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GARAPA Um filme de José Padilha

ZaZEN PRodUÇÕEs, doWNToWN FilMEs E PETRoBRas apresentam

Documentário / 110 min / Preto e branco / 35mm / Brasil / 2009

Produção ZaZEN PRodUÇÕEs

Coprodução EsTÚdios MEGa iNsTiTUTo da CRiaNÇa

Patrocínio PETRoBRas CaiXa ECoNÔMiCa FEdERal

Apoio Cultural iBasE KodaK QUaNTa GoVERNo do CEaRÁ GoVERNo FEdERal

Direção José Padilha

Produção

José Padilha MaRCos PRado

Roteiro

FEliPE laCERda José Padilha

Montagem FEliPE laCERda

Fotografia e Câmera MaRCEla BoURsEaU

Som Direto e Edição de Som YaN saldaNha

Mixagem RodRiGo NoRoNha

Produção Executiva

JaMEs d’aRCY MaRiaNa BENTEs

Assistente de Direção alEXaNdRE liMa

Assistentes de Produção

CaRMEM lEVY

JoaNa GRaNaTo PaTRÍCia BoN

SinoPSe

Segundo a ONU, mais de 920 milhões de pessoas sofrem de fome crônica no mundo. O impacto desses números depende da nossa compreensão do que significa “passar fome”. Geralmente, os meios de comunicação discutem a questão a partir de uma perspectiva macroscópica, debatendo as causas ambientais, geográficas, econômicas e políticas da fome. Embora este debate seja fundamental, continuamos, no entanto, sem saber como é a vida das pessoas que passam fome. Para que se compreenda o real significado do problema, é necessário conhecê-lo de perto. GARAPA é o resultado dessa preocupação. O filme é fruto de mais de 45 horas de material filmado por uma pequena equipe que, durante quatro semanas, acompanhou o cotidiano de três famílias no estado do Ceará. À frente dessas famílias estão Rosa, Robertina e Lúcia – mulheres que, diante das condições mais adversas buscam estratégias de sobrevivência.

inTRoDUÇÃo

Responsável por um dos filmes mais polêmicos e bem sucedidos do cinema brasileiro contemporâneo – o policial Tropa de Elite, visto por mais de 2,7 milhões de espectadores em 2007 e ganhador do Urso de Ouro de melhor filme no Festival de Berlim de 2008 –, a ZAZEN Produções volta à cena com GARAPA, documentário sobre a questão da fome crônica.

O projeto de Garapa nasceu em meados de 2001, a partir de uma conversa entre José Padilha e Marcos Prado, amigos e sócios na Zazen. “Tínhamos uma preocupação séria em relação a dois temas que gostaríamos de desenvolver: a questão da fome no Brasil e o problema global da escassez da água”, conta Marcos Prado. “Decidimos então que Padilha faria o documentário sobre a Fome – que se tornou o Garapa – e eu desenvolveria o projeto sobre o problema da água, que está em fase de desenvolvimento”.

Com essa idéia na cabeça, Padilha visitou o Ibase (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas, fundado pelo sociólogo Herbert de Souza em 1981), onde conheceu Francisco Menezes, um dos diretores do instituto, de quem ficou amigo. Ao entrar em contato com uma questão tão delicada e complexa, o cineasta achou que seria fundamental fornecer um ponto de vista alternativo à forma distanciada como o assunto costuma ser tratado na grande mídia – algo que ele já havia experimentado em Ônibus 174, filme que humanizou um episódio carioca trágico, tratado com sensacionalismo pelos meios de comunicação.

“Lendo os dados da ONU, do Ibase ou do IBGE você pode aprender que milhões de pessoas no mundo e no Brasil sofrem de deficiência alimentar grave. Mas isto não significa que você tenha entendido o que é a fome crônica para quem luta contra ela no dia a dia. Garapa documenta a fome do ponto de vista de quem passa fome. O filme foi feito para que o público em geral possa ter uma idéia do impacto que a insegurança alimentar grave tem na vida das pessoas que estão nesta situação.”

FoME CRôniCA

Na medida em que aprofundou sua pesquisa, Padilha encontrou na obra de Josué de Castro (1908-1973) algumas idéias que foram fundamentais no estabelecimento dos conceitos básicos do filme. Em Geografia da fome, escrito em 1946, Josué de Castro cria uma distinção entre a fome aguda (starvation, em inglês), aquela em que as pessoas ficam sem comer nada e que em determinado prazo leva à morte, e a fome crônica (ou subnutrição crônica), que se manifesta em populações muito carentes de elementos essenciais da alimentação. São essas as pessoas que, segundo a FAO (ramificação da ONU que lida com a questão da agricultura e da fome no mundo), sofrem de “insegurança alimentar grave”. “Logo percebemos que o filme precisava falar dessa fome, oculta e crônica, que tem um peso social muito maior”, completa Padilha.

Em suas conversas com Francisco Menezes, Padilha chegou à conclusão de que seria importante abordar três condições capazes de revelar aspectos diferentes do mesmo problema. “Era preciso mostrar uma família que morasse em uma cidade grande (e a gente tem a família da Lúcia, que é de Fortaleza), uma família que morasse perto de uma cidade pequena (a família da Robertina) e outra que morasse no meio do nada (a família da Rosa). Além disso, queria ter no mínimo uma família que recebesse o bolsa-família (a família da Rosa), para tentar entender o impacto que o programa do governo tem para essas pessoas”.

Não houve, no entanto, uma pesquisa prévia para determinar quais famílias seriam retratadas. Padilha reuniu uma equipe de cinco pessoas e partiu para o Ceará apenas com o contato de algumas organizações não-governamentais da região. “Não viajei meses antes e fiquei escolhendo os personagens do filme”, diz Padilha. “Fomos para lá e logo começamos a filmar as famílias que encontramos. Focalizamos uma ou outra em um processo razoavelmente aleatório, uma escolha feita na hora, ainda que com certos critérios. Conhecemos Lúcia, por exemplo, graças a uma ONG que tinha um centro de nutrição no bairro de Palmeiras. Ficamos lá um tempo, Lúcia chegou e começamos a filmá-la. Não pretendo, evidentemente, que essas famílias sejam uma representação mundial das pessoas que lidam com o problema da insegurança alimentar grave; eu queria, justamente, particularizar o problema. Mas, no fim do processo, acho que elas acabaram sendo representativas de elementos comuns para quem está nesse universo, como a tendência a comer alimentos altamente calóricos”.

o título

Um desses alimentos acabou dando título ao filme, que inicialmente se chamaria simplesmente Fome: “garapa” é a mistura de água com açúcar ou rapadura preparada pelas famílias para alimentar suas crianças. “Os alimentos mais baratos são os mais calóricos, os que fornecem mais energia. Se você calcular custos, a forma mais barata de comprar caloria é comprando açúcar ou rapadura. O que explica dois fenômenos muito comuns: pessoas desnutridas e obesas, e o grave problema dentário que muitas crianças desnutridas têm”, conta Padilha.

gasto, uma parede para pintar, crianças sem escolaÉ a ponta do iceberg de um Brasil ignorado”, afirma.

No entanto, se o problema da falta de alimento é central em Garapa, ele não é absoluto. O filme mostra como a fome termina por moldar um certo modo de vida, com ramificações em todos os aspectos do cotidiano de uma família. E mostra também que a insegurança alimentar grave não impede o estabelecimento de relações afetivas, da convivência social e de problemas que qualquer pessoa é obrigada a enfrentar em seu cotidiano. Como explica Felipe Lacerda, corroteirista e montador do filme: “As mulheres amam e odeiam, as crianças mudam de humor. É essa a riqueza do filme, o que dá ao documentário um caráter humano. A fome, em Garapa, não é uma abstração, uma formulação teórica. A fome é um ronco no estômago, uma correria para esquentar o leite que resta para três crianças que choram, uma casa sem móveis, um chinelo

FilME SECo

O primeiro desafio que se impôs ao diretor e à equipe relaciona-se a esse aspecto: como filmar a fome? “Resolvi fazer o filme em película 16 milímetros e em preto e branco. Queria tirar tudo que não fosse essencial do ponto de vista do cinema. Então tirei a cor, fizemos o som praticamente em mono e não utilizamos música. Filmamos quase tudo com lentes fixas”, descreve Padilha. Uma escolha rara no cinema de hoje, e que aproxima Garapa de um clássico do cinema brasileiro: Vidas secas, de Nelson Pereira dos Santos, adaptado da obra de Graciliano Ramos.

SoM SEM PintuRAS

O som do filme também tem um tratamento incomum para produções contemporâneas. Na sala de cinema, quase tudo o que se ouve sai da caixa de som central, que fica atrás da tela – como nos antigos filmes, em “mono”. “Essa idéia partiu de Rodrigo Noronha, que mixou o filme. Conversamos bastante antes de começar a edição de som e optamos por fazer um filme sem qualquer pintura sonora”, conta Yan Saldanha, responsável pela captação e a edição do som. “Os sons ambientes foram captados no local, e não tem nada que não tenha sido captado lá. Posso dizer com segurança que esse filme tem 95% de som direto, o que é algo muito raro hoje em dia”, completa.

O som só ocupa a sala de cinema em um breve momento – quando chove torrencialmente. “Essa é a breve exceção”, explica Rodrigo Noronha. “Até então, o cenário é sempre seco, uma terra muito maltratada, carente de água, e na única vez que vemos chuva no filme ela não vem para ajudar, mas sim para atrapalhar a rotina de uma das famílias. É uma chuva indesejada, uma triste ironia. Nessa hora, transformamos o som para que o espectador se sinta imerso naquela chuva”.

PAnoRAMA

Garapa ganhou sua première mundial na mostra Panorama do Festival de Berlim, um ano depois de Tropa de elite ter saído do mesmo festival com o Urso de Ouro. Mesmo sabendo que documentários –principalmente sobre um tema áspero como a fome – costumam ter uma penetração menor junto ao público, José Padilha espera que o filme levante um debate em torno da fome como aquele que Tropa de elite gerou sobre a questão da segurança pública no Rio de Janeiro.

Diz José Padilha: “Josué de Castro dizia que existe no mundo uma conspiração pra esconder a fome, para manter o problema invisível. Acho que evoluímos muito nessa questão. A fome já pode ser vista, mas não tenho conhecimento de muitos filmes que mostrem o problema de perto. E só quando você olha de perto, sua relação deixa de ser apenas intelectual e você se comove de fato. Gostaria muito que Garapa fosse um filme anacrônico, mas os dados mostram o contrário. Há três anos existiam 850 milhões em situação de insegurança alimentar no planeta, no ano passado eram 910 milhões, e a tendência é esse número aumentar porque o preço dos alimentos está subindo. Isso sem levar em consideração a crise financeira. É o contrário do anacrônico, portanto: é atual. Esse filme tem um desafio, porque ele mostra algo que as pessoas não querem ver. Por definição, estou pedindo para as pessoas assistirem a um filme que não vão gostar de ver. Mesmo assim, gostaria muito que ele fosse visto pelo maior número de pessoas possível e que pudesse ter um efeito sobre suas vidas”.

enTReViSTA / JoSÉ PADiLHA - direção oRiGEnS Do PRoJEto

“Penso cada projeto individualmente, nunca em relação ao outro. Garapa, se não me engano, surgiu depois de terminarmos Estamira e antes de Tropa de Elite. O Ibase me convidou para escrever um texto para a revista Democracia Viva, por conta de Ônibus 174. Conheci, na ocasião, Francisco Menezes, diretor do instituto, de quem fiquei amigo. Foi por intermédio do Ibase que comecei a ter um contato mais profundo com o problema da fome. Normalmente, quando a mídia lida com esse problema, só vê o ponto de vista macroscópico. Se você lê dados do Ibase e do IBGE, fica sabendo que existem 910 milhões de pessoas no mundo que sofrem de deficiência alimentar grave, mas ao ler uma reportagem dessas, você não entende o que significa a fome para quem lida com ela no dia-a-dia. A primeira idéia, então, foi fazer um filme do ponto de vista de quem passa fome. A segunda idéia veio quando a gente entendeu um pouco mais o problema, e ela nasce de uma posição tomada pelo Josué de Castro (sociólogo e nutricionista pernambucano, autor de Geografia da fome), em que ele cria uma distinção: existe a fome aguda (starvation, em inglês), em que as pessoas ficam sem comer nada e que em determinado prazo leva à morte, e existe a fome crônica ou a subnutrição crônica. Ela se manifesta em populações que se alimentam de forma inadequada, e para essas populações faltam elementos essenciais da alimentação. Essas são as pessoas que, segundo a FAO (Food and Agriculture Organization, ramificação das Nações Unidas que lida com a questão da agricultura e da fome no mundo), sofrem de insegurança alimentar grave. Isso é uma metodologia de pesquisa da ONU que também é adotada pelo Ibase e pelo IBGE para avaliar o estado nutricional de populações. Optamos, então, por falar dessa fome crônica, que tem um peso social muito maior. A fome aguda se manifesta em grupos pequenos; a fome crônica é muito mais abrangente. É um drama seriíssimo, que acontece em uma escala muito grande, e as pessoas lidam com ele de maneira impessoal. É evidente que as estatísticas são muito importantes, mas elas precisam ser ilustradas por uma percepção direta e pessoal do problema. A idéia é dar ao espectador a chance de ter esta percepção: quem for ver Garapa vai entender, pelo menos parcialmente, como a fome crônica impacta a vida das pessoas”.

CiDADE E CAMPo

“Conversando com Francisco Menezes, do Ibase, cheguei à conclusão de que precisaria abordar três condições geográficas diferentes. Era preciso mostrar uma família que morasse numa cidade (a família da Lúcia, de Fortaleza), uma família que morasse perto de uma cidade pequena rural (a família da Robertina) e uma família que morasse no meio do nada (a família da Rosa). Além disso, queria ter no mínimo uma família que recebesse o bolsa-família (a família da Rosa), para tentar entender o impacto que o programa tem para essas pessoas. Quando as pessoas se encontram na categoria de insegurança alimentar grave, existe uma diferença entre o ambiente urbano e o ambiente rural, mas essa diferença não é absoluta, e muitas semelhanças ainda existem. Por exemplo, as famílias que sofrem de insegurança alimentar grave, tanto no meio rural quanto no meio urbano, tendem a recorrer a alimentos altamente calóricos, sobretudo garapa, uma mistura de água com rapadura ou com açúcar. No meio urbano, as pessoas têm mais facilidade de complementar um pouco, mas, essencialmente, quem sofre de desnutrição crônica come alimentos altamente calóricos. O que explica dois fenômenos comuns, que observei tanto nas famílias que filmei como em outras: existem pessoas desnutridas e obesas, e muitas crianças desnutridas têm um grave problema dentário, que afeta o seu cotidiano de forma dramática.”

ESColHAS

“Não houve um processo de seleção. Não viajei meses antes e fiquei escolhendo os personagens do filme. Fomos para lá e logo começamos a filmar as famílias que encontramos. Focalizamos uma ou outra em um processo razoavelmente aleatório, uma escolha feita na hora, ainda que com certos critérios. Conhecemos Lúcia, por exemplo, graças a uma ONG que tinha um centro de nutrição no bairro de Palmeiras. Ficamos lá um tempo, Lúcia chegou e começamos a filmá-la. Algumas famílias, nós não filmamos por motivos práticos, porque moravam longe demais, por exemplo. Não pretendo que essas famílias sejam a representação mundial das pessoas que lidam com o problema da insegurança alimentar grave. É muito difícil definir qual é essa representatividade, qual é a ‘família média’, dentro desse universo. Mas, no fim do processo, acho que elas acabaram sendo representativas de elementos comuns para quem está nesse universo”.

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