Impacto da Urbanização em nascentes de sub-bacias, o caso da bacia do rio Zumbi, Jaboatão PE

Impacto da Urbanização em nascentes de sub-bacias, o caso da bacia do rio Zumbi,...

Josenilson Severino da Silva¹, Fabiana Ribeiro da Silva²

Introdução

De acordo com Teodoro et al apud Barrela (2001), “bacia hidrográfica é um conjunto de terras drenadas por um rio e seus afluentes, formadas nas regiões mais altas do relevo por divisores de água, onde as águas das chuvas, ou escoam superficialmente formando os riachos e rios, ou infiltram no solo para formação de nascentes e do lençol freático. As águas superficiais escoam para as partes mais baixas do terreno, formando riachos e rios, sendo que as cabeceiras são formadas por riachos que brotam em terrenos íngremes das serras e montanhas e à medida que as águas dos riachos descem, juntam-se a outros riachos, aumentando o volume e formando os primeiros rios, esses pequenos rios continuam seus trajetos recebendo água de outros tributários, formando rios maiores até desembocarem no oceano.” Como foi destacado pelo autor, os divisores de água são regiões onde as águas da chuva podem infiltrar e percolar atingindo os lençóis freáticos. O movimento da água nos lençóis intensifica-se, através do escoamento subsuperficial, brotando nas cabeceiras dos riachos, aumentando seu tamanho formando grandes rios à medida que descem os córregos. Para que haja o processo de percolação e infiltração, é necessário que exista nas cabeceiras alguns elementos naturais importantes neste processo: a Vegetação. A ausência de vegetação nas cabeceiras de drenagem (nascentes de rios) pode interferir no movimento de água em subsuperfície, que além de outras funções, alimentam riachos ao longo do ano, inclusive no período climático em acontece a baixa na pluviosidade.

Independente da sua definição, classificação, terminologia, é de extrema importância analisar as potencialidades de uma bacia hidrográfica, afim de que se possa realizar uma devida gestão desses recursos principalmente através com o seu aproveitamento sustentável, com o propósito de garantir a presença qualitativa e quantitativa desse importante sistema ambiental (BARBOZA, 1999) às gerações futuras.

Desde a antiguidade os povos se assentavam próximos aos corpos hídricos, pois por instinto e/ou por necessidade, em todos os tempos e lugares, o homem tem firmado o seu domicílio e as atividades coletivas, instalando suas sedes onde há segurança de água fácil e abundante, junto a nascentes, à margem de rios ou de lagos, à beira-mar ou onde os lençóis aqüíferos do subsolo sejam certos e acessíveis.

É importante ressaltar que foi notório o avanço e a expansão do perímetro urbano das grandes metrópoles brasileiras sobre os recursos hídricos, provocando uma intensa depreciação dos seus aspectos naturais, favorecendo assim a maximização da degradação nas bacias hidrográficas. Tucci (1999) afirma que quando uma cidade se urbaniza, muitas vezes pela forma desorganizada como a infra-estrutura é implantada, pode provocar uma série de impactos aos corpos hídricos, dentre eles, “i - o aumento das vazões máximas devido ao aumento da capacidade de escoamento através de condutos e canais e impermeabilização das superfícies; i - aumento da produção de sedimentos devido a desproteção das superfícies e a produção de resíduos sólidos (lixo)”

É destacável que, quanto maior a densidade demográfica e concentração de pessoas nas áreas banhadas por uma determinada bacia hidrográfica, maior será o risco da ocorrência de degradação ambiental, não apenas no local da origem, mas ao longo dos cursos d’água que compõem a bacia, entretanto, Tucci (1999) destaca que nos Planos Diretores de muitas cidades brasileiras não existem nenhuma restrição quanto à ocupação de áreas de risco à inundação e enchentes, pela população de baixa renda, principalmente em áreas ribeirinhas e “a seqüência de anos sem enchentes é razão suficiente para que as pessoas ocupem as áreas inadequadas.”

Um sistema pode atingir o equilíbrio ambiental quando os elementos naturais que compõe esse determinado sistema, tais como vegetação, solo, clima, relevo etc., estão se interagindo de forma harmônica. Quando o homem entra em contato com o sistema ambiental, essa harmonia pode ser quebrada e o tamanho do seu impacto varia de acordo com a forma em que este contato está sendo realizado.

Os recursos hídricos, importantes sistemas ambientais para a humanidade, vêm sendo bastante denegridos pela forma de uso e ocupação promovidos pelo homem. O seu uso inadequado pode provocar uma quebra profunda e talvez irreversível da harmonia existente entre os elementos naturais,

_ 1. Primeiro Autor é Aluno do Departamento de Ciências Geográficas, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco. Av. Prof. Moraes Rego, 1235 - Cidade Universitária, Recife - PE - CEP: 50670-901. E-mail: josneilson_sarney@yahoo.com.br 2. Segundo Autor é Aluno do Departamento de Ciências Geográficas, Centro de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Federal de Pernambuco. Av. Prof. Moraes Rego, 1235 - Cidade Universitária, Recife - PE - CEP: 50670-901. E-mail: fabi_juli@hotmail.com

principalmente em suas nascentes

principalmente quando se refere à retirada da vegetação nas proximidades dos principais canais que compõem uma bacia hidrográfica de qualquer porte,

A conservação e preservação da vegetação existente próxima às nascentes de riachos, canais, rios e tributários de qualquer ordem (HORTON - 1945) devem ser consideradas de extrema importância no manejo e gestão de bacias, sub bacias e microbacias hidrográficas, pois a retirada da vegetação primitiva de suas nascentes pode provocar a diminuição da vazão nestes locais e em áreas à jusante dos curso de água, pois com a ausência da vegetação, o nível médio do lençol freático (profundidade do lençol), que alimenta as nascentes, pode aumentar; o desmatamento também pode deixar a superfície do solo exposta e os agregados de partículas podem ser destruídos pelas gotas da chuva (erosão por salpicamento); com o impacto das gostas da chuva, o solo passa a ficar menos poroso (selagem), endurecendo o silte e a argila que existe na superfície do solo formando uma camada dura que recebe o nome de crosta. A impermeabilização do solo próximos às nascentes, que ocorrem de maneira natural ou “artificial”, vai provocar o aumento da enxurrada nas encostas desmatadas no período de alta pluviosidade, visto que o solo perdeu boa parte da competência da infiltração e alimentação subsuperficial no local impermeabilizado, onde antes ocorria o escoamento subsuperficial e a percolação. “Isso reduz o abastecimento dos rios pelas nascentes além de afetar também a vegetação, porque o solo fica menos úmido” (FARIA E MARQUES 1999). A vazão muito fraca próximas às nascentes não remove os sedimentos deixados no canal pela erosão nas encostas, aumentando o assoreamento, o que poderá levar à sua extinção.

Sub-bacia hidrográfica é o termo mais adequado para caracterizar uma área com drenagem direta ao curso principal de uma bacia hidrográfica. A partir das definições de Faustino, as águas drenadas na área de estudo, que migram para o canal principal, compõe uma sub-bacia, a do rio Zumbi. As águas deste canal são conduzidas até a bacia do rio Jaboatão que por sua vez deságuam no mar, nas proximidades do bairro de Barra de Jangada.

A sub-bacia do rio Zumbi, em quase sua totalidade, é um divisor natural entre as cidades de Recife (à Sulsudeste da sub-bacia) e o município de Jaboatão (à Norte-Nordeste da sub-bacia) (figura 1A) Boa parte da área banhada pela sub-bacia em estudo foi bastante desmatada, provocada pela retirada da vegetação e destinação a outros usos, como construção de residências, ruas, avenidas, escadarias de acesso, este fato se acentua quando se parte para as nascentes, em que o solo das nascentes dos rios e tributários desta sub-bacia do rio zumbi está, em alguns pontos, bastante degradado devido à forma da ocupação que foi realizada naqueles locais, principalmente pela retirada acentuada da sua vegetação original.

O presente trabalho teve como principal objetivo avaliar os impactos provocados pela retirada da vegetação e ocupação das nascentes do rio Zumbi, principal canal da sub-bacia de mesmo nome, que é um dos importantes afluentes do Rio Jaboatão, que banha nove municípios da Região Metropolitana do Recife.

Material e Métodos

A metodologia utilizada para alcançar tais objetivos foi baseada em pesquisa bibliográfica e cartográfica à cerca do tema e da área em estudo, além de entrevistas informais com moradores que vivem nas proximidades do rio principal da sub-bacia hidrográfica do rio Zumbi.

Resultados e Discussões

O desmatamento descontrolado de uma vegetação nativa em uma bacia hidrográfica, independente do seu porte, pode ocasionar sérios danos e conseqüências negativas aos recursos hídricos disponíveis na bacia e no sistema em que ela estiver integrada. Esse processo vem se acentuando em praticamente toda área da sub-bacia do rio Zumbi, principalmente onde estão concentradas as nascentes de pequenos riachos (figura 1B). Quanto a essa situação, Faria e Marques (1999) afirmam que “todas as regiões do país, a extinção dos cursos d.água em pequenas bacias de drenagem ocorre onde há desmatamento indiscriminado além da aplicação de sistemas de cultivo inadequados”, inclusive em suas nascentes, pois esse processo ocorre principalmente quando há a “retirada da Mata Atlântica e o plantio de florestas de eucalipto para a indústria de papel e celulose.”

Através de entrevistas e conversas informais com moradores das áreas próximas às nascentes do rio principal da sub-bacia, verificou-se que a ocupação nesses locais se acentuaram nas últimas duas décadas, principalmente quando ocorreu a pavimentação de algumas ruas para facilitar o acesso das pessoas (Figura 1C). É nítida a ocupação do solo da nascente deste rio, que inclusive, não é possível visualizar o local exato onde existe o afloramento das suas águas. Outros moradores, que residem mais à jusante, afirmaram que “após as chuvas, o rio recebe uma grande carga sedimentar, ocorrendo uma grande sedimentação de areia e cascalho no leito do rio, que são extraídas por outros moradores com o intuito da comercialização e aumento da renda familiar.” É provável que o solo à montante da bacia esteja bastante exposto aos impactos da água da chuva, pois segundo Horton (1945) “a erosão por salpiscamento pode criar a selagem do solo”, diminuindo a infiltração e aumentando o escoamento superficial, que tem a competência de extrair uma carga muito alta de sedimento que é depositado nas áreas menos elevadas do leito do rio. Uma moradora afirmou que, em um ponto no trecho do rio, “existia um pequeno nascedouro de água limpa, que era utilizado para lavagem de roupas e utensílios domésticos, entretanto esse minadouro não mais existe o que dificultou a vida das donas de casas residentes nas proximidades.” Já que é uma tendência natural, o crescimento urbano sobre as paisagens naturais está se acentuando, e para que isso aconteça, é necessário desmatar. A retirada da vegetação, significa diminuição da infiltração, como foi dito anteriormente, e “o sumiço do nascedouro” deve estar ligadas à diversos fatores, principalmente ao desmatamento. Um antigo morador do bairro onde se localiza a área de estudo observou que “o rio principal passou por mudanças qualitativas muito graves, se comparado a cerca de vinte e cinco anos atrás, pois a água do rio está muito poluída, em contrapartida, a vazão durante as chuvas se torna bastante elevado, causando enchentes e erosões rio abaixo.” Talvez o avanço da urbanização tenha chegado às originais margens do rio, a ponto de ser atingido pelas enchentes e aumentar a poluição das águas, mas o fato do volume de água ser tão elevado durante as chuvas, como foi destacado pelo morador, esteja ligado ao que foi discutido por Horton (1945) com relação à retirada indiscriminada da vegetação, que diminui o escoamento subsuperficial, aumentando o escoamento superficial (Figura 1E).

As bacias hidrográficas são importantes sistemas ambientais que devem passar por constantes avaliações do seu grau de degradação, seja qual for a sua hierarquia fluvial, pois a área banhada por uma bacia é caracterizada pela interligação entre seus tributários, logo, uma alteração provocada em um ponto específico de uma bacia, pode ser sentido à jusante.

Foi destacado neste trabalho a importância de preservar e conservar a vegetação nas nascentes dos canais, pondo em prática o que se prevê na legislação ambiental, a fim de não provocar a diminuição da vazão, ou até mesmo a extinção dos rios.

A sub-bacia do rio Zumbi vem sofrendo com os efeitos negativos da urbanização que ocorre nas proximidades dos seus cursos de água, principalmente nas nascentes dos pequenos canais. Devido à forma desordenada da ocupação, além do desrespeito ao meio ambiente, o impacto negativo dessa ocupação está sendo percebida pela população que acompanha esta evolução, pois a degradação e o aumento da vazão de pico (durante as chuvas) vêm se acentuando.

Orientação sobre as maneiras ambientalmente corretas de como deve ser feita a ocupação nas áreas próximas às nascentes dos rios, torna-se uma das várias alternativas para a diminuição dos impactos que vem acontecendo na sub-bacia do rio Zumbi, já que não existe nenhum controle quanto às ocupações irregulares. Programas de educação ambiental, práticas de conservações ligadas aos recursos hídricos devem ser aplicados em tais áreas a fim de criar e resgatar a ligação de afinidade entre os rios e os moradores da área, pois muitos afirmavam que chegaram a tomar banho no rio Zumbi.

Agradecimentos

Agradecemos às lideranças comunitárias do bairro do

Jardim Monte Verde pela assessoria no contato com os moradores da área estudada.

Referências

[1] BARBOZA, Aldemir Dantas. A questão ambiental na agricultura através de um estudo integrado dos ecossistemas e dos agrossistemas no agreste da Paraíba. Tese de Doutorado - Universidade Federal do Rio de Janeiro, Programa de Pós Graduação em Geografia, Rio de Janeiro, 2003. 290 p.

[2] FARIA, Antônio Paulo; MARQUES, Jorge Soares. O

Desaparecimento de Pequenos Rios Brasileiros. REVISTA CIÊNCIA HOJE, Rio de Janeiro, V.25, n.146, p.56-61, jan./fev.1999.

[3] TEODORO, Valter Luiz Iost. TEIXEIRA, Denílson. COSTA,

Daniel Jardir Leite. FULLER, Beatriz Buda. O conceito de bacia hidrográfica e a importância da caracterização morfométrica para o entendimento da dinâmica ambiental local. Revista Uniara nº 20. 2007. p 137 – 156.

[4] TUCCI, C.E.M. Aspectos Institucionais no Controle de Inundações. I Seminário de Recursos Hídricos do Centro- Oeste. Brasilia. 1999.

Figura 1. Figura 1A (Localização da área de Estudo). Figura 1B (Imagem de satélite da área de estudo). Figura 1C (Construção de ruas e avenidas próximas às nascentes). Figura 1D (Construção de Escadarias no lugar da vegetação) Figura 1E (Retirada da Vegetação próximas as nascentes do rio Zumbi.

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