Manual de monografia jurídica

Manual de monografia jurídica

(Parte 1 de 5)

Minimanual de Monografia Jurídica Daniel Rodrigues Aurélio

— Minimanual de Monografia Jurídica — Daniel Rodrigues Aurélio — Editora Rideel Sumário

Como elaborar uma monografia jurídiCa 3
O projeto de pesquisa 5
A monografia e o papel do orientador 6
o texto aCadêmiCo-CientífiCo 8
Diga não aos adjetivos desnecessários! 10
metodologia de pesquisa 12
A escolha do tema 1
A definição do recorte temático 1
As fontes de pesquisa 14
A importância do fichamento 14
a norma da abnt para a produção de monografias 16
Estrutura e organização dos capítulos 16
Formatação de textos, gráficos e tabelas 6
Citações e referências bibliográficas 6
Edição e impressão da cópia final 8
a defesa públiCa da monografia 30
Três dicas para finalizar 31
bibliografia reComendada 32

Tabela de expressões em latim ....................................................................... 3

— Minimanual de Monografia Jurídica — Daniel Rodrigues Aurélio — Editora Rideel

Como elaborar uma monografia jurídica

Daniel Rodrigues Aurélio

Passar noites na companhia de livros, códigos e anotações. Gastar as pernas entre fóruns, comarcas, tribunais e mergulhar o cérebro num oceano de petições, arquivos, processos e despachos próprios da burocracia jurídica. Reler textos densos nas raríssimas horas de “descanso”. Provas atrás de provas. Depois desse suadouro digno de maratonista olímpico, encontrar tempo e tranqüilidade suficientes para investigar e analisar doutrinas, jurisprudências, fontes históricas. E, ao final, submeter o resultado escrito da pesquisa a uma banca implacável de professores e juristas experimentados. Ufa! Bem-vindo ao rito de passagem universitário. Bem-vindo ao universo do estudante de Direito. Toda essa “rotina de formação” parece desgastante e confusa. No entanto, existe uma lógica que a sistematiza. É sério. Essa experiência intensa é dividida em partes que se complementam. Duvida? São três as etapas que separam o graduando do sonhado título de bacharel em Direito: a avaliação nas disciplinas regulares do curso; o estágio em órgãos públicos, centros de pesquisa, ONGs e escritórios de advocacia; e a apresentação da monografia acadêmica, intitulada Trabalho de Conclusão de Curso, vulgo TCC. O popular e temido TCC. Cada uma dessas avaliações busca reforçar um aspecto na formação do graduando.3 Proferidas por professores das diversas ramificações do Direito, as exposições e seminários disciplinares oferecem ao estudante uma concepção geral sobre a filosofia, a história, a ética e a prática das ciências jurídicas. As provas aferem o conhecimento adquirido pelos alunos. É nesse percurso quadrienal que são amadurecidas as escolhas individuais para especialização. Já o ingresso no estágio, seja ele obrigatório ou facultativo, remunerado ou não, coloca o estudante/estagiário diante de situações reais do dia-a-dia dos escritórios de advocacia e demais órgãos públicos e privados. Trata-se da junção da sala de aula com os ambientes de fóruns e ministérios públicos, da reflexão acerca da natureza das leis com a sua execução cotidiana, da equação entre a tendência sociológica com as particularidades dos acontecimentos. Da sobriedade dos trajes aos rituais de sessão em plenário, estagiar descortina um mundo novo para o estudante, que conhece de perto estilos de atuação, a aplicabilidade das leis e a rotina às vezes maçante às vezes palpitante do ofício. Até aqui tudo se justifica. O “entender” e o “fazer” caminham juntos. Todavia, eis que surge uma terceira avaliação para provocar discórdias, angústia, estresse, esses males do século XXI: a monografia. Ora... Nunca o surrado ditado “fazer

Bacharel em Sociologia e Política pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP) e pós-graduado em Globalização e Cultura pela mesma instituição. Redator profissional desde 200 . Autor de onze livros e do artigo Como fazer uma monografia, publicado pela Editora Rideel em 2007. 2 A quarta etapa é o tradicional Exame da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). No entanto, como se sabe, esta avaliação não influi na titulação acadêmica em si, mas na autorização para exercer a função regularizada e profissional de advogado.

O estudante universitário é um ser múltiplo. Aqui, ele será chamado de “graduando”, “estagiário”, “orientando”, “monografista” e até, veja só, de “aluno”.

— Minimanual de Monografia Jurídica — Daniel Rodrigues Aurélio — Editora Rideel tempestade em copo d’água” foi tão válido quanto nesse ponto da vida acadêmica. O pânico e o ceticismo em relação ao TCC não se sustentam. Qualquer aluno que tenha cursado com um mínimo de interesse as matérias e disponha-se a pesquisar as bases históricas e teóricas das legislações é capaz de desenvolver um trabalho consistente e fundamentado. Esforço sempre há. Dedicação é princípio. A capacidade de conhecer, mensurar e interpretar não nasce de geração espontânea, mas a recompensa pelo êxito nessa labuta é generosa – e nos vários sentidos atribuídos às palavras “recompensa” e “generosa”. Principal mecanismo de iniciação científica, a monografia contribui para apurar características como a organização e o poder de síntese argumentativa, além de apresentar ao monografista tanto a perspectiva conceitual quanto o modus operandi associado à sua pretensa especialização.4 Vale a pena, sim! A ciência alarga horizontes e perspectivas. As teorias que aprendemos na faculdade influenciam e são influenciadas pelos anseios, dramas e situações da “vida real”. É o círculo virtuoso do aprendizado!Além do respeitável ganho intelectual na articulação de idéias e soluções, vital num mundo globalizado em que inovação e conhecimento são imperativos, uma boa monografia (leia-se coerente, rigorosa e criativa) é um chamariz para qualquer currículo e, no limite, pode decidir acirradas disputas por oportunidades no mercado de trabalho. Uma trajetória promissora na faculdade, coroada com um belo TCC, salta aos olhos de selecionadores e caçadores de talento. Sobretudo quando não se possui um histórico profissional consolidado, condição da maioria dos que estão em fase universitária. Ah, claro! É preciso lembrar que os melhores advogados costumam ser juristas de renome. Eles estão, portanto, integrados à universidade como intelectuais, professores, pesquisadores, orientadores e autores de livros inseridos na bibliografia das disciplinas. A apresentação do TCC tornou-se obrigatória no curso de Direito a partir da Portaria no .886 do Ministério da Educação (MEC), oficializada no dia 0 de dezembro de 994.5 Nas demais ciências humanas e sociais, ele já se constituía num pré-requisito para a obtenção do diploma. Geralmente em formato textual de monografia, a produção do TCC exige a observância de procedimentos técnicos, normativos e de investigação científica. Auxiliar o graduando a desvendá-los e aplicálos em suas pesquisas é o objetivo dos próximos capítulos. Embora com enfoque nas monografias jurídicas, este texto pode ser acompanhado por estudantes de todas as áreas. Afinal, exceto por determinados métodos típicos do Direito, o exercício monográfico obedece a convenções e padrões definidos pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT.6

4 As jurisprudências, a percepção média de juízes, promotores e defensores sobre um assunto, as mudanças históricas na legislação, a forma como a sociedade se relaciona com as leis etc.

Assinada por Murilo de Avellar Hingel, então ministro da Educação do governo Itamar Franco ( 992- 994), a portaria determinava, em 7 artigos, o currículo mínimo para os cursos superiores na área jurídica. Em tempo: o artigo que trata da obrigatoriedade da monografia é o 9o. 6 Organização responsável por regulamentar, fiscalizar e orientar as padronizações técnico-científicas na indústria, na ciência e na academia, a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) foi fundada em 940. Ela é a representante no Brasil da Comissão Panamericana de Normas Técnicas (COPANT), da International Electrotechnical Comission (IEC) e da International Organization for Standardization (ISO).

— Minimanual de Monografia Jurídica — Daniel Rodrigues Aurélio — Editora Rideel o projeto de pesquisa

Não levando em conta, neste momento, as normas internas de cada instituição, a monografia acadêmica é definida como um texto ou relatório, de realização individual ou em grupo, no qual é apresentado o resultado de uma pesquisa teórica e/ ou trabalho de campo. A monografia é precedida pela redação do projeto de pesquisa. Nesse primeiro passo, é delineado o recorte temático, definido e justificado o objetivo, formuladas as hipóteses e estabelecido o cronograma de atividades. A estrutura básica de um projeto de pesquisa é a seguinte:

Modelo 1 – Estrutura do projeto de pesquisa

Introdução ao Tema: breve explanação sobre a questão levantada e as motivações que levaram o graduando a interessar-se pelo assunto, além de comentários sucintos sobre artigos, obras, teses e dissertações relacionadas.

Objetivo: neste tópico será exposto o objetivo provisório ou definitivo da pesquisa. Justificativa: argumentação centrada no pretexto do trabalho e sua conexão com a especialização escolhida pelo graduando. Destina-se a convencer o orientador, a prébanca ou as entidades de fomento científico (CAPES, CNPq, FAPESP entre outras) acerca da validade e consistência da pesquisa.

Hipótese Inicial: toda pesquisa possui uma hipótese inicial que será validada ou refutada pelas conclusões ou considerações finais da monografia.

Metodologia: definição do método adequado ao caráter do projeto, das fontes de consulta à estruturação dos capítulos.

Cronograma: fixação das datas e prazos necessários para as etapas de produção da monografia. Não se preocupe, porém: é comum que não sejam seguidos à risca.

Bibliografia: item opcional. São os livros, jornais, revistas, anuários, teses, artigos e sites que o graduando julgar relevantes para a composição do trabalho.

Este projeto é, digamos, o pontapé inicial da monografia. Ele funciona como o guia que organizará todo o resto. Daí em diante, a pesquisa tende a derivar para caminhos às vezes contrários à percepção primária. Contudo, as bases do projeto são como pilastras. É esse movimento de descobertas, confirmações e perspectivas impensadas a face mais atraente da monografia. “Como assim atraente?” – o leitor se pergunta e, indignado, complementa: “Existe brecha para o fascínio num arrazoado técnicocientífico?”. Explico. Para começar, a resposta é sim – e muito! Quando optamos por um assunto que nos seduz e intriga, as dificuldades e prazos apertados são facilmente superados por uma curiosidade saudável, inquieta e fértil. O recorte evita desvios e exageros; não é limite para a imaginação. Por sinal, é natural que nossas preferências recaiam sobre assuntos com os quais mantemos afinidade. Aliás, recomendo aos graduandos que não sejam tragados pelo ciclone dos modismos temáticos. Desde que explorado com criatividade e senso de medida, qualquer mote, por modesto que seja,

— Minimanual de Monografia Jurídica — Daniel Rodrigues Aurélio — Editora Rideel resultará num trabalho digno de nota dez, aplausos, menção honrosa e cumprimentos da banca!7 a monografia e o papel do orientador

Segundo as diretrizes do sistema educacional brasileiro, correspondem a três os níveis de produção monográfica: o TCC, para concluintes de graduação e especialização lato sensu;8 a dissertação de mestrado, e a tese de doutorado e/ ou livre-docência. As regras referentes à normalização da produção científica mantêm-se as mesmas, variando somente o grau de domínio da matéria. A elaboração do TCC segue normas rígidas, embora flexíveis em relação ao número de páginas, por exemplo. Professores costumam advertir ao monografista-graduando que articule a argumentação, a checagem de hipótese e as conclusões ou considerações finais num espaço médio de 0 a 0 páginas. No entanto, essa estimativa é relativa. Há monografias excelentes resolvidas em 0 páginas e calhamaços de 200 repletos de junções desconexas de obras clássicas (ou nem tão clássicas) e “interpretações” prolixas e incompreensíveis. E vice-versa. A extensão do texto depende das necessidades do objeto, definidas pela dobradinha graduando/ orientador ao longo das reuniões de orientação. A propósito, a figura do orientador cumpre o papel de conduzir o trabalho de acordo com as premissas da ciência jurídica. Ao lado dos argüidores,9 ele preside a banca examinadora que julgará o mérito da monografia. Seus questionamentos e observações funcionam como direção para o orientando. Contudo, tendo em vista que a função do TCC é desenvolver a autonomia intelectual, pede-se equilíbrio no momento de “peneirar” os comentários. Convém ouvir o professor-orientador sem rompantes de adoração ou aversão. Uma dica categórica para a escolha do orientador é ignorar subjetividades e tolices do tipo “o professor Fulano é gente boa, já o Sicrano é um chato”. Simpatias e antipatias exercem peso insignificante na decisão. E, salvo um absoluto antagonismo de gênios, é a excelência ou, para os mais modernos, a expertise que conta de verdade. Pois é. E como descobrir qual professor se enquadra ao seu projeto? Por telepatia? Nada disso. Conheça abaixo alguns atalhos para reconhecer e, enfim, definir o seu futuro orientador.

7 Um episódio ocorrido em minha época de estudante de Sociologia ilustra esta consideração. Certa vez, um professor discutia conosco sobre nossos projetos de TCC. Um colega pediu a palavra e perguntou, constrangido, se pesquisar revistas em quadrinhos seria uma opção. A classe (ou seria a claque?) caiu na gargalhada. O professor, com aquela conhecida serenidade e polidez, interpelou-nos sobre o motivo do ataque de risos. Ninguém respondeu. Então, ele disse que pesquisar gibis seria uma opção muito interessante. E falou com tanta firmeza e eloqüência sobre fatos históricos e sociológicos sobre o mundo dos quadrinhos que, minutos depois, os alunos estavam em absoluto silêncio e, por que não, aliviados por perceber que aquilo que no fundo gostariam de abordar (o esporte favorito, a revista preferida...) poderia ser uma proposta viável. 8 Em diversos cursos superiores, o trabalho de iniciação técnica ou científica recebe um nome alternativo:

Trabalho de Graduação Interdisciplinar (TGI). 9 O argüidor é um membro do corpo docente ou – desde que autorizado – professor de outra instituição que avalia o TCC e questiona o monografista. Assim como para o orientador, a escolha se faz pelo critério da especialização, para garantir um aproveitamento teórico denso.

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Modelo 2 – Sugestões para a escolha de seu orientador

Currículo Lattes – A Plataforma Lattes (homenagem ao cientista César Lattes)10 é a base cadastral de pesquisadores do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico, o CNPq, e encontra-se disponível no site w.cnpq.br. Na Plataforma, localizam-se currículos de pesquisadores e professores universitários, com informações sobre seus livros e artigos publicados, suas linhas de pesquisa, produção técnica etc.

Sugestões de outros mestres – Tenha uma conversa franca e pró-ativa com os professores. Especule qual deles se interessaria, de fato, pela proposta do seu TCC. A parceria sintonizada com o orientador, se não opera milagres, traz à baila benefícios como debates antenados e recomendações sensatas de autores e métodos. Para melhor entendimento do leitor, a seqüência deste texto é dividida em duas partes complementares. Na primeira, trato do conteúdo da monografia: a linguagem acadêmica, as metodologias, as técnicas e as fontes de pesquisa, com ênfase no curso de Direito. E, mais adiante, adentro a seara das Normas da ABNT para formatação de texto, citações e referências bibliográficas. Vamos lá?

0 Nascido em Curitiba, Cesare Monsueto Giulio Lattes, o César Lattes ( 924-200 ), era um físico formado pela

Universidade de São Paulo e co-descobridor, com o norte-americano Cecil Powell, da partícula subatômica meson-pi. A descoberta teria rendido a Lattes o Prêmio Nobel de Física de 9 0. No entanto, Powell foi o único a recebê-lo. A justificativa para o brasileiro ter sido preterido é a de que, naquela época, o comitê de premiação só oferecia a honraria ao chefe da equipe.

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O texto acadêmico-científico

Em 996, o físico Alan Sokal enviou para apreciação dos editores da revista Social Text o artigo “Atravessando as fronteiras: em direção a uma hermenêutica transformativa da gravitação quântica”. Nele, Sokal divagava sobre a influência da “filosofia contemporânea” e das “humanidades” nas ciências físico-naturais. Uma vez aprovado pelo conselho editorial, o texto foi publicado numa edição especial do prestigiado periódico acadêmico. Tempos após, o físico revelou suas intenções: o artigo era, na realidade, um amontoado sem pé nem cabeça, uma paródia a autores “verborrágicos” como Jacques Lacan, Gilles Deleuze e Jean Baudrillard, até ali intocáveis em seus pedestais. Do alto de suas torres de marfim, esses filósofos-profetas da “pós-modernidade” usavam e abusavam, sem critério, de termos e conceitos de disciplinas como matemática, física, biologia e química.1 E o mais tragicômico é que a rigorosa Social Text deixou-se ludibriar pelo título pomposo, recheado de chavões “pós-qualquer coisa” como “hermenêutica” e “atravessando fronteiras”. No ano seguinte, com o fito de alertar contra abusos técnicos e lingüísticos dessa monta, Alan Sokal, em co-autoria com o também físico Jean Bricmont, publicou o provocador livro “Imposturas intelectuais”, lançado no Brasil em 9. O clima esquentou. Gente gabaritada vestiu a carapuça. Outros reverteram o ataque e viram na atitude dos autores um ranço de quem se preocupa em preservar o purismo científico.1 Seguiu-se ao bate-boca um joguinho de vaidades de doer. Era um tal de filósofo espernear pra cá, matemático chorar pra lá... Estranhamente, a questão chave – quais são os limites da linguagem acadêmica? – ficou esquecida em meio ao tiroteio de acusações. Essa dúvida, por sinal, coincide com os questionamentos de graduandos de todos os campos. Por que trabalhos científicos adotam palavreado tão empolado? Minha monografia vai ter frases tão longas assim? Citações e clichês ocultam uma má ciência? O estilo vale mais que o conteúdo? Resumindo: por que, ó raios, “todo intelectual” escreve enrolado? Para começar, essa história de escrever difícil é papo-furado. Nenhum manual de redação científica se prestaria a ensinar um disparate desses. Contudo, a vontade de soar erudito às vezes bate forte nos corações e mentes dos pesquisadores. Assim, consagrou-se entre nós uma montanha de vícios de linguagem. É efeito bola de neve, mesmo. Repete-se até virar epidemia. O sujeito se gradua, faz mestrado, defende o doutorado, vira professor e passa os erros, quer dizer, os cacoetes para frente. Os vícios mais corriqueiros são:

. Substituir palavras por seu sinônimo não usual. Exemplo: “encobrir” vira “sobrepujar”; “semanal” é trocado por “hebdomadário”. Num trecho ou outro, vá lá, tem a sua graça. Exagero é pedantismo e trava a comunicação.

Justiça seja feita, a filosofia é a matriz do conhecimento, vide Blaise Pascal para a lógica da computação,

René Descartes para as ciências exatas, Francis Bacon para o empirismo... 2 Nos seus primórdios, a sociologia almejava ser para a sociedade aquilo que as ciências físico-naturais e a biologia são para o estudo da fauna, da flora, do funcionamento do corpo. Um dos primeiros paradigmas das ciências sociais era o chamado “evolucionismo social”. Ler um autor como Emile Durkheim é deparar-se com termos da Medicina e da Biologia: “anômia”, “patologia”...

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2. Utilizar a primeira pessoa do plural mesmo quando o trabalho é realizado e assinado individualmente: “Nós consideramos esse caso...” ou “Obtivemos tal amostragem...”. Essa “coletivização” da monografia é um enigma lingüístico...13

O repertório de vocábulos tem de se afastar dos extremos; nem escasso (denotando desleixo e deficiência de leitura), nem floreado (para o monografista não passar por herdeiro temporão dos parnasianos). O parâmetro é a exatidão técnica e a clareza na exposição. Num texto acadêmico-científico eficiente, nada falta, nada sobra – cada expressão tem uma função definida no conjunto textual. Por essa razão, as ciências dispõem de um arcabouço de terminologias catalogadas e denominadas “termos técnicos”. A despeito da obrigação de se respeitar o jargão técnico, e de zelar para que o estilo não anule o conteúdo, o texto acadêmico-científico não precisa ser desprovido de qualidades literárias. Siga abaixo alguns toques para se escrever com elegância, sem se perder na ficção ou no mero discurso panfletário:

Modelo 3 – Como aprimorar o texto de sua monografia

. Ler, ler e ler. A leitura – e compreensão – das obras relativas ao tema desenvolvido trazem fundamentação e coerência à argumentação do monografista. A leitura de obras literárias e jornalísticas apura a gramática e os recursos de vocabulário e estilo. 2. Evite parágrafos quilométricos. Sabe aqueles longos trechos, sem pausas para se tomar fôlego? Nos romances de José Saramago e Raduan Nassar, esse recurso narrativo engrandece a obra. Numa monografia, é desperdício de caracteres. Afora a ficção dos gênios, um parágrafo adequadamente estruturado é composto por abertura, argumentação, síntese e fechamento. Edite o parágrafo com as passagens essenciais e, se for o caso, “puxe” uma nota explicativa e continue lá a desenvolver o assunto.

. Pontue as frases com correção. Use vírgulas, sim, mas não negligencie os pontoe-vírgulas (;) e os pontos finais (.). Mescle frases curtas e diretas com outras mais longas e digressivas. Preste atenção à pontuação; é o texto quem vai “pedir” vírgulas e/ ou pontos finais. Escreva um capítulo, pare, respire, leia e releia. Coloque-se na posição do leitor. Veja se está compreensível. Muitos monografistas – e escritores – pecam por não fazer esse exercício elementar. A escrita se transforma após uma revisão gramatical. 4. Peça para colegas e professores lerem seus textos. Embora seja uma tarefa solitária, escrever é um modo de se comunicar, e é vital que conteúdo, forma e estilo estejam acessíveis ao leitor. Consulte, se possível, um revisor ou preparador – pior do que texto ruim é texto pontilhado por caneladas gramaticais. Revisar não é escrever, viu?14

É sensato não entrar em rota de colisão com o orientador se ele considerar “mais científico” um festival de “consideramos”, “pesquisamos”, “compreendemos”, “pensamos”... 4 Encomendar monografias a ghost-writers é o cúmulo da indigência intelectual.

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. Nada de coloquialismos, gírias e o “internês” do MSN ou do Orkut. 6. Como diria o professor Pasquale Cipro Neto, o problema não é o gerúndio, é o gerundismo. TCC não é script de telemarketing, correto? Fuja do gerundismo, senão a banca examinadora “estará enviando” sua monografia para a lata do lixo. 7. Siga o vocabulário jurídico. Por lidar com formalidades, leis e contratos sociais, a norma culta é a marca registrada do Direito. Já as expressões em latim são artifícios retóricos que remetem às origens do Direito moderno. Quando o latinismo for termo técnico – exemplo: habeas corpus –, utilize-o sem medo de ser feliz. Quando houver equivalente em português, tenha bom senso.

diga não aos adjetivos desneCessários!

O uso exagerado de adjetivos é sempre um expediente de gosto duvidoso. Nesse texto, utilizo, em várias frases, adjetivos corriqueiros para tornar a leitura leve e conectada ao leitor pela via do humor, do impressionismo. Numa produção científica – como o é a monografia jurídica –, esse recurso revela preferências intelectuais ou, pesadelos dos pesadelos, ideológicas. Bajular e tecer loas aos autores ou ao objeto da pesquisa é supérfluo. Por sua vez, refutar com violência demonstra má vontade em dialogar com os contrários. Ora, a maneira como são conduzidos os capítulos já assinala as afinidades eletivas do pesquisador. Nesse sentido, elogiar ou desqualificar é daquelas redundâncias inúteis por definição. Quer saber? Coisa neutra nesse mundo é sabão. No entanto, não derrape na pista ensaboada da idolatria e do estereótipo. O gosto de quem escreve está contido nas escolhas dos recortes, autores, teses, discursos. Como amortecedor dessas paixões, a moderação faz o argumento nuclear superar as opiniões laterais. Até porque o adjetivo vira pleonasmo quando o TCC consegue expor com segurança a riqueza ou as inconsistências de um pré-conceito, paradigma ou teoria. Adjetivar é emitir juízo de valor. Isso não chega a configurar um erro técnico gravíssimo, apesar da chance de ser mal-interpretado pelos argüidores e de se complicar na defesa crescer muito. Não custa ser delicado com o oposto e menos festivo com as suas opções teórico-metodológicas. Ninguém perde a contundência por agir assim. Embora brote do desejo, o conhecimento em nível acadêmico é cerimonioso e caminha em direção à racionalidade. Sem falar no quanto refina o estilo. Um texto enxuto é colírio para os olhos cansados de guerra do seu orientador. Qualificar, porém, não é um crime contra o empirismo. No capítulo dedicado às conclusões, por exemplo, é quase incontornável. Nesse caso, procure optar por adjetivos contidos e práticos, amparados pelas evidências encontradas.

Modelo 4 – Exemplos de adjetivos recomendados: Correto, incorreto, consistente, inconsistente, coerente, improdutivo, contraditório. não recomendados: Brilhante, genial, espetacular, fascinante, desastrosa, péssima, absurda, risível.

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