Capitulo 3 Textos Tematicos e Figurativos

Capitulo 3 Textos Tematicos e Figurativos

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Capítulo 3 Professor: Edson

Comunicação e Expressão

Capítulo 3 Professor: Edson

Caro aluno,

Se fossem solicitadas duas palavras que pudessem simbolizar o amor, quais palavras você escolheria?

Talvez você tenha pensado em várias, mas podemos destacar duas: coração e paixão.

Qual dessas duas palavras é a mais concreta para você, ou seja, você consegue visualizar a forma, a cor? Tenho certeza de que respondeu a palavra coração. E você está certo. Já da palavra paixão nós podemos ter uma noção do que seja, mas nós não conseguimos visualizar sua aparência, ou seja, concretizála.

É isso o que acontece também com o texto. Existem textos que são mais concretos, que são chamados figurativos e há textos que são mais abstratos, como ocorre com a palavra paixão, que são nomeados temáticos.

A seguir temos três textos. O primeiro é um editorial, o segundo é um conto e o terceiro é uma fotografia. Leia-os atentamente.

Texto 1 Remuneração de trabalhadores brancos é 90,7% maior que de pretos

A remuneração média de trabalhadores brancos foi 90,7% maior que a de pretos e pardos em setembro, último dado disponível, aponta estudo do economista Marcelo Paixão baseado na Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE, que reúne dados sobre as seis maiores regiões metropolitanas do País. Desde o início da crise econômica global, o auge da desigualdade entre os dois grupos no mercado de trabalho tinha sido registrado em fevereiro, quando a renda dos brancos era 102% superior.

"Acho que qualquer queda de desigualdade é para ser comemorada. O que não se pode é ser exagerado no grau de otimismo, porque não vejo nos indicadores motivos para supor que esse ritmo de redução da desigualdade vá se manter nos próximos meses", diz Paixão, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o Laboratório de Análises Econômicas, Sociais e Estatísticas das Relações Raciais (LAESER).

Formado em economia e doutor em sociologia, o professor tem algumas hipóteses para a redução registrada até setembro, um ano após o início da crise

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(em setembro de 2008, os brancos ganhavam 101% a mais). Uma delas é a retomada de investimentos na construção civil, que recebeu incentivos do governo. A participação dos pretos e pardos no setor é majoritária (59,9%). Outra explicação seria a maior presença deste grupo em setores informais, em tese menos afetados pela crise. Dados da PME mostram que o peso do setor formal era de 65% entre os brancos do sexo masculino, e de 60% entre os pretos e pardos - já entre as mulheres, era de 58% (brancas) e 47% (pretas e pardas).

"No momento em que a crise atingiu o seu momento mais complicado, as desigualdades aumentaram. Ao longo do ano, à medida que o País foi conseguindo resistir de maneira mais forte do que se supunha, houve um declínio nas desigualdades, que ainda são muito profundas e dificilmente vão ser superadas apenas com medidas de características mais gerais", avalia o professor.

Em setembro deste ano, a maior desigualdade foi registrada na região metropolitana de Salvador, onde a remuneração dos brancos era 136% maior que a de pretos e pardos, seguido por Recife (96,5% maior), Rio (96,1%), Belo Horizonte (95,3%), São Paulo (91,5%) e Porto Alegre (51,9%). No conjunto das seis regiões metropolitanas, a taxa de desemprego das mulheres pretas e pardas foi de 1,2%, mais que o dobro da taxa dos homens brancos (5,3%).

Para Paixão, há "forte persistência da preservação de abismos" no Brasil.

"Uma política de expansão do crédito e mais frouxa do ponto de vista fiscal não tem por objetivo combater desigualdades sociais nem raciais", diz ele. "Elas podem até ter esse efeito indireto, mas o ideal seria que fossem combinadas com ações afirmativas e políticas de valorização de grupos que estão historicamente numa situação de muita desvantagem. Na medida em que forem alvo de uma política positiva, essas desigualdades poderão cair de forma mais consistente." A publicação lançada hoje será mensal, acompanhando a PME. (Felipe Werneck - AE)

Texto 2

Já nem sei a que propósito é que isso vinha, mas o Senhor Professor disse um dia que as palmas das mãos dos pretos são mais claras do que o resto do corpo porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato, sem as exporem ao sol, que lhes ia escurecendo o resto do corpo. Lembrei-me disso quando o Senhor Padre, depois de dizer na catequese que nós não prestávamos mesmo para nada e que até os pretos eram melhores do que nós, voltou a falar nisso de as mãos deles serem mais claras, dizendo que isso era assim porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar.

Eu achei um piadão tal a essa coisa de as mãos dos pretos serem mais claras que agora é ver-me a não largar seja quem for enquanto não me disser porque é que eles têm as palmas das mãos assim tão claras. A Dona Dores, por exemplo, disse-me que Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem

Capítulo 3 Professor: Edson a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa.

O Senhor Antunes da Coca-Cola, que só aparece na vila de vez em quando, quando as coca-colas das cantinas já tenham sido todas vendidas, disse-me que tudo o que me tinham contado era aldrabice. Claro que não sei se realmente era, mas ele garantiu-me que era. Depois de eu lhe dizer que sim, que era aldrabice, ele contou então o que sabia desta coisa das mãos dos pretos. Assim:

“Antigamente, há muitos anos, Deus, Nosso Senhor Jesus Cristo, Virgem

Maria São Pedro, muitos outros santos, todos os anjos que nessa altura estavam no céu e algumas pessoas que tinham morrido e ido para o céu, fizeram uma reunião e decidiram fazer pretos. Sabes como? Pegaram em barro, enfiaram-no em moldes usados e para cozer o barro das criaturas levaram-nas para os fornos celestes; como tinham pressa e não houvesse lugar nenhum, ao pé do brasido, penduraramnas nas chaminés. Fumo, fumo, fumo e aí os tens escurinhos como carvões. E tu agora queres saber porque é que as mãos deles ficaram brancas? Pois então se eles tiveram de se agarrar enquanto o barro deles cozia?!”.

Depois de contar isto o Senhor Antunes e os outros Senhores que estavam à minha volta desataram a rir, todos satisfeitos.

Nesse mesmo dia, o Senhor Frias chamou-me, depois de o Senhor Antunes se ter ido embora, e disse-me que tudo o que eu tinha estado para ali a ouvir de boca aberta era uma grandessíssima pêta. Coisa certa e certinha sobre isso das mãos dos pretos era o que ele sabia: que Deus acabava de fazer os homens e mandava-os tomar banho num lago do céu. Depois do banho as pessoas estavam branquinhas. Os pretos, como foram feitos de madrugada e a essa hora a água do lago estivesse muito fria, só tinham molhado as palmas das mãos e as plantas dos pés, antes de se vestirem e virem para o mundo.

Mas eu li num livro que por acaso falava nisso, que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Vírginia e de mais não sei aonde. Já se vê que a Dona Estefânia não concordou quando eu lhe disse isso. Para ela é só por as mãos desbotarem à força de tão lavadas.

Bem, eu não sei o que vá pensar disso tudo, mas a verdade é que ainda que calosas e gretadas, as mãos dum preto são sempre mais claras que todo o resto dele. Essa é que é essa!

de os haver, meu filho, Ele pensou que realmente tinha de os haverDepois

A minha mãe é a única que deve ter razão sobre essa questão de as mãos de um preto serem mais claras do que o resto do corpo. No dia em que falamos disso, eu e ela, estava-lhe eu ainda a contar o que já sabia dessa questão e ela já estava farta de se rir. O que achei esquisito foi que ela não me dissesse logo o que pensava disso tudo, quando eu quis saber, e só tivesse respondido depois de se fartar de ver que eu não me cansava de insistir sobre a coisa, e mesmo assim a chorar, agarrada à barriga como quem não pode mais de tanto rir. O que ela me disse foi mais ou menos isto: “Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavamnos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já não os pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles

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homensQue o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas

ficassem exatamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes porque é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem, é apenas obra dos que se tiverem juízo sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos”.

Depois de dizer isso tudo, a minha mãe beijou-me as mãos.

Quando fugi para o quintal, para jogar à bola, ia a pensar que nunca tinha visto uma pessoa a chorar tanto sem que ninguém lhe tivesse batido.

Luis Bernardo Honwana (autor moçambicano)

Texto 3

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Se perguntássemos: “Qual é o assunto dos três textos?” Qual seria a sua resposta? Podemos dizer que os três textos têm o mesmo tema?

No texto 1, o editorialista discute a respeito da desigualdade racial. Para tratar dessa questão, ele usa dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), que fez uma pesquisa nas seis maiores regiões metropolitanas do Brasil, e constatou que a remuneração média de trabalhadores brancos foi 90,7% maior que a de negros e pardos.

No texto 2, temos um conto que narra à busca de sanar a curiosidade de um garoto que fora provocada por opiniões completamente diferentes, do Senhor Professor e do Senhor Padre, ao tentarem definir o motivo que levou as palmas das mãos dos negros serem mais claras do que o resto do corpo. Diante dessa curiosidade, o garoto começa a perguntar para algumas pessoas as suas opiniões sobre o assunto, buscando sempre uma resposta que lhe satisfizesse. Ao buscar a explicação desse fenômeno, o narrador se depara com diversas opiniões, as quais são frutos de uma justificativa ideológica. Deparamo-nos com as explicações de Dona Dores, do Senhor Antunes da Coca-Cola, do Senhor Frias, da mãe etc. Todas elas procuram justificar a desigualdade social e colocam o negro como um ser inferior ao branco.

As imagens, mostradas no texto 3, remetem a uma mão maior de tonalidade branca e uma mão menor de tonalidade negra. Nessa fotografia também temos a discussão da desigualdade social, caracterizando o branco como uma condição de superioridade ao negro, como se isso fosse uma verdade.

com imagens, portanto, elementos concretos, designados também de figuras

Apesar de discutirem sobre o mesmo assunto, os três textos são muito distintos um do outro. O primeiro é construído predominantemente por elementos abstratos, que chamaremos de temas. O segundo foi composto basicamente por termos concretos, que chamaremos de figuras. O terceiro foi construído somente

afinalo que são estes tais elementos concretos

Provavelmente, você esteja pensando: Mas, e abstratos?

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Platão e Fiorin, em seus livros “Lições de texto: leitura e redação” e “Para entender o texto: leitura e redação”, discutem de forma muito clara essas questões, por isso, nós nos pautaremos neles, quase que integralmente, para explicá-las.

Desde os primeiros anos de escola, aprendemos que os substantivos classificam-se em concretos e abstratos e assim criou-se a seguinte definição:

• Concreto o É todo termo que indica algo presente no mundo natural, material ou espiritual, real ou fictício: casa, cor, Deus, fada, saci, amigo etc. o É aquilo que está na realidade, ou seja, no mundo visível e palpável. É o que pode ser visto ou tocado pelos olhos, sentimentos e mãos humanas.

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Essas definições têm algumas deficiências. A primeira que podemos destacar é que elementos concretos e abstratos não são categorias da realidade, mas da linguagem. Por conseguinte, a expressão mundo natural não é somente a realidade exterior, visível, sensível, mas as realidades criadas pelo discurso. Assim, não há o menor propósito em perguntar se Deus, fada ou saci são concretos ou não e em responder que isso depende da crença que se tenha neles. Eles são concretos, porque Deus é um ser efetivamente presente no universo criado pelo discurso religioso, fada tem existência na realidade criada pelo conto maravilhoso, saci ganha o estatuto de ser nas narrativas folclóricas.

Diante dessas definições, nós ampliamos aquele conceito ao pensarmos que somente os substantivos são classificados em concreto e abstrato, mas todos os termos podem ter essa classificação. Assim, temos substantivos, adjetivos e verbos concretos e abstratos. Por exemplo, noite remete a algo efetivamente existente no mundo natural, enquanto raiva não, embora possamos concretizar esse sentimento dizendo: ficar vermelho, dar murro na mesa, gritar etc.; azul é um adjetivo concreto, pois expressa uma qualidade imediatamente perceptível do mundo natural, enquanto inteligente é abstrato, pois é o termo que designa uma série de elementos concretos (aprender rapidamente, compreender tudo o que é explicado etc.); plantar é um verbo concreto, enquanto envergonhar-se é abstrato, pois o que é concreto são as manifestações da vergonha, por exemplo, ficar vermelho, corar etc.

• Abstrato o É toda palavra que não indica algo presente no mundo natural, mas é uma categoria que ordena o que está nele manifesto - é o pensamento, a reflexão humana ou filosófica -, o existir, a consciência e o conhecimento. o Demonstra ideias, conceitos, ações, estados e qualidades que não possuem uma imagem/figura previamente concebida: amor, saudade, trabalho, tristeza, alegria - é possível ver uma imagem de uma pessoa triste ou alegre, mas não é possível desenhar a tristeza e a alegria.

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Como já dissemos no início, há duas formas básicas de texto: os predominantemente concretos e os predominantemente abstratos. Os primeiros são chamados figurativos e os segundos, temáticos. Falamos que são predominantemente, por que um texto não é normalmente construído somente com temas ou apenas com figuras, mas que é composto predominantemente com temas ou figuras.

Por que é importante sabermos dessas duas formas básicas de construção de textos? Porque cada um dos tipos tem uma função distinta.

Os textos figurativos produzem um efeito de realidade e, por isso, representam o mundo, criam uma imagem do mundo, com seus seres e seus acontecimentos. Os temáticos explicam as coisas do mundo, ordenam-nas, classificam-nas, interpretam-nas, estabelecem relações e dependências entre elas, fazem comentários sobre suas propriedades. Interessante, não??

Portanto, tematização e figurativização são dois níveis de concretização do sentido. Isso significa que o texto temático não apresenta predominantemente aspectos figurativos, mas todo texto figurativo tem um nível temático implícito, ou seja, todo texto está apoiado sobre um tema. Como exemplo leia este conto popular:

Mas por que estamos falando dessas categorias: concreto e abstrato? Por que preciso saber isto? Parece tão difícil e complexo!!!!

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