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ANDRADE, Eduardo L. Introdução à Pesquisa Operacional. 2 ed. Rio de Janeiro: LTC, 2000.

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Conceitos de Decisão

e o Enfoque Gerencial

da Pesquisa Operacional

A PESQUISA OPERACIONAL E A ANÁLISE DE DECISÕES

O nome "Pesquisa Operacional" apareceu pela primeira vez durante a Segunda Grande Guerra, quando equipes de pesquisadores procuraram desenvolver métodos para resolver de­terminados problemas de operações militares. O sucesso dessas aplicações levou o mundo académico e empresarial a procurar utilizar as técnicas criadas em problemas de administra­ção.

Desde seu nascimento, esse novo campo de análise de decisão caracterizou-se pelo uso de técnicas e métodos científicos qualitativos por equipes interdisciplinares, no esforço de deter­minar a melhor utilização de recursos limitados e para programação otimizada das operações de uma empresa. Essa característica multidisciplinar das aplicações de Pesquisa Operacional deu origem a um novo enfoque — o enfoque sistémico — aos problemas de decisão das em­presas, pois ultrapassou as fronteiras da especialidade. O especialista tem tendência natural a enquadrar todos os problemas dentro dos limites de sua cultura, mesmo porque é nesse campo que ele se sente mais confortável.

No entanto, a natureza e o ambiente de negócios, mesmo que possam ser logicamente expli­cados pelo raciocínio especialista, são muito mais complexos e abrangentes e por isso exigem abordagem mais aberta que permita reconhecer os múltiplos aspectos envolvidos.

Outra característica importante que a Pesquisa Operacional possui e que facilita muito o processo de análise de decisão é a utilização de modelos. Isto permite a "experimentação", o que significa que uma decisão pode ser mais bem avaliada e testada antes de ser efetivamente implementada. A economia de recursos e a experiência adquirida advindas da experimenta­ção, por si sós, justificam o conhecimento e a utilização da Pesquisa Operacional como instru­mento de gerência.

O imenso progresso da Pesquisa Operacional se deve também, em grande parte, ao desen­volvimento dos computadores digitais, em face de sua velocidade de processamento e capaci­dade de armazenamento e recuperação das informações. Outro fato que atualmente muito con-

tribui para o uso intenso de modelos em análise de decisões é a disseminação dos microcom-putadores, que se tornaram unidades de processamento descentralizadas dentro das empresas. Isto está levando os profissionais de Pesquisa Operacional a desenvolver modelos mais versá­teis, mais rápidos e, principalmente, interativos, que permitem maior participação do homem no desenrolar dos cálculos.

INTRODUÇÃO AO CONCEITO DE DECISÃO

Uma vez que a Pesquisa Operacional é um ramo da ciência administrativa que fornece ins­trumentos para a análise de decisões, vamos na sequência deste capítulo estudar um pouco da Teoria das Decisões.

O objetivo que temos em vista é a procura de entendimento das características principais do processo e de suas dificuldades, de forma que possamos compreender como a Pesquisa Opera­cional, vista como um conjunto de técnicas quantitativas, pode auxiliar a gerência na prepara­ção e tomada de decisão.

Apesar da evidência de que qualquer pessoa sabe o que é uma decisão, vamos comentar os diversos tipos possíveis, uma vez que as técnicas para preparação de decisões variam com a natureza do problema e com o tipo de decisão que deve ser tomada.

Existem várias definições e conceitos de decisão, mas uma que exprime bem a forma como será tratada aqui diz que "uma decisão é um curso de ação escolhido pela pessoa, como o meio mais efetivo à sua disposição para alcançar os objetivos procurados, ou seja, para resolver o problema que a incomoda".

Resumindo, uma decisão é o resultado de um processo que se desenvolve a partir do instan­te em que o problema foi detectado, o que ocorre geralmente através da percepção de sinto­mas. Assim, o processo de decisão empresarial se inicia quando uma pessoa ou grupo percebe sintomas de que alguma coisa está saindo do estado normal desejado ou planejado. A partir dessa percepção, inicia-se a fase de identificação do problema, que é o verdadeiro começo do processo decisório, conforme ilustra a Fig. 1.1.

As organizações procuram desenvolver suas equipes de forma a criar capacitação e meca­nismos para que esse processo se desenvolva com rapidez e naturalidade.

Este conceito de decisão como um processo gerencial explicita claramente a importância das atividades de preparação na tomada da decisão, e é por esta razão que vamos começar nossa análise da teoria por suas características principais.

Algumas Características Principais do Processo de Decisão

As características principais do processo decisório que têm importância na conceituação de racionalidade da ação gerencial são:

• o processo de decisão é sequencial;

• é um processo complexo;

• é um processo que envolve valores subjetivos;

• é um processo desenvolvido dentro de um ambiente institucional com regras mais ou menos definidas.

A) Processo sequencial

Mesmo quando se tem a impressão de que a decisão foi tomada de impulso, ela é consequência de uma série de fatos anteriores que criaram as bases para se chegar à decisão.

Uma decisão significativa é uma compilação de muitas decisões abrangendo um leque de [ aspectos do problema e, frequentemente, requerendo um longo período de tempo.

É muitas vezes difícil apontar com precisão o ponto exato do processo no qual a decisão foi tomada, afluindo durante as discussões na forma de consenso.

B) Processo complexo

Além do fato de que quase sempre a informação relativa ao problema é insuficiente, o pro-cesso decisório consiste em um inter-relacionamento entre pessoas, responsabilidades pelo serviço, comunicação e sistemas de informações, códigos de ética e moral e, às vezes, interes­ses e objetivos diferentes dos participantes.

O inter-relacionamento entre esses elementos e o grau de importância de cada um mudam

a evolução do processo, ao longo do tempo.

É claro, também, que dentro da empresa o próprio processo varia, dependendo do problema ! do nível de decisão requerido. Assim, os processos diferem em:

tamanho do grupo de decisão tipos de sistemas de informações gerenciais tipos de decisões que devem ser tomadas estilo de liderança dos administradores nível da decisão dentro da empresa.

C) Processo inclui valores subjetivos

Embora a maior parte do processo que deve ser seguido para preparar melhores decisões seja identificável e clara, podendo ser repetida por outras pessoas ou em outras ocasiões, o método pelo qual o valor de julgamento do executivo é colocado na decisão é estritamente essoal.

É enorme o número de fatores intuitivos, provenientes de experiência pessoal e personali-ie, envolvidos no processo decisório. E, evidentemente, não se pode negar a importância esses fatores na qualidade da decisão tomada. E o que, em última análise, diferencia o bom do mau administrador.

D) Processo em ambiente institucional

Todas as companhias têm uma estrutura organizacional própria que influencia e muitas vezes ondiciona o processo decisório.

O inter-relacionamento entre pessoas, a forma como se processa o fluxo de informações, as acterísticas da organização e o sistema hierárquico são fatores que afetam fundamentalmente i processo de tomada de decisão.

Grande parte do esforço das organizações em aplicar técnicas modernas de gerência (quali-de total, empowerment, planejamento estratégico, desenvolvimento de equipes etc.) objeti-* a criar um ambiente institucional para a tomada de decisão que possa ser considerado um ponto

forte na avaliação da competitividade da organização no mercado.

Classificação das Decisões

Os problemas que exigem decisões em administração podem ser classificados segundo di­versos critérios. Como nosso interesse aqui é discutir as características das decisões de forma a nos permitir entender melhor as diversas técnicas de aprimorar a racionalidade da decisão, vamos apresentar uma classificação geral em que as decisões são vistas à luz do nível em que ocorrem dentro da empresa e do grau de complexidade envolvido.

Os dois critérios usados aqui são:

A) Nível estratégico

Nível estratégico de uma decisão diz respeito à sua importância e abrangência com relação à organização. Quanto mais as atividades e os resultados de uma organização forem afetados pela decisão, mais estratégica ela será.

B) Grau de estruturação

Refere-se à disponibilidade de indicadores, em ordens ou passos, que possibilitam a repeti­ção e o alcance dos resultados em um processo decisório, em outras ocasiões ou situações. Dessa forma, o grau de estruturação diz respeito à possibilidade de uma decisão ser acompanhada em seu processo de preparação e de conclusão, ou mesmo de ser reproduzida por outras pessoas com os mesmos resultados.

Assim, uma decisão é tão mais estruturada quanto mais intimamente o processo de ser acom­panhado ou mesmo repetido, em outras ocasiões e, eventualmente, até em outros ambientes. Ao contrário, quanto maior o nível de incerteza envolvida nos dados ou o grau de subjetivida-de embutido na decisão, menos estruturada ela será.

A Fig. l .2 mostra esta classificação das decisões e um exemplo de problema de cada tipo.

A

forma de abordagem de cada um dos problemas e o apoio necessário para a solução vão variar de um tipo para outro.

Em todos os tipos são necessárias experiência e intuição humanas, e quanto mais estrutura­do for o problema, mais o administrador pode contar com o auxílio de técnicas e métodos que permitem aumentar o grau de racionalidade da decisão.

Dessa forma, para problemas com alto grau de estruturação, o gerente pode contar com téc­nicas de Pesquisa Operacional, tais como Programação Linear, Teoria das Filas, Teoria dos Estoques, Programação Dinâmica etc.

Para problemas com grau de estruturação médio, as técnicas de apoio oferecidas pela Pes­quisa Operacional são, principalmente, a Simulação, Análise de Risco e Teoria dos Jogos.

No entanto, em todas as situações, essas técnicas dependem do uso eficiente do computa­dor. A capacidade de armazenamento de informações, a facilidade para recuperação destas, a rapidez de processamento de modelos e a versatilidade na geração de relatórios tornaram o computador insubstituível no desenvolvimento de um processo de decisão.

A disseminação dos microcomputadores em todos os tipos e tamanhos de organização re­forçou ainda mais a necessidade-de modelos para análise de decisões, o que dá mais relevância ao papel da Pesquisa Operacional na área de administração de empresas.

Do exposto aqui, podemos concluir que:

• muita criatividade e imaginação são envolvidas no processo de tomada de decisão;

• o processo de decisão não pode ser completamente entendido sem um conhecimento profundo do ser humano;

• o processo é sequencial, envolvendo uma gama de aspectos quantitativos e qualitativos;

• o administrador conta hoje com um vasto ferramental para auxiliá-lo no processo de decisão.

Qualidade da Decisão

Definir o que seja uma decisão de alta qualidade é uma tarefa muito difícil e discutível, e é praticamente impossível de se obter um consenso geral. Às vezes, uma decisão aparentemente inadequada ou mesmo irracional para algumas pessoas hoje torna-se um sucesso no futuro, e causará admiração o fato de ter sido possível decidir daquela forma quando tudo indicava o contrário.

No entanto, felizmente, a maioria das decisões segue um padrão mais perceptível de racio­cínio, e assim podemos identificar algumas características do que seria uma decisão de quali­dade (pelo menos dentro de nossa formação cultural e visão do mundo).

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