL (1996), sobre pesquisas com seres humanos, a proposta do estudo foi apresentada às enfermeiras,  com os devidos esclarecimentos, a partir do que conseguimos de todas, a  assinatura do  termo de consentimento, para efetivação da observação, considerada  sem risco e/ou constrangimento. Essa forma de proceder, foi escolhida para captação da realidade do mundo empírico, pela maior probabilidade de ser fiel aos eventos naturais e, ainda, de favorecer a obtenção de resultados mais coerentes com a realidade.

Foram observadas três enfermeiras de uma Instituição Pública, de grande porte, da cidade de Fortaleza - Ceará, as quais estavam procedendo à admissão de pacientes em CC, que iriam ser submetidos a  cirurgia.

A observação caracterizada como não estruturada ou assistemática, foi realizada pela autora, no dia 03.05.2000, no período das 10h00 às 14h00, no CC da Instituição supra- citada. O espaço de tempo, das 13h00  às 14h00, caracterizou-se como o período real de observação do cuidado, vez que foi o momento da admissão dos pacientes nesse setor, para realização das cirurgias, na parte da tarde. No total foram seis admissões.

Tal observação foi justificada pela necessidade de ser obtido o conhecimento espontâneo do cuidado da enfermeira, na admissão do paciente, nesse momento, de forma casual. O êxito dessa observação está diretamente ligado à experiência, perspicácia e discernimento do pesquisador, para registrar, fielmente, os dados obtidos, não se caracterizando portanto, de totalmente espontânea, dada a necessidade de interação mínima com o sistema e com o controle que se impõem em situações semelhantes (LAKATOS & MARCONI, 1995).

Assim, percebendo a presença (ou ausência) de uma ocorrência ou de um fato importante, é despertada a curiosidade do pesquisador, para questões de seu interesse, na busca de respostas para as mesmas (FUREGATO, 1999).

Para tanto, é, pois necessário, caracterizar o ambiente em que se deu a admissão do paciente.

O espaço onde a admissão é desenvolvida, é comum a todos os elementos da equipe, tanto  interna quanto externa, vez que  existe uma porta ampla que dá acesso ao  corredor interno do CC, e que permanece aberta, a maior parte do tempo.

Essa situação, aliada ao fato do corredor, ser relativamente estreito, possibilita freqüentes interrupções, no cuidado prestado pela enfermeira, decorrentes da solicitação de orientações administrativas e assistenciais, e de informações por parte da clientela interna e externa ao CC:  sobre os pacientes que estão chegando, aguardando, ou que se encontram em cirurgia, ou, no Centro de Recuperação Pós-Anestésica (CRPA). Referida porta, colocada diretamente em frente ao CRPA, propicia uma maior rotatividade dos profissionais para o desenvolvimento de suas atividades, dando margem, também,  a conversas indesejáveis e ao transporte de material, com aspecto desagradável para o paciente que está à espera da cirurgia. Alem dessas situações, outras semelhantes ocorrem no percurso que vai até à Sala de Operação (SO).

Esse é um espaço limitado para a demanda de fluxo de pessoas, onde se incluem os pacientes que permanecem muito próximos, um dos outros, dificultando o trabalho e provocando interpretações erradas no processo de comunicação.

No contexto social estudado, foi observado o direcionamento de vários profissionais, afluindo para o local de recebimento do paciente no CC, os quais apenas demonstraram curiosidade de verificar quem estava chegando, vez que, após alguns segundos, retornavam aos seus locais de trabalho, sem nada terem feito. No entanto, a preocupação em receber o paciente foi manifestada pelas enfermeiras, como uma prerrogativa própria, evidenciando situação de ajuda.

Essa preocupação foi demonstrada na forma como a enfermeira que, com humanidade, se aproximava da pessoa, apresentando-se e pondo-se à sua disposição para ajudá-la. No entanto, a continuidade do cuidado de  admissão, foi voltada mais para os seus aspectos técnicos/instrumentais, fato que se comprova quando, através dos  questionamentos apressados e direcionados a esses cuidados, foram, em sua maioria, voltados às condições essenciais, ao desenvolvimento da cirurgia, tipo: “O Sr. Ou Sra. está em jejum? – tem alergia? diabetes? é hipertenso (a)? é tabagista? etilista?” Tal acontecia ao mesmo tempo em que folheava o prontuário, na busca de algo que pudesse interferir ou impedir o procedimento cirúrgico.

Também foi observada a passividade dos pacientes que durante a maior parte do tempo permaneceram com o olhar fixo na enfermeira que o admitia, sujeitando-se às regras e normas do serviço, por ela determinadas, limitando-se apenas, a  responder alguns questionamentos que lhe foram direcionados, em forma apressada. Não raro  esses pacientes limitaram a responder a última questão, que, por sinal, também não era ouvida pela enfermeira, preocupada em dar continuidade a outras perguntas, evidenciando pressa no cumprimento de sua tarefa.

Surpreendente também foi observar o descontentamento das enfermeiras com o seu próprio desempenho, quando eram interrompidas para esclarecer situações administrativas ou para atender solicitações apressadas da equipe médica, pelo paciente, quando nem mesmo haviam conseguido concluir a função técnica de admiti-lo, pelo que respondiam simplesmente: “calma já estou levando”, demonstrando, na fisionomia sua insatisfação. Apesar disso, limitavam-se a concluir a tarefa, de forma apressada em atendimento à solicitação.

Não foram observadas atividades ou ações de enfermagem voltadas às intercorrências no  ambiente, principalmente quanto ao tumulto gerado pelas conversas paralelas, caso ocorrente em um determinado momento, quando foi dito, por uma enfermeira, junto a um paciente: “está faltando o Raio X”, e outro paciente, que aguardava sua admissão, ter questionado  “é comigo?”. A  enfermeira, de tão envolvida em sua atividade, sequer o ouviu e continuou dirigindo-se ao paciente que estava admitindo. O paciente que havia questionado ficou inquieto e, nesse momento, foi necessária a intervenção da autora (observadora), no sentido de tranqüilizá-lo.

No local de admissão do paciente, também foi percebido o respeito por parte da equipe de enfermagem do CC, em relação à atividade desenvolvida pela enfermeira.

Os comentários da observação do cuidado da enfermeira,  na admissão do paciente  em CC, foram fundamentados na resposta ao questionamento sugerido por CHINN et al (1995), para exploração de contexto e valores, o qual foi adaptado à realidade do estudo, na questão: Que resposta comportamental é esperada da enfermeira na admissão do paciente em CC, no contexto social descrito?

Também serviu de apoio a teoria trans-pessoal de Watson apud TALENTO (2000), amparada em trabalhos de vários humanistas, filósofos, desenvolvimentistas, psicólogos, e que encara o cuidado como o atributo mais valioso que a enfermagem tem para oferecer à humanidade. É dessa forma que propõe dez fatores básicos do cuidado, dos quais, os três primeiros formam os fundamentos filosóficos para a ciência do cuidado, constituindo as bases para essa análise:

1o  A formação de um sistema humanístico-altruísta; 

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