Redes sociais e sites de relacionamento em busca de comunidades

Redes sociais e sites de relacionamento em busca de comunidades

Fonte: http://www.comciencia.br/comciencia/?section=8&tipo=dossie&edicao=59

Artigo

Redes sociais e sites de relacionamento: em busca de comunidades

Por Raquel Recuero

Sites de rede social, como o Orkut, o Facebook e o Linkedin, trouxeram uma novidade importante para pesquisadores de várias áreas: eles proporcionaram que as pessoas passassem a publicar informações relacionadas a suas redes de relacionamento. Essas ferramentas, portanto, proporcionaram que os grupos sociais fossem reinscritos no ciberespaço e que pudessem ser estudados, assim, através dessa representação. Esses sites, portanto, não são propriamente redes sociais, mas representam redes. E o que são redes sociais?

Redes sociais são metáforas utilizadas para grupos de pessoas, como forma de estudar as estruturas sociais. A partir dessa perspectiva, representam-se as redes sociais através de nodos (ou nós) – os indivíduos – e suas conexões. Mas qual é a natureza dessas conexões? Como elas são modificadas pelos sites de rede social?

Conexões sociais

As conexões entre os indivíduos na sociedade são comumente referidas como laços sociais. O processo é mais ou menos assim: imagine que você hoje foi até uma padaria nova, próxima da sua casa. Ali, enquanto comprava pão, você conheceu o padeiro, José. A partir dali, uma série de obrigações, decorrentes das normas sociais passam a existir, como, por exemplo, o cumprimento. Agora que você conhece José, espera-se que você o cumprimente quando o encontrar na rua. Com o passar do tempo, se você continuar frequentando a mesma padaria, poderá conhecer José melhor, saber que é casado e tem duas filhas, que torce para um determinado time de futebol e, até mesmo, onde José vai passar o feriado. Esse é o processo de criação e estabelecimento daquilo que os cientistas sociais chamam de laço social. É a conexão que une os indivíduos em uma sociedade. Esse laço é, portanto, constituído de interações, trocas que são estabelecidas através da conversa, do agir no espaço social. Com o tempo, essas conexões podem ser aprofundadas, compartilhando-se intimidade e amizades.

Foi um cientista social chamado Mark Granovetter quem primeiro propôs examinar essas conexões a partir de sua força. Para Granovetter, os laços sociais poderiam ser classificados em fortes e fracos, ou seja, naqueles onde há intimidade e proximidade entre os agentes, os laços fortes – por exemplo, o laço que você divide com seus amigos –, e aqueles onde esses elementos não estão presentes – como os laços que você divide com seus “conhecidos” –, chamados laços fracos. A percepção de que as conexões que formam a estrutura social são diferentes ajudou também a compreender uma série de outros elementos, como a circulação de informações nos grupos. Granovetter descobriu que os laços fracos são aqueles mais fundamentais para quem, por exemplo, busca um emprego. É principalmente através desses laços que as informações a respeito de novas vagas chegam a potenciais candidatos. Essas conexões vão fazer emergir a estrutura dos grupos sociais. Além disso, compreender a natureza dessas conexões também auxiliou vários pesquisadores a perceber que tipo de valores são gerados nessas redes e como esses valores motivam os indivíduos a criar, manter e remover conexões.

O capital social

Os valores gerados nas redes sociais são comumente referidos como capital social. Essa ideia foi discutida por inúmeros pesquisadores e foi, quase sempre, associada aos valores conectados com o pertencimento a um determinado grupo. Por exemplo, o fato de você jogar futebol todo o domingo com um grupo de amigos dá acesso a valores específicos. O primeiro e mais óbvio deles é a possibilidade de divertir-se com o grupo. Ora, futebol é um esporte coletivo, que só pode ser jogado se um grupo de pessoas entra em acordo e participa do jogo. Outro valor poderia ser, por exemplo, a informação a respeito dos próximos jogos, que circula dentro do grupo e que permite que você continue a jogar. As amizades que podem surgir do jogo e passar a outras esferas também são um valor. Até mesmo ser convidado para tomar uma cerveja depois do jogo com o grupo é um valor. Assim, fazer parte de um grupo dá acesso a todo um conjunto de vantagens, o que é chamado capital social.

O capital social, no entanto, depende do seu tempo e vontade em manter suas conexões sociais. Os valores a que você tem acesso no grupo do futebol, por exemplo, só persistem enquanto você investir seu tempo em continuar jogando com o grupo. Se você para de jogar e perde o contato com o grupo, perde também o acesso aos valores a ele associados. Assim, o capital social é também relacionado à manutenção das conexões sociais.

Os sites de rede social

Quando passamos nossos grupos e redes para os sites de relacionamento, no entanto, as coisas mudam. Um primeiro efeito é o fato de que você pode “adicionar” à sua rede quem você quiser. Isso significa que você pode ter mil, dois mil, ou três mil amigos no Orkut, se tiver vários perfis. Só que na vida offline, isso não acontece. Isso porque ter tantos amigos dá trabalho – você precisa investir tempo e sentimento para manter um laço social – e necessita de algum comprometimento. Além disso, suas conexões no Orkut nunca desaparecem, a menos que você as delete ou que os demais indivíduos saiam de lá. Ao contrário dos laços sociais offline, os laços representados nos sites de relacionamento não sofrem pela falta de investimento de tempo e permanecem mantidos pelo sistema do site. Isso gera alguns efeitos diferentes. A rede, por exemplo, torna-se artificialmente grande. Enquanto no offline vários de nós têm um número pequeno de amigos, nesses sites, todo mundo é seu amigo. Outro efeito é o fato de que os indivíduos têm acesso a tipos específicos de capital social dentro dessas ferramentas, mesmo sem precisar interagir com os outros. Você pode ser, por exemplo, extremamente famoso no MySpace, mas ser um desconhecido na vida offline. Pode também ter acesso a informações que normalmente não seriam acessíveis a você, pelo fato desses sites permitirem que você acompanhe outras redes de outras pessoas. Você pode conhecer mais sobre outras pessoas nessas ferramentas, sem precisar perguntar a ninguém. Assim, os sites de rede social proporcionam acesso a formas de capital social que independem da interação social e que, tradicionalmente, estariam associadas a ela.

As comunidades nos sites de rede social

Outro impacto importante está naquilo que conhecemos por comunidade. Tradicionalmente, comunidade, para os cientistas sociais, é um conceito associado a um grupo de pessoas que divide proximidade, intimidade, confiança e outros tipos de capital social. Ferdinand Tönies, por exemplo, define comunidade como um grupo de pessoas que divide relações afetivas, íntimas e próximas, de uma forma quase idealizada. Esse tipo de comunidade está associado diretamente aos laços fortes e à intimidade construída entre os indivíduos e, portanto, refere-se a grupos pequenos de pessoas. No entanto, nos sites de rede social, a ideia de comunidade foi popularizada com outro sentido: tornaram-se grupos, focados na associação de pessoas com relação a uma ideia. A interação, necessária para a intimidade, na definição de Tönies, por exemplo, não era mais necessária. Assim, temos um novo tipo de comunidade, decorrente da associação entre os membros, completamente independente da interação social, mas que dá, a esse grupo, acesso a determinados valores. São comunidades mantidas pelos sites.

Rede mapeada a partir das interações de um grupo baseado em associação.

Imagem: Raquel Recuero.

Essas comunidades são fundamentalmente diferentes de outros tipos de agrupamentos que encontramos em outras ferramentas. Em chats, por exemplo, a comunidade está diretamente associada à participação dos indivíduos. Essa participação vai além da simples associação ao grupo e é conectada com a interação e o investimento no próprio grupo. Se ninguém participa do chat, por exemplo, ele não se mantém e não há criação de grupos. Para ter acesso aos valores gerados pelo grupo, num canal de chat, é preciso participar. Ou seja, enquanto comunidades mais tradicionais estariam associadas a redes sociais de laços fortes, menores, onde os indivíduos estão mais interconectados (todos se conhecem) e mais próximos (todos interagem com todos regularmente), nos sites de relacionamento, essas comunidades podem representar grupos imensos, compostos por alguns ou nenhum laço social (simplesmente “associados ao grupo”) e desconectados entre si. Mas, individualmente, esses indivíduos teriam acesso aos valores do grupo.

Temos, portanto, outra diferença fundamental. As comunidades nos sites de rede social tendem a ser associativas e não emergentes como em outras ferramentas. Trata-se de outro efeito da manutenção artificial das conexões sociais estabelecidas. Assim, como a participação não é necessária para assegurar acesso aos valores dessas comunidades dos sites de rede social, elas passam a perder seu sentido. Comunidades do Orkut hoje, por exemplo, são simples afirmações identitárias. Perderam seu sentido de grupo e passam a ser simplesmente cartões que dizem quem os indivíduos são. Ser “dono” de uma comunidade tem valor apenas pelo número de “associados” que ela tem e não mais pela relevância das discussões que ali acontecem.

Comunidade emergente baseada em interações. Imagem: Raquel Recuero.

Esse impacto é profundo, pois os sites de rede social passam a não apenas criar novos valores sociais mas, igualmente, a modificar a forma através da qual os indivíduos têm acesso a esses valores. Mais do que isso, modifica também elementos sociais que eram tradicionais dos grupos, como a necessidade de investimento de todos os participantes. Esse é um debate que ainda está em seu início, bem como a análise e a compreensão de todos os efeitos que essas ferramentas acabam por conferir aos grupos sociais. É certo, no entanto, que elas tornam as estruturas sociais mais complexas, criando canais alternativos por onde capital social e valores como informações passam a circular.

Raquel Recuero é jornalista, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Letras e do curso de comunicação social da Universidade Católica de Pelotas.

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