CONSIDERAÇÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO A FUMOS METÁLICOS DE CHUMBO EM SOLDAS NAS MPEs DO VALE DA ELETRÔNICA - João Paulo de Oliveira Neto - publicação

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CONSIDERAÇÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO A FUMOS METÁLICOS DE CHUMBO EM SOLDAS NAS MPEs DO VALE DA ELETRÔNICA

São Paulo 2010

JOÃO PAULO DE OLIVEIRA NETOi

CONSIDERAÇÕES SOBRE A EXPOSIÇÃO A FUMOS METÁLICOS DE CHUMBO EM SOLDAS NAS MPEs DO VALE DA ELETRÕNICA

Monografia apresentada no Programa de Pós- Graduação em Engenharia de Segurança do Trabalho da Universidade Nove de Julho, como requisito parcial para a obtenção do titulo de Especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho.

Prof. Nilton Francisco Rejowski

São Paulo 2010

Dedico este trabalho:

À minha mulher Cristina, pelo seu apoio; Aos meus amados filhos Leonardo, Marina, Ricardo, Juliana e Mônica. Ao meu pai, pelo exemplo de ética, luta e determinação A minha mãe, principal responsável por todos os meus sucessos.

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Ao Grande Arquiteto do Universo que, por sua bondade e misericórdia, nos tem sido possível vencer as dificuldades interpostas em nosso caminho, permitindo mais essa realização profissional.

Ao meu amigo e sócio, Engo José Carlos Paulino da Silva, pela inestimável parceria ao longo de minha vida profissional.

Aos professores da UNINOVE que me forneceram subsídios na elaboração deste trabalho, em especial ao meu orientador, Prof. Nilton Francisco Rejowski por suas contribuições.

Aos empresários e trabalhadores das empresas do “Vale da Eletrônica” que tão bem me receberam e disponibilizaram parte de seu tempo.

E a todos que contribuíram direta ou indiretamente para a realização deste trabalho.

“Trabalho decente é trabalho seguro e trabalho seguro é também um fator positivo para a produtividade e crescimento econômico”

Juan Somavia International Labour Office vi

Um dos setores industriais de maior crescimento nas últimas décadas é o de eletroeletrônicos, basicamente formado por micro e pequenas empresas. Este trabalho tomou como base o Arranjo Produtivo Local Eletroeletrônico de Santa Rita do Sapucaí, composto de micro e pequenas empresas, nas quais, em razão de dificuldades operacionais, não existe gestão sistêmica de SST dificultando a implementação de programas que contribuam efetivamente para a proteção da saúde e integridade física dos seus colaboradores, em especial nos setores de produção. Uma das atividades comuns nas indústrias de eletroeletrônicos é a soldagem de componentes, conhecida por solda eletrônica ou solda branda onde se utilizam ligas de estanho e chumbo. Nessas atividades há a exposição dos trabalhadores a vapores tóxicos e fumos metálicos que, apesar da baixa toxidade, ao longo de sua vida laborativa pode causar danos irreparáveis à saúde. Faz-se necessário a proteção desses trabalhadores adotando-se medidas de controle adequadas que protejam o trabalhador, evitando doenças ocupacionais relacionadas ao chumbo e outros metais e resguardem as empresas de possíveis prejuízos decorrentes de demandas judiciais. Este trabalho visa apresentar argumentos suficientes para alertar empreendedores e profissionais em segurança e saúde do trabalho quanto aos riscos de doenças causadas pela exposição a fumos metálicos de chumbo em operações de solda eletrônica e ressalta a importância de se adotar medidas de controle, privilegiando a adoção de sistemas de Ventilação Local Exaustora.

Palavras-chave: Eletroeletrônicos, Microempresas, Saúde e Segurança do Trabalho, Solda Eletrônica, Chumbo, Fumos Metálicos, Ventilação Local Exaustora.

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One of the fastest growing industries in recent decades is the electronics, mainly composed of micro and small enterprises. This work took as its basis the Local Cluster Electronics of Santa Rita do Sapucaí, composed of micro and small enterprises, in which, because of operational difficulties, there is systemic management of OSH hindering the implementation of programs that will effectively help to protect the health and physical integrity of its employees, particularly in the sectors of production. One of the common activities in the industries of electronics is the welding of components, known by welding or soldering machine which use alloys of tin and lead. In these activities there is the exposure of workers to toxic vapors and metallic fumes that despite the reduced toxicity over their working lives can cause irreparable damage to health. It is necessary to protect these workers by adopting control measures were adequate to protect the worker, preventing occupational diseases related to lead and other metals and will safeguard companies from potential losses from lawsuits. This paper aims to present sufficient evidence to warn entrepreneurs and professionals in health and safety work on the risks of diseases caused by exposure to metal fumes from lead solder in electronics operations and underscores the importance of adopting control measures, favoring the adoption of Local Exhaust Ventilation systems.

keywords: electronics, Microenterprise, health and safety at work, Electronic welding, Lead, Smoke Metallic, Local Exhaust Ventilation.

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FIGURA 01 – Diagrama de equilíbrio da liga Sn/Pb 633706
GRAFICO 01 – Número de estabelecimentos no Brasil - por porte em 200408
FIGURA 02 – Trabalhador com a bomba de amostragem21
FIGURA 03 – Trabalhadora sem proteção, utilizando a boca para apoiar o fio de solda25
FIGURA 04 – Trabalhadora sem proteção debruçada sobre o ponto de solda25
FIGURA 05 – Trabalhador sem proteção, operando cadinho26
FIGURA 06 – Trabalhador sem proteção, operando cadinho26
vapores orgânicos28
FIGURA 08 – Respirador PFF2-VO para poeiras, névoas, fumos e vapores orgânicos28
FIGURA 09 – Óculos de proteção modelo uvex bandido28
FIGURA 10 – Procedimento correto para se utilizar respiradores28
FIGURA 1 – Selo compacto para marcação no EPI29
FIGURA 12 – Selo que deverá ser gravado na embalagem do EPI29
FIGURA 13 – Bancada sem exaustão32
FIGURA 14 – Bancada com exaustão32
FIGURA 15 – Micro Exaustor Portátil c/ filtro de carvão ativado. Vazão = 4 l/s3
FIGURA 16 – Exaustor MFA-120B c/ filtro de carvão ativado. Vazão = 4 l/s3
FIGURA 17 – Exaustor Hakko 493 ESD c/ filtro de carvão ativado. Vazão = 17,8 l/s3
FIGURA 18 – Extrator Duplo para bancada eletrônica. Vazão = 19,3 l/s3
FIGURA 19 – Sistema de exaustão caseiro de uma boca34
FIGURA 20 – Sistema de exaustão caseiro de duas bocas34
FIGURA 21 – Ventilador “cooler” servindo como exaustor34
FIGURA 2 – Detalhe de fumo de solda sugado pelo “Cooler34

FIGURA 07 – Respirador PFF-2/VO p/ poeiras, névoas, fumos e baixas concentrações de FIGURA 23 – Coeficiente de entrada (Ke) e de perda de carga (Kc) para captores ................ 35 ix

TABELA 01 – Limites de Tolerância corrigidos para 4 h/semana17
TABELA 02 – Índices biológicos de exposição para o Chumbo (CAS 7439-92-1)18
TABELA 03 – Dados do equipamento de amostragem2
TABELA 04 – Limites de tolerância e resultados da amostragem2

LISTA DE TABELAS TABELA 05 – Concentração Total (∑C/T) ............................................................................ 2

ABNT - Associação Brasileira de Normas Técnicas ABHO - Associação Brasileira de Higienistas Ocupacionais ACGIH - American Conference of Governmental Industrial Hygienists APL - Arranjo Produtivo Local ART - Anotação de Responsabilidade Técnica ASHAE - American Society of Heating, Refrigerating and Air-Conditioning Engineers BNDES - Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social CAGED - Cadastro Geral de Empregados e Desempregados CLT - Consolidação das Leis do Trabalho CIPA - Comissão Interna de Prevenção de Acidentes CREA – Conselho Regional de Engenharia Arquitetura e Agronomia DRT - Delegacia Regional do Trabalho EPC – Equipamento de Proteção Coletiva EPI - Equipamento de Proteção Individual ETE - Escola Técnica de Eletrônica FAP - Fator Acidentário de Prevenção FISPQ – Ficha de Informação de Segurança de Produto Químico FUNDACENTRO - Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho INATEL - Instituto Nacional de Telecomunicações INSS – Instituto Nacional do Seguro Social ILO - International Labour Organization LT – Limite de Tolerância mg/m3 - miligramas por metro cúbico de ar

MPEs – Micro e Pequenas Empresas xi

MPS – Ministério da Previdência Social MS – Ministério da Saúde MTE - Ministério do Trabalho e Emprego OIT - Organização Internacional do Trabalho PCMSO – Programa de Controle Médico de Saúde Ocupacional PIB - Produto Interno Bruto PNSST - Plano Nacional de Segurança e Saúde do Trabalhador PPRA - Programa de Prevenção de Riscos Ambientais ppm - partes de vapor ou gás por milhão de partes de ar contaminado P – Perfil Profissiográfico Previdenciário RoHS - Restriction of Use of Hazardous Substances SEBRAE - Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas

SINDVEL - Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica

SST - Saúde e Segurança do Trabalho TLV - Threshold Limit Value TLV-TWA - Threshold Limit Value - Time Weighted Average TLV-STEL - Threshold Limit Value - Short Term Exposure Limit UFMG - Universidade Federal de Minas Gerais WEEE - Waste Electrical and Electronic Equipment xii

RESUMOVI
ABSTRACTVII
SUMÁRIOXII
1. INTRODUÇÃO1
1.1. JUSTIFICATIVA1
1.2. OBJETIVO5
1.3. METODOLOGIA5
1.4. ESTRUTURA DA MONOGRAFIA7
2. REVISÃO DA LITERATURA8
2.1. PROCESSO DE SOLDA ELETRÔNICA8
2.2. GESTÃO OCUPACIONAL NAS MPES9
2.2.1. CARACTERIZAÇÃO DAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS9
2.2.2. GESTÃO OCUPACIONAL NAS MICRO E PEQUENAS EMPRESAS1
2.3. EXPOSIÇÃO OCUPACIONAL AO CHUMBO14
2.3.1. CARACTERIZAÇÃO DOS FUMOS METÁLICOS EM SOLDAS ELETRÔNICAS14
2.3.2. LIMITES DE TOLERÂNCIA AO CHUMBO18
2.3.3. DETERMINAÇÃO DOS NÍVEIS DE EXPOSIÇÃO AOS FUMOS METÁLICOS DE CHUMBO2
2.3.4. EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL EM SOLDA ELETRÔNICA26
2.3.5. EQUIPAMENTO DE PROTEÇÃO COLETIVA EM SOLDA ELETRÔNICA34
3. RESULTADOS41
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS43

SUMÁRIO REFERÊNCIAS .................................................................................................................................................. 4

Neto, J. P. O. Considerações Sobre a Exposição a Fumos Metálicos de Chumbo em Soldas nas MPEs do Vale Da Eletrônica. UNINOVE. Engenharia de Segurança do Trabalho, 2010

1. INTRODUÇÃO

1.1. JUSTIFICATIVA

Dados obtidos nos anos 1990 indicam que mais de 4 milhões de toneladas de chumbo eram consumidas anualmente em todo o mundo e que cerca de 1% da força de trabalho estaria exposta a este metal (LEITE, 2006).

Grigoletto et al. (2005) afirmam que a maioria dos componentes eletrônicos tem sido tradicionalmente soldados com ligas de chumbo, elemento que possui elevada toxicidade, sendo que os resíduos produzidos durante a sua obtenção e reciclagem das ligas, podem contaminar a água, o ar e o solo. A intoxicação de trabalhadores expostos ao chumbo pode ocorrer em longo prazo na indústria e é chamada de saturnismo.

Conforme consta das FISPQ de ligas para solda eletrônica, há risco de câncer em qualquer material que contenha chumbo, dependendo da duração e do nível de exposição. (ANEXO B – Ficha de Informações de Segurança de Produto Químico - FISPQ)

Grandes fabricantes de eletroeletrônicos estão eliminando elementos nocivos de seus produtos para atender a norma da União Européia que entrou em vigor em 1º de julho de 2006. A diretiva RoHS proíbe a comercialização na Europa de produtos eletroeletrônicos que contenham metais pesados como chumbo, cádmio, mercúrio e cromo e dos retardantes de chama bromobifenilas (PBB) e éteres de bromobifenilas (PBDE). As empresas que não estiverem de acordo com esta a diretiva perderão competitividade. Dados da associação dão conta de que 14% das exportações brasileiras de produtos eletroeletrônicos no ano de 2005 tiveram como destino a União Européia. (NOGUEIRA et al. 2007).

A legislação brasileira permite o uso do chumbo em soldas de componentes, porém a indústria local tem questionado cada vez mais esse procedimento e tende a reduzir o uso de

Neto, J. P. O. Considerações Sobre a Exposição a Fumos Metálicos de Chumbo em Soldas nas MPEs do Vale Da Eletrônica. UNINOVE. Engenharia de Segurança do Trabalho, 2010 chumbo e implementar as ligas sem chumbo ou “Lead Free” para a adaptação às exigências do mercado mundial. Este novo processo está alinhado com o que preconiza a NBR ISO 14001:2004, norma que diz respeito ao desenvolvimento de produtos e processos que causem grande impacto ambiental. (NOGUEIRA et al. 2007).

Esta mudança obrigou os fabricantes de elementos e componentes para a indústria, a buscar as mudanças mais adequadas para seguir vendendo seus produtos no mercado europeu depois do 1º de julho de 2006 e criar os desafios mais interessantes para as soldas sem chumbo, para os fabricantes de eletroeletrônica e que as temperaturas de fusão das novas ligas substitutas e as novas ligas e as típicas Estanho/Chumbo (Sn/Pb) são muito superiores as atuais, já que se encontram compostas tipicamente por Estanho/Prata/Cobre (Sn/Ag/Cu) e Estanho/Cobre (Sn/Cu) além de oferecer uma umectação mais lenta das superfícies metálicas. (BRASWELD, 2009).

A solda tradicional de estanho/chumbo funde a 180º C enquanto que a solda sem chumbo funde a 227º C. Isto significa que componentes eletrônicos devem ser capazes de suportar esta nova temperatura de soldagem de modo a permitir que a solda sem chumbo seja usada. (NOGUEIRA et al. 2007).

Segundo Grigoletto (2005 apud BRADLEY, 2003, p. 24-25), a substituição das ligas de estanho/chumbo foi amplamente discutida e estudos realizados por equipes de especialistas dos EUA e japoneses e a conclusão das pesquisas realizadas pelo NEMI - National Electronics Manufacturing Initiative foi que a indústria de montagem eletrônica deveria utilizar ligas com os elementos estanho, prata e cobre, chamadas ligas SAC, possuindo a composição Sn (<3,9) + Ag (<0,6) + Cu (±0,2%).

Neto, J. P. O. Considerações Sobre a Exposição a Fumos Metálicos de Chumbo em Soldas nas MPEs do Vale Da Eletrônica. UNINOVE. Engenharia de Segurança do Trabalho, 2010

Consultando a MSDS, Ficha de Segurança da liga Sn (>90) + Ag (<2) + Cu (<5%) +

Sb (<2) + Pb (<0,2%), produzida pela Bow Solder Products Co, pode-se constatar que, mesmo utilizando as ligas conhecidas como “Lead Free” com baixa porcentagem ou a ausência do elemento Chumbo, não se pode assegurar sua não toxidade. (ANEXO E - Material Safety Data Sheet - MSDS).

Portanto, apesar dos avanços da tecnologia de ligas sem chumbo, os trabalhadores do setor eletroeletrônico continuarão expostos a fumos metálicos gerados por outros metais e aos vapores provenientes da fusão da resina contida no fio de solda.

As medidas de controle de exposição ocupacional devem ser, por ordem de prioridade, a adequação de processos, a utilização de matéria prima de baixa toxidade a instalação de equipamentos de proteção coletiva (EPC) e, em última instância, o uso sistemático de equipamentos de proteção individual (EPI). No Anexo XV, o formulário do Perfil Profissiográfico Previdenciário (P), item I - Seção de Registros Ambientais, o INSS quer saber se “foi tentada a implementação de medidas de proteção coletiva, de caráter administrativo ou de organização do trabalho, optando-se pelo EPI por inviabilidade técnica, insuficiência ou interinidade, ou ainda em caráter complementar ou emergencial”. (Instrução Normativa INSS/PRES Nº 27/2008).

Pelo exposto, torna-se necessário optar pela implementação de medidas de proteção coletiva, entretanto a adoção desses equipamentos requer investimentos nem sempre ao alcance das micro e pequenas empresas.

Neste trabalho demonstra-se a importância do uso do EPC, caracterizado por sistema de ventilação local exaustora (VLE), visando à preservação da saúde do trabalhador nas operações de solda eletrônica. Porem, como exige o INSS, para estar de acordo com a

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