LEITURA COMPLEMENTAR A Leitura de Textos em Quadrinhos

LEITURA COMPLEMENTAR A Leitura de Textos em Quadrinhos

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Cadernos do CNLF , Vol. XIII, Nº 04 Anais do XIII CNLF. Rio de Janeiro: CiFEFiL, 2009, p. 139

Márcia Leite Pereira dos Santos (UFF) marciaf@infolink.com.br

Ler é um processo complexo que envolve muitas habilidades. Logicamente não se trata de simples retirada de informações, decodificação de letra por letra, palavra por palavra, pois decodificação é apenas um dos procedimentos utilizados. O leitor, na verdade, realiza um trabalho de construção de sentidos, a partir dos seus objetivos, do conhecimento do autor, do gênero textual e do conhecimento linguístico.

Durante a leitura, utilizam-se estratégias como seleção, antecipação, inferência, verificação, sem as quais, obviamente, não é possível rapidez e proficiência. O significado do texto constrói-se pelo esforço do leitor, a partir, não só do que está escrito, mas do conhecimento que traz para o texto.

É necessário o engajamento de muitos fatores como percepção, atenção e memória, que, uma vez ativados pelo leitor, promoverão a compreensão textual: trata-se do conhecimento prévio, aquele de que todos dispõem e construíram durante toda a nossa vida. Então, a compreensão dependerá de fatores como conhecimento prévio, ou seja, aquele que engloba todo o conhecimento já adquirido pelo leitor durante a vida. Toda a experiência com os diversos tipos de texto (conhecimento textual), o conhecimento linguístico e conhecimento de mundo compõem o conhecimento prévio necessário para o processamento da leitura.

Assim, também afirma Kleiman (2000, p. 13):

A compreensão de um texto é um processo que se caracteriza pela utilização do conhecimento prévio: o leitor utiliza na leitura o que ele já sabe, o conhecimento adquirido ao longo de sua vida. É mediante a interação de diversos níveis de conhecimento, como o conhecimento linguístico, o textual, o conhecimento de mundo, que o leitor consegue construir o sentido do texto. E porque o leitor utiliza justamente diversos níveis de conhecimento que interagem entre si, a leitura é considerada um processo interativo.

Baseando-nos na assertiva de Kleiman (2000, p. 34) de que a leitura é “uma prática social que remete a outros textos e a outras leituras”, consideraremos a possibilidade de tal concepção, própria da leitura de palavras, seja também pertinente à leitura do texto misto dos quadrinhos.

Para fins de exemplificação, selecionamos 3 (três) tirinhas do Gato Garfield, de Jim Davis.

A “crise da leitura” que afeta jovens de todas as idades e níveis escolares é facilmente constatada quando cobrados alguns tipos de leitura, como, por exemplo, os “clássicos” Mas, também já foi comprovado, que os mesmos jovens que descartam muitas obras clássicas, leem, com prazer, obras com personagens diversos, heróis, vilões montadas pela quadrinização. Entrevistas realizadas com alunos do Ensino Fundamental de escolas públicas e privadas demonstram que sua preferência, em termos de materiais de leitura, recai sobre as histórias em quadrinhos (HQs). Mesmo no Ensino Médio e até Universitário, é clara a simpatia quando apresentadas as famosas “tirinhas” (sequência de 3 a 4 quadros em que se desenvolve a narrativa) e, não raro, podemos encontrá-las como texto-base de questões de Vestibular e livros didáticos.

Sua leitura permite confortável compreensão para o leitor proficiente e envolve, a nosso ver, os mesmos conhecimentos necessários à leitura do texto verbal. Evidentemente, os aspectos da linguagem não-verbal, por exemplo, são de suma importância quando a realização do texto em quadrinhos. Mas, mesmo a compreensão de tais aspectos depende de um conhecimento prévio por parte do leitor. Os quadrinhos possuem uma estrutura própria, uma morfologia própria e, para sua leitura é necessário conhecê-las, é preciso ter um conhecimento textual, que permeará a compreensão assim como o conhecimento linguístico e de mundo. Todas essas experiências é que possibilitarão uma boa interpretação.

O Dicionário de Comunicação, em sua primeira edição, define História em Quadrinhos como forma de narração, em sequência dinâmica, de situações representadas por meio de desenhos, que constituem pequenas unidades gráficas sucessivas (quadrinhos) e são geralmente integrados a textos sintéticos e diretos (apresentados em balões ou legendas).

De acordo com Eguti (2001), os quadrinhos têm como objetivo principal a narração de fatos procurando reproduzir uma conversação natural, na qual as personagens interagem face a face, expressando-se por palavras e expressões faciais e corporais. Todo o conjunto do quadrinho é responsável pela transmissão do contexto enunciativo ao leitor.

Assim como na literatura, o contexto é obtido por meio de descrições detalhadas através da palavra escrita. Nas HQs, esse contexto é fruto da dicotomia verbal/não-verbal, na qual tanto os desenhos quantos as palavras são necessárias ao entendimento da história, justificando-se então a denominação de texto misto.

A interpretação deste tipo de texto será facilitada para o leitor, parcialmente, por suas características bastante peculiares, a saber:

a) nas “tiras”, o quadrinho é predominantemente retangular; b) o número e a dimensão dos quadrinhos são limitados pelo espaço sempre igual reservado a elas, por exemplo, nos jornais – as tiras de nosso corpus geralmente apresentam uma sequência de três (3) quadrinhos; c) as imagens apresentam-se mais simplificadas, principalmente nas tiras humorísticas – único gênero constitutivo de nosso corpus; d) os ambientes, as personagens, os comportamentos básicos mostram-se, geralmente recorrentes.

Tais fatores tornam a compreensão das “tiras” mais rápida que os textos puramente verbais. O conhecimento textual seria, nesse caso, o (re)conhecimento das unidades de ambos os códigos, de seus elementos estruturais e da sua forma de organização.

Outro elemento facilitador é o fato de que, não obstante as histórias em quadrinhos serem formadas por vários códigos, todos eles são visuais, uma vez que nelas mesmo o sonoro aparece como escrito, na forma de onomatopéias. A imagem chama o leitor de forma bastante mais direta que a palavra, especialmente numa sociedade em que “ver” parece ser mais importante do que “ler”.

Observa-se, assim, que a interação das duas linguagens consequentemente poderá facilitar o processo de leitura.

Evidentemente, acrescidas a estas informações, é necessário ressaltar a importância do conhecimento prévio do leitor e sua implicatura no processo de compreensão.

Fulgêncio e Liberato (2004, p. 14) apontam para a importância do que denominam informação não-visual, que abrange, além do conhecimento implícito da língua, várias outras modalidades de conhecimentos que, inter-relacionados, constituem a nossa teoria de mundo e estão estocados em nossa memória a longo prazo: "Resumidamente, podemos afirmar que a leitura é o resultado da interação entre o que o leitor já sabe e o que ele retira do texto. Em outras palavras, a leitura é o resultado da interação entre IV e In V"27.

A informação visual (IV) seria, pois, o que está escrito ou - por extensão – representado no texto por qualquer elemento material; a informação não-visual, tudo aquilo que, não estando representado no texto, faça parte do conhecimento enciclopédico do leitor ou possa ser por ele inferido através de outros meios que não a visualização.

Veja-se um exemplo: Tira 1

Para entender o humor, um pouco negro, dessa tira, o leitor terá que ativar primeiramente seu conhecimento sobre os personagens envolvidos: Garfield e o cão Odie dividem um mesmo “mundo”; suas brigas simbolizam a eterna rivalidade entre cão e gato e, até certo ponto, entre “irmãos”. O que realmente incomoda Garfield, a ponto de sentir prazer em espancar Odie, é simplesmente o fato de ter de dividir sua casa, seu dono e a atenção com o outro, em outras palavras: é movido pelo puro sentimento humano do ciúme.

Ativados tais conhecimentos, obviamente, restarão outros elementos relevantes como:

1- a expressão fisionômica do gato: seu “sorriso” de satisfação, do início ao final da tira e acentuando-se na segunda, além de estar acompanhado da grande abertura dos olhos ao perceber a queda do cão, e na terceira tira ao marcar na parede o número de vezes em obteve sucesso nas agressões contra Odie, dando-se mesmo ao trabalho de “legendar” o barulho resultante de cada tipo de queda, através de diferentes onomatopeias;

2- os traços indicadores de movimento, tanto em torno do gato, no momento do chute, quanto do cão – este de patas abertas e de ponta-cabeça, numa clara expressão de que foi surpreendido pela ação maliciosa do gato;

3- as onomatopeias selecionadas - primeiro um kick representando o barulho resultante do chute, depois crash em letras grandes, ruído decorrente da possível queda em cima de algo que se quebrou, e, por último todos os crash, splat, bonk de situações anteriores.

Note-se que, neste exemplo, a presença do elemento verbal dá-se apenas pela presença das onomatopeias. Todo restante é constituído do icônico. Na verdade, espera-se do leitor considerado proficiente que, partindo do que está explícito no texto, seja capaz de inferir o que não está explícito, isto é, de gerar conhecimentos novos com base nos dois tipos de informações – visuais e não-visuais.

Ou seja, o leitor proficiente faz previsões sobre o que virá a seguir, infere dados e deduz informações que tornem o texto lógico e coerente. Tais processos levam à geração de novos conhecimentos que são, por sua vez, incorporados ao seu repertório geral.

Percebe-se assim que não é tarefa simples ser leitor de tiras – ou de quaisquer HQs humorísticas. Perceber as marcas verbais e não-verbais da intenção do autor, reconstruir a mensagem para chegar ao seu significado e deixar-se levar por seus efeitos são as características mínimas de um leitor proficiente nesse tipo de texto.

Toda vez que se fala em texto ou linguagem, normalmente se pensa em texto e linguagem verbais, ou seja, na capacidade humana ligada ao pensamento que se concretiza numa determinada língua e se manifesta por palavras.

Mas, evidentemente, há outras formas de linguagem, como a pintura, a mímica, a dança, a música e outras mais. Com efeito, por meio dessas atividades, o homem também representa o mundo, exprime seu pensamento, comunica-se e influência os outros. Tanto a linguagem verbal quanto as linguagens não-verbais expressam sentimentos e, para isso, utilizam-se de signos, com a diferença de que, na primeira, os signos são constituídos dos sons da língua, ao passo que nas outras se exploram outros signos, como as formas, a cor, os gestos, os sons musicais etc.

Todo o conhecimento que adquiriu ao longo dos anos, o homem registrou e criou linguagens diversas para transmiti-lo. Assim, percebeu que poderia comunicar-se através do corpo e criou a linguagem da dança e do teatro; percebeu que poderia comunicar-se através dos sons e criou a palavra falada e a música; percebeu que poderia comunicar-se através de meios e formas e criou o desenho, a escultura, a escrita; percebeu que poderia expressar-se por meio da lógica e criou o cálculo, os sistemas filosóficos e matemáticos.

A lista evidentemente não termina aqui; ela se desdobra, porque há linguagens dentro de cada linguagem - criações exigidas por mudanças histórico-culturais ou resultantes de novos conhecimentos tecnológicos. As linguagens apresentam características próprias de composição, têm sinais próprios, são adequadas para veículos específicos, para épocas e situações determinadas.

Quando falamos em linguagem verbal, referimo-nos àquela formada pelo signo linguístico. O primeiro caráter diferencial da linguagem falada, relativamente a todas as outras formas, consiste em que seus significantes são constituídos por objetos sonoros, produzidos por movimentos determinados de certos órgãos do homem, a que se convencionou chamar de “aparelho fonador”. Não são objetos táteis ou outros, mas unicamente aqueles que o homem pode produzir pelos movimentos dos lábios e da língua, pela vibração das cordas vocais.

Já a linguagem não-verbal será aquela constituída pelos gestos, pelos códigos dos sinais de trânsito, pelos atos comunicativos dos povos primitivos em que se utilizavam fumaça ou tambores a fim de transmitir mensagens a considerável distância.

Assomem-se a estes exemplos os sinais matemáticos, lógicos e químicos etc. Entretanto, de todas estas formas a mais importante, quer pela sua universalidade ou pela frequência de uso é, sem dúvida, aquela que é constituída por movimentos e atitudes do corpo, a que damos o nome de gestos. Ela é de fato universal, porque todos os homens realizam-na.

A associação de linguagens, cada vez mais comum, é facilmente observada nos meios de comunicação:

a) as histórias em quadrinhos: linguagem verbo-visual; b) o cinema, a propaganda televisiva, a TV: linguagem áudio-verbocinético-visual; c) revistas, jornais: linguagem verbo-visual (texto = fotos = gráficos etc.); d) informática/softwares: verbo-visual; áudio-verbo-visual; e) dança: linguagem cinético-visual etc.

É evidente que, para que haja a comunicação, é preciso que os sinais e seus significados sejam conhecidos pelos interlocutores. Dados os significados, estes deverão ser fundados numa certa organização, para que então se proceda à leitura. Na verdade, a própria organização dos elementos também é portadora de significado; ela expressa a relação entre eles.

Na linguagem verbal, por exemplo, a colocação das palavras na frase e a consequente mudança de relação entre elas á fator de mudança de significado. Além disso, há a leitura dos sinais de pontuação, que também são relevantes.

Por outro lado, a entonação com que se diz uma frase é significativa, assim como o gesto que acompanha a palavra e compõe o significado de certo enunciado.

A leitura das diversas linguagens, portanto, implica o conhecimento de seus códigos – seus sinais (signos), seu modo de organização (sintaxe) – e, sempre, o conhecimento de mundo.

Na linguagem verbal, baseada no signo linguístico - a palavra escrita ou falada -, os sinais gráficos e sonoros que constituem palavras, na escrita e na fala, convencionaram-se arbitrariamente. Constitui, assim, um código e, como tal, pode ser aprendida.

Caracteriza-se também pela linearidade, tanto no espaço da página (em que as letras, as palavras, as frases se sucedem umas após outras), quanto no tempo (quando emitimos som após som para formar as palavras, as frases, os textos).

A organização das palavras obedece a certos padrões. Em Português, a ordem padrão é sujeito+verbo+complemento, embora algumas variações sejam possíveis. Mesmo essas variações, no entanto, também são previstas: há uma gramaticalidade na relação entre os termos da frase, conhecida pelo falante (sem essa gramaticalidade, o falante não saberia estabelecer relação entre duas palavras numa frase).

O mesmo processo ocorrerá nas relações entre as orações, nas relações entre os períodos no parágrafo, na construção dos diversos tipos de textos. Isso significa que há uma gramaticalidade percorrendo cada trecho de um texto e o próprio texto como forma construída que pretende transmitir significados.

Em contrapartida, a linguagem não-verbal é a-linear, isto é, vários signos podem ocorrer simultaneamente, sem que isso prejudique a compreensão do falante/leitor.

Um texto não-verbal pode, em princípio, ser considerado dominantemente descritivo, pois representa uma realidade singular e concreta, num ponto estático no tempo. Mas basta que organizemos uma sequência em progressão de narrativa, para que se configure a narração e não a descrição. A disposição de imagens em progressão constitui recurso básico das histórias em quadrinhos, fotonovelas, cinema, etc.

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