Análise da Urina

Análise da Urina

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VALTER T. MOTTA Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações

Rim e Função Renal

Volume 16

ais à homeostase corpórea. O sistema renal exerce papel fundamental na realização destas funções. O sistema urinário consiste de rins, ureteres, bexiga mente dinâmicos do sistema realizando muitas funções, incluindo a formação da urina. São cinco as funções primárias do rim:

§ Eliminar resíduos metabólicos (uréia, creatinina, ácido úrico, ácidos orgânicos, bilirrubina conjugada, drogas e toxinas).

água).

§ Regular o equilíbrio eletrolítico no líquido intersticial controlando, simultaneamente, o movimento e a perda de água ao nível celular em colaboração com a pele e os pulmões.

da vitamina D).

O néfron é a unidade organizacional básica do rim e consiste num leito capilar especializado – o glomérulo envolvido pelo epitélio urinário – cápsula de Bowman – e conectado a uma sucessão de segmentos epiteliais especializados – os túbulos. Cada rim humano contém cerca de 1,2 milhão de néfrons.

O néfron é responsável por dois processos em série: ultrafiltração glomerular e a reabsorção/secreção tubular.

A ultrafiltração é a passagem seletiva de pequenas moléculas, água ou íons pela estrutura capilar denominada de glomérulo na porção do néfron conhecida como espaço de Bowman. A reabsorção é o movimento de substâncias para fora do lúmem tubular do néfron e para os capilares renais circundantes ou para o interstício. Isto significa que os rins conservam ou “reciclam” nutrientes essenciais ou partículas filtradas.

A secreção é o movimento de partículas dos capilares renais ou interstício para o lúmem do néfron. As partículas secretadas entram no néfron tanto por filtração como secreção, ou ambos. Todos estes processos ocorrem simultaneamente e é a estrutura especializada do néfron que os pro- move. O estudo da função renal visa avaliar:

§ Filtração glomerular. Esta função é que melhor se correlaciona com a capacidade dos rins em manter a composição dos líquidos corpóreos.

§ Fluxo sangüíneo renal. É a que mantém a homeostase adequada, portanto, que exista fluxo sangüíneo suficiente.

§ Função tubular. É bastante complexa pelas diferentes ações realizadas pelos túbulos.

A urina é uma solução formada pelo rim, o principal órgão excretor do organismo que mantém constante o volume, a composição química, o pH e a pressão osmótica dos líquidos do corpo.

O suprimento de sangue da unidade funcional é realizado pelas arteríolas aferentes (ao redor de

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1.200 mL/minuto de sangue total passa pelos dois rins de um adulto normal) que dá origem a um grande número de capilares dentro do glomérulo. Estes capilares se unem para formar as arteríolas eferentes que compõe a rede capilar que abastece o tecido tubular adjacente. A formação de urina é um processo que en- volve ultrafiltração, secreção e reabsorção de componentes essenciais. Estes processos são controlados pela pressão osmótica e hidrostática, pelo suprimento de sangue renal e pela secreção de hormônios. Resumidamente, o mecanismo de formação de urina consiste:

na velocidade de 130 mL por minuto, com a formação de ultra-filtrado com todos os cons- tituintes plasmáticos, exceto (quase totalmente) proteínas e substâncias ligadas a elas.

2 No túbulo proximal:

§ Reabsorção passiva de algumas substâncias, tais como glicose, creatinina, aminoácidos, vitamina C, lactato, piruvato etc., pelas células tubulares.

células tubulares renais e/ou secreção de materiais derivados do líquido intersticial peritubular.

§ Reabsorção isotônica de 8% da água do filtrado, além de cloretos, sódio, potássio, fósforo e outros eletrólitos. A reabsorção destas substâncias é obrigatória e independe das necessidades do organismo.

3 Nos ramos descendente e ascendente da alça de Henle acontece uma reabsorção adicional de rente. Por conseguinte, o volume inicial é reduzido a 13-16 mL/minuto.

4 O túbulo distal realiza o ajuste da concentração de eletrólitos de acordo com as necessidades orgânicas. O sódio pode ser removido sob a in- fluência do sistema aldosterona-angiotensina.

O hormônio antidiurético (HAD) controla a reabsorção da água para estabelecer o equilíbrio osmótico.

5 No túbulo coletor se processa a transformação final do filtrado em urina hipertônica. O volume é 1,0 mL/min.

O volume da diurese normal, em adultos, varia entre 800 a 1.800 mL em 24 h. Estes valores estão sujeitos a variações, pois são influenciados pelo volume corporal, consumo de 1íquidos, sudoração e temperatura ambiente. Em crianças, a diurese é maior que no adulto em proporção ao volume corporal. O volume urinário de 24 horas em várias idades é dado na tabela 9.1..

Tabela.1.2. Volume urinário de 24 horas em relação a idade.

Idade Volume urinário de 24 h (mL)

1 a 2 dias 30 a 60

3 a 10 dias 100 a 300 10 a 60 dias 250 a 450

60 a 360 dias 400 a 500

1 a 3 anos 500 a 600 3 a 5 anos 600 a 700

5 a 8 anos 650 a 1400 8 a 14 anos 800 a 1400

O volume de urina formado durante a noite é menor que o diurno (proporção de aproximada- mente 1:3). Em condições patológicas (exemplo: insuficiência renal) a eliminação noturna pode ria). Um volume urinário maior que 2.0 mL/d é denominado de poliúria enquanto uma excreção menor que 500 mL/d chama-se oligúria. As principais causas de poliúria são: grande ingestão de líquidos (polidipsia), insuficiência renal crônica, diabetes mellitus, diabetes insípido, aldosteronismo primário e mobilização de líquido previa- mente acumulado em edemas. A oligúria é encon- trada na redução de ingestão de água, desidratação (diarréia, vômitos prolongados, sudoração exces- siva) sem a reposição adequada de líquidos, is- quemia renal, reações de transfusão, pielonefrite, disfunção glomerular, obstrução e agentes tóxicos.

Em várias causas renais ou pré-renais a diurese pode cessar completamente (anúria).

Bibliografia consultada

ANDREOLI, Thomas E., BENNETT, J. Claude,

CARPENTER, Charles C. J., PLUM, Fred. Cecil Medicina interna básica. Rio de Janeiro : Guanabara-

KAPLAN, Alex, JACK, Rhona, OPHEIM, Kent E., TOIVOLA, Bert, LYON, Andrew W. Clinical chemistry:

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MARSHALL, William. Clinical chemistry: na ilustrated outline. New York : Gower-Mosn, 1991. 176 p.

MAYNE, Philip D., DAY, Andrew P. Workbook of clinical chemistry: case presentation and data interpretation. New York : Oxford University Press, 1994. 208 p.

WALMSLEY, R. N., WHITE, G. H. Guide to diagnostic clinical chemistry. London : Blackwell, 1994. 672 p.

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exame qualitativo de urina (EQU) é um conjunto de provas não-invasivas e baratas que fornecem informações sobre várias funções metabólicas do organismo. É útil no diagnóstico e tratamento de doença renal ou do trato urinário como, também, na detecção de doenças metabólicas ou sistêmicas não relacionadas com o rim. O teste consiste na verificação da cor e aspecto da amostra; determinação do pH e densidade; pesquisa de proteínas, glicose, corpos cetônicos, uro- bilinogênio, bilirrubina, sangue, nitrito e leucócito esterase, além de sedimentoscopia.

A primeira urina da manhã é recomendada para o

EQU pois é mais concentrada, o que garante a detecção de substâncias e elementos figurados que podem estar ausentes em amostras aleatórias mais diluídas. Antes da coleta, os genitais devem ser limpos com uma solução antisséptica suave ou

pelo emprego de água e sabão neutro. A mulher deve manter os grandes lábios afastados no momento da micção. Desprezar a primeira e última porção da micção e recolher o jato médio. A amostra deve ser colhida em recipiente descartável, limpo e seco. Com isso evita-se a possibili- dade de contaminação decorrente da lavagem in- correta de frascos reutilizáveis. O recipiente da amostra deve ser etiquetado com o nome do paci- ente, data e hora da coleta além de outras infor- mações pertinentes. A análise da urina deve ser realizada até uma hora após a coleta. Refrigerar no máximo por 4 horas a amostra quando não examinada imediatamente, mas deixar adquirir temperatura ambiente antes de proceder os testes. A urina deve ser isenta de contaminações vaginais ou fecais.

Nas últimas décadas foram desenvolvidos vários sistemas analíticos simplificados capazes de for- necer rapidamente uma série de parâmetros na urina. Os mais comuns são as tiras reagentes que possuem substâncias químicas fixadas a uma tira plástica, revelando a positividade dos testes por modificações de cor.

São encontradas no comércio tiras simples (para a pesquisa de um único parâmetro na urina) e múltiplas (que permitem a avaliação simultânea de vários componentes). Com a finalidade de obter resultados confiáveis com as tiras reagentes, devem ser tomadas certas precauções: as tiras não devem ser expostas á luz direta do sol, ao calor, a meios úmidos e a substâncias voláteis. Devem ser armazenadas no frasco original. Retirar somente a quantidade de fitas necessárias para a bateria de exames, a seguir, fechar hermeticamente o frasco.

Quando as áreas reativas não apresentam a mesma cor “negativa” impressa na escala cromática que acompanha o produto, as tiras devem ser descarta- das. O uso das fitas é realizado como segue:

centemente emitida (se a urina estiver refrigerada, deixar adquirir a temperatura ambiente), bem misturada e sem centrifugar.

§ Eliminar o excesso de urina encostando a borda lateral da tira ao frasco que contém a amostra.

reativas com a escala cromática correspondente. Fazer a leitura em local com boa ilumi- nação.

A cor da urina emitida por indivíduos normais varia de amarelo-citrino a amarelo âmbar fraco, segundo a concentração dos pigmentos urocrômicos e, em menor medida, da urobilina, uroeritrina, uroporfirinas, riboflavinas, etc.

Quando em repouso, a urina escurece provavelmente pela oxidação do urobilinogênio.

Existem vários fatores e constituintes que podem alterar a cor da urina, incluindo substâncias ingeridas, atividade física, assim como diversos compostos presentes em situações patológicas. O gando uma boa fonte de luz, olhando através de recipiente de vidro transparente contra um fundo branco. As cores comumente encontradas são:

Amarelo-claro ou incolor. É encontrado em pacientes poliúricos, diabetes mellitus, diabetes insípido, insuficiência renal avançada, elevado consumo de líquidos, medicação diurética e ingestão de álcool.

Amarelo-escuro ou castanho. É freqüente nos estados oligúricos, anemia perniciosa, estados febris, início das icterícia (presença anormal de bilirrubina), exercício vigoroso e ingestão de argirol, mepacrina, ruibarbo e furandantoínas.

Alaranjada ou avermelhada. É comum em presença de hematúria, hemoglobinúria, mioglobi- núria, icterícias hemolíticas, porfirinúrias e no emprego de anilina, eosina, fenolftaleína, rifocina, sulfanol, tetranol, trional, xantonina, beterraba, vitamina A, derivados de piridina, nitrofurantoína, fenindiona e contaminação menstrual.

Marrom-escuro ou enegrecida. (“Cerveja preta”) ocorre no carcinoma de bexiga (“borra de café”), glomerulonefrite aguda, meta-hemoglobi- núria, alcaptonúria (ácido homogentísico), febres palustres, melanoma maligno e no uso de metildopa ou levodopa, metronidazol, argirol e salici- latos.

Azulada ou esverdeada. Deve-se a infecção por pseudomonas, icterícias antigas, tifo, cólera e pela utilização de azul de Evans, azul de metileno, riboflavina, amitriptilina, metocarbamol, cloretos, indican, fenol e santonina (em pH ácido).

Esbranquiçada ou branco leitosa. Está pre- sente na quilúria, lipidúria maciça, hiperoxalúria primária, fosfatúria e enfermidades purulentas do trato urinário.

Geralmente, a urina normal e recentemente emi- tida é límpida. Nas urinas alcalinas é freqüente o aparecimento de opacidade por precipitação de na forma de névoa branca. A adição de algumas gotas de ácido acético dissolve os fosfatos e os carbonatos. A urina ácida normal também pode mostrar-se opaca devido à precipitação de uratos amorfos, cristais de oxalato de cálcio ou de ácido bra pó de tijolo, provocado pelo acúmulo de pigmento róseo de uroeritrina na superfície dos cris- tais. A uroeritrina é um componente normal na urina. A turvação provocada pelos uratos pode ser dissolvida por aquecimento da urina a 60 0C.

citos, hemácias, células epiteliais ou bactérias. Os leucócitos formam precipitados semelhantes aos provocados pelos fosfatos mas não se dissolvem riúria produz opalescência uniforme que não é removida pela acidificação; de modo geral, estas urinas apresentam cheiro amoniacal pelo desdo- bramento da uréia pelas bactérias. A presença de hemácias (hematúria) promove turvação que é confirmada microscopicamente.

Espermatozóides e líquido prostático causam turvação que pode ser clarificada por acidificação ou aquecimento. O líquido prostático normalmente contém alguns leucócitos e outros elementos. A mucina pode causar filamentos e depósito volumoso, sobretudo nos estados inflamatórios do trato urinário inferior ou trato genital.

Algumas vezes a urina apresenta aspecto turvo em razão de coágulos sangüíneos, pedaços de tecido, lipídios, levedura, pequenos cálculos, pus, material fecal, talco, antissépticos, cremes vaginais e contrastes radiológicos. São ainda causas de turvação a presença de linfa e glóbulos de gor- dura. O aspecto da urina é observado após a homo- geinização da mesma. A urina se apresenta lím- pida, opaca, leitosa, levemente turva, turva ou fortemente turva. A verificação também da pre- sença de componentes anormais como coágulos,

252 Bioquímica Clínica: Princípios e Interpretações muco ou pedaços de tecido é de importância para diagnóstico.

A densidade é uma função direta, mas não proporcional, do número de partículas na urina. A con- centração de solutos na urina varia com a ingestão de água e solutos, o estado das células tubulares e

a influência do hormônio antidiurético (HAD) sobre a reabsorção de água nos túbulos distais. A incapacidade de concentrar ou diluir a urina é uma indicação de enfermidade renal ou deficiência hormonal (HAD). Em condições normais (dieta e ingestão de líquidos habituais) o adulto produz urinas com densidades de 1.015 a 1.025 num período de 24 horas. Para uma amostra de urina ao acaso, a den- sidade pode variar de 1.002 a 1.030.

Densidade urinária aumentada. É encontrada na amiloidose renal, diabetes pancreático, enfer- midade de Addison, hipersecreção descontrolada

de HAD (mixedema, porfiria, abscesso cerebral, meningite tuberculosa), nefropatia obstrutiva, onal (estados febris, desidratação, terapia com diuréticos, hipoproteinemia), politraumatismo, pós-operatório imediato e síndrome hepatorrenal.

Densidade urinária diminuída. São freqüentes no alcoolismo agudo, aldosteronismo primário, anemia falciforme, diabetes insípido, fase inicial e final da insuficiência renal crônica, pielonefrite crônica e tuberculose renal.

O urinodensímetro é um dispositivo flutuador que possui uma escala graduada (1,0 a 1,040) em sua haste, destinado à avaliação da densidade na urina A medida da densidade é realizada pela colo- das. Evitar a formação de espuma com o emprego de papel de filtro. O urinômetro é submergido na urina e por meio de um pequeno impulso no sen- tido giratório, movimentar o mesmo para impedir o contato com as paredes da proveta. Fazer a lei- tura ao nível da parte inferior do menisco. Geralmente os urodensímetros estão calibrados ras realizadas em outras temperaturas faz-se a seguinte correção: somar 0,001 à leitura para cada

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