Deficiencia Física e Barreiras Arquitetonicas

Deficiencia Física e Barreiras Arquitetonicas

DEFICIÊNCIA FÍSICA E BARREIRAS ARQUITETÔNICAS: REFLEXÕES SOBRE A PRÁTICA DA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR.

Nakal Laurenço Fortunato da Silva

Raphael da Silva Baret

Acadêmicos do Curso de Educação Física da Universidade Católica Dom Bosco (UCDB)

Sarita de Mendonça Bacciotti

Licenciatura em Educação Física pela Universidade Estadual de São Paulo

Especialização em Atividade Física Adaptada e Saúde pela Universidade Gama Filho

Mestrado em Ciências da Saúde pela Universidade de Brasília

Docente do Curso de Educação Física pela Universidade Católica Dom Bosco

Resumo:

A Deficiência Física traz consigo diversas conseqüências, tais como o enfrentamento das barreiras arquitetônicas e a falta de acessibilidade causada por elas. As barreiras arquitetônicas podem ser traduzidas como centímetros intransponíveis do mundo civilizado, acarretando inúmeras dificuldades aos cadeirantes, nos mostrando de fato que por menor que seja o obstáculo, impede-os de ir e vir, tirando-lhes a liberdade nas suas escolhas. O objetivo desta pesquisa foi relatar as barreiras arquitetônicas enfrentadas por dois deficientes físicos cadeirantes, dentro e ao redor de uma escola e contextualizar as principais dificuldades que estes indivíduos vêm enfrentando em seu dia a dia para chegar à escola e às práticas das aulas de Educação Física. Participaram desta pesquisa um ex-aluno e uma aluna atual da referida escola, ambos com deficiência física com os quais foi feita uma entrevista. As barreiras arquitetônicas influenciam a vida deles dentro da escola como ao seu redor, devido à presença de degraus e meio fios sem rampas, junto às imperfeições das calçadas, causam transtornos maiores, impedindo-os de almejar futuros prósperos.Com isso, antes de conhecer as adaptações cabíveis em relação à prática da Educação Física, é importante conhecer as limitações resultantes de cada tipo de deficiência, de forma a perceber as necessidades específicas do aluno e atendê-las corretamente, devendo então saber mais sobre eles para atingir o objetivo das aulas no decorrer do ano. O ambiente escolar se apresenta um tanto não acolhedor em termos de acesso no espaço físico, porém de receptividade inquestionável, demonstrando que com dedicação de todos, à inclusão deixa de ser mito e se torna realidade. Com o intuito na ampliação do conhecimento, o ato de pensar na maneira coletiva, conhecendo a realidade desta pequena proporção da sociedade, dos deficientes físicos, traz ganhos enriquecedores à vida.

Palavras chave: Deficientes Físicos (Cadeirantes); Barreiras Arquitetônicas; Educação Física.

Introdução

Apesar de as leis que regem nosso país indicarem boas perspectivas a respeito da acessibilidade na inclusão das pessoas com deficiência, nem sempre essa legislação é posta em prática. Além disso, muitas pessoas não têm os conhecimentos necessários a respeito do assunto e nem se percebem da importância do mesmo. Existe, portanto, uma desvalorização da pessoa com deficiência perante a sociedade, que não compreende suas necessidades.

A acessibilidade é de grande importância para toda a sociedade, e está relacionada com condições viáveis de mobilidade disponíveis e a oportunidade de acesso oferecida aos indivíduos, tanto para pessoas que não têm uma deficiência física ou para indivíduos que tenham alguma limitação. Enfim, não somente a pessoa com deficiência, mas sim toda a população desfruta no dia-a-dia do acesso a locais públicos, de lazer, entre outros.

Além das Barreiras Arquitetônicas enfrentadas pelos cadeirantes (pessoas que se utilizam da cadeira de rodas para se locomoverem) existe também a barreira da rejeição exercida pela sociedade, que esquece que todos são seres humanos e cada um tem seu limite. Sendo assim, é importante que o professor de Educação Física tenha uma melhor orientação, que desperte nele o interesse de conhecer cada aluno e/ou grupo com o qual trabalha.

A população de maneira geral não sabe como tratar a pessoas com deficiência e tampouco utiliza as nomenclaturas mais atuais da área. Isso se processa também nas escolas com o corpo docente. Segundo Sassaki (2003) não existe um único termo correto para se nomear uma pessoa com deficiência, pois a cada época a terminologia apresenta-se compatível com valores vigentes da sociedade, fazendo com que estes termos evoluam, influenciando o tratamento que as pessoas sem deficiência possuem em relação às pessoas com este ou aquele tipo de deficiência. Sendo assim, estaremos utilizando o termo Deficiente Físico e cadeirante ao longo deste artigo.

Se pararmos para pensar na Educação Física em âmbito escolar, nos depararemos com grupos heterogêneos, alunos com diferentes níveis de habilidade, capacidade, necessidades e expectativas, com diferenças sociais, de crenças ou mesmo afetivas, o que também será encontrado em grupos que tenham pessoas com Deficiência Física.

Sendo assim, o objetivo desta pesquisa foi relatar as barreiras arquitetônicas enfrentadas pelos Deficientes Físicos, especificamente cadeirantes e contextualizar as principais dificuldades que estes indivíduos vêm enfrentando em seu dia a dia para chegar à escola e às práticas das aulas de Educação Física.

Para tanto foi desenvolvida uma pesquisa qualitativa na Escola Municipal Professora Elizabel Maria Gomes Salles e seus arredores. Participam desta pesquisa um ex-aluno e uma aluna atual da referida escola, ambos com deficiência física. O instrumento utilizado para coleta de dados foi à entrevista semi-estruturada aplicada aos cadeirantes e a observação sistemática do espaço físico escolar.

Os dados obtidos com as entrevistas e apreendidos nas observações foram submetidos à análise de conteúdo realizando abordagem dentro da realidade, no qual deixamos registrados dados e reflexões que possibilitem ao deficiente físico lutar por uma melhor qualidade de vida. Pessoas, essas que pelo fato de terem esta deficiência, passam por diversas dificuldades e nos levam a pensar sobre valores adquiridos na sociedade.

Deficiência Física e Barreiras Arquitetônicas

A sociedade da qual fazemos parte, e somos célula integrante, não deve resumir-se a elementos de inclusão ou exclusão, pois somos igualmente importantes e de expressão única. Hoje em dia é necessário agregar valores à vida, tornando-se importante entender o deficiente físico em seu contexto, nunca isoladamente, pois assim poderá entendê-lo melhor. Conhecê-lo é primordial, para que o profissional esteja apto no desenvolvimento de suas atividades e compreenda suas dificuldades.

Existem origens diferentes da Deficiência Física, sendo as de origem Ortopédica envolve ossos, músculos e articulações e as de origem Neurológica estão relacionadas a problemas que afetam o sistema nervoso central (cérebro e medula) por alguma deteriorização ou lesão (WINNICK, 2004).

Para WINNICK (2004) exemplos de Deficiência Física de origem ortopédica são as amputações e a Distrofia Muscular Progressiva na qual ocorre uma degeneração progressiva do tecido muscular. No Sistema Nervoso Central (SNC) pode ocorrer a Paralisia Cerebral (PC), o Acidente Vascular Cerebral (AVC), Traumatismo Crânio Encefálico (TCE).

O Decreto número 5.296 de 2 de Dezembro de 2004 regulamenta as Leis números 10.048 (de 8 de novembro de 2000), que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098 (de 19 de dezembro de 2000), que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas com deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências.

§ 1o Considera-se, para os efeitos deste Decreto:

I - pessoa portadora de deficiência, além daquelas previstas na Lei no 10.690, de 16 de junho de 2003, a que possui limitação ou incapacidade para o desempenho de atividade e se enquadra nas seguintes categorias:

Deficiência Física: alteração completa ou parcial de um ou mais segmentos do corpo humano, acarretando o comprometimento da função física, apresentando-se sob a forma de paraplegia, paraparesia, monoplegia, monoparesia, tetraplegia, tetraparesia, triplegia, triparesia, hemiplegia, hemiparesia, ostomia, amputação ou ausência de membro, paralisia cerebral, nanismo, membros com deformidade congênita ou adquirida, exceto as deformidades estéticas, e as que não produzam dificuldades para o desempenho de funções.

A Deficiência Física traz consigo diversas conseqüências, como o enfrentamento das barreiras e a falta de acessibilidade causada por elas. Barreiras estas, que vão desde barreiras sociais até barreiras físicas do ambiente, que chamamos de Barreiras Arquitetônicas. A presença dessas barreiras impede o indivíduo de circular livremente pelos espaços, ou seja, tem dificultada a sua acessibilidade, evidenciando no contexto que barreiras arquitetônicas são superadas freqüentemente pelos Deficientes Físicos em seu trajeto da residência à escola e até a prática das aulas Educação Física.

De acordo com o CENSO (IBGE, 2000) quase 25 milhões de brasileiros têm pelo menos uma deficiência, sendo preciso desenvolver soluções que contribuam para que muitos cidadãos possam ter acesso cada vez mais a serviços públicos. Pode-se então concluir que a acessibilidade é uma necessidade de legitima importância dos Deficientes Físicos, uma questão de justiça social em sintonia com políticas públicas, e adequação às nossas leis e às diretrizes vigentes em nosso país.

Segundo a Legislação sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência (BRASIL. 2005), algumas conquistas merecem destaque, embora tímidas, em relação aos direitos de cidadania no atendimento a deficientes dentre estas, mudanças de atitude da sociedade, maior sensibilização do poder público para a prestação de serviços especializados, acessibilidade, abertura do mercado de trabalho e melhoria das respostas educativas.

A acessibilidade está diretamente ligada ao problema das barreiras arquitetônicas, que impedem de diversas formas o acesso físico a diversos locais. É definida pela Lei n. 10.098/2000 como “qualquer entrave/obstáculo que limite ou impeça o acesso, a liberdade de movimento e a circulação com segurança das pessoas”, e podem ser classificadas em “arquitetônicas urbanísticas” (as existentes nas vias públicas e nos espaços de uso público), “arquitetônicas na edificação” (as existentes no interior dos edifícios públicos e privados), “arquitetônicas nos transportes” (as existentes nos meios de transportes) e “barreiras nas comunicações” (qualquer entrave/obstáculo que dificulte ou impossibilite a expressão, o recebimento de mensagens por intermédio dos meios ou sistemas de comunicação) (BRASIL, 2000).

Barreiras Arquitetônicas são centímetros intransponíveis do mundo civilizado, acarretando inúmeras dificuldades que assolam o pensamento, pois de fato é que por menor que seja o obstáculo, impede-os de ir e vir com liberdade nas suas escolhas.

A Constituição Federal descreve expressamente o direito à igualdade no Artigo 5º, e trata, nos Artigos 205 e seguintes, do direito de TODOS à educação. Esse direito deve visar o pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho (Art. 205) e elege como um dos princípios para o ensino, a igualdade de condições de acesso e permanência na escola (Art. 206, inc. I), acrescentando que o dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da criação artística, segundo a capacidade de cada um (art. 208, V).

Na Coletânea da Legislação sobre os Direitos da Pessoa Com Deficiência (2005) encontramos a seguinte fala:

A proteção das pessoas com deficiência passou a integrar as normas constitucionais brasileiras apenas recentemente, na Constituição Federal de 1988. O artigo 208, III, da Constituição Brasileira determina o atendimento educacional especializado aos alunos com deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino. A educação especial, que tradicionalmente abriga as pessoas com deficiência, condutas típicas (psicoses, hiperatividade, etc.) e super dotação, segue também os pressupostos formulados pela lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (lei n. o 9.394, de 20/12/1996) e é acolhida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente. Esses instrumentos devem ser utilizados tanto pela criança com necessidades educacionais especiais, como por todos os alunos.

Portanto, o aluno com Deficiência Física deve ser tratado como os outros alunos, pois a deficiência é uma de suas características que o faz tão diferente quanto os demais alunos.

Improvisação ou cautela? Será que profissional de Educação Física tem conhecimento e entendimento do termo acessibilidade e sua relação com a importância da inclusão? De maneira geral, as pessoas em sua maioria não convivem com Deficientes Físicos. Sendo assim, as soluções que deve haver para a questão, é mostrar em atos de integração, socialização e inclusão para que o deficiente físico se desenvolva dentro da normalidade do cotidiano habitual que a vida simplesmente a oferece.

Sabemos de fato que não há um método ideal para se promover a inclusão e a acessibilidade, mas buscar alternativas acredita-se ser um bom começo e para que isso ocorra, no entanto, devemos pôr na consciência de cada um que apesar de tomarmos atitudes diferentes, estamos sempre na busca de viver bem em harmonia, na busca da felicidade, e tratar a todos, independentes de raça, crença, e ou deficiência de maneira igualitária. Essa forma de agir pode se tornar o início de novos tempos, o da inclusão.

Silva (2006) considera as barreiras arquitetônicas como os maiores empecilhos para a deficiência física que fazem uso de cadeira de rodas, bengalas ou muletas para se locomoverem. Para o autor tais barreiras nem sempre são voluntárias, mas sem dúvida, são frutos do imenso descaso e da não obediência às leis vigentes.

Antes de conhecer as adaptações cabíveis em relação à prática da Educação Física, é importante conhecer as limitações resultantes de cada tipo de deficiência, de forma a perceber as necessidades específicas do aluno e atendê-las corretamente, devendo então saber mais sobre eles para atingir o objetivo das aulas no decorrer do ano.

Para Rodrigues (2001) a Escola Universal foi criada para dar educação básica a todos e à quais todos deveriam ter acesso. A escola pública tradicional desenvolveu práticas e valores que progressivamente contribuíram para acentuar as diferenças entre os alunos e que colocaram precocemente fora da corrida da aquisição de competência largos estratos da população escolar. Assim, o insucesso escolar, o abandono da escola, os problemas de disciplina, a rigidez dos currículos, entre outros, fizeram com que a escola que deveria integrar e acolher todos se tornasse um instrumento de seleção que, em muitos casos, acentua as diferenças culturais e de características e capacidades pessoais dos alunos eram deficientes.

Segundo Mantoan (2003) no contexto da integração a escola não muda como um todo, mas os alunos têm de mudar para se adaptarem às suas exigências. Já a inclusão, questiona não somente as políticas e a organização da educação especial e da educação regular, mas também o próprio conceito de integração, que prevê a modificação dos alunos em relação às escolas regulares. Assim, a inclusão questiona a inserção dos alunos sem exceção, com deficiência ou não, nas escolas regulares de forma radical, completa e sistemática.

No contexto inicial da integração, que podemos considerar como o primeiro indicativo para inclusão, os alunos com deficiência foram para as escolas regulares e ficaram mantidos dentro delas, porém nem sempre aproveitando da melhor forma do ambiente escolar.

Para a inclusão do aluno deficiente físico na escola, deve-se verificar toda uma formação do corpo docente para receber este aluno, conhecendo-o primeiramente e planejando as aulas, tendo discussões para adaptação da aula se houver necessidade, pois ele tem seus limites e estes devem ser respeitados.

Segundo Bueno e Resa (1995) citados por Cidade e Freitas (2002), a educação física adaptada para deficientes não é diferenciada do conteúdo dado nas aulas de educação física, mas compreende de técnicas, métodos, que pode ser aplicados nas aulas, com planejamento, visando atender as necessidades dos seus alunos.

A educação brasileira, ao se esforçar para dar conta do desafio da inclusão, vem propondo formas educacionais alternativas para a concretização da igualdade. E é dessa forma que a presença dos alunos com deficiência na escola contribui para que a mesma se adapte e se prepare, modificando inclusive a visão em relação ao aluno com deficiência, percebendo-o como uma pessoa que tem os mesmos direitos de usufruir da escola como as outras crianças (CIDADE E FREITAS, 2002).

Muitas vezes a escola exclui pelo simples fato de não saber como lidar com a situação. Essa novidade “ter um aluno com deficiência na escola” faz com que a mesma busque o preparo e as alternativas para atender sua clientela, seja ela formada por pessoas com deficiência ou não.

Cidade e Freitas (2002) consideram que os professores têm que estar cientes do conhecimento básico do aluno como tipo de deficiência, idade em que apareceu a deficiência, se é repentina ou gradativa, tanto quanto se é transitória ou permanente, quais são as estruturas prejudicadas, no entanto o que há é a falta de profissionais que tenham essa dedicação em especial com o deficiente. Para ele, o educador deve conhecer também alguns aspectos do desenvolvimento humano, os autores falam sobre os aspectos biológicos, físico, sensoriais, neurológicos, cognitivo, motor, interação social e afetivo-emocional.

O professor de educação física em suas aulas práticas que envolva a inclusão do deficinte físico deverá ter atuação proximal ao aluno, o que condiz com Cidade e Freitas (2002) que afirma, o professor deverá prestar ajuda ao aluno para executar o movimento, utilizando amais adequada à situação, seja ela verbal ou por demonstração. Porem em alguns casos, quando os deficientes físicos são mais comprometidos ou à medida que aumente a complexidade da resposta motora a, para ele, ajuda manual ou mecânïca poderá ser necessária.

A realidade das barreiras arquitetônicas

As barreiras arquitetônicas influenciam a vida de todos, uns mais, outros menos, e no caso dos deficientes físicos, especificamente os cadeirantes, este tipo de transtorno é bem maior, chegando a impedi-los de almejar futuros prósperos. Em entrevista a dois cadeirantes que tem conhecimento da escola observada, obtivemos relatos que intensificam ainda mais a necessidade de mudança.

O cadeirante entrevistado apresenta distrofia muscular progressiva, que com ausência de movimento causa um aumento da atrofia (fig.1.). Parou de estudar na quinta série do ensino fundamental, devido falta de alguém que pudesse auxiliá-lo a levar na escola.

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Fig.1. Ronaldo, 33 anos, cadeirante.

ente se capaz de realizar várias tarefas e o ambiente que o rodeia é amigável, gosta de desenhar e em seus poucos anos que conviveu dentro da escola nos relatou que teve dificuldades em se manter estudando. Dentre as dificuldades apontadas por ele, uma foi à falta de companheirismo que o levasse e que em dias de chuva e ausência de asfalto, era obrigado a ficar em casa ou enfrentar ruas enlameadas, tombos e quebra da cadeira de rodas em seu trajeto para a escola.

Nas aulas de Educação Física disse que o profissional o entendia muito bem, sabendo aceitar suas limitações, porem a acessibilidade dentro da escola não condizia com suas reais necessidades.

Segundo a Norma Brasileira 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT/NBR 9050, 1994), propondo acessibilidade no ambiente construído, proporcionam condições de mobilidade, com liberdade e confiança, suprindo as barreiras arquitetônicas e urbanísticas das cidades, dos edifícios, dos meios de transporte e de comunicação. E não se limitando somente ao ambiente construído, devido a Constituição Brasileira artigo 208 afirmando que é garantido o atendimento educacional aos portadores de deficiência, preferencialmente, na rede regular de ensino.

Para tanto, seus relatos nos mostraram que mudanças foram feitas ao longo dos anos, mas ainda não retrata com o que a lei afirma. Fato é que a escola esta aberta a todos, porém o núcleo que a integra não se apresenta capacitado a receber alunos deficientes. Relatos a seguir, junto a fotos nos dizem as condições existentes hoje.

A cadeirante entrevistada apresenta paralisia cerebral, não sabendo se foi desde o nascimento ou pelo fato de ter sido internada com parada respiratória aos dois meses de vida, ainda na incubadora. Uma criança com inúmeras barreiras a ultrapassar.

N

Fig.2. Percurso inicial percorrido pela cadeirante.

o transpor das ruas até a escola observamos as inúmeras dificuldades que a entrevistada tem de superar para que tenha uma educação escolar. Em seu trajeto até a escola percorre caminhos de pedra solta (fig.2), adentra asfalto sem calçada, e a falta de rampas ao acesso de algumas, sendo obrigada a enfrentar motoristas que pouco demonstra respeito, (fig.3.).

Fig.3. Falta de calçada, percurso feito pela rua.

Notamos dentro da escola pouca adaptação ao deficiente físico, hostilizando assim sua presença, ou seja, o ambiente não é acolhedor em termos de acesso no espaço físico, como mostra as figuras 4, 5 e 6 a seguir. O acesso a quase todos os locais da escola é feito por meio de degraus.

Fig.4. Barreira arquitetônica presente na entrada.

Fig.5. Degrau no caminho para ir e vir das quadras esportivas.

Fig.6. Quadra descoberta e nenhum acesso.

Na escola, todos que ali transitam mostram aceitação sem preconceito, manifestando carinho, atenção, compreensão e incentivo a ela.

A escola dispõe de três bebedouros que não condizem com a realidade da cadeirante (fig.7, 8 e 9). O banheiro feminino teve a porta de entrada ampliada para que a cadeira de rodas passe, porém em seu interior nada foi feito, com isso ela necessita de ajuda para sentar-se no vaso sanitário.

A

Fig.8. Bebedouro 2.

Fig.9. Bebedouro 3.

Fig.7. Bebedouro 1.

cadeirante tem participação nas atividades de Educação Física com os outros alunos, porém seu acesso à quadra esportiva é raro, devido a pouca higienização do ambiente e a falta de acesso (figs. 4 e 5). Ela fica em uma sala de recreação com as crianças que não participam da aula prática na quadra, tendo acompanhamento de uma funcionaria da escola, que por sua vez não possui entendimento claro de como trabalhar com deficiente.

Além das atividades escolares, a aluna participa de um projeto na escola Licurgo, onde sua locomoção é feito de vã, e tem acompanhamento fisioterápico na Universidade Católica Dom Bosco uma vez na semana onde se utiliza do ônibus. A cadeirante demonstra ser atenciosa e gentil, já sua mãe, um pouco receosa.

No bairro em que foi realizada a pesquisa, foram observados diversos fatores que influenciam diretamente esta parcela minoritária da sociedade. Que fatores são estes? Foi constatado que o ambiente que os rodeia, ou seja, a cidade em si, não só apenas o bairro, apresenta quantidades significativas de obstáculos a serem transpostos pelos cadeirantes, e que para haver uma diminuição ou eliminação destas barreiras arquitetônicas, se faz preciso mudar não só o espaço físico, mas agir na mente, no consciente de cada cidadão.

Este contexto observado está de acordo com Silva (2006) que faz uma exposição fundamental a respeito das Barreiras Arquitetônicas, colocando-as como os maiores obstáculos para a Deficiência Física para que façam uso de cadeira de rodas, bengalas ou muletas para transportar-se para outro lugar. Essas barreiras que demonstram ser fruto do imenso descaso de todos, porém podem surgir de obras da natureza.

A escola é um ambiente voltado para a qualidade no atendimento a todos os que necessitam dos serviços, valorizando o respeito ao indivíduo e proporcionando oportunidades para que cada um se desenvolva dentro de suas potencialidades.

Deficientes Físicos necessitam de profissionais comprometidos, que gostam do que fazem e que se sensibilizem com as dificuldades das pessoas com deficiência. Portanto, o profissional de Educação Física tem que exerce um papel de cidadão que se preocupa com o bem de todos em benefício à saúde, e quando há a presença de deficiente físico em suas aulas, que ele dê a coerência na didática de ensino, observando as dificuldades sem negligenciar os fatos, para que possa reinvidicar melhorias na inclusão dentro da escola.

Segundo a Norma Brasileira 9050 da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT/NBR 9050, 1994), propondo acessibilidade no ambiente construído, proporcionam condições de mobilidade, com liberdade e confiança, suprindo as barreiras arquitetônicas e urbanísticas das cidades, dos edifícios, dos meios de transporte e de comunicação. E não se limitando somente ao ambiente construído, devido a Constituição Brasileira artigo 208 afirmando que é garantido o atendimento educacional aos portadores de deficiência, preferencialmente, na rede regular de ensino.

Conclusão

Os Deficientes Físicos demonstraram medo e impaciência ao se depararem com as irregularidades que assolam seu caminho. São caminhos percorridos cheios de buracos, que os obrigam a invadirem a rua, andando na contramão do trânsito, bem perto dos veículos.

Nas visitas feitas à escola, podemos constatar inadequações na estrutura física, o que vem a causar transtorno a cadeirante que ali está inserido. A presença de barreiras arquitetônicas, tais como a falta de rampas ou a colocação em locais indevidos, bebedouros em dimensões irregulares, de carteiras impróprias, de banheiro pouco acessível, fazem com que cadeirantes se diferenciem ainda mais dos demais alunos dentro da escola, pois perdem a liberdade.

Para que haja inclusão de deficiente físico no ambiente das escolas regulares, se faz necessário não só o profissional de educação física, mas um todo estar se atentando em diagnosticar as barreiras, para que possam ser traçadas metas de correção ao acesso dentro da escola. Degraus não condizem com cadeirantes e quem auxilia estes a ultrapassar tais barreiras devem ser conscientes de riscos, evitando acidentes.

Não tendo nenhum apoio de órgãos vigentes e falta de um profissional que esteja adaptado a este meio social, faz com que os Deficientes Físicos fiquem presos em um mundo com pouca realidade, pois a que eles têm, simplesmente é a de si próprio. Questões estas que dificultam o acesso de cadeirantes em um ambiente escolar se fazem necessário por em pauta como garantia de reconhecimento de seus esforços, pois é de suma importância para todos saberem das dificuldades enfrentadas por cadeirantes, podendo assim visar em uma escala de melhoria, a qualidade de absorção de conhecimento e diminuição de estresse deles, que é causado por falta de acesso, discriminação, preconceito e falta de conhecimento por parte da sociedade que os rodeia.

Nesta perspectiva, as Barreiras Arquitetônicas ainda demonstram estar em fase de transição, sendo modificadas para ter acesso aos poucos e em velocidade mínima, demora, porém no caminho certo.

O presente artigo pretendeu ter um peso social, trazendo um alerta aos órgãos específicos para que haja melhoria da acessibilidade e na atuação de políticas públicas com execução de novos projetos que evidenciem as pessoas com deficiência, tornando-as não só ouvintes, dando a elas o papel principal, para que possa reivindicar seus direitos sem perguntar a quem.

É de extrema importância que se façam estudos de caso com cadeirantes para que se possam criar noções no detalhamento da finalização de uma obra, pois uma construção bem arquitetada trará acesso e uma possibilidade maior de inclusão.

São anos de estudos absorvendo conteúdos teóricos, mas para uma conclusão de qualidade, devemos trazer o nosso conhecimento algo que vale à pena estudar, se aprimorar em idéias que possibilitem uma vivência melhor de um pequeno grupo de pessoas, que pelo fato de serem deficientes físicos, nos trazem pensamentos enriquecedores sobre valorização do ser humano.

Com a evolução de Campo Grande, se faz necessário levantar pontos positivos e negativos no processo de efetivação da acessibilidade dos deficientes e levá-los ao conhecimento de órgãos responsáveis pelo espaço público, para que haja uma melhoria neste processo de inclusão, o que facilitaria e muito, a vida das pessoas com deficiência em meio à sociedade.

O descaso representa a situação vivida pelos deficientes físicos, em que o entrevistado, devido à falta de um acompanhante para levá-lo até escola não concluiu seus estudos e a atual aluna, cadeirante, vem sofrendo em seu trajeto à escola. Sendo relatado pela mãe, que sua filha chega a criar bolhinhas na mão imprimindo força nas rodas da cadeira, portanto, as presenças destas interfaces que os obriga a vivenciar dificultam ainda mais a ter acesso tanto a escola quanto ao conteúdo.

É de suma importância saber das dificuldades enfrentadas por cadeirantes, podendo assim visar melhoras neste aspecto para que as pessoas criem um olhar crítico do mundo a sua volta. Não adiantam sair de casa todos os dias e buscar apenas melhorias para si, pois somos seres humanos capazes de refletir sobre melhores condições de vida para todos. O ato de pensar não só no individual, mas na maneira coletiva, conhecer a realidade desta pequena proporção da sociedade, dos deficientes físicos, traz ganhos valiosos à vida.

Cabe a cada individuo fazer o diferencial.

Referências

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MANTOAN, M. T. E. Inclusão Escolar: O que é? Por quê? Como fazer? São Paulo: Moderna, 2003.

Rodrigues, D. “A Educação Física perante a Educação Inclusiva: reflexões conceptuais e metodológicas”. Publicado no Boletim da Sociedade Portuguesa de Educação Física,24/25, p.73-81.www.rc.unesp.br/ib/efisica/sobama/sobamaorg/efeInclusaoDavidRodrigues.pdfAcesso em: 23 de Abril de 2009

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