CULTURA, LÍNGUA E VALORES SURDOS.pdf
A inclusão do aluno surdo na Rede Regular de Ensino
(Parte 1 de 3)
Revista Mundo & Letras 71
Mundo e Letras, José Bonifácio/SP, v. 1, n. 1, Maio/2010
FERREIRA, Cristiane Bonifácio de Almeida1
BUENO, Vanessa Cristina dos Santos2 PEREIRA, Andresa Vaniele Barbosa3
| surdos | Os resultados evidenciam a necessidade do processo de formação dos |
RESUMO: Este trabalho tem como finalidade apresentar a necessidade da utilização da Língua de Sinais na Rede Regular de Ensino e das dificuldades encontradas na inclusão do aluno Surdo nesta mesma rede, tal como, a falta de preparação dos educadores e a falta de conscientização da sociedade num todo. Utilizamos o estudo de caso como método para investigação, trabalhando com professores de ensino fundamental e médio. Neste contexto realizamos também discutições das recentes pesquisas que tratam do assunto, bem como reportar a colaboração de educadores envolvidos com os alunos professores que atuam com alunos surdos, pois o aspecto principal da pesquisa refere-se á forma de comunicação utilizada pelos alunos surdos, sendo que a comunicação adequada é da Língua de Sinais. Palavras-chave: Libras. Inclusão. Surdo.
Introdução O assunto a ser discutido nesse artigo é a educação inclusiva do aluno surdo na rede regular de ensino. O objetivo da nossa pesquisa é investigar como vem sendo realizado o processo educacional dos discentes que possuem surdez, tendo em vistas que lhes é garantido pela legislação vigente o direito de frequentar a sala de aula da rede regular de ensino da educação infantil até a educação superior, oferecendo-lhes todos os meios necessários para que obtenham êxito e ultrapasse os empecilhos apresentados ao longo do processo educacional e, portanto, desempenhar sua cidadania, de acordo com a legislação do nosso país. Dessa forma, instituir ao surdo o mesmo direito a educação como aos alunos ouvintes.
| necessários e um ambiente propício |
Muitas vezes a realidade em sala de aula não estabelece relação com a legislação vigente, pois os alunos surdos são prejudicados tendo o despreparo por parte dos professores e, dessa forma, apresentam grandes perdas no desenvolvimento da aprendizagem, sendo assim esses alunos são vítimas da segregação educacional. Compreendemos que por meio da Língua de Sinais (Libras) os alunos surdo terão mais possibilidades para aprender, desde que, sejam oferecidos a eles os recursos
Foi realizada uma pesquisa bibliográfica e de campo por meio de um questionário entregue aos professores da rede regular de ensino que possuem alunos surdos inseridos em sua sala, vide anexo B. Anteriormente aos professores responderem o questionário proposto, foi entregue o Termo de Consentimento para que autorizassem a utilização dos dados obtidos na pesquisa.
1 Faculdade de José Bonifácio. Graduanda em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Inglesa e Respectivas Literaturas 2 Faculdade de José Bonifácio. Graduanda em Letras com Habilitação em Língua Portuguesa e Inglesa e Respectivas Literaturas 3 Faculdade de José Bonifácio (FJB). Docente do Curso de Letras. E-mail: desavani@yahoo.com.br
Revista Mundo & Letras 72
Mundo e Letras, José Bonifácio/SP, v. 1, n. 1, Maio/2010
Desenvolvimento da língua de sinais Um dos debates mais polêmicos no cenário educacional transcorre da Política
Nacional de Educação que faz apologia a educação inclusiva, organizada de forma que atenda a todos. Tendo em vistas esse princípio, todo e qualquer cidadão possui acesso a educação assegurado e oferecido pela Constituição Federal (1988) que postula “todos somos iguais perante a lei”. Colombo (2004) diz que assegurar e oferecer possui significados diferentes, assegurar é dar a certeza de atendimento, oferecer somente se há condições para tanto. Sendo assim, pode-se observar que o que é constituído como legal muitas vezes não é legítimo. ¹
A Declaração de Salamanca (1994, p.31) diz que “O princípio fundamental da escola inclusiva, consiste em que todas as pessoas devam aprender juntas, onde quer que seja possível, não importam quais as dificuldades ou diferenças elas possam ter [...]”. Dessa forma, recorre-se a educação inclusiva a fim de educar e socializar todas as pessoas que possuam necessidades educativas especiais. Incluir é preciso para que a escola venha formar gerações preparadas para lidar com as diferenças, sem preconceitos e barreiras.
Para que bons resultados educacionais sejam alcançados no que se refere à criança surda, suas condições lingüísticas e culturais devem ser essencialmente consideradas. Todavia, não é isso que ocorre com freqüência nas escolas. A Declaração de Salamanca (1994) é enfática ao afirmar que “As Escolas Inclusivas precisam reconhecer e responder às necessidades diversificadas de seus alunos, acomodando os diferentes estilos e ritmos de aprendizagem e assegurando educação de qualidade para todos mediante currículos apropriados, mudanças organizacionais, estratégias de ensino, uso de recursos e parcerias com suas comunidades.”Ao vislumbrar o processo inclusivo das crianças que possuem surdez na rede regular de ensino, é notável observar que os discentes surdos, de forma geral, não possuem seu direito à educação respeitado, pois em consequência à dificuldade de acesso à língua utilizada pela maioria desses alunos, ficam distanciados do processo ensinoaprendizagem e mesmo após anos e anos de escolarização, comumente não apresentam domínio mínimo dos conteúdos transmitidos, que são necessários ao seu desenvolvimento e à sua adequada inserção social.
De acordo com Nascimento e Raffa (2009) a deficiência auditiva ou surdez é considerada como a incapacidade total ou parcial de audição, devido problemas que afetam o aparelho auditivo. O termo “surdo-mudo” muito utilizado por pessoas ouvintes é uma denominação muito antiga e incorreta para se referir a um deficiente auditivo, pois a mudez é imputada a problemas relacionados com a emissão de voz e a pessoa surda nem sempre é muda.
Em meados do século XVI, as pessoas com deficiência auditiva eram consideradas intelectualmente inferiores, por isso, eram trancados em asilos e excluídos da sociedade. Nessa época não havia escolas para surdos, só a partir, do século XVIII que começaram a surgir os primeiros educadores nessa área, que divergiam, no entanto, quanto ao método de ensino mais apropriado.
De acordo com Soares (1999, p. 19), Ponce de Leon foi considerado o primeiro professor de surdos da história. Ele ensinava filhos surdos de pessoas nobres, foi o responsável pelo desenvolvimento do alfabeto manual, que ajudava surdos a soletrar palavras. Juan Pablo Bonet aproveitou o trabalho iniciado por Leon e publicou o
Revista Mundo & Letras 73
Mundo e Letras, José Bonifácio/SP, v. 1, n. 1, Maio/2010 primeiro livro sobre a educação de surdos. O abade Charles Michel de L'Epée, instituiu o Instituto Nacional de Surdos-Mudos em Paris, a primeira escola de surdos com a filosofia manualista e oralista. Foi a primeira vez na história que os surdos adquiriram o direito de uma língua própria. Houve adoção de método de educação coletiva e o reconhecimento de que o surdo deveria primeiro aprender a língua gestual para depois ensinar-lhe a falar.
L'Epée foi o primeiro a vislumbrar na linguagem mímica ainda imperfeita deles, meios mais seguros e simples de comunicação e uma mais direta e clara tradução de pensamento. E ele fez com que seus tesouros escondidos florescesse – verdade, flexibilidade, a riqueza de um idioma que pertence a todas as nações, de fato, a toda a humanidade, um idioma que admiravelmente resolve o problema de uma linguagem universal a qual os acadêmicos em toda parte têm buscado por séculos em vão. A partir do simples argumento que os surdos podem ser instruídos com o auxílio de gestos da maneira como instruímos outras pessoas usando os sons da voz, e que ambos os grupos podem aprender linguagem escrita, o incansável l'Epée criou um novo mundo, toda uma geração (BERTHIER, 1984, p. 179).
Em 1880, realizou-se o I Congresso Internacional de Surdos, em Milão, e trouxe uma completa mudança aos rumos da educação de surdos e, justamente por isso, ele é considerado um marco histórico. No Congresso definiu-se uma nova corrente na educação de surdos: a oralista.
De acordo com Goldfeld (1997) a filosofia oralista fundamenta-se na crença de que a modalidade oral da língua é a única forma desejável de comunicação para o surdo, e que qualquer forma de gesticulação deve ser evitada. O oralismo utiliza a integração da criança surda à comunidade de ouvintes, dando-lhe condições de desenvolver a língua oral (no caso do Brasil, o Português).
Durante quase 100 anos existiu o “império oralista” e, foi somente na década de 1960 que despontaram estudos sobre as línguas de sinais e deram origem a novas propostas pedagógico-educacionais em relação à educação dos surdos e a corrente lançada nos anos 70 foi a Comunicação Total. Stewart (1993) diz que a Comunicação
Total é a prática de usar sinais, leitura orofacial, amplificação e alfabeto digital para fornecer inputs lingüísticos para os discentes surdos, de modo que possam se expressar em suas modalidades preferidas.
No decorrer do desenvolvimento da corrente da Comunicação Total, pesquisas em relação a língua de sinais foram se tornando cada vez mais consistentes e tão logo começaram a despontar alternativas educacionais orientadas para uma educação bilíngüe. Essa proposta preserva a ideia de que a língua de sinais é inata dos surdos, que, mesmo sem a audição, são capazes de desenvolver uma língua viso-gestual.
De acordo com Teixeira (2008) no Brasil, a educação de surdos teve início em 1855, com a chegada do educador francês Ernest Huet. Em 1857 foi instituído o Imperial Instituto de Surdos e Mudos, atual Instituto Nacional de Educação dos Surdos no Rio de Janeiro. Inicialmente faziam uso da língua de sinais, mas posteriormente em 1911 passou a utilizar o oralismo puro. No princípio da década de 70, a educadora de surdos Ivete Vasconcelos, da Universidade Gallaudet, em visita ao Brasil traz consigo a filosofia da Comunicação Total, e na década seguinte, após estudos da Professora Linguista Lucinda Ferreira Brito sobre a Língua Brasileira de Sinais e da Professora Eulália Fernandes, sobre a educação dos surdos, o Bilinguismo é instituído.
O Bilinguismo propõe que sejam ensinadas duas línguas, a língua de sinais e, secundariamente, a língua do grupo ouvinte, no nosso caso, a Língua Portuguesa. A língua de sinais é considerada mais apta à pessoa surda, por possuir com a plenitude do
Revista Mundo & Letras 74
Mundo e Letras, José Bonifácio/SP, v. 1, n. 1, Maio/2010 canal viso-gestual. Muitos estudos mostram que é a proposta mais adequada ao ensino das crianças surdas, pois são adquiridas de forma natural e rápida pelos surdos, proporcionando assim, o acesso a linguagem que ocasiona uma eficaz e completa comunicação, tal qual a utilizada pelos ouvintes. Por meio da língua de sinais o discente surdo possui a liberdade de obter um maior desenvolvimento cognitivo, social e emocional.
| integração social | Ao utilizar a língua de sinais, o surdo desenvolve a sua capacidade e |
Segundo Fernandes (1990), é indispensável o acesso à Língua de Sinais o mais prematuramente possível pois a dificuldade do surdo em adquirir linguagem oral nos primeiros anos, traz consequências para o seu desenvolvimento mental, emocional e sua a sua competência linguística, numa língua que lhe será útil como apoio para adquirir a língua oral, do grupo majoritário, como segunda língua, tornando-se bilíngüe.
A inclusão de Surdos na rede regular de ensino possui como propósito conduzir a criança surda em condições sociais de vincular-se aos ouvintes. De acordo com Segala (2009) estar incluído significa sentir-se parte do mundo, compartilhar o mundo do outro, poder adentrar-se nele. Não basta matricular um surdo em uma sala de ouvintes, em tampouco matricular um ouvinte em uma sala de surdos. Isso não é inclusão.
Para que a criança surda alcance o seu desenvolvimento total, a inclusão necessita de acompanhamento adequado, deve-se considerar a capacitação dos professores desempenharem esse trabalho. É importante que o professor possua conhecimento de métodos e técnicas adequados para a realização de um trabalho sistemático e contínuo de acompanhamento ao desenvolvimento do aluno surdo.
Para que o processo educativo do aluno surdo obtenha êxito, é necessário, que a família se conscientize da importância que a escola possui para o desenvolvimento de seu filho. Segala (2009) afirma que pesquisas mostram que apenas 9% das crianças surdas de 0 a 17 anos estão matriculadas no Ensino Básico. Por diversas razões, entre elas o preconceito e o próprio desconhecimento dos pais e responsáveis, a criança surda é colocada em contato apenas com um tipo de língua. As crianças surdas por serem filhas de pais ouvintes possuem um prejuízo linguístico, por não compartilharem a língua comum de seus pais (elas não têm acesso ao Português e os familiares não conhecem Libras), chegam aos bancos escolares raros conhecimentos culturais/sociais desenvolvidos. Dessa forma, Poker (2002) em seus estudos constatou que o problema da surdez não se localiza no retardo da linguagem oral em si, mas no que essa privação linguística provoca: impede o sujeito de se expressar, de explicar e de compreender diferentes situações ocorridas no ambiente ao seu redor.
Muitas crianças, por não terem contato anterior com a Libras, sabem poucos sinais e esse fato acaba conduzindo-as à um atraso no desenvolvimento da linguagem e, dessa forma, possui um déficit de conhecimentos em geral. Sciliar-Cabral (1988) é enfática ao afirmar que a não-exposição a uma língua, no caso a língua nativa, no período natural da aquisição da linguagem, causa danos irreparáveis e irreversíveis à organização psicossocial de um indivíduo. O apoio pedagógico é muito importante e necessário para as pessoas surdas, devem-se levar em consideração os diferentes casos de deficiência auditiva para trabalhar com os materiais e maneiras adequadas.
Entende-se, que por meio da educação bilíngüe os surdos terão possibilidade de uma educação que os respeite em sua particularidade/especificidade lingüística e, portanto, a única que permitirá um agir social de forma autônoma a partir de uma formação digna e de respeito à sua diversidade. Quadros (1997) afirma que as pessoas surdas possuem o direito de serem ensinadas em língua de sinais, pois se a língua oral é adquirida de forma sistematizada, pode ser dizer que a língua de sinais é uma língua
Revista Mundo & Letras 75
Mundo e Letras, José Bonifácio/SP, v. 1, n. 1, Maio/2010 natural adquirida de forma espontânea pela pessoa surda em contato com pessoas que usam essa língua.
É importante frisar que Libras, assim como as outras línguas de sinais, é considerada língua, no sentido pleno, por conseguir preencher os pré-requisitos científicos para tal. As línguas de sinais possuem elementos linguísticos comuns às línguas orais. Strobel & Fernandes (1998) esclarecem que a Libras não pode ser estudada tendo como base a Língua Portuguesa, pois esta tem uma gramática diferenciada, independente da língua oral. A ordem dos sinais na construção de um enunciado obedece a regras próprias, que refletem a forma de o surdo processar suas ideias, com base em sua percepção visual-espacial da realidade.
O que é chamado de palavra na língua oral recebe o nome de sinal em Libras e deve ser nomeado de gesto ou mímica, pois, não possui estas características. Da mesma forma que nas línguas orais temos os pontos de articulações dos fonemas, na língua de sinais temos os pontos de articulações que são expressos por toques no corpo do usuário da língua ou no espaço neutro. A Língua de Sinais dá possibilidades de expressar diversos assuntos, pensamentos e ideias, por meio dela é possível abordar qualquer conceito, concreto ou abstrato, emocional ou racional, complexo ou simples.
Delineamento da pesquisa
A presente pesquisa é um estudo de caso em que se aspira mostrar alguns elementos que evidenciam o fazer pedagógico dos professores da rede regular de ensino frente ao processo de inclusão dos alunos surdos que frequentam as escolas da rede regular de ensino.
Instrumento Utilizou-se como instrumento de pesquisa a entrevista aberta.
Procedimento de Coleta de Dados O primeiro contato com os professores aconteceu num encontro semanal de
Hora de Trabalho Pedagógico Coletivo, onde, foi apresentada a necessidade da realização do trabalho de pesquisa. Os docentes que possuem alunos surdos inseridos em suas salas de aulas foram convidados a participarem, sendo que, foi deixado bem claro que a participação era opcional.
| Bonifácio |
Em um segundo momento, dirigimo-nos à direção das unidades escolares e apresentamos a proposta, obtendo assim, a permissão para a realização do trabalho de pesquisa. Posteriormente, retornamos à escola, com um horário previamente agendado, para aplicação da entrevista. Em um outro momento, agendamos uma entrevista com os gestores responsáveis pela Secretaria de Educação da Rede Municipal da Cidade de Ubarana, e com a responsável pela Educação Especial da Diretoria de Ensino de José
Procedimento de Análise de Dados
Após a coleta de dados realizou-se a análise do material, buscando sermos fiéis aos relatos dos professores e dos gestores participantes da pesquisa.
Resultados
Apresentaremos as considerações dos professores entrevistados em relação as experiências encontradas no trabalho educativo com os alunos surdos.
(Parte 1 de 3)













