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MATHEUS, Renato Fabiano. A Estrutura das Revoluções Científicas: resumo crítico detalhado. ABR/2005. Disponível em: <http://w.rfmatheus.com.br/doc/revolucaocientificav2.3.pdf>. Acesso em: <4/6/2006>.

Texto original: Kuhn, Thomas S. A Estrutura das Revoluções Científicas. 7 ed. São Paulo: Perspectiva, 2003. 262 p. Tradução Beatriz Vianna Boeira e Nelson Boeira. Título original: The Structure of Scientific Revolutions. Data de publicação original: 1969.

Resumo

No ensaio cujo resumo crítico detalhado é apresentado neste texto, Thomas S. Kuhn discute como as ciências naturais, especialmente a Física, de onde obtém a maioria absoluta dos numerosos exemplos apresentados no livro, atingem o progresso científico.

Kuhn argumenta que os períodos de acumulação gradativa de conhecimento pela comunidade científica, denominados por ele de ciência normal, são interrompidos ou intercalados por períodos da chamada ciência extraordinária, quando os “paradigmas” científicos são questionados e revistos através das “revoluções científicas”. Neste caso, a ciência evolui tanto de forma acumulativa, nos períodos de ciência normal, quanto aos saltos, quando ocorrem as revoluções científicas.

O texto foi originalmente publicado em 1962, sob o Título The Structure of Scientific Revolution, sendo que a versão aqui comentada apresenta ainda um posfácio, datado de 1969, quando Kuhn contraargumenta alguns pontos criticados na versão original. A versão traduzida, tomada como base para o presente texto, foi publicada em 1975.

destacados aqueles tópicos mais importantes, iniciados com a expressão “Sobre”, e as definições,

Os esquemas presentes neste texto são de autoria do autor, e não estão presentes no livro de Kuhn. Todas as idéias originais de Kuhn aparecem entre aspas ou são destacadas explicitamente. Este texto organiza-se por capítulos, seguindo a organização do texto original. Em de cada capítulo são sendo as últimas marcadas em negrito. Este texto preserva o conjunto das idéias originais de Kuhn. No entanto, também são apresentados alguns comentários críticos, sempre de forma explícita, a fim de não causar mal entendidos em relação à identificação das idéias originais. Além de referências ao texto de Kuhn, são feitas referências adicionais a tópicos e autores, como é o caso de Bacon, Descartes, Popper e Lakatos.

Após a leitura de Kuhn ficam pendentes perguntas sem resposta, como: Quais são as revoluções da Física após o início do século 20? Por que no caso da Física, por exemplo, a física newtoniana ainda está tão presente nos currículos escolares? Como o ensaio de Thomas Kuhn se aplica às ciências sociais, se é que se aplica de alguma forma?

Glossário

A seguir é apresentada uma lista de termos e expressões cujo significado deve ser entendido a fim de se compreender as questões filosóficas sugeridas por Kuhn (1975). É necessário consultar fontes adicionais (ABBAGNANO, 2003; REALE; ANTISERI, 2003A; 2003B; 2003C) sobre os significados dos termos deste glossário, uma vez que aqui os mesmos são apenas indicados.

(solução) putativa; Ad nauseam; Cânone; Critério de demarcação; Desiderato; Deslindar; Epistemologia; Escolástica; Esotérico (cf. exotérico); Espúnia; Exotérico (cf. esotérico); Haurido; Hiato; Idiossincrasia; Inextricável; Laica; Ontologia; Paroquialismo; Pneumático; Raison d’ètre; Recôndito; Saporífero; Solipsismo; Tautologia; Tautológico

Sobre Thomas Kuhn

Thomas S. Kuhn fez pós-graduação em Física teórica, período durante o qual passou a interessar-se por História da Ciência e Filosofia.

No período que atuou como Junior Fellow da Society of Fellows da Harvard University, Kuhn teve tempo para apreciar mais detidamente as questões relativas à História da Ciência que passaram a interessá-lo, sendo que o livro A Estrutura das Revoluções Científicas, que o próprio autor denomina de ensaio, foi concebido neste período.

Algumas datas e experiências citadas por Kuhn: ● Em 1952 Kuhn começou a dar aulas de História da Ciência;

● Entre 1958 e 1959 Kuhn atuou no Center for Advanced Studies in the Behavioral Sciences;

● Em fevereiro de 1962, Kuhn publicou The Structure of Scientific Revolutions, enquanto atuava na Berkeley University, na Califórnia.

Prefácio

Definição de paradigma científico presente no prefácio (outras definições aparecem no livro, sendo que no posfácio Kuhn busca explicar esta questão novamente):

“considero ‘paradigmas’ as realizações científicas universalmente reconhecidas que, durante algum tempo, oferecem problemas e soluções modelares para uma comunidade de praticantes de uma ciência” (KUHN, 1975, p. 13).

Kuhn sugere um estudo de citações como indicador das revoluções científicas:

Um desses efeitos {de uma revolução científica} – uma alteração na distribuição da literatura técnica citada nas notas de rodapé dos relatórios de pesquisa – deve ser estudado como um índice possível de ocorrência de revoluções. (KUHN, 1975, p. 14)

Capítulo: Introdução – um papel para a História

Sobre a história das ciências: “Em vez de procurar as contribuições permanentes de uma ciência mais antiga, eles [os ‘novos’ historiadores da ciência] procuram apresentar a integridade histórica daquela ciência, a partir de sua própria época” (KUHN, 1975, p. 2) em contraposição ao “[...] conceito de desenvolvimento por acumulação” (KUHN, 1975, p. 21), através do qual normalmente a ciência é apresentada.

Sobre as revoluções científicas: “As revoluções científicas são os complementos desintegradores da tradição à qual a atividade da ciência normal está ligada”, forçando “[...] a comunidade a rejeitar a teoria científica aceita em favor de uma outra incompatível com aquela”, sendo que “Tais mudanças, juntamente com as controvérsias que quase sempre as acompanham, são características definidoras das revoluções científicas” (KUHN, 1975, p. 25).

Exemplos usados durante todo o livro alguns pesquisadores citados são: Copérnico, Lavoisier, Newton, Einstein, Maxwell. A tabela a seguir resume estes e outros exemplos apresentados ao longo do livro de Kuhn:

TABELA 1 Exemplos de ciências paradigmáticas usados por Kuhn

Ciência Época Cientista (ou filósofo) Paradigma

Pitágoras Matemática, Sócrates e Platão discussão crítica e a dialética, Aristóteles filosofia da natureza

Filósofos gregos e a cultura helênica

Ptolomeu teoria geocêntrica

Francis Bacon “Grande Instauração” Renascimento

René Descartes “Discurso do Método”

Revolução copernicana

Ptolomeu X Copérnico, Galileo, Kepler Teoria heliocêntrica

Revolução na Física Aristóteles X Newton Princípia (ou leis) Teoria Eletromagnética

Maxwell, Lorentz, Fitsgerald descoberta do raio X

Newton X Einstein Física Clássica X Teoria Geral da Relatividade

Física

Física Moderna

Planck, Einstein, Bohr, Heisenberg, Schrödinger Mecânica Quântica

Química Revolução Química Scheele, Priestley (1974),

Lavoisier

Teoria flogística X Descoberta Oxigênio Biologia Biologia Moderna Charles Darwin Teoria da Evolução das Espécies

Fonte: R. F. Matheus, a partir da síntese do texto de Kuhn (1975)

Sobre aceitação de novas teorias:

[...] uma nova teoria, por mais particular que seja seu âmbito de aplicação, nunca ou quase nunca é um mero incremento ao que já é conhecido. Sua assimilação requer a reconstrução da teoria precedente e a reavaliação dos fatos anteriores (KUHN, 1975, p. 26)

Capítulo 1 – A rota para a ciência normal Definição de ciência normal:

‘ciência normal’ significa a pesquisa firmemente baseada em uma ou mais realizações

científicas passadas. Essas realizações são reconhecidas durante algum tempo por alguma comunidade científica específica como proporcionando os fundamentos para sua prática posterior.” (KUHN, 1975, p. 29)

Visão esquemática da ciência normal extraída a partir da argumentação de Kuhn: textos clássicos (exm: Óptica de Newton) problemas e métodos comunidade científica “paradigmas” “ciência normal”

Sobre paradigmas científicos compartilhados: “Homens cuja pesquisa está baseada em paradigmas compartilhados estão comprometidos com as mesmas regras e padrões para a prática científica” (KUHN, 1975, p. 30)

Esquema da história da ótica, criado a partir da argumentação de Kuhn sobre a História da “Óptica Física”

FIGURA 1 – Sobre a história da “Óptica Física” Fonte: R. F. Matheus, a partir da argumentação textual de Kuhn sobre a “Óptica Física” (1975)

Exemplos de formação de paradigmas científicos e fases pré-paradigmáticas: História da pesquisa elétrica da primeira metade do século XVIII até Franklin; Movimento até Aristóteles; Estática até Arquimedes; Calor até Black; Química até Boyle e Boeshaave; Geologia e História até Hutten.

Exceções à existência de uma fase pré-paradigmática para o nascimento de uma nova ciência: Ciências que se formaram na pré-história das ciências, como a Matemática e a Astronomia; Ciências cujo surgimento se deu pela cisão ou combinação de outras especialidades, como a Bioquímica.

Sobre a dificuldade do desenvolvimento científico na ausência de um paradigma:

Na ausência de um paradigma ou de algum candidato a paradigma, todos os fatos que possivelmente são pertinentes ao desenvolvimento de determinada ciência têm probabilidade de parecerem igualmente relevantes (KUHN, 1975, p. 37)

Tecnologia como facilitadora da coleta ordenada de dados: “A tecnologia desempenhou muitas vezes um papel vital no surgimento de novas ciências, já que os ofícios são uma fonte facilmente acessível de fatos que não poderiam ter sido descobertos casualmente” (KUHN, 1975, p. 37; 38)

Sobre Francis Bacon e o critério de demarcação1 sobre o que é ou não ciência: na concepção de Kuhn, o trabalho de Francis Bacon (1561-1626), apesar de utilizar experimentos, tinha, uma série de

1 Demarcation criteria = “characteristics that any discipline or field of study must possess in order to qualify as genuine

science” (CURD, 1998, p. 2). Ainda em relação ao critério de demarcação, Thomas Bayes propõe a Teoria da Probabilidade, em relação à previsão empírica, aplicada à escolha de paradigmas. Feyerabend, por outro lado, afirma que nenhum critério de demarcação científica é possível, como pode ser lido na frase a seguir: “Feyerabendian anarchists and others who say tahit no demarcation of science from pseudoscience is possible.” (CURD, 1998, p. 27). A seguinte frase é atribuída a Feyerabend: “My intention is not to replace one set of general rules by another such set: my intention is rather to convince the reader that all methodologies, even the most obvious ones, have their limits.” (BARTLEBY.COM GREAT BOOKS ONLINE, 2003)

EpícuroSéc. XVIII sec. XIX sec. X

Fase pré-paradigmática Corpúsculos Mov. Ondulatório Fótons

Newton Younge Planck Aristóteles Optica

(competição entreParadigmas

Platão várias escolas) problemas, não podendo ser qualificado como ciência, como mostra quando Kuhn comenta que “[...] hesita-se em chamar de ciência a literatura resultante” ou as “’histórias baconianas’” (KUHN, 1975, p. 36). Segundo Kuhn, os trabalhos de Francis Bacon carecem de um apoio da Matemática, contendo juízos de caráter e opiniões pessoais.

Em contraposição à argumentação de Kuhn, existem argumentos a favor e contra Bacon apresentados no prefácio à obra do autor (BACON, 1999), especialmente de que ele é o “[...] inventor do método experimental” (BACON, 1999, p. 5), ou contrariamente de que “Bacon foi apenas o arauto da ciência, e jamais seu criador” (BACON, 1999, p. 5) e de que “[...] ele [Bacon] nada compreendera de ciência, foi crédulo e totalmente destituído de espírito crítico” (BACON, 1999, p. 5). Por outro lado, “Ele [Bacon] inicia essa reforma [‘científica’] criticando a filosofia anterior [Platão, Aristóteles, escolásticos, alquimistas] por sua esterilidade quanto a resultados práticos para a vida do homem” (BACON, 1999, p. 10). Além disso, Bacon concebeu o projeto, inacabado e imperfeito, da “Grande Instauração” do conhecimento científico, composto das seguintes etapas ou partes: Classificação das ciências (texto: O Progresso do Saber); Princípios e métodos (texto: Novum Organum); Coleta de dados (texto: História Natural); Exemplos da aplicação do método (sem texto); Lista de generalizações (sem texto); Nova filosofia e axiomas (sem texto).

Ainda no préfacio da obra de Bacon, são apresentadas citações sobre as possíveis teorias da indução, que Bacon (1999) argumenta que pode basear-se na experiência vaga, ou na experiência escriturada, sendo que a última baseia-se em tábuas de investigação, compostas por seu turno de instâncias prerrogativas; gradações ou comparações; ausência ou negação; presença ou afirmação. Sobre os “ídolos”, Bacon (1999) cita os ídolos do teatro, do foro, da caverna, da tribo, presentes nos textos dos autores anteriores que ele critica. Sobre a “forma” dos fenômenos naturais, Bacon (1999) cita a forma esquelética latente e o processo latente.

Segundo o próprio Bacon (1999), “[...] a ciência tem sentido eminentemente prático”, sendo que por um lado “[...] a ciência é a investigação empírica” e por outro “[...] a ciência não é obra individual”.

Retomando os argumentos de Kuhn, sobre omissão de fatos históricos importantes no desenvolvimento da ciência pela história das ciências: “[...] a História Natural típica omite com freqüência de seus relatos imensamente circunstanciais exatamente aqueles detalhes que cientistas posteriores considerarão fontes de iluminação importantes” (KUHN, 1975, p. 36).

Sobre o triunfo de um paradigma: “As divergências realmente desaparecem em um grau considerável e então, aparentemente, de uma vez por todas”, sendo que “[...] em geral seu desaparecimento é causado pelo triunfo de uma das escolas pré-paradigmáticas” (KUHN, 1975, p. 37)

Sobre motivos para abandonar experimentos e o fato dos paradigmas funcionarem como problemas exemplares a serem resolvidos: “Este [paradigma de Franklin sobre a teoria do fluido elétrico] sugeria as experiências que valeriam a pena ser feitas e as que não tinham interesse, por serem dirigidas a manifestações de eletricidade secundárias ou muito complexas” (KUHN, 1975, p. 38)

Esquema do fluxo de criação e manutenção de paradigmas:

FIGURA 2 – Sobre os paradigmas e as práticas da comunidade científica Fonte: R. F. Matheus, a partir da argumentação textual de Kuhn (1975)

Exemplos de ciências orientadas a problemas, que são exceção à regra de que a ciência define seus objetivos de acordo com paradigmas (com pouco ou nenhuma interação exterior) são a “[...] Medicina, a Tecnologia e o Direito, que têm a sua raison d’ètre numa necessidade social exterior” (KUHN, 1975, p. 39)

Crítica ao livro como veículo para divulgação científica, em contraposição a artigos:

O cientista que escreve um livro tem mais probabilidades de ver sua reputação comprometida do que aumentada [sendo que] É somente naquelas áreas em que o livro, com ou sem artigo, mantém-se como um veículo para a comunicação de pesquisas que as linhas de profissionalização permanecem ainda muito tenuamente traçadas. (KUHN, 1975, p. 40)

Capítulo 2 – A natureza da ciência normal

e teorias já fornecidos como paradigmas” (KUHN, 1975, p. 45)

Definição de ciência normal: “A maioria dos cientistas, durante toda sua carreira, ocupa-se com operações de limpeza [do paradigma estabelecido]. Elas constituem o que chamo de ciência normal” (KUHN, 1975, p. 4), sendo que “A ciência normal não tem como objetivo trazer à tona novas espécies de fenômenos [pois] A pesquisa da ciência normal está dirigida para a articulação daqueles fenômenos

Revoluções científicas como mecanismo de inovação interno à ciência normal:

A ciência normal possui um mecanismo interno [revoluções científicas] que assegura o relaxamento das restrições que limitam a pesquisa, toda vez que o paradigma do qual

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