O Desertor - Silva Alvarenga

O Desertor - Silva Alvarenga

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O Desertor

Poema Herói-cômico

Por

Manuel Inácio da Silva Alvarenga, na Arcádia Ultramarina Alcindo Palmireno

Discurso sobre o Poema Herói-cômico Canto I Canto I Canto I Canto IV Canto V Sonetos

A imitação da Natureza, em que consiste toda a força da Poesia, é o meio mais eficaz para mover, e deleitar os homens; porque estes têm um inato amor à imitação, harmonia, e ritmo. Aristóteles, que bem tinha estudado a origem das paixões, assim o afirma no cap. 4° da Poética. Este inato amor foi o que logo ao princípio ensinou a imitar o Canto das Aves: ele depois foi o inventor da Flauta, e da

Poesia, como felizmente exprimiu Lucrécio no liv. 1 ° v. 1378.

At liquidas avium voces imitarier ore Ante fuit multo, quam levia carmina cantu Concelebrare homines possent, aureisque juvare. Et Zephyri cava per calamorum sibila primum Agrestes docuere cavas inflare cicutas.

O prazer, que nos causam todas as artes imitadoras, é a mais segura prova deste princípio.

Mas assim como o sábio Pintor para mover a compaixão não representa um quadro alegre, e risonho, também o hábil Poeta deve escolher para a sua imitação ações conducentes ao fim que se propõe: por isso o Épico, que pertende inspirar a admiração, e o amor da virtude, imita uma ação na qual possam aparecer brilhantes o valor, a piedade, a constância, a prudência, o amor da Pátria, a veneração dos Príncipes, o respeito das Leis, e os sentimentos da humanidade. O Trágico, que por meio do terror, e da compaixão deseja purgar o que há de mais violento em as nossas paixões, escolhe ação, onde possa ver-se o horror do crime acompanhado da infâmia, do temor, do remorso, da desesperação, e do castigo: enquanto o Cômico acha nas ações vulgares um dilatado campo à irrisão, com que repreende os vícios.

Qual destas imitações consegue mais depressa o seu fim, é difícil o julgar, sendo tão diferentes os caracteres, como as inclinações; mas quase sempre o coração humano, regido pelas leis do seu amor próprio, é mais fácil em ouvir a censura dos vícios, do que o louvor das virtudes alheias.

O poema Chamado Herói-Cômico, porque abraça ao mesmo tempo uma e outra espécie de poesia, é a imitação de uma ação cômica heroicamente tratada. Este Poema pareceu monstruoso aos Críticos mais escrupulosos; porque se não pode (dizem eles) assinar o seu verdadeiro caráter. Isto é mais uma nota pueril, do que bem fundada crítica; pois a mistura do heróico, e do cômico não envolve a contradição, que se acha na Tragicomédia, onde o terror, e o riso mutuamente se destroem.

Não obsta a autoridade de Platão referida por muitos; porque quando este Filósofo no Diálogo 3 da sua República parece dizer que são incompatíveis duas diversas imitações, fala expressamente dos Autores Trágicos, e Cômicos, que jamais serão perfeitos em ambas.

Esta Poesia não foi desconhecida dos Antigos. Homero daria mais de um modelo digno da sua mão, se o tempo, que respeitou a Batracomiomaquia, deixasse chegar a nós o seu

Margites, de que fala Aristóteles no cap. 4 da Poética, dizendo que este poema tinha com a

Comédia a mesma relação que a Ilíada com a Tragédia. O Culex, ou seja de Virgílio, ou de outro qualquer, não contribui pouco para confirmar a sua antiguidade.

Muitos são os poemas herói-cômicos modernos. A Secchia rapita de Tassoni é para os Italianos o mesmo que o Lutrin de Boileau para os Franceses, e o Hudibraz de Butler, e o Rape of the lock de Pope para os Ingleses.

Uns sujeitaram o poema herói-cômico a todos os preceitos da Epopéia, e quiseram que só diferisse pelo cômico da ação, e misturaram o ridículo, e o sublime de tal sorte, que servindo um de realce a outro, fizeram aparecer novas belezas em ambos os gêneros. Outros omitindo, ou talvez desprezando algumas regras, abriram novos caminhos à sua engenhosa fantasia, e mostraram disfarçada com inocentes graciosidades a crítica mais insinuante, como M. Gresset no seu Ververt.

Não faltou quem tratasse comicamente uma ação heróica; mas esta imitação não foi também recebida, ainda que a Paródia da Eneida, de Scarron, possa servir de modelo.

É desnecessário trazer à memória a autoridade, e o sucesso de tão ilustres Poetas para justificar o

Poema Herói-cômico, quando não há quem duvide que ele, porque imita, move, e deleita: e porque mostra ridículo o vício, e amável a Virtude, consegue o fim da verdadeira poesia.

Omne tulit punctum, qui miscuit utile dulci. Horat. Poet. v. 342.

Discit enim citius, meminitque libentius illud, Quod quis deridet, quam quod probat, ac veneratur. Horat. Epist. I. 1. 2. v. 262.

Musas, cantai o Desertor das letras, Que, depois dos estragos da Ignorância, Por longos, e duríssimos trabalhos Conduziu sempre firme os companheiros Desde o loiro Mondego aos Pátrios montes. Em vão se opõem as luzes da Verdade Ao fim, que já na idéia tem proposto: E em vão do Tio as iras o ameaçam.

E tu, que à sombra duma mão benigna, Gênio da Lusitânia, no teu seio De novo alentas as amáveis Artes; Se ao surgir do letargo vergonhoso Não receias pisar da Glória a estrada, Dirige o meu batel, que as velas solta, O porto deixa, e rompe os vastos mares De perigosas Sirtes povoados.

Quais seriam as causas, quais os meios Por que Gonçalo renuncia os livros? Os conselhos, e indústrias da Ignorância O fizeram curvar ao peso enorme De tão difícil, e arriscada empresa. E tanto pode a rústica progênie!

A vós, por quem a Pátria altiva enlaça Entre as penas vermelhas, e amarelas Honrosas palmas, e sagrados loiros, Firme coluna, escudo impenetrável Aos assaltos do Abuso, e da Ignorância, A vós pertence o proteger meus versos. Consenti que eles voem sem receio Vaidosos de levar o vosso nome Aos apartados climas, onde chegam Os ecos imortais da Lusa glória.

Já o invicto Marquês com régia pompa Da risonha Cidade avista os muros. Já toca a larga ponte em áureo coche. Ali junta a brilhante Infantaria; Ao rouco som de música guerreira Troveja por espaços: a justiça, Fecunda mãe da Paz, e da Abundância, Vem a seu lado: as Filhas da Memória Digna imortal coroa lhe oferecem, Prêmio de seus trabalhos: as Ciências Tornam com ele aos ares do Mondego; E a Verdade entre júbilos o aclama

Renasce o vingador da antiga afronta

Restaurador do seu Império antigo. Brilhante luz, paterna liberdade, Vós, que fostes num dia sepultadas Co bravo Rei nos campos de Marrocos, Quando traidoras, ímpias mãos o armaram Vítima ilustre da ambição alheia, Tornai, tornai a nós. Da régia stirpe Assim o novo Cipião crescia Para terror da bárbara Cartago. Possam meus olhos ver o Ismaelita Nadar em sangue, e pálido de susto fugir da morte, e mendigar cadeias; E amontoando Luas sobre alfanges Formar degraus ao Trono Lusitano. Dissiparam-se as trevas horrorosas, Que os belos horizontes assombravam, E a suspirada luz nos aparece. Tal depois que raivoso, e sibilante Sobre o carro da Noite o Euro açoita Os tardios cavalos do Bootes, E insulta as terras, e revolve os mares, Raia a manhã serena entre doiradas, E brancas nuvens: ri-se o Céu, e a Terra: Vento dorme, e as Horas vigilantes Abrem ao claro Sol a azul campanha.

A soberba Ignorância entanto observa, E se confunde ao ver o próprio trono Abalar-se, e cair: o seu ruído Redobra os ecos nos opostos vales, E o Mondego feliz ao mar undoso Leva alegre a notícia, porque chegue Das suas praias aos confins da Terra. Ela abatida, e só não acha abrigo, E desta sorte em seu temor suspira.

Verei eu sepultar-se entre ruínas O meu reino, o meu nome, e a minha glória; Depois de ser temida, e respeitada? Pobre resto de míseros vassalos Não há mais que esperar. Já fui rainha: Já fostes venturosos: não soframos As injúrias, que o vulgo nos prepara: Injúrias mais cruéis do que a desgraça. Deixemos para sempre estes terríveis Climas de mágoa, susto, horror, e estrago. Mostrai-me algum lugar desconhecido,

IreiAssim falando misturava

Onde oculta repouse, até que possa Tomar de quem me ofende alta vingança. Mas onde, se um Prelado formidável, Esse Argos, que me assusta, vigilante Ao lugar mais remoto estende a vista? Monstros do cego abismo, em meu socorro Empenhai o poder do vosso braço; Que se entre os homens me faltar asilo, Ao triste vão dos ásperos rochedos, Onde o Tenaro escuro, e cavernoso Da morada sombria as portas abre, Irei chorar meus dias sem ventura: Gemidos, e soluços, que sufocam Dentro do peito a voz, e umedecia Co pranto amargo a face descorada. Mas logo, serenando o rosto aflito, Corre por entre sustos, e esperanças Ao caro abrigo do fiel Gonçalo. A sonolenta, a pigra Ociosidade Por esta vez deixou de acompanhá-la: E a lânguida Perguiça forcejando Pôde apenas segui-la com os olhos.

Toma a forma dum célebre Antiquário Sebastianista acérrimo, incansável, Libertino com capa de devoto. Tem macilento o rosto, os olhos vivos, Pesado o ventre, o passo vagaroso. Nunca trajou à moda: uma casaca Da cor da noite o veste, e traz pendentes Largos canhões do tempo dos Afonsos. Dizem que o tempo da mais bela idade Consagrou às questões do Peripato. Já viu passar dez lustros, e experiente Sabe enredos urdir, e pôr-se em salvo. Entra por toda a parte, e em toda a parte É conhecido o nome de Tibúrcio.

Gonçalo, que foi sempre desejoso Da mais bela instrução, lia, e relia Ora os longos acasos de Rosaura, Ora as tristes desgraças de Florinda, E sempre se detinha com mais gosto Na cova Tristiféia, e na passagem Da perigosa ponte de Mantible. Repetia de cor de Albano as queixas Chamando a Damiana injusta, ingrata; Quando Tibúrcio apaixonado, e triste Ralhando entrou. Que esperas tu dos livros? Crês que ainda apareçam grandes homens Por estas invenções, com que se apartam Da profunda ciência dos antigos? Morreram as postilas, e os Cadernos:

Caiu de todo a Ponte, e se acabaram As distinções, que tudo defendiam, E o ergo, que fará saudade a muitos! Noutro tempo dos Sábios era a língua Forma, e mais forma: tudo enfim se acaba, Ou se muda em pior. Que alegres dias Não foram os de Maio, quando a estrada Se enchia de Arrieiros, e Estudantes! Ó tempo alegre, e bem-aventurado! Que fácil era então o azul Capelo Adornado de franjas, e alamares, O rico anel, e a flutuante borla, Honra, e fortuna, que chegava a todos! Hoje é grande a carreira, e serão raros Os que se atrevam a tocar a meta. Ah Gonçalo! Gonçalo! que mais vale Tirar coa própria mão no fértil Souto Moles castanhas do espinhoso ouriço! Quanto é doce ao voltar da Primavera O saboroso mel no loiro favo! Ó alegre, e famosa Mioselha Fértil em queijos, fértil em tramoços! Só lá de romaria em romaria Podes viver feliz, e descansado: Quem te obriga a levar sobre os teus ombros O desmedido peso, que te espera? Não tenhas do bom Tio algum receio: Comigo irás: bem sabes quanto posso. Se te envergonhas de ser só, descansa; Fiel parente, amigo inseparável, Eu farei que abraçando o mesmo exemplo Muitos se apressem a seguir teus passos.

Assim falava: quando um ar de riso Apareceu no rosto de Gonçalo. Tudo o que se deseja se acredita; Nem há quem o seu gosto desaprove. Ele porque já traz no pensamento Poupar-se dos estudos à fadiga Não vacila na escolha, e se aproveita Da feliz ocasião, que lhe assegura O meditado fim de seus desejos.

Convocam-se os heróis, e deliberam Em pleno consistório, onde Gonçalo Silêncio pede, e assim a todos fala. Heróis, a quem uma alma livre anima, Que desprezando as Artes, e as Ciências, Ides buscar da Pátria no regaço, Longe da sujeição, e da fadiga Doce descanso, amável liberdade: Se algum de vós (o que eu não creio) ainda Tem na alma o vão desejo dos estudos, Levante o dedo ao alto. Uns para os outros olharam de repente, e de repente Rouco, e brando sussurro ao ar se espalha: Qual nos bosques de Tempe, ou nas frondosas Margens, que banha o plácido Mondego, Costuma ouvir-se o Zéfiro suave, Quando meneia os álamos sombrios. Nenhum alçou a mão, e a Ignorância Pareceu consolar-se, imaginando Sonhadas glórias de futuro império.

Dispõe-se a companhia, e se aparelha Para partir antes que o Sol desate Sobre a Terra orvalhada as tranças d'oiro. Tibúrcio tudo apronta. Mas Janeiro Loquaz, traidor, doméstico inimigo Voa de casa em casa publicando Da forte esquadra a próxima partida.

Não disseste mil vezesmas que importa

Guiomar, velha que há muito que insensível Às delícias do amor, aferrolhando Emagrece nos míseros cuidados Da faminta ambição, e é na Cidade Uma ave de rapina, que entre as unhas Leva tudo o que encontra aos ermos cumes Da escalvada montanha, onde a festejam Coa boca aberta os ávidos filhinhos: Triste agora, e infeliz ouve, e se assusta Das notícias cruéis, que o Moço espalha. Ó Ama desgraçada! Ó dia infausto! Agora que esperava mais sossego Principiam de novo os meus trabalhos! Estas, e outras palavras arrancava Do peito descontente, enquanto a Filha Amorosa, e sagaz estuda os meios, Com que possa deter o ingrato amante: Faz ajuntar de partes mil à pressa Cordões, e anéis, e a pedra reluzente, Que os olhos desafia: os seus cabelos, Que desconhecem o toucado, empasta Coa cheirosa pomada: a Mãe se lembra Da própria mocidade, e lhe vai pondo Com a trêmula mão vermelhas fitas. Simples noiva da aldeia, que ao mover-se Teme perder o desusado adorno, Nunca formou mais vagarosa os passos. Narcisa chega entre raivosa, e triste, E fingindo esquecer-se da mantilha Para mostrar-se irada, desta sorte Em alta voz lhe fala. Será certo Que pertendes fugir, e que me deixas Infeliz, enganada, e descontente? Assim faltas cruel, pérfido, ingrato Dum longo amor aos ternos juramentos?

Que os meus males recorde? enfim, perjuro, As tuas vãs promessas me enganaram. Justiça pedirei ao Céu, e ao Mundo: O mundo tem prisões, o Céu tem raios.

E então farás tibornas e magustos

Falava; e o herói, que arrasta ainda Dum incômodo amor os duros ferros, Parece vacilar; quando Tibúrcio Dá conselhos a um, a outro ameaça Pondo irados os olhos em Narcisa. Diz-lhe que em vão suspira, que em vão chora E que sempre tiveram as mulheres Para enganar aos míseros amantes As lágrimas no rosto, o riso na alma. Gonçalo então, que o seu dever conhece, Dá provas de valor, e de prudência. Ouve Narcisa bela, (lhe dizia) Serena a tua dor, e os teus queixumes: O teu pranto me move, injusto pranto, Que o meu constante amor de ingrato acusa: Sossega: a nova herança dum morgado É quem me chama, a ausência será breve. Tempo depois virá que em doces laços Eterno amor as nossas al mas prenda, Nem sempre cobre o mar a longa praia: Nem sempre o vento com furor raivoso Do robusto pinheiro o tronco açoita.

Acaba de falar, e lhe oferece A leve bolsa, que Narcisa aceita Como penhor sincero de amizade, Bolsa, que deve ser na dura ausência Breve consolação de tristes mágoas.

O experto Amigo, que se mostra em tudo Companheiro fiel, com os olhos tristes, Pondera os longos, e ásperos caminhos: Lembra funestas noites de estalagem, E adverte em vão, que ao menos por cautela Deve fazer-lhe a bolsa companhia. Deixando enfim inúteis argumentos Remete a decisão ao próprio braço. Não se esquecem das unhas, nem dos dentes, Armas, que a todos deu a Natureza. Ouvem-se pela casa em som confuso As troncadas injúrias, e os queixumes. Assim dois cães, se o hóspede imprudente Lança da mesa os ossos esburgados, Prontos avançam; duma, e doutra parte Se vê firme o valor: mordem-se, e rosnam; Mas não cessa a contenda. Amigo, e amante, Que farias, Gonçalo, em tanto aperto? Concorre a plebe, e o férvido tumulto

Vai pelas negras Fúrias conduzido Despertando nos peitos a desordem. Ninguém sabe por quê, mas todos gritam. Já voam as cadeiras pelos ares: Pedras, e paus de longe se arremessam. E se a cândida Paz com rosto alegre Serenou as desgraças deste dia, Os teus dentes, intrépido Gonçalo, Viste voar em negro sangue envoltos. Torna alegre Narcisa, e cinco vezes Abriu a bolsa, e numerou a prata: Fez diversas porções, que num momento Tornou a confundir: não doutra sorte O menino impaciente, e cobiçoso, Quando alcança o que há muito lhe negavam, Repara, volta, move, ajunta, espalha, E neste giro o seu prazer sustenta.

Entanto a mãe, que já por experiência Os enganos conhece mais ocultos, Busca novos pretextos de vingança Fingindo torpes, e horrorosos crimes,

E espera ouvir gemer em poucas horas O mancebo infeliz em prisão dura. Mas Rodrigo, que ouviu o rumor vago, À pressa chega, e desta sorte fala.

Que desgraças te esperam! foge, foge Gonçalo, enquanto há tempo: gente armada Vem logo contra ti. Guiomar convoca Todo o poder do mundo: um só momento Não percas, caro amigo; os companheiros Com alvoroço esperam. Ah deixemos, Deixemos duma vez estas paredes, Onde co próprio sangue escrita deixas De teu trágico amor a breve história. É já outro o Mondego: a liberdade Destes campos fugiu, e só ficaram A dura sujeição, e o triste estudo. Enfim hei de apartar-me desta sorte? Ó sempre tristes, sempre amargos sejam Os teus últimos dias, velha infame. Gonçalo, sim, chorando, monta, e parte.

Vir do sétimo Rei dos Longobardos

Com largo passo longe do Mondego Alegre a forte gente caminhava. Gonçalo excede a todos na estatura, Na força, no valor, e na destreza. Sobre um magro jumento se escarrancha Tibúrcio, e já dum ramo de salgueiro Desata ao Norte fresco, que assobia, Por vistoso estandarte um lenço pardo. Cosme infeliz, e sempre namorado Sem ser correspondido, vai saudoso, Ama, e não sabe a quem: vive penando, E se consola só porque imagina Que tem de conseguir melhor ventura. Rodrigo, que de todos desconfia, É de índole grosseira, e gênio bruto, Não conhece os perigos, nem os teme: Melancólico sempre, vai por gosto Viver na choça, aonde foi criado. Qual o Tatu, que o destro Americano Vivo prendeu, e em vão depois se cansa Por fazê-lo doméstico, que sempre Temeroso nas conchas se recolhe E parece fugir à luz do dia. Também vinha Bertoldo, e traz consigo Carunchosos papéis por onde afirma Grita contra as riquezas, a Fortuna, Segundo o que ele diz, não muda o sangue: Pisa com força o chão, e empavesado

De ações, que ele não pode chamar suas, Aos outros trata com feroz desprezo. Iracundo Gaspar, que te enfureces No jogo, e quando perdes não duvidas Meter a mão à ferrugenta espada, Tu não ficaste: 'as noites sobre os livros Não queres suportar, porque não temes Da já viúva mãe as frouxas iras. Nem tu, Alberto alegre, e desejado Das vistosas funções das romarias, Que és vivo, pronto, e ágil, e nos bailes Tens fama de engraçado, e garganteias Coa viola na mão trocando as pernas. Os que aprendem o nome dos autores, Os que lêem só o prólogo dos livros, E aqueles, cujo sono não perturba O côncavo metal, que as horas conta, Seguiram as bandeiras da ignorância Nos incríveis trabalhos desta empresa.

O Sol já sobre os campos de Anfitrite Inclina o carro, e as nuvens carregadas Importunos chuveiros ameaçam; Quando a velha estalagem os recebe.

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