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1.Pesquisadora - FAPEMIG/UFLA. 2.Professor Titular do Departamento de Zootecnia/UFLA

SILAGEM DE CAPIM-ELEFANTE (Pennisetum purpureum Schum)

Josiane Aparecida de Lima1 Antônio Ricardo Evangelista2

1 Introdução

Apesar de ser relativamente fácil obter silagem de boa qualidade de milho e de sorgo, é também possível produzir silagens de média a boa qualidade utilizando-se capins, sendo mais recomendado os capins do grupo elefante (Pennisetum purpureum Schum). Após o milho e o sorgo, essa é uma das forrageiras tropicais que apresenta melhores características para ensilar, em face de sua alta produtividade, elevado número de variedades, grande adaptabilidade, facilidade de cultivo, boa aceitabilidade pelos animais e, quando novo, bom valor nutritivo.

Considerando-se que grande parte da produção anual das forrageiras concentra-se na época de chuvas e que o crescimento acumulado reduz o valor nutritivo, o capim-elefante, quando utilizado na forma de silagem, é mais uma alternativa na alimentação animal na época seca, além de possibilitar um aproveitamento mais eficiente da produção da área cultivada.

6 2 Silagem Exclusiva de Capim-Elefante

Escolha da Variedade

Entre os capins do grupo elefante, para corte, principalmente em função do rendimento, um dos destaques tem sido o cameroon. No caso de não se obterem mudas dessa variedade, outras podem ser utilizadas, como por exemplo, o napier, napier roxo, taiwan, mineiro, porto rico e vrukwona, entre outros. Existe diferença de rendimento entre essas variedades; entretanto, de maneira geral, quando bem manejadas, o rendimento é bom.

Quanto à qualidade da silagem, também há diferenças entre as variedades; porém, se toda a metodologia for seguida, a silagem de capim-elefante, de qualquer variedade, resulta em silagem de qualidade considerável.

Preparo do Solo

As gramíneas, principalmente as que são multiplicadas por mudas, necessitam de solo bem preparado para ocorrer o plantio com enraizamento mais profundo, evitando-se tombamento, conferindo maior tolerância à seca e maior rendimento. Nesse sentido, o preparo do solo deve constar basicamente de uma aração realizada a 20-30 cm de profundidade e duas gradagens.

Entretanto, as práticas de preparo do solo podem variar de acordo com a área e com o uso antecedente desta.

Adubação

O capim-elefante, planta exigente, requer solos com boa fertilidade para expressar o seu elevado potencial de produção. O ideal é basear-se na análise de solo para que se possa realizar uma fertilização correta em função dos teores dos nutrientes no solo e da produção esperada.

A adubação de plantio deve suprir o fósforo e parte do potássio necessários para o ano de cultivo; o restante do potássio e o nitrogênio total podem e devem ser fornecidos em cobertura e parcelados durante o ano de cultivo. Como sugestão e suscetível de adaptação, conforme cada condição, colocar no sulco de plantio, 50 a 100 kg de P2O5/ha

(280 a 560 kg de superfosfato simples/ha), 50 kg de K2O/ha (100 kg de cloreto de potássio/ha), 2 kg de zinco/ha (10 kg de sulfato de zinco/ha). Recomenda-se fazer uma rápida incorporação do fertilizante ao solo dentro do sulco, o que pode ser feito passando o ‘olho’ da enxada, que vai misturando um pouco de solo e adubo, para, em seguida, colocarem as mudas.

Com relação ao enxofre, recomenda-se, para áreas com comprovada carência, a aplicação de 20 a 40 kg/ha. Entretanto, quando o adubo fosfatado utilizado no plantio for o superfosfato simples, essas doses de enxofre são normalmente atendidas conjuntamente com o fósforo.

Recomenda-se, também, a colocação de esterco de curral, até 30 toneladas/ha, a fim de garantir rápida formação da cultura e sua produtividade.

A cobertura é feita quando o capim estiver com cerca de 40 a 50 cm de altura. Nesse momento, podem-se usar 200 kg de cloreto de potássio/ha e 300 kg de sulfato de amônio/ha, distribuídos a lanço sobre a cultura ou entre as linhas de plantio do capim, em dias chuvosos. Nova adubação em cobertura deve ser feita imediatamente após o primeiro corte, colocando-se novamente 200 kg de cloreto de potássio/ha e 300 kg de sulfato de amônio/ha.

Plantio

Com relação à época, o plantio deve ser realizado durante o verão, mais precisamente no início das chuvas. A utilização de mudas de boa qualidade é de extrema importância para o bom estabelecimento da cultura, e as mudas (que são os colmos) pa- ra plantio devem estar com ±100 dias de crescimento. A planta ideal para ser utilizada como muda deve apresentar gemas laterais bem protuberantes, porém, sem qualquer início de brotação.

Sabe-se que as melhores mudas são obtidas dos 2/3 inferiores do colmo. Em geral, utilizam-se em torno de quatro toneladas de mudas para plantar um hectare, ou seja, um hectare fornece mudas para dez hectares.

Com relação ao plantio propriamente dito, as mudas podem ser colocadas inteiras no sulco sem a necessidade de serem desfolhadas. Duas mudas paralelas permitem maior perfilhamento por metro. Se as mudas forem cortadas em frações contendo 3 a 5 gemas, o perfilhamento aumenta.

Com relação ao espaçamento, este varia em função do método de plantio, ou seja, covas ou sulcos. No plantio em covas, recomenda-se o espaçamento de 0,8 a 1,0 m entre linhas e de 0,5 a 0,8 m entre covas. No plantio em sulcos, recomenda-se o espaçamento de 0,8 a 1,0 m entre linhas. Espaçamentos maiores facilitam o desenvolvimento das plantas invasoras, em função da demora na cobertura do solo pela cultura.

Outro aspecto que deve ser considerado é a forma de colocação das mudas dentro do sulco de plantio. Elas devem ser colocadas de forma que o "pé" de uma trespasse a "ponta" da outra. Essa prática tem a finalidade de garantir uniformidade de brotação, quando não é possível colocar duas mudas emparelhadas. Recomenda-se, também, colocar pouca terra por cima da muda, devendo-se cobri-las com aproximadamente 5 cm de solo.

Colheita

Para colher o capim-elefante, deve-se aliar rendimento e qualidade, e para que isso ocorra após o primeiro corte, o capim deve ser colhido com idade entre 60 e 90 dias. Entretanto, nessa idade, ocorre uma grande limitação da forrageira para ensilagem, que é a excessiva umidade, característica comum da espécie na idade ideal de corte. Na Tabela 1 pode-se observar as características da forragem do capim-elefante submetido a diferentes tratamentos.

TABELA 1. Teor de matéria seca, carboidratos solúveis e capacidade tampão do capim-elefante cv. Taiwan A-148 no momento da ensilagem

Matéria Seca

Carboidratos Solúveis Capacidade Tampão

Emurchecido 12 h 21,61 ab 14,7 a23,86 a
Emurchecido 24 h 30,2 ab 12,42 b23,54 a

Controle 15,94 c 14,50 a 23,23 ab 20% de sabugo 2,2 ab 1,15b c 14,80 c 30% de sabugo 2,10 ab 10,04 c 12,74 cd 40% de sabugo 31,38 ab 7,50 d 1,1 d

mento 24 h 3,75 a10,50 c 20,8 b

Esmagamento + emurcheci-

Médias com letras diferentes na coluna diferem (P<O.05) pelo teste de Tukey FONTE: Tosi et al., 1999.

Ressalta-se que o elevado teor de umidade da forrageira pode ser reduzido pela prática do emurchecimento, que é indicado como um dos métodos mais eficientes, técnica e economicamente, na elevação do teor de matéria seca de forrageiras a serem ensiladas. Nesse sentido, recomenda-se cortar o capim e deixá-lo exposto ao sol, por um período de seis a oito horas, para posterior trituração. Essa prática é realizada com o objetivo de reduzir a ocorrência de fermentações secundárias. Aliado a esse fato, o emurchecimento da forrageira também pode eliminar a produção de efluentes após a forragem ser ensilada, fato muito comum ao ensilar esse capim com umidade superior a 70%. Porém, o emurchecimento é inviável quando se emprega colheita totalmente mecanizada, o que normalmente é feito quando se trabalha com produções de silagem acima de 100 toneladas/ano. Na Tabela 2 podem ser observados os efeitos da adição de sabugo ou do emurchecimento do capim-elefante sobre algumas características da silagem, características essas indicadoras da qualidade de fermentação que ocorreu no interior do silo.

TABELA 2. Teor de matéria seca (MS), proteína bruta (PB), valores de pH, digestibilidade 'in vitro' da matéria seca (DIVMS) e crescimento de clostrídeos nas silagens de capim-elefante Taiwan A-148

Tratamentos MS

Clostrídeos Log UFC*

Médias com letras diferentes na coluna diferem (PL<0.05) pelo teste de Tukey *Logaritmo do número de Unidades Formadoras de Colônias/gMS. FONTE: TOSI et al., 1999 (Adaptado).

Colheita manual - Neste caso, faz-se o corte e transporta- se o material para ser picado próximo ao silo. No processo de picagem, é mais comum o uso de motores elétricos para acionar os equipamentos. Outra estratégia é a picagem do material no próprio campo, o que leva à redução nos gastos com transporte e, neste caso, para picagem, utilizam-se equipamentos acionados por meio de motores a óleo ou tratores.

Colheita mecânica - recomendável para produções acima de 100 toneladas/ano, sendo esta realizada com as chamadas ensiladeiras, que realizam o corte e a picagem simultânea do material.

Quanto à altura de corte, recomenda-se cortar o capimelefante o mais baixo possível; entretanto, na prática, isso geralmente ocorre entre 15-20 cm do solo.

Rendimento: o capim-elefante bem conduzido, com 60 a

90 dias de crescimento, tem cerca de dois metros de altura. Nessas condições, apresenta, em média, rendimento de 50-80 toneladas/ha por corte, dependendo, é claro, do manejo da cultura, principalmente no que se refere ao número e às épocas de corte e adubação de reposição de nutrientes ao solo.

Uso da Silagem

A silagem de capim, em função da menor qualidade e do menor custo em relação às silagens de milho e de sorgo, aplicase para vacas de menor potencial produtivo, para animais que não estão produzindo leite e para engorda de bovinos. É lógico que para animais com maiores requerimentos nutricionais, como é o caso de vacas leiteiras, haverá necessidade de complementar a silagem com o fornecimento criterioso de concentrados. O ideal seria, após conhecer a qualidade da silagem, fazer a composição da dieta diária, ou seja, volumoso e concentrado. Para produções acima de 20 kg de leite/dia, recomenda-se associar a silagem de capim com outro volumoso de melhor qualidade, tais como: silagem de milho ou um bom feno.

A silagem de capim é também indicada para bovinos de corte suplementados a pasto e em confinamento, animais de serviço, vacas secas e outros animais que não estejam em produção.

Atualmente há uma procura pela obtenção de máximo rendimento por área explorada e, nesse caso, propriedades com limitações de área têm na silagem de capim uma boa alternativa para maximizar a eficiência dos recursos disponíveis, principalmente instalações e equipamentos.

Nesse sentido, na EMBRAPA (CPPSE), vem sendo estudado o manejo da pastagem, intensificando-se os sistemas de produção de capim-tanzânia, em que os animais são mantidos com a forragem oriunda do pastejo na época de chuvas e suplementados com silagem produzida do excesso da forragem do período das chuvas. Com relação à qualidade, as silagens provenientes do capim-tanzânia apresentaram: 20 - 2% de matéria seca, 5,8 - 7,0% de proteína bruta, pH 4,4 - 4,7, 46 - 50% de digestibilidade 'in vitro' da matéria seca e 1,6 - 1,7 kg de consumo de matéria seca/100 kg de peso vivo.

3 Aditivos na Ensilagem de Capim-Elefante

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