Poemas de Álvaro de Campos

Poemas de Álvaro de Campos

(Parte 1 de 5)

Poemas de Álvaro de Campos Fernando Pessoa Fonte: http://www.secrel.com.br/jpoesia/facam.html

Poemas:

•A Casa Branca Nau Preta •A Fernando Pessoa

•A Frescura

•A plácida face anônima de um morto.

•A Praça

•Acaso

•Acordar

•Adiamento

•Afinal

•Ah, Onde Estou

•Ah, Perante

•Ah, um Soneto

•Ali Não Havia

•Aniversário

•Ao Volante

•Apontamento

•Apostila

•Às Vezes

•Barrow-on-Furness

•Bicarbonato de Soda

•Chega Através

•Clearly non-Campos!

•Começa a Haver

•Começo a conhecer-me. Não existo

•Conclusão a sucata!Fiz o cálculo

•Contudo

•Cruz na Porta

•Cruzou por mim, veio ter comigo, numa rua da Baixa

•Datilografia

•De la Musique

•Demogorgon

•Depus a Máscara

•Desfraldando ao conjunto fictício dos céus estrelados

•Dobrada à Moda do Porto

•Dois Excertos de Odes

•Domingo Irei

•Encostei-me

•Escrito Num Livro abandonado em Viagem

•Esta Velha

•Estou

•Estou Cansado

•Faróis •Gazetilha

•Gostava

•Grandes são os desertos, e tudo é deserto

•Há Mais

•Insônia

•Là-bas, Je Ne Sais Où

•Lisboa

•Lisbon Revisited (1923)

•Lisbon Revisited (1926)

•Magnificat

•Marinetti Acadêmico

•Mas Eu

•Mestre

•Na Casa Defronte

•Na Noite Terrivel

•Na Véspera

•Não Estou

•Não, não é cansaço

•Não: Devagar

•Nas Praças

•No Fim

•No lugar dos palácios desertos

•Nunca, por Mais

•Nuvens

•O Binômio de Newton

•O Descalabro

•O Esplendor

•O Florir

•O Frio Especial

•O Mesmo

•O Que Há

•O Sono

•O ter deveres, que prolixa coisa!

•O Tumulto

•Ode Marcial

•Ode Marítima

•Ode Triunfal

•Opiário

•Ora

•Os Antigos

•Passagem das Horas

•Pecado Original

•Poema em Linha Reta

•Psiquetipia (Ou Psicitipia)

•Quando

•Que lindos olhos de azul inocente os do pequenito do agiota!

•Que noite serena!

•Quero Acabar

•Realidade

•Reticências

•Saudação a Walt Whitman

•Se te Queres •Símbolos

•Soneto Já Antigo

•Sou Eu

•Tabacaria

•Tenho

•The Times

•Todas as Cartas de Amor são Ridículas

•Trapo

•Um dia, no restaurante

•Vai pelo cais fora um bulício de chegada próxima

•Vilegiatura

Nota Preliminar

Um poema é a projeção de uma idéia em palavras através da emoção. A emoção não é a base da poesia: é tão-somente o meio de que a idéia se serve para se reduzir a palavras.

Não vejo, entre a poesia e a prosa, a diferença fundamental, peculiar da própria disposição da mente, que Campos estabelece. Desde que se usa de palavras, usa-se de um instrumento ao mesmo tempo emotivo e intelectual.

A palavra contém uma idéia e uma emoção. Por isso não há prosa, nem a mais rigidamente científica, que não ressume qualquer suco emotivo. Por isso não há exclamação, nem a mais abstratamente emotiva, que não implique, ao menos, o esboço de uma idéia.

Poderá alegar-se, por exemplo, que a exclamação pura - "Ah ", digamos — não contém elemento algum intelectual. Mas não existe um "ah ", assim escrito isoladamente, sem relação com qualquer coisa de anterior. Ou consideramos o "ah " como falado e no tom da voz vai o sentimento que o anima, e portanto a idéia ligada à definição desse sentimento; ou o "ah " responde a qualquer frase, ou por ela se forma, e manifesta uma idéia que essa frase provocou.

Em tudo que se diz — poesia ou prosa — há idéia e emoção. A poesia difere da prosa apenas em que escolhe um novo meio exterior, além da palavra, para projetar a idéia em palavras através da emoção. Esse meio é o ritmo, a rima, a estrofe; ou todas, ou duas, ou uma só. Porém meno que uma só não creio que possa ser.

A idéia, ao servir-se da emoção para se exprimir em palavras, contorna e define essa emoção, e o ritmo, ou a rima, ou a estrofe, são a projeção desse contorno, a afirmação da idéia através de uma emoção, que, se a idéia a não contornasse, se extravasaria e perderia a própria capacidade de expressão.

É o que, em meu entender, sucede nos poemas de Campos. São um extravasar de emoção. A idéia serve a emoção, não a domina. E o homem — poeta ou não poeta — em quem a emoção domina a inteligência recua a feição do seu ser a estádios anteriores da evolução, em que as faculdades de inibição dormiam ainda no embrião da mente. Não pode ser que arte, que é um produto da cultura, ou seja do desenvolvimento supremo da consciência que o homem tem de si mesmo, seja tanto mais superior, quanto maior for a sua semelhança com as manifestações mentais que distinguem os estados inferiores da evolução cerebral.

A poesia é superior à prosa porque exprime, não um grau superior de emoção, mas, por contra, um grau superior do domínio dela, a subordinação do tumulto em que a emoção naturalmente se exprimiria (como verdadeiramente diz Campos) ao ritmo, à rima, à estrofe.

Como o estado mental, em que a poesia se forma, é, deveras, mais emotivo que aquele em que naturalmente se forma a prosa, há mister que ao estado poético se aplique uma disciplina mais dura que aquela [que] se emprega no estado prosaico da mente. E esses artifícios — o ritmo, a rima, a estrofe — são instrumentos de tal disciplina.

No sentido em que Campos diz que são artifícios o ritmo, a rima e a estrofe, se pode dizer que são artifícios: a vontade que corrige defeitos, a ordem que policia sociedades, a civilização que reduz os egoísmos à forma sociável.

Na prosa mais propriamente prosa — a prosa científica ou filosófica —, a que exprime diretamente idéias e só idéias, não há mister de grande disciplina, pois na própria circunstância de ser só de idéias vai disciplina bastante. Na prosa mais largamente emotiva, como a que distingue a oratória, ou tem feição descritiva, há que atender mais ao ritmo, à disposição, à organização das idéias, pois essas são ali em menor número, nem formam o fundamento da matéria. Na prosa amplamente emotiva — aquela cujos sentimentos poderiam com igual facilidade ser expostos em poesia — há que atender mais que nunca à disposição da matéria, e ao ritmo que acompanhe a exposição. Esse ritmo não é definido, como o é no verso, porque a prosa não é verso. O que verdadeiramente Campos faz, quando escreve em verso, é escrever prosa ritmada com pausas maiores marcadas em certos pontos, para fins rítmicos, e esses pontos de pausa maior, determina-os ele pelos fins dos versos. Campos é um grande prosador, um prosador com uma grande ciência do ritmo; mas o ritmo de que tem ciência, é o ritmo da prosa, e a prosa de que se serve é aquela em que se introduziu, além dos vulgares sinais de pontuação, uma pausa maior e especial, que Campos, como os seus pares anteriores e semelhantes, determinou representar graficamente pela linha quebrada no fim, pela linha disposta como o que se chama um verso. Se Campos, em vez de fazer tal, inventasse um sinal novo de pontuação — digamos o traço vertical ( | ) — para determinar esta ordem de pausa, ficando nós sabendo que ali se pausava com o mesmo gênero de pausa com que se pausa no fim de um verso, não faria obra diferente, nem estabeleceria a confusão que estabeleceu.

A disciplina é natural ou artificial, espontânea ou refletida. O que distingue a arte clássica, propriamente dita, a dos gregos e até dos romanos, da arte pseudoclássica, como a dos franceses em seus séculos de fixação, é que a disciplina de uma está nas mesmas emoções, com uma harmonia natural da alma, que naturalmente repele o excessivo, ainda ao senti-lo; e a disciplina da outra está em uma deliberação da mente de não se deixar sentir para cima de certo nível. A arte pseudoclássica é fria porque é uma regra; a clássica tem emoção porque é uma harmonia.

Quase se conclui do que diz Campos, de que o poeta vulgar sente espontaneamente com a largueza que naturalmente projetaria em versos como os que ele escreve; e depois, refletindo, sujeita essa emoção a cortes e retoques e outras mutilações ou alterações, em obediência a uma regra exterior. Nenhum homem foi alguma vez poeta assim. A disciplina do ritmo é aprendida até fícar sendo uma parte da alma: o verso que a emoção produz nasce já subordinado a essa disciplina. Uma emoção naturalmente harmônica é uma emoção naturalmente ordenada; uma emoção naturalmente ordenada é uma emoção naturalmente traduzida num ritmo ordenado, pois a emoção dá o ritmo e a ordem que há nela, a ordem que no ritmo há.

Na palavra, a inteligência dá a frase, a emoção o ritmo. Quando o pensamento do poeta é alto, isto é, formado de uma idéia que produz uma emoção, esse pensamento, já de si harmônico pela junção equilibrada de idéia e emoção, e pela nobreza de ambas, transmite esse equilíbrio de emoção e de sentimento à frase e ao ritmo, e assim, como disse, a frase, súdita do pensamento que a define, busca-o, e o ritmo, escravo da emoção que esse pensamento agregou a si, o serve.

Estou reclinado na poltrona, é tarde, o Verão apagou-se
Nem sonho, nem cismo, um torpor alastra em meu cérebro
Não existe manhã para o meu torpor nesta hora
Ontem foi um mau sonho que alguém teve por mim
Há uma interrupção lateral na minha consciência
Apesar de as janelas estarem abertas de par em par
E a personalidade que tenho está entre o corpo e a alma

A Casa Branca Nau Preta Continuam encostadas as portas da janela desta tarde Sigo sem atenção as minhas sensações sem nexo,

Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir

Quem dera que houvesse A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar

Os ritmos perdidos das canções mortas do marinheiro de sonho

As naus seguiram, Seguiram viagem não sei em que dia escondido, E a rota que devem seguir estava escrita nos ritmos,

E poder levantar-me desta poltrona deixando os sonhos no chão
Que sonhos?Eu não sei se sonhei ... Que naus partiram, para onde?
E nada que se pareça com isto devia ser o sentido da vida

Árvores paradas da quinta, vistas através da janela, Árvores estranhas a mim a um ponto inconcebível à consciência de as estar vendo, Árvores iguais todas a não serem mais que eu vê-las, Não poder eu fazer qualquer coisa gênero haver árvores que deixasse de doer, Não poder eu coexistir para o lado de lá com estar-vos vendo do lado de cá. Tive essa impressão sem nexo porque no quadro fronteira Naus partem — naus não, barcos, mas as naus estão em mim, E é sempre melhor o impreciso que embala do que o certo que basta, Porque o que basta acaba onde basta, e onde acaba não basta,

Quem pôs as formas das árvores dentro da existência das árvores? Quem deu frondoso a arvoredos, e me deixou por verdecer?

Onde tenho o meu pensamento que me dói estar sem ele, Sentir sem auxílio de poder para quando quiser, e o mar alto E a última viagem, sempre para lá, das naus a subir...

Não há, substância de pensamento na matéria de alma com que penso ... Há só janelas abertas de par em par encostadas por causa do calor que já não faz, E o quintal cheio de luz sem luz agora ainda-agora, e eu.

A casa branca distante onde moraFecho o olhar...
Tenho o mar embalando-me e sofro

Na vidraça aberta, fronteira ao ângulo com que o meu olhar a colhe E os meus olhos fitos na casa branca sem a ver São outros olhos vendo sem estar fitos nela a nau que se afasta. E eu, parado, mole, adormecido,

Aos próprios palácios distantes a nau que penso não leva. As escadas dando sobre o mar inatingível ela não alberga. Aos jardins maravilhosos nas ilhas inexplícitas não deixa. Tudo perde o sentido com que o abrigo em meu pórtico E o mar entra por os meus olhos o pórtico cessando.

Caia a noite, não caia a noite, que importa a candeia Por acender nas casas que não vejo na encosta e eu lá?

Úmida sombra nos sons do tanque noturna sem lua, as rãs rangem, Coaxar tarde no vale, porque tudo é vale onde o som dói.

E o mundo para além dos vitrais paisagem sem ruínas
A casa branca nau preta
Felicidade na Austrália

Milagre do aparecimento da Senhora das Angústias aos loucos, Maravilha do enegrecimento do punhal tirado para os atos, Os olhos fechados, a cabeça pendida contra a coluna certa,

A Fernando Pessoa

(Depois de ler seu drama estático "O marinheiro" em "Orfeu I")

De eterno e belo há apenas o sonho

Depois de doze minutos Do seu drama O Marinheiro, Em que os mais ágeis e astutos Se sentem com sono e brutos, E de sentido nem cheiro, Diz rima das veladoras Com langorosa magia Por que estamos nós falando ainda?

Ora isso mesmo é que eu ia Perguntar a essas senhoras...

A Frescura

Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que'eu saberia que não vinha
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação
Deliberadamente à mesma hora
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico
Até não consigo acender o cigarro seguinteSe é um gesto,

Ah a frescura na face de não cumprir um dever! Faltar é positivamente estar no campo! Que refúgio o não se poder ter confiança em nós! Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros, Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo, E tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora, É tão engraçada esta parte assistente da vida! Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

A plácida face anônima de um morto.

A plácida face anônima de um morto.

Assim os antigos marinheiros portugueses, Que temeram, seguindo contudo, o mar grande do Fim, Viram, afinal, não monstros nem grandes abismos, Mas praias maravilhosas e estrelas por ver ainda.

O que é que os taipais do mundo escondem nas montras de Deus?

A Praça

Mas amo aquilo, mesmo aquiSei eu
Por que o amo? Não importa. Adiante

A praça da Figueira de manhã, Quando o dia é de sol (como acontece Sempre em Lisboa), nunca em mim esquece, Embora seja uma memória vã. Há tanta coisa mais interessante Que aquele lugar lógico e plebeu,

Se a gente se não põe a olhar para elas
Nenhuma delas em mim serena

Isto de sensações só vale a pena

De resto, nada em mim é certo e está De acordo comigo próprio. As horas belas São as dos outros ou as que não há.

Acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira. Mas não, não é aquela. A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente da visão imediata, Estou outra vez na outra cidade, na outra rua, E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente! Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga, E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso! Ao menos escrevem-se versos. Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por gênio, se calhar, Se calhar, ou até sem calhar, Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos

Mas isto era a respeito de uma rapariga, De uma rapariga loira, Mas qual delas? Havia uma que vi há muito tempo numa outra cidade, Numa outra espécie de rua; E houve esta que vi há muito tempo numa outra cidade Numa outra espécie de rua; Por que todas as recordações são a mesma recordação, Tudo que foi é a mesma morte, Ontem, hoje, quem sabe se até amanhã?

Pode serA rapariga loira?
É a mesma afinal
Tudo é o mesmo afinal

Um transeunte olha para mim com uma estranheza ocasional. Estaria eu a fazer versos em gestos e caretas? Só eu, de qualquer modo, não sou o mesmo, e isto é o mesmo também afinal.

Acordar

Acordar da cidade de Lisboa, mais tarde do que as outras, Acordar da Rua do Ouro, Acordar do Rocio, às portas dos cafés, Acordar E no meio de tudo a gare, que nunca dorme, Como um coração que tem que pulsar através da vigília e do sono.

Não há manhãs sobre cidades, ou manhãs sobre o campo

Toda a manhã que raia, raia sempre no mesmo lugar, À hora em que o dia raia, em que a luz estremece a erguer-se Todos os lugares são o mesmo lugar, todas as terras são a mesma, E é eterna e de todos os lugares a frescura que sobe por tudo.

Uma espiritualidade feita com a nossa própria carne, Um alívio de viver de que o nosso corpo partilha, Um entusiasmo por o dia que vai vir, uma alegria por o que pode acontecer de bom, São os sentimentos que nascem de estar olhando para a madrugada, Seja ela a leve senhora dos cumes dos montes, Seja ela a invasora lenta das ruas das cidades que vão leste-oeste, Seja

Entre o ruído da multidão em vivas
Cheio de individualidade para quem repara

A mulher que chora baixinho O vendedor de ruas, que tem um pregão esquisito, O arcanjo isolado, escultura numa catedral, Siringe fugindo aos braços estendidos de Pã, Tudo isto tende para o mesmo centro, Busca encontrar-se e fundir-se Na minha alma.

Eu adoro todas as coisas E o meu coração é um albergue aberto toda a noite. Tenho pela vida um interesse ávido Que busca compreendê-la sentindo-a muito. Amo tudo, animo tudo, empresto humanidade a tudo, Aos homens e às pedras, às almas e às máquinas, Para aumentar com isso a minha personalidade.

Pertenço a tudo para pertencer cada vez mais a mim próprio E a minha ambição era trazer o universo ao colo Como uma criança a quem a ama beija. Eu amo todas as coisas, umas mais do que as outras, Não nenhuma mais do que outra, mas sempre mais as que estou vendo Do que as que vi ou verei. Nada para mim é tão belo como o movimento e as sensações. A vida é uma grande feira e tudo são barracas e saltimbancos. Penso nisto, enterneço-me mas não sossego nunca.

(Parte 1 de 5)

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