Resenha o queijo e os vermes

Resenha o queijo e os vermes

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA – UESB

DEPARTAMENTO DE HISTÓRIA

CURSO DE PÓS GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA: POLÍTICA, CULTURA E SOCIEDADE

DISCIPLINA: HISTÓRIA E CULTURA

PROFESSORAS: GRAYCE MAYRE BONFIM E RITA DE CÁSSIA MENDES PEREIRA

01 OUT. 2010

MILENE DE FÁTIMA ALVES SCHETTINI MEDEIROS

RESENHA: AS IDÉIAS OUSADAS DO MOLEIRO MENOCCHIO

GINZBURG, Carlo. O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição. São Paulo: Companhia das Letras, 2005.

Carlo Ginzburg nasceu em Turim na Itália em 1939, ano do início da Segunda Guerra Mundial, numa família judia. Conheceu logo cedo a vida dura e cruel. O pai era antifascista e portanto era natural que Ginzburg vivesse num contexto de pressão intensa. Todos esses fatores influenciaram para que ele se tornasse um grande escritor. É professor na Universidade da Califórnia ( Los Angeles), deu cursos no Instituto de Estudos Avançados de Princeton e na Universidade de Bolonha na Itália. Escreveu livros que já foram traduzidos em quinze idiomas e é um dos principais e mais importantes e influentes historiadores de nosso tempo.

O queijo e os vermes: o cotidiano e as idéias de um moleiro perseguido pela Inquisição é uma apaixonante história do século XVI sobre Inquisição e sobre cultura popular e erudita da época. O autor além de discutir um tema instigante, ele consegue fazer uma narrativa que envolve e ao mesmo tempo, construir o perfil da personagem abordando suas principais idéias.

A personagem é Domenico Scandella, conhecido como Menocchio, um moleiro que morava numa pequena aldeia chamada Montereale, nos arredores de Udinese na Itália. Casado, dedicava-se a cuidar de sua família e a sustentá-la. Como moleiro, ele tinha contato com outras classes sociais da sociedade camponesa e ainda mais uma particularidade, ele sabia ler e escrever, o que não era comum entre os pobres da época, isso lhe dava acesso ao mundo da literatura, porém ele lia de forma diferente do que o normal, pois ele retirava do que lia apenas o que interessava para sustentar suas idéias. Tinha porém um defeito: falava muito e isso desagradava à Igreja que acabaria por levá-lo ao Tribunal de Inquisição do Santo Ofício. O fato é, que ele discutia, explanava suas idéias em público de forma ousada e sem medo. Ele não aceitava os dogmas que a Igreja impunha, portanto era considerado nocivo, perigoso, um herege.

O autor discorre sobre como seria possível ter um moleiro formulado tantas idéias. Sempre pairava suspeitas de que ele não houvesse criado tais teorias, mas que estava sendo um mero repetidor e que por trás de suas palavras havia um mentor. Como idéias tão ousadas poderiam ter sido elaboradas por um simples e pobre moleiro? Ginzburg nesse livro parte do pressuposto de que as classe mais baixas da sociedade possuem uma cultura própria que independe da cultura erudita. Como o próprio autor afirma: “ Tudo o que vemos até agora demonstra que Menocchio não reproduzia simplesmente opiniões e teses dos outros. Seu modo de lidar com os livros, suas afirmações deformadas e trabalhosas são sem duvida sinais de uma elaboração original.” (p.101). Portanto devemos pensar Menocchio como uma personagem singular e não representativo.

Menocchio fundamenta grande parte de suas críticas em cima da Igreja. Ele disseminava a equivalência de todas as fés, questionava a virgindade de Maria, dizendo que ela for forjada, questionava também a criação do mundo por Deus e a crucificação de Jesus Cristo. Levantou suspeitas ainda em relação aos Evangelhos, afirmando que eles foram escritos por homens comuns e que eram mercadorias. Falou sobre adoração de imagens, os Sacramentos, o inferno, enfim, diversos temas que são bases dos dogmas da Igreja Católica. Ele fazia uma dura crítica a riqueza que a Igreja possuía e que esta dava poder ao clero através do domínio e do controle de parte das terras férteis da Europa.

Na Igreja não havia espaço para o debate nem para a liberdade de expressão, a fé era absoluta, sem engano, dúvida ou margem para erra. Todos aqueles que não seguiam os passos determinados pela Igreja e proferia blasfêmias e heresias, tinha que ser posto diante do Tribunal de Inquisição onde os hereges eram punidos com reclusão, penitências, humilhações e morte na fogueira.

Ele foi denunciado e acusado de herege por espalhar sua tese sobre a cosmologia. Ele costumava dizer que o universo se formou de uma coisa podre: “ Eu disse que segundo meu pensamento e crença tudo era um caos, isto é, terra, ar, água e fogo juntos, e todo aquele volume em movimento se formou uma massa, do mesmo modo como o queijo é feito de leite, e do qual surgem os vermes, e esses foram os anjos. A santíssima majestade quis que aquilo fosse Deus e os anjos e entre todos aqueles anjos estava Deus, ele também criado daquela massa, naquele mesmo momento,e foi feito senhor com quatro capitães: Lúcifer, Miguel, Gabriel e Rafael.” (pag.43) É interessante observar que ele sempre defendeu com veemência o que acreditava, mesmo com o passar do tempo e nos dois interrogatórios. Ele pedia perdão, mas não negava suas idéias. Diante do inquisidor, respondia o que achava, mas temia em muito a reação do bispo.

Menocchio acabou sendo condenado em 1584, pois a quantidade de heresias ditas por ele deveriam ser mantidas distante dos camponeses. A solução seria passar o resto dos seus dias preso e sustentado por mulher e filhos. Porém, depois de dois anos, teve sua pena atenuada e substituída por algo parecido com o que chamamos de prisão domiciliar, onde não poderia sair da aldeia e estaria sempre vestido com um hábito com a cruz. Em 1597 teve o direito de deixar Montereale, no entanto, mesmo tendo sido julgado e condenado pela Santa Inquisição, ele manteve sua posição e continuou a pregar suas idéias consideradas heréticas e isso o levou a um segundo julgamento em 1598. Nesse mesmo ano ele foi condenado, torturado e morto na fogueira. “ Em 2 de agosto a Congregação do Santo Ofício se reuniu: Menocchio foi declarado, por unanimidade, um “relapso”, um reincidente. O processo terminara. Decidiu-se, no entanto, submeter o réu a tortura, para arrancar-lhe o nome dos cúmplices. Isso aconteceu em 5 de agosto, no dia anterior, a casa de Menocchio fora revistada e na presença de testemunhas, haviam sido abertas todas as caixas e confiscados ‘todos os livros e escritos’.” (pags. 179-180)

A obra de Ginzburg é inovadora. Ele trabalha com todos os dados que dispõe de forma excepcional. O trabalho de reconstrução é brilhante e por fim ele traz uma grande contribuição historiográfica, pois trata de temas que não deixam de ser atuais e que produzem reflexões importantes sobre culturas popular e eruditas, religião, costumes, leitura, etc.

O livro O queijo e os vermes vale a pena ser lido, não só por historiadores e estudantes, mas por todos aqueles que se interessam por temáticas religiosas. É um estudo extraordinário. Devemos ser gratos a Carlo Ginzburg porque através dele, de sua paciência e perseverança, leu todos os documentos e nos fez conhecer Menocchio, uma figura singular de seu tempo, com pensamentos e idéias diferentes, realmente um sujeito atípico.

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