PCN - EDUCAÇAO FISICA 5 a 8 serie

PCN - EDUCAÇAO FISICA 5 a 8 serie

(Parte 1 de 7)

Secretaria de Educaçªo Fundamental Iara Glória Areias Prado

Departamento de Política da Educaçªo Fundamental Virgínia ZØlia de Azevedo Rebeis Farha

Coordenaçªo-Geral de Estudos e Pesquisas da Educaçªo Fundamental Maria InŒs Laranjeira

PAR´METROS CURRICULARES NACIONAIS (5“ A 8“ SÉRIES)

B823pBrasil. Secretaria de Educaçªo Fundamental.

Parâmetros curriculares nacionais : Educaçªo Física /

Secretaria de Educaçªo Fundamental. Brasília : MEC / SEF, 1998. 114 p.

1. Parâmetros curriculares nacionais. 2. Educaçªo Física : Ensino de quinta a oitava sØries. I. Título.

CDU: 371.214

Brasília 1998

O papel fundamental da educaçªo no desenvolvimento das pessoas e das sociedades amplia-se ainda mais no despertar do novo milŒnio e aponta para a necessidade de se construir uma escola voltada para a formaçªo de cidadªos. Vivemos numa era marcada pela competiçªo e pela excelŒncia, em que progressos científicos e avanços tecnológicos definem exigŒncias novas para os jovens que ingressarªo no mundo do trabalho. Tal demanda impıe uma revisªo dos currículos, que orientam o trabalho cotidianamente realizado pelos professores e especialistas em educaçªo do nosso país.

Assim, Ø com imensa satisfaçªo que entregamos aos professores das sØries finais do ensino fundamental os Parâmetros Curriculares Nacionais, com a intençªo de ampliar e aprofundar um debate educacional que envolva escolas, pais, governos e sociedade e dŒ origem a uma transformaçªo positiva no sistema educativo brasileiro.

Os Parâmetros Curriculares Nacionais foram elaborados procurando, de um lado, respeitar diversidades regionais, culturais, políticas existentes no país e, de outro, considerar a necessidade de construir referŒncias nacionais comuns ao processo educativo em todas as regiıes brasileiras. Com isso, pretende-se criar condiçıes, nas escolas, que permitam aos nossos jovens ter acesso ao conjunto de conhecimentos socialmente elaborados e reconhecidos como necessÆrios ao exercício da cidadania.

Os documentos apresentados sªo o resultado de um longo trabalho que contou com a participaçªo de muitos educadores brasileiros e tŒm a marca de suas experiŒncias e de seus estudos, permitindo assim que fossem produzidos no contexto das discussıes pedagógicas atuais. Inicialmente foram elaborados documentos, em versıes preliminares, para serem analisados e debatidos por professores que atuam em diferentes graus de ensino, por especialistas da educaçªo e de outras Æreas, alØm de instituiçıes governamentais e nªogovernamentais. As críticas e sugestıes apresentadas contribuíram para a elaboraçªo da atual versªo, que deverÆ ser revista periodicamente, com base no acompanhamento e na avaliaçªo de sua implementaçªo.

Esperamos que os Parâmetros sirvam de apoio às discussıes e ao desenvolvimento do projeto educativo de sua escola, à reflexªo sobre a prÆtica pedagógica, ao planejamento de suas aulas, à anÆlise e seleçªo de materiais didÆticos e de recursos tecnológicos e, em especial, que possam contribuir para sua formaçªo e atualizaçªo profissional.

Paulo Renato Souza Ministro da Educaçªo e do Desporto

Os Parâmetros Curriculares Nacionais indicam como objetivos do ensino fundamental que os alunos sejam capazes de:

compreender a cidadania como participaçªo social e política, assim como exercício de direitos e deveres políticos, civis e sociais, adotando, no dia-a-dia, atitudes de solidariedade, cooperaçªo e repœdio às injustiças, respeitando o outro e exigindo para si o mesmo respeito;

posicionar-se de maneira crítica, responsÆvel e construtiva nas diferentes situaçıes sociais, utilizando o diÆlogo como forma de mediar conflitos e de tomar decisıes coletivas;

conhecer características fundamentais do Brasil nas dimensıes sociais, materiais e culturais como meio para construir progressivamente a noçªo de identidade nacional e pessoal e o sentimento de pertinŒncia ao país;

conhecer e valorizar a pluralidade do patrimônio sociocultural brasileiro, bem como aspectos socioculturais de outros povos e naçıes, posicionando-se contra qualquer discriminaçªo baseada em diferenças culturais, de classe social, de crenças, de sexo, de etnia ou outras características individuais e sociais;

perceber-se integrante, dependente e agente transformador do ambiente, identificando seus elementos e as interaçıes entre eles, contribuindo ativamente para a melhoria do meio ambiente;

desenvolver o conhecimento ajustado de si mesmo e o sentimento de confiança em suas capacidades afetiva, física, cognitiva, Øtica, estØtica, de inter-relaçªo pessoal e de inserçªo social, para agir com perseverança na busca de conhecimento e no exercício da cidadania;

conhecer o próprio corpo e dele cuidar, valorizando e adotando hÆbitos saudÆveis como um dos aspectos bÆsicos da qualidade de vida e agindo com responsabilidade em relaçªo à sua saœde e à saœde coletiva;

utilizar as diferentes linguagens verbal, musical, matemÆtica, grÆfica, plÆstica e corporal como meio para produzir, expressar e comunicar suas idØias, interpretar e usufruir das produçıes culturais, em contextos pœblicos e privados, atendendo a diferentes intençıes e situaçıes de comunicaçªo;

saber utilizar diferentes fontes de informaçªo e recursos tecnológicos para adquirir e construir conhecimentos;

questionar a realidade formulando-se problemas e tratando de resolvŒ-los, utilizando para isso o pensamento lógico, a criatividade, a intuiçªo, a capacidade de anÆlise crítica, selecionando procedimentos e verificando sua adequaçªo.

Síntese dos princípios que norteiam a Educaçªo Física no ensino fundamental19
Princípio da inclusªo19
Princípio da diversidade19
Categorias de conteœdos19
Caracterizaçªo da Ærea21
InfluŒncias, tendŒncias e quadro atual21
Algumas tendŒncias pedagógicas da Educaçªo Física escolar2
Abordagem psicomotora2 3
Abordagem construtivista23
Abordagem desenvolvimentista24
Abordagens críticas25
Quadro atual26
Educaçªo Física e a cultura corporal de movimento27
Educaçªo Física e a cidadania30
Mídia e cultura corporal de movimento31
Educaçªo Física e os temas transversais34
Ética34
Saœde36
Valores e conceitos36
Procedimentos38
Pluralidade cultural38
Meio ambiente39
Orientaçªo sexual40
Trabalho e consumo42
Aprender e ensinar Educaçªo Física no ensino fundamental45
O que ensinar?45
Para quem ensinar?45
Como ensinar?46
Prazer, tØcnica e interesses47
A resoluçªo de problemas49
O exercício de soluçıes por prazer funcional e de manutençªo51
A inserçªo nos grupos de referŒncia social51
Automatismo e atençªo52
Estilo pessoal e relacionamento54
Portadores de necessidades especiais56
Curso noturno57
Avaliaçªo no ensino fundamental58
Instrumentos de avaliaçªo60
Objetivos gerais para o ensino fundamental63
Educaçªo Física para terceiro e quarto ciclos67
CritØrios de seleçªo dos conteœdos67
Relevância social67
Características dos alunos67
Especificidades do conhecimento da Ærea67
Blocos de conteœdos67
Conhecimentos sobre o corpo68

2a PARTE SUM`RIO

Atividades rítmicas e expressivas71
Organizaçªo dos conteœdos73

Esportes, jogos, lutas e ginÆsticas ..................................................................................................... 70

atividades rítmicas e expressivas74
Conceitos e procedimentos: conhecimentos sobre o corpo75
Conceitos e procedimentos: esportes, jogos, lutas e ginÆsticas76
Conceitos e procedimentos: atividades rítmicas e expressivas7
Quadro ilustrativo79
Ensinar e aprender no terceiro e no quarto ciclos81
Diversidade83
Autonomia84
Aprendizagem específica86
Objetivos para terceiro e quarto ciclos89
Conteœdos para terceiro e quarto ciclos91

Atitudes: conhecimento sobre o corpo; esportes, jogos, lutas e ginÆsticas;

e expressivas91
Conceitos e procedimentos: conhecimentos sobre o corpo93
Conceitos e procedimentos: esportes, jogos, lutas e ginÆsticas95
Lutas e ginÆsticas96
Conceitos e procedimentos: atividades rítmicas e expressivas98
Avaliaçªo no terceiro e no quarto ciclos101
CritØrios de avaliaçªo101
Orientaçıes didÆticas103
Mídia, apreciaçªo e crítica103
Olhar sobre os conteœdos105

Atitudes: conhecimento sobre o corpo; esportes, jogos, lutas e ginÆsticas; atividades rítmicas Bibliografia .................................................................................................................................................. 109

Para boa parte das pessoas que freqüentaram a escola, a lembrança das aulas de

Educaçªo Física Ø marcante: para alguns, uma experiŒncia prazerosa, de sucesso, de muitas vitórias; para outros, uma memória amarga, de sensaçıes de incompetŒncia, de falta de jeito, de medo de errar...

Os Parâmetros Curriculares Nacionais de Educaçªo Física trazem uma proposta que procura democratizar, humanizar e diversificar a prÆtica pedagógica da Ærea, buscando ampliar, de uma visªo apenas biológica, para um trabalho que incorpore as dimensıes afetivas, cognitivas e socioculturais dos alunos. Incorpora, de forma organizada, as principais questıes que o professor deve considerar no desenvolvimento de seu trabalho, subsidiando as discussıes, os planejamentos e as avaliaçıes da prÆtica de Educaçªo Física.

Na abertura, o documento apresenta a síntese dos princípios que norteiam a

Educaçªo Física no ensino fundamental. A seguir, localiza as principais tendŒncias pedagógicas e desenvolve a concepçªo da Ærea, situando-a como produçªo cultural. A primeira parte trata das contribuiçıes para a formaçªo da cidadania, sugerindo possíveis interfaces com os temas transversais, discutindo a natureza e a especificidade do processo de ensino e aprendizagem e expondo os objetivos gerais para o ensino fundamental.

A segunda parte aborda o trabalho com as quatro sØries finais do ensino fundamental, indicando objetivos, conteœdos e critØrios de avaliaçªo. Os conteœdos sªo apresentados segundo sua categoria conceitual, procedimental e atitudinal, organizados em blocos interrelacionados e sªo explicitados como possíveis enfoques da açªo do professor. Essa parte contempla, tambØm, aspectos didÆticos gerais e específicos da prÆtica pedagógica em Educaçªo Física que podem auxiliar o professor nas questıes do cotidiano das salas de aula e serve como ponto de partida para as discussıes.

O trabalho de Educaçªo Física nas sØries finais do ensino fundamental Ø muito importante na medida em que possibilita aos alunos uma ampliaçªo da visªo sobre a cultura corporal de movimento, e, assim, viabiliza a autonomia para o desenvolvimento de uma prÆtica pessoal e a capacidade para interferir na comunidade, seja na manutençªo ou na construçªo de espaços de participaçªo em atividades culturais, como jogos, esportes, lutas, ginÆsticas e danças, com finalidades de lazer, expressªo de sentimentos, afetos e emoçıes. Ressignificar esses elementos da cultura e construí-los coletivamente Ø uma proposta de participaçªo constante e responsÆvel na sociedade.

Secretaria de Educaçªo Fundamental

EDUCAO FSICAEDUCA˙ˆO F˝SICA 1“ PARTE1“ PARTE

Os Parâmetros Curriculares Nacionais para a Ærea de Educaçªo Física escolar trazem como contribuiçªo para a reflexªo e discussªo da prÆtica pedagógica, trŒs aspectos fundamentais, expostos a seguir.

Princípio da inclusªo

A sistematizaçªo de objetivos, conteœdos, processos de ensino e aprendizagem e avaliaçªo tem como meta a inclusªo do aluno na cultura corporal de movimento, por meio da participaçªo e reflexªo concretas e efetivas. Busca-se reverter o quadro histórico da Ærea de seleçªo entre indivíduos aptos e inaptos para as prÆticas corporais, resultante da valorizaçªo exacerbada do desempenho e da eficiŒncia.

Princípio da diversidade

O princípio da diversidade aplica-se na construçªo dos processos de ensino e aprendizagem e orienta a escolha de objetivos e conteœdos, visando a ampliar as relaçıes entre os conhecimentos da cultura corporal de movimento e os sujeitos da aprendizagem. Busca-se legitimar as diversas possibilidades de aprendizagem que se estabelecem com a consideraçªo das dimensıes afetivas, cognitivas, motoras e socioculturais dos alunos.

Categorias de conteœdos

Os conteœdos sªo apresentados segundo sua categoria conceitual (fatos, conceitos e princípios), procedimental (ligados ao fazer) e atitudinal (normas, valores e atitudes). Os conteœdos conceituais e procedimentais mantŒm uma grande proximidade, na medida em que o objeto central da cultura corporal de movimento gira em torno do fazer, do compreender e do sentir com o corpo. Incluem-se nessas categorias os próprios processos de aprendizagem, organizaçªo e avaliaçªo. Os conteœdos atitudinais apresentam-se como objetos de ensino e aprendizagem, e apontam para a necessidade de o aluno vivŒnciÆ-los de modo concreto no cotidiano escolar, buscando minimizar a construçªo de valores e atitudes por meio do currículo oculto .

InfluŒncias, tendŒncias e quadro atual

No sØculo X, a Educaçªo Física escolar sofreu, no Brasil, influŒncias de correntes de pensamento filosófico, tendŒncias políticas, científicas e pedagógicas. Assim, atØ a dØcada de 50, a Educaçªo Física ora sofreu influŒncias provenientes da filosofia positivista, da Ærea mØdica (por exemplo, o higienismo), de interesses militares (nacionalismo, instruçªo prØ- militar), ora acompanhou as mudanças no próprio pensamento pedagógico (por exemplo, a vertente escola-novista na dØcada de 50).

Nesse mesmo período histórico ocorreu a importaçªo de modelos de prÆticas corporais, como os sistemas ginÆsticos alemªo e sueco e o mØtodo francŒs, entre as dØcadas de 10 e 20, e o mØtodo desportivo generalizado, nas dØcadas de 50 e 60.

Contudo, observa-se na história da Educaçªo Física uma distância entre as concepçıes teóricas e a prÆtica real nas escolas. Ou seja, nem sempre os processos de ensino e aprendizagem acompanharam as mudanças, às vezes bastante profundas, que ocorreram no pensamento pedagógico desta Ærea. Por exemplo, a co-educaçªo (meninos e meninas na mesma turma) era uma proposta dos escola-novistas desde a dØcada de 20, mas essa discussªo só alcançou a Educaçªo Física escolar muito tempo depois.

Mais recentemente, na dØcada de 70, a Educaçªo Física sofreu, mais uma vez, influŒncias importantes no aspecto político. O governo militar investiu nessa disciplina em funçªo de diretrizes pautadas no nacionalismo, na integraçªo (entre os Estados) e na segurança nacionais, objetivando tanto a formaçªo de um exØrcito composto por uma juventude forte e saudÆvel como a desmobilizaçªo das forças políticas oposicionistas. As atividades esportivas tambØm foram consideradas importantes na melhoria da força de trabalho para o milagre econômico brasileiro . Nesse período, estreitaram-se os vínculos entre esporte e nacionalismo. Um bom exemplo Ø o uso que se fez da campanha da seleçªo brasileira de futebol, na Copa do Mundo de 1970.

Em relaçªo ao âmbito escolar, a partir do Decreto no 69.450, de 1971, a Educaçªo

Física passou a ser considerada como a atividade que, por seus meios, processos e tØcnicas, desenvolve e aprimora forças físicas, morais, cívicas, psíquicas e sociais do educando . O decreto deu Œnfase à aptidªo física, tanto na organizaçªo das atividades como no seu controle e avaliaçªo, e a iniciaçªo esportiva, a partir da quinta sØrie, se tornou um dos eixos fundamentais de ensino; buscava-se a descoberta de novos talentos que pudessem participar de competiçıes internacionais, representando a pÆtria.

Nesse período, o chamado modelo piramidal norteou as diretrizes políticas para a Educaçªo Física: a Educaçªo Física escolar e o desporto estudantil seriam a base da pirâmide; a melhoria da aptidªo física da populaçªo urbana e o empreendimento da iniciativa privada na organizaçªo desportiva para a comunidade comporiam o desporto de massa, o segundo nível da pirâmide. Este se desenvolveria, tornando-se um desporto de elite, com a seleçªo de indivíduos aptos para competir dentro e fora do país.

Na dØcada de 80 os efeitos desse modelo começaram a ser sentidos e contestados: o

Brasil nªo se tornou uma naçªo olímpica e a competiçªo esportiva da elite nªo aumentou significativamente o nœmero de praticantes de atividades físicas. Iniciou-se entªo uma profunda crise de identidade nos pressupostos e no próprio discurso da Educaçªo Física, que originou uma mudança expressiva nas políticas educacionais: a Educaçªo Física escolar, que estava voltada principalmente para a escolaridade de quinta a oitava sØries do primeiro grau, passou a dar prioridade ao segmento de primeira a quarta sØries e tambØm à prØ- escola. O objetivo passou a ser o desenvolvimento psicomotor do aluno, propondo-se retirar da escola a funçªo de promover os esportes de alto rendimento.

O campo de debates se fertilizou e as primeiras produçıes surgiram apontando o rumo das novas tendŒncias da Educaçªo Física. Às recØm-criadas organizaçıes da sociedade civil, bem como entidades estudantis, sindicais e partidÆrias, somaram-se setores do meio universitÆrio identificados com as tendŒncias progressistas. Simultaneamente, a criaçªo dos primeiros cursos de pós-graduaçªo em Educaçªo Física, o retorno de professores doutorados que estavam fora do Brasil, as publicaçıes de um nœmero maior de livros e revistas, bem como o aumento do nœmero de congressos e outros eventos dessa natureza foram fatores que contribuíram para esse debate.

As relaçıes entre Educaçªo Física e sociedade passaram a ser discutidas sob a influŒncia das teorias críticas da educaçªo: seu papel e sua dimensªo política foram questionados.

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