Monografia completa

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INTRODUÇÃO

A pesquisa que originou este trabalho debruçou-se sobre a mortalidade escrava e o impacto do tráfico negreiro sobre esta população no Rio de Janeiro. Ela tem a tarefa de investigar as condições de vida que os cativos levavam na cidade, assim como suas condições de transporte desde sua saída da África até o porto de destino, mais precisamente mostrar a importância do tráfico negreiro no sentido em que esta atividade introduzia uma série de doenças no Brasil aumentando assim a mortalidade da população escrava na cidade.

O tráfico de escravos existe desde o período colonial. Quando a mão-de-obra indígena não supriu mais as necessidades dos colonos foi substituída pelo trabalho escravo de pessoas negras vindas da África. Este comércio de “almas” intensificou-se no século XIX com a abertura dos portos. Os escravos eram arrancados de sua própria terra, de seu lugar de origem para serem escravizados privados de toda liberdade. Ao serem transportados para os lugares os quais destinavam-se, tornavam-se vulneráveis a todo tipo de perigo e risco contra as suas vidas. Vidas que foram perdidas por inúmeros motivos, pela ganância de um comércio.

Nesta importação continuada de escravos, o medo, a fome, a sede, a sensação de vazio e desespero figuravam-se como seus companheiros, sem mencionar as doenças que se manifestavam nos navios em razão das más condições em que estes negros eram transportados. Moléstias como disenteria e varíola liquidavam uma grande parte da carga de escravos no tráfico. Inúmeras doenças foram introduzidas no Brasil durante o período do tráfico negreiro.

O interesse em desenvolver um estudo sobre os escravos especificamente sobre as doenças e a mortalidade dos mesmos na travessia atlântica e o impacto epidemiológico no desembarque é mostrar uma outra visão da escravidão, fugir um pouco das questões políticas, econômicas que os cercavam e voltar para questões sociais como a saúde.

É uma nova perspectiva sobre a escravidão, um novo olhar. É perceber que os negros eram tão humanos quanto os brancos, que necessitavam - já que estavam condenados a viverem na escravidão até a morte ou até que conseguissem sua liberdade - de melhores condições de vida, de cuidados e tratamento. Ver os escravos como pessoas humanas, não como uma mercadoria que poderiam ser descartadas quando não suprisse mais as necessidades do seu dono.

A questão da mortalidade no tráfico negreiro é um assunto de extrema relevância, porém às vezes esquecido por alguns pesquisadores. Tanto que poucos trabalhos foram realizados na área. No entanto novas pesquisas têm sido desenvolvidas a respeito. Muitos autores já discutiram sobre a questão do tráfico negreiro. Por mais que no Brasil esta prática foi abolida por quase dois séculos, ainda é um tema atual e estudado por pesquisadores e historiadores nacionais e estrangeiros. Nota-se também que estudantes de ciências biológicas como a medicina tem-se preocupado em desenvolver estudos, teses, trabalhos monográficos referentes ao tema.

Falar sobre a mortalidade dos escravos requer uma análise profunda do modo de vida que eles levavam e todas as dificuldades por eles encontradas desde a saída da África até o desembarque no Brasil, numa tentativa de sobrevivência em meio a maus tratos e descasos dos traficantes e a sociedade, em meio a precárias condições de vida, de transporte e doenças. Doenças que os afetavam constantemente e que levaram muitos escravos a óbito. É importante observar que os escravos vinham num ambiente propício a infecções bacteriológicas, virais e que a contaminação destas doenças era até mesmo inevitável, uma vez que eram mal alimentados, maltratados, numa jornada longa, totalmente desconfortável e embarcação superlotada, num ambiente precário e insuportável sem nenhuma limpeza e higiene. Todos estes fatores deixava-os frágeis, debilitados possibilitando o contágio e com a chegada de novos escravos por meio do tráfico, o contato com esta nova esfera microbiana ocasionava a mortalidade.

O trabalho nesse aspecto da escravidão é relevante, pois proporciona uma reflexão, sobre como esses escravos sofriam não só sob maus tratos e chibatas de seus proprietários e mercadores no tráfico, mas também por doenças . Doenças, que muitas das vezes vistas como uma forma de “presente” de seus orixás para libertá-los do mal da escravidão.

Para fundamentar a pesquisa, autores que estudam o tráfico e a escravidão há muito tempo foram utilizados a fim de compreender a questão. Manolo Florentino em “Em Costas Negras” desvenda a lógica empresarial do tráfico e detecta os agentes propulsores do mesmo. Compreende o comércio de escravos como um negócio com estruturação e dinâmica empresarial própria considerando que é a partir do tráfico que se entende a escravidão no Brasil.

Robert Conrad em “Os Últimos Anos da Escravatura no Brasil”, ressalta que a escravatura no século XIX era de extrema importância econômica e social para o Brasil, assim como a necessidade de sua existência e permanência na sociedade brasileira.

No livro “Homens de Grossa Aventura”, o autor João Luís Fragoso faz uma análise numa perspectiva econômica em torno do tráfico negreiro e seus benefícios e contribuições monetárias para a colônia explicitando que a maior parte da renda de Portugal vinha do tráfico negreiro por meio de impostos gerando uma acumulação endógena de capital.

O norte-americano Philip D. Curtin em seu artigo “Epidemiology and Slave Trade” explora o aspecto da epidemiologia da migração mostrando que no tráfico, com a retirada de pessoas de um ambiente próprio para outro e as doenças sendo levadas com estas pessoas podiam se espalhar oferecendo uma mortalidade na migração.

Na obra “A Vida dos Escravos no Rio de Janeiro”, Mary Karasch monta um panorama da vida cultural, econômica e social dos escravos no Rio de Janeiro tocando num ponto relevante na vida destas pessoas que são os maus tratos e as doenças que acometiam estes mesmos e as moléstias que se manifestavam nos navios negreiros no transporte da África para o Brasil.

Jaime Rodrigues em “De Costa a Costa” aborda temas como a captura e a venda dos negros na África, as relações sociais que se estabeleciam a bordo dos navios, o tipo de alimentação e as doenças que grassavam os africanos escravizados e os primeiros contatos com a nova terra.

Emília Viotti da Costa no livro “Da Senzala à Colônia” e “Ser Escravo no Brasil” de Kátia Mattoso abordam aspectos das condições de vida dos escravos no campo e na cidade.

Com Carlos Eugênio Líbano Soares em “A Capoeira Escrava” nos apresenta a capoeira como forma de representação da resistência dos escravos à ordem escravista, uma autodefesa, além de ser um espaço de socialização e cultura cativa; analisando nesta conjuntura a questão dos maus tratos infligidos aos escravos nas prisões do Rio de Janeiro.

Marcelo Ferreira de Assis na sua dissertação de mestrado “Tráfico Atlântico, Impacto Microbiano e Mortalidade Escrava” discute exatamente a relação entre tráfico negreiro e o impacto microbiano sobre a população escrava no Rio tal como analisa os períodos de desembarque de cativos, comparando tais momentos.

E por último, um impressionante relato da experiência de vida de Pascoe Grenfell Hill em “Cinqüenta Dias a Bordo de um Navio Negreiro” onde testemunha e descreve a situação dos escravos e da tripulação durante cinqüenta dias de viagem num tumbeiro.

O trabalho divide-se em dois capítulos. O primeiro diz respeito às discussões teóricas, historiográficos acerca do tráfico negreiro onde são apresentados vários autores que apontam aspectos relevantes ao tema.

O segundo capítulo é privilegiado o espaço do navio negreiro, da experiência dos escravos nas embarcações, do mesmo modo, trata da vivência dos cativos no cenário insalubre da cidade do Rio de Janeiro.

CAPÍTULO I

ASPECTOS HISTORIOGRÁFICOS DO TRÁFICO NEGREIRO

O tráfico de escravos africanos é um aspecto da história humana que marcou em profundidade nossa experiência. Interligando regiões completamente distintas, esse comércio deslocou seres humanos de seus lugares de origem para viverem em cativeiro sob condições absolutamente adversas. Condições nas quais moldaram o modo de vida do escravo na sua nova terra, no Brasil.

Muitos autores apontaram o tráfico negreiro como o agente crucial para o surgimento da escravidão, pois desde que o negro retirava-se da África numa migração forçada já era considerado escravo.

Deste modo, Robert Conrad acredita que o Brasil possuía condições econômicas, geográficas e sociais para que a escravidão durasse mais tempo e durou muito tempo. De fato estas condições estavam ligadas à forma como a sociedade via a escravidão.

Conrad ressalta que a escravatura no século XIX apresentava algumas características como a sua onipresença, pois todos os municípios do Império continham escravos cuja mão-de-obra era utilizada em todo tipo de trabalho. O autor exemplifica a existência da escravatura no Brasil em razão das matérias-primas e mais tarde, com o café que demandou um grande número de escravos para as áreas produtoras. “Mesmo sem o café, contudo, a escravatura teria sobrevivido por mais tempo no Brasil do que no resto da América Latina, já que era de extraordinária importância econômica e social até mesmo em áreas onde não havia café” (CONRAD, 1978, p. 06). Nesta citação, o autor revela a importância da escravatura e a necessidade de sua existência e permanência no Brasil.

Ele dá ênfase na importância do trabalho escravo em todos os setores da sociedade brasileira. Para ele, se não houvesse escravos a agricultura e todos os trabalhos nas cidades não existiriam, ou seja, não resistiriam ou não viveriam sem os braços destes. Neste contexto, os navios negreiros portugueses quando capturados pela Marinha Britânica causavam prejuízos para o Império resultando em perda de fortunas e conseqüentemente numa decadência da agricultura.

O autor relata ainda as dificuldades que os escravos possuíam, a dura realidade que viviam, o relacionamento hostil com seus donos e as constantes rebeliões e fugas destes negros. Maltratados, mal alimentados, super explorados, os cativos faziam eclodir rebeliões demonstrando suas insatisfações em relação ao modo de vida que levavam. Fugas e até mesmo mortes com suicídio eram comuns como forma de salvação. Iam refugiar-se em quilombos para então viverem isolados.

Robert Conrad aponta para a questão das condições de saúde dos escravos. Os cativos tinham condições de vida que contribuíam para uma redução (dificuldade) de se reproduzirem naturalmente e que estas adversidades provocavam mortes. Havia muitas mortes de escravos no Brasil provenientes de vários fatores. O Senador Cristiano Otoni disse à Câmara Superior Brasileira em 1883 que:

Enquanto o comércio de escravos durara, os proprietários de escravos haviam sido “indiferentes à duração da vida de seus cativos” os senhores de escravos acreditavam que o escravo trabalhando 1 anno, além de plantar e colher para o sustento, dava produto líquido que cobria, pelo menos, o seu valor; do 2°anno em diante tudo era lucro. Portanto, para que se preocuparem muito com elles, quando era tão fácil obter novos por preço baixo? (OTONI apud CONRAD, 1978, p. 36).

Esta citação mostra que a quantidade de escravos trazidos da África era tão abundante que os senhores nem se preocupavam com sua “mercadoria”, pois logo eles iriam receber mais. O escravo consistia num recurso “renovável” por meio do tráfico negreiro.

Porém, por mais que houvesse no Brasil muitos escravos, uma grande população de cativos; este número não crescia, não se desenvolvia. Na medida em que a escravidão deprimia o crescimento populacional tornava-se difícil manter os níveis em razão de muitas mortes. Para David Brion Davis (apud CONRAD, 1978, p. 38) “parece provável que os plantadores no Brasil [...] que dependiam totalmente de novos fornecimentos de mão-de-obra da África, eram menos sensíveis do que os norte-americanos quanto ao valor da vida humana”.

Cuba e Brasil eram dois países que apresentavam uma grande dificuldade de reprodução escrava em razão de um maior comércio de escravos para estas áreas. A existência de trabalhadores inicialmente índios, mais tarde sendo substituídos pelos negros, favoreceu a um sistema de plantação em larga escala.

Estes povos escuros com suas religiões e costumes “bárbaros” podiam ser escravizados sem afetar proibitivamente a moralidade e tradição européia e além disso, sua escravidão podia ser justificada pela oportunidade que havia no ambiente do novo mundo para a conversão do cristianismo e a um modo de vida mais civilizado (CONRAD, 1978, pág.4-5).

Em relação ao tráfico de escravos, este foi abolido paulatinamente. A pressão inglesa sobre o fim do tráfico fez que através de tratados, o Brasil fosse cedendo, deixando de comerciar em algumas áreas da Costa Africana até a sua totalidade. Foram anos de negociação, mas apesar da proibição, a prática continuou clandestinamente. Com o término do tráfico, houve mudanças econômicas, sociais principalmente na produção monocultora, o que acarretou a escassez de mão-de-obra e aumento dos preços dos cativos no mercado. Mais tarde, estes escravos seriam substituídos por imigrantes europeus.

João Fragoso expõe a situação de Portugal que sendo um Estado pioneiro na expansão marítima não conheceu a industrialização. A própria expansão marítima e a colonização possibilitaram a existência de tal estrutura. Fragoso faz uma análise numa perspectiva econômica em torno do tráfico negreiro e seus benefícios e contribuições econômicas para a colônia.

Desde o século XVI, a maior parte da renda de Portugal vinha do tráfico negreiro por meio de impostos. “Consideramos o tráfico Atlântico de cativos [...] como um negócio interno à economia do Sudeste Brasileiro. Ele era controlado por negociantes residentes no Brasil. Esse fenômeno transformava tal negócio em uma operação integrada aos movimentos de acumulação interna à economia colonial” (FRAGOSO, 1998, p. 159).

O autor afirma que o tráfico consistiu numa forma de acumulação de capital para a economia colonial. Portugal dominava o comércio de escravos porque seus comerciantes eram portugueses, entretanto, no século XVIII este negócio já era controlado por negociantes das praças mercantis do Rio de Janeiro. Segundo Fragoso (1998, p. 174):

Para o caso do Rio de Janeiro, observa-se que o controle metropolitano sobre o tráfico somente se exerceu até o momento em que o porto carioca passou a ser o principal ponto de distribuição de africanos para Minas Gerais [...] desde a década de 1730, o tráfico carioca conhecia uma participação cada vez mais acentuada dos comerciantes estabelecidos na própria praça, processo acentuado com a liberdade de tráfico, decretada a partir de 1760.

Durante este período, o tráfico surgiu como um dos negócios mais importantes de acumulação endógena da colônia. O termo “acumulação endógena” está ligado à acumulação de capital que se dava dentro da colônia e tornando possível medir o tamanho deste circuito de acumulação por meio dos desembarques de africanos principalmente no porto do Rio de Janeiro entre os anos de 1790 e 1830, onde se concentrava um maior número de negociantes.

O comércio de além-mar era importante e significante para a economia colonial. O tráfico negreiro conduziu por muito tempo a nossa economia. Muitos dos exportadores presentes no Rio de Janeiro eram também comerciantes de almas, não só a prática do tráfico como também a participação maciça e efetiva destes negociantes tiveram uma relevância na reiteração da economia colonial.

Alberto da Costa e Silva na sua obra “Um Rio chamado Atlântico” faz um breve histórico da África em relação às potências imperialistas. O autor fala de algumas nações imperialistas como a França, Portugal e Bélgica, por exemplo, que fixaram colônias em inúmeras áreas da África para então explorarem e enriquecerem ainda mais. A África era vista pelos europeus como o El Dorado, um país rico em produção de matéria-prima para explorar e terras para cultivar. Neste contexto, o autor menciona a questão do tráfico. Faz um comparativo entre os trajetos de ida e retorno da África e as condições em que estes homens e mulheres privados de liberdade eram transportados nos navios negreiros. Segundo Costa e Silva (2003, p.76): “Na ida para a África, haveria poucos passageiros a bordo. Já no trajeto da África para o Brasil, tinham eles de confinar-se, de coração endurecido, num canto de um navio regido pela violência e abarrotados de gente cheia de medo, cansaço, sede e fome”.

No entanto, uma nova concepção sobre tráfico negreiro surgiu com o inglês Philip D. Curtin. Curtin foi o primeiro a olhar o tráfico de forma diferente, a partir das condições de saúde. Ele foi o primeiro a se preocupar com tais questões, não com o comércio, o trabalho e a exploração.

Curtin nos fornece informações acerca da epidemiologia no comércio de escravos, de como estas doenças podiam se espalhar e de que forma o tráfico de escravos foi responsável por tal cenário. Busca mostrar as condições de oferta e procura nos dois lados do Atlântico e explora o aspecto da epidemiologia da migração. “O comércio de seres humanos que se tornou a mais maciça migração intercontinental antes da era industrial” (CURTIN, 2003, p.12).

No final do século XVI, para o início do século XIX, a principal instituição na América tropical era a plantation com a utilização da mão-de-obra escrava. Neste contexto, o tráfico aparece de maneira fundamental e responsável pela plantation. Curtin analisa a questão dos Estados Unidos que receberam antes do século XVIII cerca de 20% do tráfico de escravos nas suas colônias em razão da plantation.

Os europeus acreditavam que os negros possuíam uma imunidade particular que os protegia do clima tropical, diferente dos europeus. Para Curtin (2003, p.13) “Europeus descobriram em uma data muito precoce que eles experimentaram elevadas taxas de mortalidade no exterior”. Esta citação baseia-se numa experiência dos portugueses no Congo que tiveram altas taxas de mortalidade na África. Demonstra uma teoria racista que denota o branco europeu como uma raça inadequada para climas tropicais, quentes; diferente do negro, que podia trabalhar em climas quentes porque simplesmente eram negros. Neste ponto, Curtin (2003, p.13) descarta a teoria com as seguintes palavras: “Pessoas morrem de doenças, e não a partir de clima. O mundo contém muitas doenças em diferentes ambientes, cada um com uma gama de vírus e bactérias que diferem em graus diversos daqueles encontrados em outro lugar”. Existem várias doenças numa única região.

O autor mostra que no tráfico, com a retirada de pessoas de um ambiente próprio para outro, as doenças eram levadas com estas pessoas a partir de um ambiente a outro; podendo se espalhar para populações não-imunes oferecendo assim uma mortalidade na migração. Segundo Curtin (2003, p.14) “Esse intercâmbio de doenças e pessoas era extremamente complexo, e as informações são distantes de completo. O processo histórico não será totalmente compreendido até que estatísticas comparativas e estudos médicos tenham sido feitos entre os muitos povos isolados que foram trazidos em contato com uma gama de doenças”.

No entanto, o indivíduo pode criar condições para imunizar-se de certas doenças, ou seja, pode desenvolver imunidade natural pela própria doença ao ser atingido pela mesma. “O indivíduo pode ser imunizado, quer dando-lhe anticorpos diretamente, ou então, por induzir uma pequena infecção de forma a que o seu próprio organismo produza os anticorpos exigidos” (CURTIN, 2003, p.14). A imunização pode durar semanas, pode ser parcial ou total. A imunidade também é adquirida hereditariamente. Os anticorpos passam dos pais para os filhos protegendo o bebê até que estes adquira capacidade para gerar suas próprias defesas.

Retomando a questão do tráfico, Curtin (2003, p.19) diz que:

Uma das ineficiências do comércio de escravos é a perda de vidas dos escravos a bordo dos navios. Um estudo do comércio de escravos de Nantes entre 1715 e 1774 mostra, por exemplo, que a mortalidade por doença da tripulação por si só variou entre cerca de 150 e 250 por mil por viagem, embora ela era geralmente superior a 200 escravos por mil de doenças em trânsito.

É impossível saber com precisão o tamanho desta taxa de mortalidade no século XVI ou XVII, mas alguns dados estão mais disponíveis e melhores documentados nos século XVIII e início do século XIX. De acordo com Curtin (2003, p. 21):

Doenças do século XIX, classificações e métodos de diagnósticos estavam longe de ser rigorosas em termos de padrões modernos. Febres como uma categoria de febre amarela, malária, febre tifóide, e muito mais --- não apenas porque eles foram agrupados para efeitos de classificação, mas também porque médicos homens não podiam fazer sempre válidas distinções entre elas. Eruptivas febres “do mesmo modo abrangidos varíola, sífilis, tifo, sarampo”. Doenças dos pulmões podem ser tomadas para significar principalmente pneumonia e tuberculose [...] doenças intestinais foram claramente disenteria, mas sem outra distinção.

Epidemiologistas acreditavam que negros eram particularmente sensíveis à doença pulmonar se deslocado da África, para a Europa ou América do Norte. Por isso, observa-se um grande número de mortes por tuberculose na cidade do Rio de Janeiro.

Propondo um discurso nesta mesma perspectiva, Mary Karash levantou um estudo sobre a vida dos escravos no Rio de Janeiro. No seu trabalho, ela fez um apanhado de diversas facetas da história da escravidão durante a primeira metade do século XIX. Em sua obra, a autora relata todos os aspectos da vida dos negros na cidade, sua cultura, seu trabalho, seus sofrimentos e inquietações.

Ela monta um panorama da vida cultural, econômica e social dos escravos no Rio de Janeiro. Karash toca num ponto relevante na vida destas pessoas que são os maus tratos e as doenças que acometiam estes mesmos e as moléstias que se manifestavam nos navios negreiros no transporte da África para o Brasil. Ressaltando ainda o porto do Rio, aonde chegavam pessoas de regiões como a Europa, Ásia, além dos negreiros, ou seja, gente que traziam consigo doenças que proporcionavam um intercâmbio epidemiológico na cidade.

Karash destaca as variadas moléstias que vitimaram negros durante o percurso das viagens nos navios, como também enfatiza a forma como estas doenças se desenvolveram nas cidades onde desembarcavam.

Manolo Florentino apresenta os resultados de um estudo que explicita as diferentes visões acerca do tráfico negreiro. O autor escreve seu livro com a intenção de mostrar que as explicações disponíveis sobre o tráfico não eram suficientes. Ele quis desvendar a lógica empresarial do tráfico e detectar os agentes propulsores do mesmo - os traficantes. Seu livro dá visibilidade do comércio de escravos como um negócio com estruturação e dinâmica empresarial própria, apresentando através de gráficos e tabelas as informações necessárias para compreender todo o processo. O autor trabalhou com fontes primárias, utilizou em todo seu trabalho documentos originais como periódicos e manuscritos.

Manolo Florentino aborda sobre a questão da necessidade do trabalho escravo no Brasil. A sociedade do Rio de Janeiro, assim como outras sociedades no país, dependiam da importação de homens para o trabalho escravo nas plantations. Neste sentido, o autor dispõe o número de escravos concentrados nas plantations e a maneira de como se desenvolviam, cresciam e disseminavam-se estas áreas de terra. Neste contexto, destaca-se a atuação do comércio de homens, pois quanto maior o número de plantations maior será o número de escravos importados e maior será a importância do tráfico atlântico de escravos. Nas palavras do autor: “uma única resposta para este fenômeno é que o Rio de Janeiro contava com um poderoso fluxo externo contínuo para a reposição de sua escravaria, representado pelo tráfico atlântico de africanos” (FLORENTINO, 2002, p.33). Mais adiante ele complementa: “é a partir do tráfico negreiro que se pode entender a escravidão africana colonial, e não o contrário” (NOVAIS apud FLORENTINO, 2002, p. 47).

Manolo Florentino considera o porto do Rio como o mais importante do Brasil, pois absorvia o maior número de exportações de africanos para o Brasil, distribuindo escravos para outras cidades como Minas Gerais, por exemplo. Para ele a gênese da escravidão se encontra no tráfico negreiro, é a partir dele que se inicia a servidão no Brasil.

Para falar da migração forçada nos navios negreiros, Manolo Florentino vai explicar como se dava o processo de transformação do homem em cativo na África, de como se produzia um escravo na África: “aprender a dinâmica da produção e circulação inicial da mercadoria humana significa, do ponto de vista formal, especificar as etapas pelas quais passava o escravo, desde a sua mutação em cativo até o momento em que chegava às mãos dos traficantes europeus e americanos” (FLORENTINO, 2002, p.83).

Pode-se afirmar que os negros para o cativeiro eram fornecidos pelos próprios líderes nativos. Existia uma espécie de aliança que envolvia os líderes locais e os traficantes. Estes dois elementos realizavam acordos nos quais os chefes tribais desempenhavam trocas de escravos por produtos manufaturados e aguardente. Essa prática de troca, ou seja, o escambo, possibilitava aos líderes locais o fortalecimento de seu poder. Nesse caso, se viam mais fortes em relação aos demais líderes em razão de possuírem produtos que os outros não tinham.

Quanto aos produtos do escambo, os têxteis e a aguardente estiveram presentes em, respectivamente, 86% e 94% dos carregamentos, seguidos pelos manufaturados de natureza bélica (pólvora, armas de fogo, espadas, facas, arcos e fechas) com 80%; açúcar (58%), fumo (52%), vinhos (24%), além de barras de ferro, louças, ferragens, miçangas, vidros, algodão e conchas (FLORENTINO, 2002, p. 123).

Florentino salienta que era fácil conseguir escravos na África porque já existia todo um esquema de produção cativa formado e também pelo fato destes grupos viverem em constantes lutas. Este comércio atlântico alimentou guerras internas entre grupos africanos, destruiu reinos e matou milhares de pessoas, uma vez que os cativos resultavam destes enfrentamentos.

O que transformava um homem comum em cativo na África era fundamentalmente a derrota nestes conflitos e as dívidas. Conflitos considerados constantes em algumas regiões da África originavam-se de confrontos entre Estados, etnias e até mesmo de classe social, mais comuns nos grupos sem Estado. Os prisioneiros eram transformados em escravos e vendidos aos comerciantes de homens. O tráfico de certa forma, incentivava estes conflitos internos e conseqüentemente a produção de escravos. “A guerra, sinônima aqui da violência fundadora do escravo, estava, portanto, na base tanto da reprodução escravista na América quanto no cerne da diferenciação social e da expansão do fenômeno estatal na África” (FLORENTINO, 2002, p. 102).

É importante ressaltar que estes negros eram vendidos com um preço relativamente barato aos traficantes, o que proporcionava uma grande quantidade de compra de cativos para serem comercializados. Regiões como Benguela e Moçambique ofertavam escravos com preço de compra inferior do que em outras áreas.

Florentino analisa o tráfico negreiro em sua essência organizacional. O tráfico não envolvia somente a ação dos traficantes. Abrangia outras pessoas participando na sua organização, administração, no seu planejamento. Funcionava como uma empresa de fato, que na carência de tais fatores certamente desencadearia na sua extinção. Havia pessoas que trabalhavam na construção do navio, as que ficavam responsáveis pela produção de manufaturas a serem trocadas no escambo, a tripulação; enfim, era uma equipe trabalhando, um grupo onde cada um desempenhava uma determinada função. Segundo o autor: “o comércio de homens para o porto do Rio de Janeiro era, portanto, altamente concentrado, além de se constituir em um campo privilegiado para a atuação de especuladores” (FLORENTINO, 2002, p.152). Embora o tráfico constituí-se como uma atividade liderada por profissionais, este termo “especuladores” simboliza o leque de oportunidades que este negócio oferecia aos traficantes, eventuais aventureiros.

O autor aponta ainda estimativas de tumbeiros e conseqüentemente de escravos que aportaram no porto do Rio de Janeiro. Preocupa-se em mostrar através de números, o volume de escravos desembarcados no Rio de Janeiro “durante o século XVII o porto carioca teria absorvido metade das importações brasileiras, no Rio desembarcariam cerca de 730 mil cativos nos noventa anos decorridos entre 1701 e 1790 - uma média anual de 1800 escravos” (KLEIN apud FLORENTINO, 2002, p. 64).

Manolo expõe a idéia de outros autores que analisaram a estimativa de escravos que desembarcaram no Brasil. No entanto, o autor busca uma forma de detectar as flutuações do tráfico, a partir das entradas de navios negreiros. Ele chegou à constatação que “cruzando as informações das listas navais com as dos registros de periódicos [...] obtive entradas de negreiros provenientes de portos africanos em 1796 e 1830” (FLORENTINO, 2002, p.45). Assim, ele abrange as relações escravistas da dinâmica de funcionamento do tráfico e sua relevância como “atividade colonial”. O comércio de almas localizava-se na mesma proporção das importações de manufaturados. Os traficantes eram como a elite empresarial da colônia e sua atividade, altamente rendosa e lucrativa.

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