Interpretação de Exames-Lab05

Interpretação de Exames-Lab05

(Parte 1 de 7)

Curso de

Interpretação de Exames Laboratoriais

Atenção: O material deste módulo está disponível apenas como parâmetro de estudos para este Programa de Educação Continuada, é proibida qualquer forma de comercialização do mesmo. Os créditos do conteúdo aqui contido são dados aos seus respectivos autores descritos na Referência Consultada.

Bioquímica

1. Princípios:

A bioquímica, como o próprio nome diz, corresponde à ciência que estuda a química dos processos biológicos que ocorrem em todos os seres vivos. É voltada principalmente para o estudo da estrutura e função de componentes celulares como proteínas, carboidratos, lipídios, ácidos nucléicos e outras biomoléculas. Recentemente a bioquímica tem se focado mais especificamente na química das reações enzimáticas e nas propriedades das proteínas.

Embora seja voltada para o estudo da estrutura e

função dos componentes celulares, a análise bioquímica se processa na parte líquida do sangue, ou seja, no plasma ou no soro, uma vez que a parte líquida corresponde ao meio de transporte das células e para as células e, sua composição reflete a situação celular do organismo. Basicamente as moléculas orgânicas são classificadas em quatro grandes classes de biomoléculas: Os carboidratos (açúcares), lipídeos (gordura), aminoácidos (proteínas) e ácidos nucléicos (DNA e RNA).

Os carboidratos são açúcares e participam da dieta de grande parte do mundo.

Estão presentes em bolos, pães e biscoitos e é a partir da oxidação dessas biomoléculas que se tem a principal via metabólica de obtenção de energia para a maioria das células não fotossintetizantes. Esta propriedade constitui uma das principais características dos

226 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores carboidratos, pois estes ainda participam de estruturas como a parede celular de bactérias e de células vegetais, do glicocálix das células de organismos multicelulares, além de participarem da composição de líquidos lubrificantes nas articulações e no reconhecimento e da coesão célula-célula, dentre outras funções. Os hidratos de carbono (carboidratos) são, em sua maior parte, poliidroxialdeídos ou poliidroxicetonas cíclicos ou substâncias que quando hidrolisadas liberam esses compostos.

Sua fórmula geral é (CH2O)n podendo apresentar em sua estrutura átomos de nitrogênio, enxofre ou

fósforo. A classificação dos carboidratos é feita de acordo com o tamanho que estes assumem. São então classificados como monossacarídeos, oligossacarídeos ou polissacarídeos. Os carboidratos também podem ser encontrados em associação com outras biomoléculas, sejam elas proteínas ou lipídios, que, de uma forma geral, originam os chamados glicoconjugados.

Os lipídeos são substâncias orgânicas hidrofóbicas que podem ser extraídos de células e tecidos por solventes não polares como clorofórmio e éter. Fazem parte as gorduras, óleos, ceras, esteróides e outros. Em contato com a água, alguns lipídeos podem vir a formar micelas, devido ao fato de possuírem caráter anfipático, ou seja, um grupo carboxila em uma de suas extremidades, o que confere certo grau de hidrofilia à molécula de lipídeo, e um grupo apolar na outra.

Essas biomoléculas possuem diversas funções tais como

serem fonte de armazenamento de energia química, participam da constituição das membranas celulares e ajudam na manutenção da umidade e temperatura em animais, o que nas plantas acontece pela formação de uma capa cerosa. Além dessas funções, quando presentes em quantidades relativamente pequenas, têm papéis cruciais como co-fatores enzimáticos, transportadores de elétrons, pigmentos que absorvem radiação luminosa, âncoras hidrofóbicas, agentes emulsificantes, hormônios e mensageiros intracelulares.

227 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores

São armazenados no tecido adiposo e a localização deste no corpo confere proteção contra choques mecânicos.

Os aminoácidos são unidades fundamentais que constituem as proteínas (polipeptídeos), moléculas mais abundantes na natureza, sendo quase 50% do peso seco de uma célula viva. São 20 aminoácidos principais, que podem se unir em ligações covalentes com seqüências próprias.

Cada aminoácido possui um grupo
quiral

carboxila e um amino em comum, ligados a um carbono central, porém cada um possui uma cadeia lateral (ou grupo R) único, que é diferente em estrutura, tamanho, polaridade e solubilidade em água. Esse carbono central é denominado assimétrico como também centro

Os aminoácidos são agrupados por famílias de acordo com seus grupos R e suas características, principalmente a polaridade, ou seja, como cada radical interage com a água em pH biológico. Existem quatro famílias: os grupos R não polares, os grupos R polares não carregados, os grupos R polares negativos e os grupos R polares positivos. Existem ainda aminoácidos especiais, presentes apenas em certas proteínas, derivados dos 20 aminoácidos padrão especificados acima. São alguns deles: 4-hidroxiprolina, 5- hidroxilisina, N-Metil-lisina, ácido Ycarboxiglutâmico, desmosina. Em solução aquosa, essas biomoléculas podem comportar-se como ácido ou base. Isto se deve ao fato de seus grupos amino ou grupo carboxila se ionizarem. Assim, o aminoácido pode apresentar-se como: básico, onde o grupo amino e a carboxila estão protonados, ou seja, receberam prótons; íons dipolares ou zwitterions, onde o grupo amino está protonado e a carboxila não, deixando a molécula eletricamente neutra com carga positiva em um pólo e outra negativa (no grupo amina e na carboxila respectivamente); ácido, onde ambos os grupos doaram prótons e a molécula está totalmente negativa. Dessa forma, os aminoácidos possuem curvas de titulação características, apresentando pK’ de cada grupo da molécula. Possuem ainda duas ou mais regiões onde a força tamponante está

228 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores presente, ou seja, há pouca inclinação da curva com a titulação. Cada aminoácido possui um comportamento individual na curva de titulação

Os nucleotídeos são compostos por uma base nitrogenada, um grupo fosfato e uma ribose ou desoxiribose. Quando, na ausência do grupo fosfato é chamado de nucleosídeos. A base nitrogenada, juntamente com a pentose forma compostos heterocíclicos, sendo que a primeira pode ser derivada de compostos de purina ou pirimidina. São tidas como purinas a adenina (A) e a guanina (G), e as pirimidinas são constituídas pela citosina (C), uracila (U) e timina (T).

Os nucleotídeos estão presentes em vários processos metabólicos e são tidos como subunidades dos ácidos nucléicos, participam do transporte e na conservação de energia (ATP, por exemplo), são encontrados como componentes de alguns co-fatores enzimáticos e alguns apresentam a função de mensageiros químicos celulares, como é o caso do cAMP, um segundo mensageiro que atua fosforilando diversas outras moléculas, desencadeando uma cascata de reações em um determinado processo, como ocorre na liberação de histaminas quando de uma reação alérgica.

O açúcar da subunidade nucleotídica de um ácido nucléico pode ser de dois tipos de pentoses: os desoxirribonucleotídeos do DNA possuem a 2’-desoxi-D-ribose e as unidades ribonucleotídicas de RNA contêm a D-ribose. Nos nucleotídeos, ambos os tipos de pentoses estão na sua forma ß-furanosídica e seus grupos hidroxila formam pontes de hidrogênio com a água circunjacente. Vale lembrar que o grupo fosfato ligado covalentemente a 5-hidroxila de um ribonucleotídeo pode possuir um ou dois fosfatos adicionais ligados, sendo as moléculas resultantes referidas como nucleotídeos mono, di e trifosfatos respectivamente. A hidrólise de nucleotídeos trifosfatos fornece energia química para direcionar uma grande variedade de reações químicas. A adenosina 5´- trifosfato , o ATP, é de longe o mais largamente utilizado, mas o UTP, o GTP e o CTP são também usados em algumas reações. Esses nucleotídeos trifosfatos também funcionam como precursores ativos na síntese do DNA e do RNA.

229 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores

2. ANALITOS DE INTERESSE:

Dentre as inúmeras moléculas presentes no organismo algumas são de grande importância pela possibilidade de detecção de alterações patológicas quando encontradas em valores elevados ou diminuídos no sangue. Esses analitos são quantificados através de reações enzimáticas ou químicas realizadas atualmente em equipamentos automatizados que são capazes de realizar até 250 exames por hora.

Alguns dos mais modernos analisadores de bioquímica 2.1 GLICOSE:

A glicose é essencial para as funções do cérebro, dos eritrócitos e das demais células. O excesso de glicose é armazenado na forma de glicogênio no fígado e nas células musculares. A dosagem de glicose no sangue é um dos exames mais solicitados aos laboratórios clínicos e tem como finalidade diagnosticar e acompanhar o tratamento de portadores de algum distúrbio no metabolismo de carboidratos que levem as situações de hipo ou hiperglicemia.

Um dos problemas mais freqüentes envolvendo carboidratos são o diabetes mellitus, que pode ser descrito como um grupo de doenças metabólicas de diversas etiologias, caracterizado por hiperglicemia, glicosúria e outras manifestações clínicas decorrentes do comprometimento, principalmente, do sistema vascular e do sistema nervoso, levando a lesões em múltiplos órgãos, em especial olhos, rins e coração.

230 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores

231 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores

A prevalência de diabetes mellitus vem crescendo acentuadamente nos últimos anos. A causa apontada para esse aumento são as mudanças de hábitos de vida ocasionados pela acelerada urbanização, levando a um sedentarismo cada vez maior, alimentação desequilibrada, obesidade e estresse contínuo, que facilitam a manifestação da doença em indivíduos geneticamente predispostos. Outro dado importante é o aumento da expectativa de vida média na população, que contribui também para o aumento da prevalência da doença.

Segundo a American Diabetes Association (ADA), a presença de um dos critérios abaixo e sua confirmação num dia subseqüente indica o diagnóstico de diabetes melito: 1) Sintomas de diabetes melito com glicemia independente do jejum maior ou igual a 200mg/dL. 2) Glicemia de jejum maior ou igual a 126mg/dL. 3) Glicemia maior que 200mg/dL após duas horas após administração oral de 75g de glicose anidra (82,5g de dextrosol) dissolvida em água (teste de tolerância).

Pacientes com glicemia de jejum entre 100mg/dL e 125mg/dL são classificados como portadores de glicemia de jejum prejudicada. Leucocitose, hemólise e glicólise em amostras submetidas ao calor ou não imediatamente dessoradas podem determinar hipoglicemia espúria.

Uma nova classificação e novos critérios diagnósticos de diabetes mellitus foram propostos em maio de 2000 pela American Diabetes Association, e endossados pela Organização Mundial de Saúde e pela Sociedade Brasileira de Diabetes.

A classificação etiológica identifica quatro grupos distintos de diabetes: O diabetes tipo 1 apresenta duas formas clínicas. Uma, imunomediada, representa 90% dos casos e cursa com marcadores imunológicos de destruição das células beta pancreáticas, como os anticorpos antiilhota, antiinsulina e anti-GAD, entre outros. A outra corresponde a 10% dos casos que, por não terem etiologia conhecida, são classificados como idiopáticos. Embora seja a principal endocrinopatia diagnosticada na infância e na juventude, o termo diabetes infanto-juvenil não deve ser utilizado, uma vez que, de forma menos freqüente, pode também manifestar-se na idade adulta. O termo insulinodependente também foi abandonado, já que qualquer tipo de diabetes pode, em algum

232 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores momento, levar à dependência em relação à insulina, além de o paciente apresentar labilidade metabólica e grande tendência a cetoacidose e coma.

Os diabetes tipo 2 se caracterizam por resistência periférica à ação da insulina, forte predisposição genética e familiar e deficiência relativa de insulina, que aumenta com a evolução da doença. A maior parte dos pacientes é obeso clássico ou apresenta a chamada obesidade abdominal, que está associada ao aumento da produção de ácidos graxos livres, levando a um maior aporte hepático e provocando hiperinsulinemia por diminuição da ligação e extração de insulina pelo fígado. Ambos os quadros cursam com a resistência periférica da insulina. A glicemia eleva-se de modo gradual e, durante os estágios iniciais, não induz os sintomas clínicos significativos. Com isso, o paciente permanece sem diagnóstico por muito tempo.

O diabetes gestacional é definido como uma intolerância à glicose diagnosticada durante a gravidez. A partir da sexta semana após o parto, nova avaliação deve ser realizada para reclassificação do status da paciente.

Os novos parâmetros diagnósticos para diabetes: A avaliação da dosagem de glicose deve ser confirmada, pelo menos, em duas ocasiões diferentes. O grupo de intolerantes inclui os indivíduos que se afastam da normalidade (faixa de 100 a 125 mg/dL) mas não apresentam alterações suficientes para serem considerados diabéticos.

Mesmo a população aparentemente saudável deve ser submetida a exames, buscando sempre o diagnóstico precoce do diabetes, o que favorece o tratamento. Os casos que devem ser investigados e/ou acompanhados: Pacientes obesos, obesidade abdominal, sedentários, parentes de 1º grau de diabéticos, história de diabetes gestacional, história de macrossomia fetal e abortos de repetição, hipertensão arterial sistêmica, resultados que indicam tolerância diminuída à glicose, níveis aumentados de triglicerídeos e diminuídos de HDL colesterol.

2.2 TESTE DE TOLERÂNCIA ORAL À GLICOSE (TTOG):

Também conhecida como curva glicêmica consiste na administração de Glicose sob a forma de Dextrosol (geralmente 75g, em alguns casos, 100g). Após a coleta do

233 Este material deve ser utilizado apenas como parâmetro de estudo deste Programa. Os créditos deste conteúdo são dados a seus respectivos autores primeiro tempo da curva (jejum), a solução aquosa a 25% de Dextrosol é administrada por via oral e, em seguida realizam-se coletas seriadas de sangue, nos tempos solicitados, para a dosagem de glicose. Quando não houver solicitação a padronização e há coleta nos tempos, 30 minutos, 60 minutos, 120 minutos e 180 minutos. Em crianças, administra-se 1,75 g/kg de peso corporal até a dose máxima de 75 g.

2.3 TRIAGEM GESTACIONAL:

A dosagem da glicose, os tempos de coleta e os critérios diagnósticos são discretamente diferentes para mulheres grávidas e também a critério médico. Em gestantes entre a 24a e a 28a semana de gravidez, pode ser realizado um teste de rastreamento denominado de Diabetes Melitus Gestacional (GDM) ou Teste de Tolerância Oral à Glicose Simplificado.

(Parte 1 de 7)

Comentários