Coesão e Coerência

Coesão e Coerência

Coesão e Coerência – Devem - se distinguir ?

As noções de coesão e coerência costumam ser abordadas pelo campo da lingüística como fatores que garantem a textualidade, aquilo que diferencia um texto de uma mera seqüência de palavras. A distinção entre os dois conceitos não é unânime na área há um intenso debate sobre as inter-relações que conectam esses dois termos, havendo inclusive quem defenda se tratar de um só fator da textualidade.

Há autores que distinguem dois níveis de análise,correspondendo a coesão e coerência,embora a terminologia possa ser diferente; outros não distinguem e outros ou fazem referência a apenas um desses fenômenos ou estudam vários de seus aspectos sem qualquer rotulação .

A coesão e a coerência textuais constituem níveis diferentes de análise. Isso porque pode haver um seqüenciamento coesivo de fatos isolados que não têm condição de formar um texto. Por outro lado, também pode poder haver textos destituídos de coesão mas cuja textualidade se dá no âmbito da coerência.

A coerência de um texto é facilmente deduzida por um falante de uma língua, quando não se encontra nenhum sentido lógico entre as proposições de um enunciado oral ou escrito. É a competência linguística, tomada em sentido amplo, que permite a esse falante reconhecer de imediato a coerência de um discurso. A competência linguística combina-se com a competência textual para possibilitar certas operações simples ou complexas da escrita literária ou não literária: um resumo, uma paráfrase, uma dissertação a partir de um tema dado, um comentário a um texto literário, etc.

O sistema linguístico está organizado em três niveis : O semântico, o léxico – gramatical, e o fonológico – ortográfico.Os significados estão codificados como formas e realizadas como expressões,porém a coesão é obtida através da gramática e parcialmente através do léxico.

Como analisar a coesão

Para sistematizar o conceito de coesão Halliday e Hasan (1976) propõem a distinção dos mecanismos coesivos em cinco categorias, divididas de acordo com o modo como os itens lexicais e gramaticais relacionam-se com o texto e no texto: referência, Substituição, elipse, conjunção e coesão lexical.

Para se obter a coesão,é importante a escolha de conectivo adequado para expressar as diversas relações semânticas, o mesmo conectivo pode expressar relações semânticas diferentes, pois é preciso saber reconhece – las.Embora a omissão de conectivos,será admissível,quando a relação semântica estiver bem clara para evitar ambigüidade(a não ser que seja intencional).

Os mecanismos de coesão introduzem os argumentos e organizam sua retomada na seqüência do texto: são realizados por um subconjunto de unidades que chamarmos de anáforas esse procedimento concorrem, portanto, sobretudo para a produção de um efeito de estabilidade e de continuidade.

A coesão relaciona-se com o modo como os componentes do universo textual conectam-se numa relação de dependência para a formação de urna seqüência linear. Em outras palavras, a coesão diz respeito aos processos de seqüêncialização que asseguram urna ligação lingüística entre os elementos da superfície textual.

Coesão Referencial

Pode ser caracterizada pela alta repetição do texto falado e é perceptível com facilidade isso acontece para facilitar o sentido da fala.

Certos itens na língua que tem função de estabelecer referência,ou seja, não são interpretados semanticamente por um sentido próprio,mas referem-se a alguma coisa necessária a sua interpretação.

O leitor/alocutário relaciona determinado signo a um objeto tal como ele percebe dentro da cultura em que vive. A coesão referencial pode ser obtida por substituição e por reiteração.

A pró-forma(elemento gramatical representante de uma categoria), ligada na substituição,podem ser pronominais,verbais,adverbiais,numerais e exercem função de pró – sintagma, pró – constituinte,ou pró – oração.

Analisando a reiteração que se baseia na repetição de expressões no texto,ou a recorrência de termos,produz o que se chama de coesão seqüencial parafrástica. Nessa repetição, um novo sentido vai sendo impresso à palavra que está sendo repetida. Não é, portanto, uma repetição pura e simples, mas adquire um novo significado, pois vai contribuindo para intensificar os diferentes efeitos.

Manifesta-se também através da anáfora(algo que será dito posteriormente)

E também o estabelecimento das referências pode se dar tanto pela referência endofórica (entre elementos do próprio texto) como pela referência exofórica (entre elementos do texto e outros dados da realidade exterior – situação).

Podemos então citar alguns exemplos:

Carla e André namoram há um ano.Eles se conheceram no segundo colegial(endofórica).

Você se arrependerá por não ter feito aquela prova anterior(exóforica).

Coesão Recorrencial

Caracteriza-se pela repetição de algum tipo de elemento anterior que não funciona, a exemplo do caso da coesão referencial, como uma alusão ao mesmo referente, mas como uma “recordação” de um mesmo padrão. Ela pode aparecer de várias formas:

  1. A recorrência de termos: Rosa falava, falava, falava...

  1.   O paralelismo, que consiste na recorrência da mesma estrutura sintática: Pão no forno, água na garrafa e fruta na geladeira não alimentam.

  2.     A paráfrase, que se refere à recorrência de conteúdos semânticos, marcada por expressões introdutórias como ,isto é: Ela não compareceu, ou seja, sumiu.

  3.    Recursos fonológicos, ou sons, caso da rima: A bola não ficou triste, a bola alegre resiste .

Coesão Seqüencial

É estabelecida por elementos que fazem o texto progredir, a partir da conexão por eles operacionalizada. Esses elementos são os conectivos, termos que estabelecem uma relação semântica a partir do sentido que expressam. Esse tipo de mecanismo de coesão se refere ao desenvolvimento textual propriamente dito, ora por procedimentos de manutenção temática, com o emprego no mesmo campo semântico, ora por meio de processos de progressão temática.

A progressão temática pode realizar-se por meio da satisfação de compromissos textuais anteriores ou por meio de novos acréscimos ao texto.

Sequenciação por conexão

Está interdependência semântica ou programática é expressa por operadores do tipo lógico,operadores discursivos e pausas.

Os operadores do tipo lógico podem estabelecer relações de :

Disjunção,Condicionalidade,Causalidade,Mediação,complementação,e restrição ou delimitação.

Já os operadores do discurso,podem ser por exemplo de : Conjunção,Disjunção,contra junção,conclusão,explicação e comparação.

Pausa para análise de textos

Num texto a exploração de alguns fatores em detrimento de outros evidencia a constituição peculiar de cada texto,caracterizando conseqüentemente seu produtor.

As marcas lingüísticas constituem indicadores das intenções do autor,porém podem não coincidir exatamente com estas mesmas intenções ou porque eles as mascarou ou por que o texto permite leituras não previstas. Assim,nunca se pode saber o que o autor quis realmente dizer.

Neste sentido,pode-se dizer que todo leitor é também um produtor. Por razões didáticas serão levantadas predominantemente marcas de coesão e posteriormente em outros textos, as de coerência,Por isso,embora predomine a análise de marcas coesivas,outras também serão coesivas.

Facilitando a localização dos fatos apontados,os textos foram enumerados e esta numeração está indicada na análise.

Nota-se que a maioria dos textos,se caracteriza pela intensa utilização da elipse e das pausas.

Este procedimento trouxe,uma série de implicações ao nível da coerência,fazendo com que o texto possa ser coerente para uns, e não para outros,possibilitando amplamente várias leituras.

Reformulando a noção de coerência

Como já estudamos nos capítulos anteriores,os fatores de coesão são os que dão conta da estruturação da seqüência superficial do texto, e os de coerência,os que dão conta do processo do texto,permitindo uma análise mais profunda do mesmo.

Deste modo,um texto não é em si,coerente ou incoerente,ele é o objetivo principal para um leitor/alocutário numa determinada situação,pois sabemos que texto exige um pouco de conhecimento e modernismo.

A coerência opera dois níveis de aquisição de conhecimentos:razão e experiência.nela distingui-se dois tipos de conhecimento: o declarativo e o procedimental .

Conhecimento declarativo: é aquele dado por sentenças e preposições,que organizam os conhecimentos a respeito de situações,eventos e fatos do mundo real e entre as quais se estabelecem relações do tipo lógico como de generalização,especificação,causalidade etc.

Conhecimento procedimental: é aquele dado pelos fatos ou convicções num determinado formato,para um uso determinado.Tal conhecimento,armazenado na memória episódica através de determinados modelos globais,é culturalmente construído através da experiência e trazido na memória ativa.

Esses conhecimentos, determinam a produção de sentido e consequentemente a coerência, e estão armazenados na memória em estruturas cognitivas:

As estruturas Cognitivas

Trata-se de uma constelação de conhecimentos armazenados,na memória semântica e na memória episódica,em unidades consistentes porém não monolíticas ou estanques.Embora não exaustiva dos conceitos,dintingui-se como primários e secundários.

As estruturas cognitivas mudam através dos processos de adaptação: assimilação e acomodação. A assimilação envolve a interpretação de eventos em termos de estruturas cognitivas existentes, enquanto que a acomodação se refere à mudança da estrutura cognitiva para compreender o meio. O desenvolvimento cognitivo consiste de um esforço constante para se adaptar ao meio em termos de assimilação e acomodação.

modelos cognitivos globais

Entre os modelos cognitivos globais, os frames funcionam como um tipo básico auxiliar na compreensão de textos. São

modelos globais que contêm o conhecimento do senso comum sobre um conceito central (por exemplo: Natal, viagem aérea, estabelecem quais as coisas que, em princípio, são componentes de um todo, mas não estabelecem entre eles uma ordem ou seqüência (lógica ou temporal).

A teoria dos frames foi proposta por Minsky,dentro de uma perspectiva cognitiva, e como o próprio titulo da obra o indica,trata-se de um mecanismo de armazenagem de conhecimento por computadores,ou seja,como representar o conhecimento na linguagem artificial de forma que se aproxime da linguagem natural .

Pausa para análise de textos

Os textos apresentados, são analisados seguindo procedimentos, adotados no capitulo 7. cada texto é destacado a análise de coesão e coerência. No entanto são apresentados os seguintes textos :

A classe – Luis Fernando Veríssimo

Negociações – Luis Fernando Veríssimo

O evento – Millôr Fernandes

Infância – Carlos Drummond de Andrade

Cidadezinha qualquer – Carlos Drummond de Andrade

Os textos apresentam elementos coesivos bastante escassos,que tem função mínima na estruturação dos sentidos . Nota-se também repetições de acontecimentos em relação aos textos,ressaltando monotonia.Essa recorrência e o paralelismo constituem um meio para deixar fluir os textos, e acentuam a monotonia.

Coesão e Coerência no texto conversacional

O texto conversacional é uma atividade lingüística básica que pertence as práticas diárias de qualquer cidadão,independente de seu nível sociocultural.

Embora tanto no texto escrito quanto falado o sistema lingüístico seja o mesmo para a construção das frases. [“ As regras de efetivação,bem como os meios empregados são diversos e específicos o que acaba por evidenciar produtos diferenciados” ] ( Marcushi1986) .

Akinnaso ressalta que tanto a língua falada como a escrita derivam da mesma base semântica,fazendo uso do mesmo sistema léxico – sintático e variando principalmente na escolha e distribuição dos modelos sintáticos e do vocabulário em respostas das restrições pragmáticas da modalidade especifíca ou em outras palavras : Fala e escrita são variações funcionais do mesmo sistema lingüístico.

Coesão e Coerência

Muitas das regras usadas pelos interlocutores, podem ser explicitadas e formalizadas,identificando elementos de coesão e coerência, porém como dizem os lingüistas que se dedicam ao estudo da questão,analisar coesão e coerência no texto oral é enfrentar uma questão polêmica por se tratar de um fenômeno de poucas evidencias empíricas.

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