Educação esportiva

Educação esportiva

16JORNAL DO ESPORTE(Da Redação)1a. quinzena de Abril de 2010 Educação Esportiva

Alexandre Apolo alerta sobre exageros no Esporte

Baixada Santista - Estudioso, o Professor Mestre Alexandre

Apolo da Silveira Menezes Lopes, acaba de virar personagem de histórias em quadrinhos. Professor e Mestre em Educação Física, formado pela Universidade São Judas Tadeu, e também Pedagogo; Pós Graduado em Metodologia e Didática e Pós Graduado em Treinamento de Modalidades Esportivas pela USP, Alexandre Apolo é especialista em Futebol formado pela FEFISA e Técnico de Futsal formado pela FPFS. Ele também é pesquisador na área de Pedagogia dos Esportes, sendo autor de cinco livros didáticos esportivos com repercussão no Exterior, entre eles os livros “Futsal Metodologia e Didática na Aprendizagem”, “A Criança e o Adolescente no Esporte” e “Método Integrado de Ensino no Futebol”, todos lançados pela Phorte Editora.

Nos seus quase 25 anos de atuação no Esporte, teve inúmeras e diversificadas vivências. Dentre elas destacam-se as experiências como ex-professor da matéria Categorias de Base do Curso de Pós Graduação em Futebol do Instituto Wanderley Luxemburgo; atuação durante quinze anos como professor de Futsal em Centros Comunitários da Prefeitura de Guarujá, bem como sua passagem como professor de Futebol e Futsal no Caiçara Clube de Santos durante sete anos. Atualmente é Professor da matéria Pedagogia dos Esportes do Curso de Pós Graduação em Educação Física da UNINOVE-SP e professor do Curso de Pós Graduação em Futebol do ENAF; é também Professor da Rede Municipal de Ensino de Cubatão, bem como é professor palestrante em diversos cursos e Congressos Nacionais e Internacionais na área de Educação Física. Foi eleito Profissional do Ano pelo Conselho Regional de Educação Física do Estado de São Paulo -CREF/SP -2007 na área de Treinamento Esportivo e também foi eleito Personalidade Brasileira do Ano 2008 na Educação Esportiva pelo Centro de Integração Cultural e Empresarial de São Paulo (CICESP). Recentemente, em Janeiro de 2010, foi o professor brasileiro escolhido pela Mother Adversiting Ltd., da Inglaterra para abordar sobre a relação do Esporte com os Adolescentes brasileiros no Olympics Documentary que será veiculado durante as Olimpíadas de Londres em 2012 para todo o mundo.

ORIGEM E HQ - Sua formação teve origem, porém, como um garoto de infância feliz, criado na rua e jogando futebol descalço nos campinhos de bairro com os amiguinhos. Na medida em que cresceu e teve alegrias e decepções com o mundo do Futebol, acabou por abandonar a carreira de atleta precocemente e optar por seguir a carreira de professor de Educação Física, hoje respeitado em todo o país. Este ano, na Cartilha Brasileira de Futebol e Futsal lançada pela Ícone Editora, Apolinho, personagem que retrata a infância do professor, virou um interessante personagem de 10 histórias em quadrinhos baseadas em vivências reais, tanto como no Manifesto de Cultura de Paz e nãoviolência da ONU/UNESCO. As histórias discutem valores importantes como, por exemplo, a solidariedade; a importância de preservar a boa saúde e também a importância de compreender a diversidade religiosa. Oportuniza-se, assim para professores tanto do esporte quanto das escolas públicas, bem como a pais que tem filhos no esporte, internalizar nas crianças os temas transversais, como a própria cultura de paz e não violência e a importância da diversidade racial. Apolinho, nas histórias interage com os amiguinhos Vandercleido (que foi um amigo de infância que morreu vitima da violência), Golberino (que foi outro amigo de infância) e Gesunfânio (cujo personagem foi inspirado num ex-aluno de Guarujá que foi seu aluno durante dez anos). O professor falou com exclusividade ao Jornal do Esporte, a respeito de sua preocupação com o que acontece na Educação Esportiva com crianças e adolescentes e fez questão de esclarecer as principais dúvidas que pais têm a respeito de seus filhos no esporte. Vejamos a entrevista na íntegra:

Professor, o senhor que pesquisa na área de

Intervenções Pedagógicas na Educação Física e Esporte, o que tem observado no trabalho das escolinhas de modalidades esportivas?

AP: Numa recente pesquisa que fizemos em Escolinhas de Futebol, pudemos notar o que é uma comum na Educação Esportiva das diversas modalidades e que inclusive já havia sido citado por Martin (1988), principalmente nos esportes dos Jogos Desportivos Coletivos. Existe uma aceleração ou ainda queima de etapas do processo de ensino principalmente entre a fase de Especialização Específica - que tem seu inicio por volta dos 13 anos de idade – e o alto nível - cujo inicio é indicado pela literatura da Educação Física e Médica por volta dos dezessete ou dezoito anos de idade. Martin, porém observa em suas pesquisas que também havia uma aceleração do processo entre o período de preparação de base – que se inicia em muitas modalidades por volta dos 6 anos de idade –e o período de Especialização – que se inicia por volta dos 13 anos de idade. Nós observamos que isso não parece acontecer, mas existe, porém um atraso metodológico, principalmente por volta dos nove anos de idade onde as crianças deveriam estar sendo mais bem preparadas por intermédio de jogos educativos e ainda estão muito presas a exercícios do método analítico (exercícios em individuais, em duplas, trios e etc. que não correspondem a realidade dinâmica que o jogo exige). Não que tal método seja condenável ou inapropriado para esta idade, pelo contrário, pois é recomendado para a plena aquisição da técnica individual, mas observamos o exagero em sua utilização e a má utilização do tempo de aula para dispor de uma aula rica baseada na utilização dos mais diversos métodos existentes: analítico, recreativo, cooperativo e integrado de ensino. Compreendemos a necessidade da criança de brincar no esporte (recreativo); de cooperar no esporte (cooperativo) e de jogar das mais diversas formas transformando constantemente as regras de jogo, espaços de jogo número de jogadores e etc. (integrado).

O que o senhor recomendaria para o trabalho com crianças e jovens?

AP: Bem, se pudesse indicar qualquer atividade indicaria a freqüência numa escolinha de esportes até os dez anos de idade e depois disso a opção por uma modalidade mais desejada para a sua adaptação básica entre os dez e doze anos, para aí sim iniciar uma especialização mais apurada a partir dos treze anos. Veja, porém, que em nenhum momento falamos aqui de treinamento de alto nível o que não se encaixa perfeitamente antes dos dezoito anos de idade. Costumo ditar os seguintes dez mandamentos básicos no trabalho com crianças e jovens até os 13 anos de idade: 1) Durante as cargas elevadas, aumentar os tempos de recuperação; 2) Priorizar o desenvolvimento da resistência aeróbia em lugar do treinamento da resistência anaeróbia; 3) Evitar as situações onde se bloqueia a respiração (apneias prolongadas); 4) No treinamento de força, evitar as cargas elevadas que incidem sobre a coluna; 5) No treinamento de força, aumentar o trabalho de flexibilidade; 6) Nas tarefas que exigem alta coordenação motora, ter em mente a limitação do processamento de informação nas crianças; 7) Priorizar os movimentos e as habilidades naturais em lugar dos exercícios elaborados; 8) Valorizar a variedade em lugar de estereotipar os gestos técnicos; 9) Para melhor motivação, valorizar o aspecto lúdico das atividades; e, 10) Por ser melhor por sua maior carga motivacional, efetuar o treinamento em grupo do que individualmente.

Quais as atividades físicas mais indicadas para a adolescência?

AP: Não existe um critério para se escolher atividades físicas que sejam mais indicadas para a adolescência a não ser o próprio gosto de cada jovem em optar por aquela modalidade esportiva que mais lhe atrai. Uma vez a prática ao ser aplicada visando melhorar a saúde e gerar o prazer, todas são muito bem indicadas. Já as práticas que visam altos índices de resultados e desempenho retratam o esporte de alto nível e ao contrário do que muita gente pensa não se relaciona á saúde plena de quem pratica uma vez que atletas de alto nível - NÃO SÃO EXEMPLO DE SAÚDE PRA NINGUÉM- vivem em busca de superar limites humanos e por isso mais dispostos á lesões. Apesar de ser uma comum o esporte de o alto nível e o treinamento de alto nível, aplicado á adolescentes, esta não é uma prática muito sadia ou ainda politicamente correta, levando-se em consideração que para isso acontecer existe um momento mais adequado que acontece por volta dos dezoito anos de idade. Adolescentes de quinze anos já devem participar de competições regionais e nacionais, sim, mas tendo um treinamento apropriado e respeitoso á esta faixa etária. Para isso devemos lembrar que o pico da carreira de um atleta se dá justamente em torno de 23 anos e 26 anos de idade, quando consegue reunir algo em torno de quase 100% de suas capacidades: física, técnica e mental. Até os 17 anos de idade essas capacidades têm porcentagens muito baixas para suportar as exigências do treinamento de alto nível e portanto, o treinamento deve proporcionar sobretudo a evolução gradual do ser humano em questão.

Que tipo de prática pode ser prejudicial ao desenvolvimento físico do Adolescente?

AP: Os cuidados, na verdade, devem ser levados em consideração em qualquer modalidade esportiva, uma vez que a má aplicação de métodos e conteúdos por pessoas despreparadas, ainda é um risco que pode ocasionar prejuízos, sempre, aos praticantes. Algumas modalidades costumam ser mais apontadas pela mídia ou ainda por boa parte das pessoas, por parecer oferecer riscos maiores se mal aplicadas. A musculação e a Ginástica, por exemplo, são dessas modalidades que comumente são apontadas como prejudiciais quando mal inseridas ou administradas uma vez que, principalmente no caso da Musculação pode colaborar para a inibição do crescimento num treinamento precoce, ou seja, mal aplicado. Mas este risco é inerente das mais diversas modalidades esportivas e chega a ser uma injustiça apontar somente a Musculação e a Ginástica como uma espécie de “vilões”, uma vez que os estudos nestas áreas hoje são muito bem difundidos entre os seus profissionais e na verdade nas modalidades esportivas dos Jogos Desportivos Coletivos acontece em muito maior número atrocidades como a aplicação de modelos de treinamento inadequados ou até mesmo o desconhecimento declarativo de professores a respeito dos métodos de ensino e treinamento que utilizam como pudemos verificar em pesquisa. Neste caso, indica-se uma prática bem orientada por um bom profissional de Educação Física, conhecedor, sobretudo dos Preceitos de Desenvolvimento Humanos que regem á Educação Esportiva, sempre. Por isso digo: independente da modalidade esportiva que se faça, esteja primeiramente sempre acompanhado de um bom médico para liberá-lo para a prática esportiva desejada e, depois, também de um excelente profissional de Educação Física, capaz de bem dirigir suas práticas.

Que sinais mostram que a prática está prejudicando? AP: Esta é uma excelente pergunta e vale ressaltar que ao contrário do que muitas pessoas pensam, nem sempre estes sinais são evidentes ainda na adolescência e podem gerar problemas de ordem futura como lesões nas articulações de joelhos, ombros, e principalmente coluna vertebral, entre outros. A dor, porém, costuma ser o sinal mais esperado por todos, o que nem sempre acontece. Muitas vezes, os silenciosos micro traumas que vão se formando e acumulando em músculos e ossos não despertam sinais tão evidentes e quando se manifestam os problemas estes já existem num estágio bem acelerado e mais complicado de tratar. Muitos médicos ortopedistas com quem comumente converso, a exemplo do Dr. Osmar de Oliveira em São Paulo, entre outros amigos médicos que tenho em Santos, observam e relatam casos de pacientes na faixa etária entre 10 e 15 anos, com sérios problemas físicos, muitos casos até cirúrgicos, devido á esportes mal orientados ou mal praticados.

Existe algum tipo de prática que pode estimular o crescimento, para os que se sentem baixos, por exemplo?

AP: A rigor isso não acontece e a altura é fundamentalmente genética. Existe sim um estímulo natural do crescimento ósseo por intermédio das epífises ósseas, mas não a ponto de gerar expectativa favorável á grandes mudanças. Entretanto como a prática esportiva confere a quem pratica uma harmonia entre postura mais ereta e mus- culatura mais fortalecida, praticantes acabam por parecer um pouco mais altos. Por outro lado exercícios muito violentos ou com altos níveis de impacto (saltos) podem provocar inibição dos núcleos de crescimento ósseo, aí sim com prejuízos na altura final.

Há a crença de que a prática de natação, durante a adolescência pode deixar a pessoa com costas largas, tanto meninos quanto meninas, isso é verdade? Que outro tipo de atividade é capaz de modelar o corpo em formação?

AP: Mito. A Natação competitiva de alto nível, aliada a um bom trabalho de fortalecimento muscular causa sim tal alargamento das costas em quem já tem uma pré-disposição a isto, a prática, porém da natação com fins de saúde duas ou três vezes por semana não ocasiona este processo. Com relação a modelar o corpo em formação toda atividade física colabora para isso se praticada de forma contínua e bem regrada, aliada ainda a uma boa alimentação.

Qual é a importância de conciliar a prática esportiva e uma alimentação saudável?

AP: “O homem é aquilo que ele come”, nunca esta frase de autor desconhecido caiu tão bem a esta pergunta. Logicamente de nada adianta praticar esportes e exagerar numa alimentação desregrada. Todos os alimentos têm seu valor e importância na ingestão de quem pratica esportes, pois se transformam em combustíveis que permitem a boa prática das exigências dos diversos esportes. Assim, o equilíbrio entre a boa prática e a boa alimentação estabelecem esta importância. Neste caso o nutricionista passa a ser uma agente importante, também a ser disposto no trabalho esportivo, desde a iniciação esportiva ao alto-nível e deveria constar á disposição para consultas nos Centros Comunitários, clubes e associações que disponham de atividades esportivas. Assim como também atento para a mesma importância com relação á psicólogos, apesar da pergunta não focar isso.

Com relação ao que vemos, por exemplo, no Futebol de jovens iniciarem uma prática profissional tão cedo. Quais então os prejuízos e benefícios disso?

AP: Os prejuízos são muitos e grandes levando-se em conta que o treinamento de alto nível possa estar sendo colocado em uma estrutura que ainda não está completamente preparada para receber cargas físicas exageradas, cobranças excessivas de técnicos (e aí entra o lado psicológico citado na última pergunta), ou ainda poderes de realização tão perfeitos quanto os dos adultos. É lógico que os talentos natos apresentam índices altíssimos de acertos nas suas ações esportivas e muitas vezes se encaixam perfeitamente nos grupos de adultos, porém todo cuidado deve se ter para não comprometer sua estrutura no todo. No futebol de alto nível, lidamos com profissionais extremamente gabaritados como preparadores físicos e, fisiologistas que sabem muito bem o que podem e devem fazer com esses garotos uma vez colocados á situação do alto nível. Preocupa, porém, mais o esporte amador que nem sempre conta com profissionais que dispõem de conhecimentos científicos essenciais para lidar com esses jovens e oferecer um treinamento de qualidade próximo de suas necessidades. Mais uma vez por isso chamo atenção para a necessidade de profissionais como o psicólogo para formar uma boa equipe interdisciplinar. Outro fato que nos chama atenção, neste caso, é a exposição precoce á mídia que determinados clubes permitem acontecer desde muito cedo com garotos ainda pré-adolescentes nas categorias menores. Já outros clubes, que contam com psicólogos no trabalho de base, não permitem que isso aconteça e apesar de lidarem com craques em suas categorias de base, só ouvimos mesmo falar quando estes atingem o profissional.

Vimos isso acontecer com o Kaká no São Paulo FC e recentemente com o garoto Oscar, no mesmo clube. Ambos surgiram para a imprensa quando já estavam com os seus dezessete anos de idade e freqüentando banco de reservas do profissional, apesar de estarem no clube desde treze ou quatorze anos de idade. Com relação aos Benefícios, não podemos esquecer que num país em que os problemas sociais são evidentes e parecem irremediáveis, mesmo assim é um processo ainda natural, jovens a todo o momento se destacarem precocemente nas mais diversas áreas da inteligência: Lógico matemática, Interpessoal, Línguística, Musical. Para o esporte que têm suas exigências de demonstrações de inteligências no campo Cinestésico e Espacial parece então normal aparecerem tão cedo estes talentos levando-se em conta o fato de vivermos num país em que o clima e a condição social são favoráveis a prática esportiva e a vivência esportiva diversificada, desde tão cedo.

Assim acreditamos que viver do esporte é para muitos neste país um caminho natural e somos por isso um país revelador de talentos nesta área de atuação profissional. Porém devemos revelar, sempre respeitando os Preceitos de Desenvolvimento Humano que regem o Esporte para uma evolução gradual e sadia. Neste aspecto ainda desperdiçamos mais talentos do que aproveitamos, uma vez que a desistência do esporte por volta dos dezesseis anos de idade ainda gira em torno de 87% aproximadamente e por diversos fatores, infelizmente. Mas na medida em que aumentar a conscientização do trabalho respeitoso que deve ser feito com a Criança e o Adolescente no Esporte, com certeza aproveitaremos melhor nossos talentos e esta triste porcentagem diminuirá acintosamente.

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