Reflexões sobre mediação pedagógica

Reflexões sobre mediação pedagógica

(Parte 1 de 2)

Mary Valda Souza Sales

Universidade do Estado da Bahia/Instituto Anísio Teixeira marysales@uneb.br

Emanuel do Rosário Santos Nonato

Universidade do Estado da Bahia/Instituto Anísio Teixeira enonato@uneb.br

2.3.1 – Categoria: C – Métodos e Tecnologias

2.3.2 – Setor Educacional: 3 – Educação Universitária.

2.3.3 – Natureza do Trabalho: A – Relatório de Pesquisa.

2.3.4 – Classe: 1 – Investigação Científica.

Resumo: Este estudo teórico visa refletir a respeito do lugar que a preparação, produção e difusão do material didático deve ocupar na preparação de projetos pedagógicos para a Educação a Distância. A partir de uma reflexão sobre a contemporaneidade, as Tecnologias da Informação e da Comunicação e a Educação a Distancia, este estudo situa a produção do material didático no centro da discussão sobre qualidade nos curso de Educação a Distância e discute os parâmetros de qualidade a partir dos quais se pode produzir material didático qualificado para EAD.

Palavras-chave: Tecnologias da Informação e Comunicação, Educação a Distância, Material Didático.

Abstract: This theoretical research is supposed to address the place that the preparation and production of Didactical Material must have in the preparation of pedagogical projects for Distance Education. In a reflection about today’s society, the Information and Communication Technologies and Distance Education, this paper places the production of didactical material in the centre of the discussion about quality in the courses in Distance Education and addresses the quality parameters which should preside over the production of qualified didactical material for Distance Education.

Key-words: Information and Communication Technology, Distance Education, Didactical material.

1 INTRODUÇÃO

Muito embora a Educação a Distância (EAD) preexista às Tecnologias da Informação e da Comunicação (TIC), o advento das TIC trouxe um novo cenário para a EAD, pois reorganizou o modelo de EAD vigente, disponibilizou novas ferramentas de mediação pedagógica e reestruturou a natureza e a função do material didático dessa modalidade.

Conquanto se possa discutir a natureza capitalista das TIC e da própria

EAD, seu lugar na lógica de reprodução do Capital, não se pode negar que as TIC ocupam, na sociedade e na Educação, um lugar de destaque, permeando quase todas as práticas sociais. Não usar as TIC não parece ser hoje uma possibilidade a ser considerada, impõe-se discutir o uso que podemos dar a essa tecnologia, a forma como podemos subverter a lógica interna dos processos capitalistas, excludentes e autoritários por natureza, para construir lógicas plurais e includentes por entre as entranhas do sistema.

Em função das contradições internas inerentes ao próprio sistema capitalista, o Capital gestou as TIC para se reproduzir, mas, ao fazê-lo, criou um instrumento poderoso para a construção de práticas sociais e pedagógicas mais democráticas, dialógicas, autônomas e críticas. Fazendo uso dessas potencialidades, a EAD se tornou uma modalidade altamente credenciada a colaborar na construção de uma educação mais plural, menos monolítica.

Nesse contexto, o material didático é alçado a uma posição de grande importância, pois é ele que, ao lado do mediador, poderá possibilitar ao sujeitoaprendente um lugar de autonomia e criticidade que permita desenvolver-se como sujeito autônomo e crítico ao tempo em que constrói o conhecimento objetivo a que se propôs.

É nesta linha que este estudo teórico que discutir a contemporaneidade e seu viés tecnológico, as TIC como potencializadoras de práticas sociais e pedagógicas menos autoritárias e a EAD como uma modalidade de educação adequada a essa construção.

2 CONTEMPORANEIDADE, TIC E EAD

A contemporaneidade trouxe consigo a afirmação das TIC como elementos constitutivos do conjunto de ferramentas tecnológicas que auxiliam a reprodução sócio-metabólica do homem (MÉSZÁROS, 2002). Nascidas das demandas sócio-econômicas do Capitalismo tardio (CASTELLS, 2002), as TIC têm provocado mudanças acentuadas no cotidiano sócio-cultural e econômico da humanidade.

Atendendo a uma demanda do Capitalismo, o investimento na pesquisa, produção e difusão das TIC tem se intensificado de modo acelerado, na justa medida da pressão do capital por estruturas que garantam sua sustentabilidade. Lyotard (2002), com um olhar amplo sobre os aspectos econômicos do mundo contemporâneo, em uma de suas obras, afirma que a expansão das TIC revitalizam o modo de produção capitalista, uma vez que o fluxo de informações é mais rápido e o modelo globalizado é o parâmetro mundial das sociedades contemporâneas.

Entretanto, muito embora essas tecnologias tenham advindo em um contexto marcadamente capitalista, ou mesmo como desdobramento necessário do Capital para conservar sua capacidade de se auto-reproduzir, as TIC podem trazer modificações a esse sistema, possibilitando a comunicação direta entre os continentes, a maior difusão do ensino através da EAD e a modificação do modus operandi de produção do conhecimento, mesmo enquanto servem para a consolidação do Capital na era pós-industrial (CASTELS, 2005).

A revolução tecnológica que estamos vivenciando a partir das duas últimas décadas do século passado se notabiliza pela forte alteração dos meios e modos de comunicar e informar, posto que as tecnologias criadas nesse contexto, como afirma Milton Santos (2001), tornaram-se presentes nas mais diversas instâncias sociais e são constitucionalmente divisíveis, flexíveis e dóceis, adaptáveis a todos os meios e culturas, ainda que seu uso perverso atual seja subordinado aos interesse dos grandes capitais (SANTOS, 2001, p. 174), podendo atender aos mais diversos grupos de ação em oposição aos desdobramentos da Revolução Industrial que, embora tenha reconfigurado o cenário mundial, restringiu-se à alteração dos modos de produção, sem influir de modo mais significativo nos demais aspectos da sociedade.

As TIC têm superado e transformado os modos e processos de produção e socialização de uma variada gama de saberes. Criar, transmitir, armazenar e significar estão acontecendo como em nenhum outro momento da história. Os novos suportes digitais permitem que o tratamento das informações seja feito de forma extremamente rápida e flexível, envolvendo praticamente todas as áreas do conhecimento sistematizado bem como todo cotidiano nas suas multifacetadas relações.

Assim como nos demais setores da sociedade, também no campo da

Educação as TIC foram introduzidas e provocaram ressignificações dos processos de mediação pedagógica. O desenvolvimento permanente das TIC tem potencializado as estratégias educativas, principalmente na modalidade a distância. Este movimento tem suscitado a reflexão e pesquisa entre os educadores, que buscam refletir sobre a educação neste contexto permeado pelas inovações e a constante transformação.

Muito embora preexista às TIC, a EAD é a grande beneficiária dessas inovações na área da Educação. A nova configuração que a EAD recebeu a partir de então lhe tem possibilitado ocupar um novo patamar no cenário nacional. Os Ambientes Virtuais de Aprendizagem (AVA) e toda a gama de ferramentas que as TIC proporcionam trouxeram para a EAD a possibilidade de, no espaço virtual, dar vazão à afetividade e à colaboração entre alunos e professores fisicamente distantes e cognitivamente muito próximos.

A EAD de que nos ocupamos aqui é aquela em que a aprendizagem se dá de modo flexível e aberto, mediado através da utilização das ferramentas tecnológicas que mais se adaptem ao propósito pedagógico da atividade em questão, desde o impresso até os AVA, compreendendo que em lugar de regular o processo ensino-aprendizagem, o docente precisa dar lugar à zona de desenvolvimento proximal, [...] estimulando e ativando os processos internos de desenvolvimento vistos como resultado das interrelações entre o indivíduo e os agentes sociais (GIUSTA, 2003, p. 59).

Seja qual for a modalidade em que se dêem os processos pedagógicos, é fundamental que o aprendizado promova novos níveis de desenvolvimento cognitivo no educando, na medida da essencialidade da interação e da interatividade para a garantia da aprendizagem efetiva e de qualidade.

A afirmação de Levy (1993) de que a velocidade de evolução dos saberes, a massa de pessoas convocadas a aprender e produzir novos conhecimentos e o surgimento de novas ferramentas fazem emergir paisagens inéditas e distintas, identidades singulares no coletivo, uma inteligência e saber coletivos pode nos remeter a uma compreensão aligeirada dos processos sociais que estão em andamento, atribuindo maior importância às ferramentas que aos sujeitos que as suscitam e operam. A EAD nada mais faz que minimizar os obstáculos que o tempo e o espaço oferecem ao ensinoaprendizagem, dando aos sujeitos condições “tecnológicas” de construir o conhecimento à revelia desses obstáculos.

A mediação pedagógica levada à cabo na EAD proporcionou um novo movimento dentro do contexto educacional, pois, além de um acirramento da relação homem/máquina, a EAD potencializa uma aprendizagem para colaboração na qual todos os agentes envolvidos no processo de ensinoaprendizagem se tornam responsáveis pela produção do conhecimento crítico, ativo e discutido.

3 MATERIAL DIDÁTICO: INSTRUMENTO DE MEDIAÇÃO

A função de ferramenta de mediação que o material didático desempenha supõe uma preocupação sistemática com sua elaboração e produção. Quando se trata de EAD, a atenção devida à qualidade do material didático é diretamente proporcional à importância que ele tem nas práticas pedagógicas em EAD.

Assim, para que a base do processo de mediação no ensino aprendizagem seja efetivada a distância, torna-se necessário um cuidado especial na elaboração dos instrumentos que subsidiam o desenvolvimento do curso de maneira geral, o material didático, pois este desempenhando um papel de extrema importância na condução da aprendizagem do aluno. Também no material didático reside o locus da construção de práticas pedagógicas colaborativas e emancipadoras. Este é um ponto crucial da discussão sobre EAD, pois, entre os diversos problemas que se identificam no desenvolvimento de programas de educação a distância, um dos mais importantes é o que diz respeito à produção de material didático (BELISÁRIO, 2003, p.135).

O material didático em EAD é um elemento mediador que traz em seu bojo a concepção pedagógica que norteia o ensino-aprendizagem. Consciente ou inconscientemente, o planejamento e a constituição do material didático estão intimamente relacionados com a proposta pedagógica da instituição e com a concepção de educação do produtor deste material. Logo, devemos estar atentos à revisão dos processos formativos do professor para atuar em EAD, pois o material didático deve responder a um dos princípios básicos da EAD, estudo autônomo orientado, no qual o material é responsável por algo mais que a simples informação, é co-responsável pelo processo de mediação pedagógica que constitui o processo ensino-aprendizagem em EAD.

Partindo deste prisma, torna-se essencial a definição da concepção pedagógica norteadora desse processo de ensino-aprendizagem, bem como um planejamento muito detalhado para produção do material didático a ser utilizado, de acordo com os princípios determinantes da proposta pedagógica, além da definição do tipo de mídia a ser utilizado.

Uma reflexão a respeito da proposta pedagógica, segundo Veiga (2000), é um ponto fundamental, pois a falta de clareza acerca da proposta pedagógica reduz qualquer curso a uma grade curricular fragmentada. Nesse sentido, o projeto [pedagógico de um curso, acentuadamente em EAD] é uma totalidade articulada, decorrente da reflexão e do posicionamento a respeito da sociedade, da educação e do homem” (VEIGA, 2000, p. 186)

Por conseguinte, ter definida e clara a concepção pedagógica norteadora da ação docente de ensino-aprendizagem é essencial, pois para a produção de material pedagógico em EAD é importante a formação de uma equipe multidisciplinar que consiga trabalhar numa concepção de educação investigativa e criativa, posto que, ao longo da produção, a equipe se depara com vários desafios, a começar pela imperiosidade de uma linguagem clara, simples e direta, respeitando o protagonismo dos sujeitos discentes nas práticas pedagógicas em EAD.

Quando se produz material didático para EAD, a concepção pedagógica a ser adotada como referencial da equipe multidisciplinar de produção deve privilegiar a interação, a interatividade e a aprendizagem colaborativa, levando em consideração que todo processo de aprendizagem deva ser construído em sintonia com o desenvolvimento do ser humano. É preciso estar atento à influência que alguns elementos externos exercem sobre a interação, a interatividade e a colaboração. Desta forma, esta ação técnicopedagógica de elaboração deve englobar os aspectos da criatividade, motivação, design, conteúdo e estética, bases para a produção de um material didático capaz de colaborar para o processo de mediação que se quer realizado em EAD e a autonomia discente.

O material didático para EAD tem que atender a esses pressupostos, pois o grande desafio da EAD é justamente “produzir um material didático capaz de provocar ou garantir a necessária interatividade do processo ensinoaprendizagem” (BELISÁRIO, 2003, p.137), na qual o professor passa a exercer o papel de mediador do processo pedagógico, garantindo autonomia intelectual aos discentes sem renunciar à sua função docente: proporcionar os meios para a construção do conhecimento.

O material didático precisa ser o condutor de um conjunto de atividades que procure levar à construção do conhecimento; daí a necessidade de esse material se apresentar em linguagem dialógica que, na ausência física do professor, possa garantir um certo tom coloquial, reproduzindo mesmo, em alguns casos, uma conversa entre professor e aluno, tornando sua leitura leve e motivadora (Idem, p. 138).

Independente da mídia utilizada para elaboração do material didático de EAD, há que se objetivar a busca de um instrumento de aprendizagem que apresente condições para a interatividade, a seqüenciação de idéias e conteúdos, a relação teoria-prática e a auto-avaliação, apresentando uma linguagem clara e concisa, glossário, exemplificações cotidianas e/ou científicas, resumos e animações. Em suma, o material didático para EAD precisa propor um diálogo constante entre conhecimento/aluno/professor/ mundo.

4 POTENCIALIDADES DAS MÍDIAS NA PRODUÇÃO DO MATERIAL DIDÁTICO PARA EAD

As TIC proporcionam muitos usos e potencializam várias estratégias educativas, possibilitando configurar a EAD em formatos muito mais dinâmicos que aqueles permitidos pela mídia impressa. Contudo, um dos grandes entraves da EAD é a existência, a despeito das potencialidades de qualquer mídia, de práticas que apenas repetem os mesmos modelos, somente transpõem para o ambiente tecnológico as concepções pedagógicas tradicionais. Os AVA não são apenas contexto em que recursos audiovisuais e multimidiáticos são colocados à disposição dos “aprendentes”, mas, também, convivem em colaboração harmônica com os recursos midiáticos tradicionais, tais como material impresso e rádio, são uma estrutura diferenciada, algo dinâmico, maleável, rico e enriquecedor (LÉVY, 1993). São um contexto em que o falar-ditar do mestre não é mais o único meio de acesso a informação. Neles, as velhas posições de mestre e aluno se metamorfoseiam em puros aprendentes.

Se o professor ainda está baseado na pedagogia milenar da transmissão, que disseminou práticas educacionais e calcificou as estratégias de distribuição e assimilação de informações, o material didático para EAD será uma mera reprodução desse paradigma. As potencialidades comunicacionais, colaborativas e de desenvolvimento da autonomia que o digital propicia serão sub-utilizadas. O AVA não passará de um depósito de textos, os e-mails serão apenas utilizados para que o professor comunique informações aos alunos e proponha tarefas, o chat, o momento para tirar dúvidas sobre os conteúdos e o fórum, mais um espaço de perguntar e responder apenas.

Pensando em um novo desenho para a relação pedagógica entre professor e aluno, a EAD tem a necessidade de ser mediada por recursos em que as tecnologias se fazem necessárias. O processo de produção do material didático para EAD deve potencializar a(s) mídia(s) escolhida(s) como canal de comunicação entre professor/objeto/aluno, posto que ele será responsável, em média, por 50% do sucesso do curso/programa. Nesse sentido, o melhor critério para se verificar o acerto na seleção da(s) mídia(s) “[...] é o resultado que se deseja obter – sua contribuição para uma efetiva aprendizagem, considerando assim o conteúdo a ser abordado, a clientela, as características da situação que será utilizada” (AVERBUG, 2003, p. 9).

Não existem modelos predefinidos para se produzir material didático de qualidade para EAD. Sua produção é, antes de tudo, um ato de criação, no qual a criatividade crítica é elemento fundante, ao lado de uma concepção de EAD e uma proposta pedagógica que considerem a primazia da dialogicidade, da criticidade e da autonomia como princípios fundamentais da EAD.

5 CONCLUSÃO

Embora a construção de uma proposta pedagógica em EAD tenha que considerar diversos aspectos que, entre si conectados, constituem um projeto pedagógico bem formado, o material didático é um ponto central na discussão de qualquer proposta de curso em EAD. Sua primazia se dá em função da natureza autônoma da qual a aprendizagem em EAD está prenhe. Autonomia discente em EAD, portanto, tem uma ligação estreita tanto com o modus com o qual o docente escolhe conduzir o processo de mediação, mas também com a forma do material didático utilizado para auxiliar a mediação pedagógica.

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