Sexualidade no Antigo Egito

Sexualidade no Antigo Egito

Capítulo 3 - Sexualidade no Antigo Egito

Por Arthur Gustavo Lira

As suas ancas foram modeladas como deve ser,

As suas pernas acima de outra beleza qualquer “1.

O estudo do erotismo no Egito antigo é constituído por fontes escritas, representações de imagens e objetos encontrados nos túmulos dos funcionários e grandes senhores egípcios. A representação da vida sexual dessa civilização tem como caráter principal a sua cultura religiosa “pós-morte”. As pinturas, desenhos e escritos nos túmulos ligados a sexualidade tem como principal objetivo que aqueles momentos de prazer sejam levados para sua eternidade. Sem dúvidas, a maior fonte de nossos estudos está na Literatura do Antigo Egito, os poemas de amor, encontrados em escritos antigos2 relatam toda a sensualidade e romantismo de um pensamento sexual ligado à religião, a natureza e seus prazeres. Não é por acaso que em muitos escritos aparecem referências a deusa Hator, deusa da alegria, da beleza e do amor. A sexualidade está ligada a religião desde as suas origens e mitos da criação do mundo e do homem, como é o caso do Deus Atum e Osíris3.

Os egípcios tinham uma formação social muito diferente das outras civilizações. Os gregos quando chegaram ao Egito relataram o profundo choque em relação à liberdade que se tinha naquela região, em especial, a liberdade que possuía as mulheres e a visão que se tinha sobre o imaginário sexual dos egípcios. O historiador português Luís Manuel de ARAÚJO faz referência às impressões que os Greco-Romanos tinham desta civilização, quando, por exemplo, Heródoto esteve naquelas terras, e ao perigo de uma generalização que pode ocasionar uma interpretação errada aos costumes egípcios:

(...) os textos do pai da história e outros viajantes greco-romanos da antiguidade começaram logo por influenciar os seus contemporâneos, que viam nas regiões orientais, incluindo o Egipto, a terra do luxo, das perversões e da prática abusiva dos prazeres sexuais.” (ARAÚJO, 1995. PP 102)

O choque entre costumes e culturas existe e sempre vai existir na história, a partir do ponto em que observamos dentro de um meio ao qual já estamos inseridos. Não podemos por os fatos em relação ao que vivemos, e sim, aprofundar e conhecer a cultura daquele que tratamos como estrangeiro. Não era de se admirar que os Gregos se surpreendessem com a realidade encontrada no Egito, as mulheres dotavam de profunda liberdade, casavam-se com que elas escolhessem e diferente dos gregos, e até mesmo das sociedades patriarcais que estiveram sempre presente em todos os períodos da história, as egípcias tinha uma voz ativa em sua sociedade, e ocupavam até cargo de poderes, como é o caso da primeira faraó mulher, Hatchepsut4. 

O Erotismo no Egito Antigo tinha um caráter sagrado, devido a sua ligação com a origem da vida. A vida sexual dos egípcios era ligada a muita vaidade, beleza, perfumes, adornos, que por vezes apareciam em forma de objetos visivelmente ligados a sexualidade, como é o caso das figuras do deus Min, que empunha na sua mão esquerda, o falo ereto; dos pilares osíricos, dos amuletos de djed e dos Anões Itifálicos, peças com muita carga simbólica feitos muitas vezes de lápis-lazúli, ouro, pedra, cobre.

Segundo Christian JACQ, os órgãos genitais eram tratados com bastante importância durante a mumificação. José Manuel de ARAÚJO mostra que em alguns casos o Pênis era separadamente guardado, demonstrando a importância da sexualidade para os Egípcios. O Estudo da sexualidade, e a carga simbólica desse erotismo por muitas vezes é estudada a partir dos seus pequenos detalhes. JACQ e José ARAÚJO fazem referências aos pequenos detalhes envolvidos nessa cultura, falam sobre os significados que os sonhos tinham com a sexualidade. ARAÚJO nos descreve sobre os perigos que os sonhos sexuais podem trazer de acordo com que acreditava os egípcios:

(...) Os livros de sonhos procuravam interpretar estranhas situações que tinham o seu quê de pesadelo: Se um homem sonhar que tem relações sexuais com um milhafre, isso é mau: significa que ele será assaltado... Se um homem sonhar que tem relações sexuais com uma mulher, isso é mau: significa luto” (ARAÚJO, 1995. PP 126)

Enquanto Christian JACQ, com um pequeno detalhe de diferença, nos relata sobre sonhar que estar mantendo relação sexual com “sua” mulher, trará algo de bom:

Os órgãos genitais masculinos e femininos nos estão presentes nos hieróglifos, a nudez não estava proscrita, o deus Min é representado em ereção para evocar o dinamismo criador atuante nos cosmos e na natureza. De Acordo com uma “chave dos sonhos”, se um homem sonha que fez amor com sua mulher, é um bom presságio: algo de bom lhe será transmitido.” (JACQ, 2000. PP 165)

Os detalhes fazem que possamos perceber que Egípcios, assim como todos dos povos antigos, levavam muito a sério o valor simbólico, mágico e religioso que existia sobre aquilo que eles acreditavam. No valor cultural dessa sociedade, a sexualidade tinha tamanha importância que os sonhos, rituais fúnebres e até mesmo períodos que se não podia manter relações sexuais5 eram relacionados por pequenos signos que determinavam a cultura egípcia. Os amuletos de Djed, por exemplo, eram usados pelos egípcios para que representassem vigor sexual, “eficaz símbolo de estabilidade e permanência” (ARAÚJO, 1995. PP 81).

Cada cidade era seu próprio centro religioso6, e cada uma difundia seu próprio mito da criação, e em alguns casos, ligados a sexualidade, daí a tamanha importância que se era dada ao tema, pois tratava de algo, como já dito antes, que estava ligado a origem da vida. O universo erótico da civilização egípcia nos faz perceber, a fundo, a constituição cultural de uma sociedade antiga, que deixou seu legado após dezenas de milhares de anos.

Registros históricos nos mostram cenas de sexo, homens em investidas às mulheres, hieróglifos com desenhos genitais, banquetes regidos por músicas e festa com mulheres de seios a mostra, figuras de caráter pornográfico como orgias, com legendas exaltando o valor erótico as imagens, tudo isso fazia parte de um cotidiano sexual que foram conservados e registrados em papiros, figuras e hieróglifos. A sexualidade, para eles, não tinham o pudor que se têm atualmente, diferente de como os Grego-Romanos via, de um ambiente de perversões sexuais. Poemas de amor e erotismo encontrados revelam toda uma cultura poética, envolvidos de um sentimento bem romântico, com uma profunda delicadeza, que pode ser explicado, ou suposto, pela ligação que esse romantismo teria com o sagrado. Iniciei este capítulo, com um verso que retrata bem a visão de sensualidade e beleza que se era dita pelos egípcios as suas amadas: “As suas ancas foram modeladas como deve ser, as suas pernas acima de outra beleza qualquer.” (ED. ASSÍRIO E ALVIM, 1998. PP 15). Esse sentimento delicado, sensual, se aproximava do sagrado, tornando sempre comum nos textos referências à religião:

Ó deusa da Luz de Oiro,

faz com que lhe chegue esse pensamento,

Então poderia visitá-lo,

E pôr-lhe os braços à volta à vista das outras pessoas

E sem Chorar por causa da multidão,

Mas contente por saberem e por tu saberes de mim.

As homenagens que eu não prestaria à minha Deusa,

O meu coração revolta-se de pensar em partir,

Pudesse eu ver o meu amor esta noite.”

(autor desconhecido, 1998. PP 20).

Em muitos dos textos, a Deusa Hator é sempre reverenciada. Porém, além dessa ligação religiosa, uma das características forte dos textos egípcias são as metáforas que ligam a sensualidade aos elementos da natureza. Um dos mais presentes é a água: “Agora que ficou molhado vê lhe a transparência, como está colado ao corpo” (ED. ASSÍRIO E ALVIM, 1998. PP 25). Essa imagem, da água colando a roupa ao corpo é freqüente, mostrando assim a sensualidade que se tinha quando as mulheres estavam nesta situação. Luís Manuel de ARAÚJO nos mostra todo um símbolo erótico de relatos mais precisamente durante o Império Novo, que narrava a mulher molhada ao sair da água, vestida por uma túnica que se cola ao seu corpo, mostrando seus contornos7, algo bastante sensual e erótico, que para o autor, torna-se mais erótico do que vê-la propriamente nua. Para os egípcios a nudez não era motivo de erotização, pois vale ressaltar que por algumas vezes a nudez era algo comum de se ver, e seria mais sensual, essa ligação com a natureza, o uso de adornos sexuais e motivos erotizantes:

(...) não era por ver um ser nu que o Egípcio poderia sentir desejos eróticos, até por que habitualmente os trabalhadores que se esfaltavam na árdua faina dos campos e noutras actividades estavam nus ou seminus, como bem nos mostra os relevos tumulares.” (ARAÚJO, 1995. PP. 16).

Além da água, outras figuras da natureza vão aparecendo nos poemas e canções relacionados ao erotismo e ao romance, o peixe8 torna-se algo presente como metáfora ao falo masculino, o rio, os animais, a terra, também são constantes na poética egípcia.

Os documentos ligados ao tema da sexualidade estão, em sua maioria, presente no período do Império Novo. Poesias, papiros, registros. A concentração de achados nesse período nos mostra a importância que esse período tem culturalmente. Os temas de nossa pesquisa se abrangem a partir do ponto em que buscamos conhecer mais a cultura sexual dessa civilização. Buscamos interpretar uma generalização do conceito de sexualidade que tinham os egípcios, e nos deparamos com diversos temas, como a religião, a vaidade egípcia, a prostituição, o adultério, a homossexualidade, e até mesmo o incesto. Numa civilização tão antiga, sua cultura abrange importantes perspectivas quanto aos temas da sexualidade e da mulher.

Retomo ao autor português Luís Manuel de ARAÚJO quando trato dessa ligação do sexo aos prazeres da vida, e seus registros nos mostra cada vez mais a importância desses com a religião, e a crença a vida pós-morte. “Se o Além era atempadamente preparado, a vida terrena deveria ser para quem naturalmente o podia fazer consumida em plenitude. Havia que gozar os dias antes da grande jornada rumo ao outro mundo (...)” (ARAÚJO, 1995. PP 18). A sexualidade egípcia era dotada de grande importância aos seus adereços e adornos. Além de colares e adereços relacionados aos deuses que os egípcios acreditavam dar vigor sexual, havia uma imensidão costumes que estavam diretamente ligadas à prática sexual, e esses eram os motivos erotizantes. Perucas, perfumes, óleos, pinturas, roupas, todos esses acessórios estavam ligados a uma esfera sensual que ativava as damas aos prazeres da vida. A importância desses adornos torna-se cada vez mais presente na cultura do Império Novo. Araújo nos mostra o processo de aperfeiçoamento dessa esfera sensual ligado as vestes, e como esse, e as maiorias das formas sensuais estavam intimamente ligadas ao período do Império Novo:

Entre as damas da alta sociedade, a túnica comprida e justa do Império Antigo que marcava as formas do corpo viria a transformar-se, na época de maior exaltação dos valores individuais que foi o Império Novo Médio, tornando-se mais curta e deixando os seios a descoberto. Depois, com o refinamento do Império Novo, as damas cobriam-se de fino linho, deixando por vezes um dos seios à mostra.” (ARAÚJO, 1995. PP 106).

A peruca é sem dúvida o instrumento mais importante desse universo sexual, em muitos escritos a peruca é sempre retratada em cenas eróticas: “Vem, vamo-nos deitar uma hora. Põe a tua peruca.” 9Elas possuíam formas diferentes que designavam junto à cabeleira, o status social da pessoa, eram motivos de admiração e beleza, e davam todo um encanto sensual. “Essas perucas eram confeccionadas com fibras vegetais ou com cabelo humano, e mais raramente com pêlo animal”. (JACQ, 2000. 183). Os cones Perfumados eram adornos usados sobre a cabeleira, estudos supõem que os cones aos poucos se derretiam e exalavam suaves cheiros perfumados.A vaidade dos egípcios era grande, homens e mulheres pintavam seus rostos, nos olhos e nos lábios. O cotidiano sexual dos egípcios é retratado nos monumento tumulares e o sentimento que desejavam na eternização desses momentos: “Assim, nas pinturas dos túmulos, as festas galantes e as cenas íntimas vêem-se projectadas para a eternidade do Além, recriando uma época de bem-estar que se desejava perene”. (ARAÚJO, 1995. PP 105).

Além disso, também encontramos no Egito Antigo relações ao Incesto, Homossexualidade e Prostituição. Registros de pinturas mostram orgias, desenhos pornôs e pessoas nuas. A relação sexual entre irmão e irmã era comum, especialmente na linhagem da nobreza, para eles, casar-se com o irmão ou irmã, significava ter cada vez mais pureza no sangue. Isto para os egípcios era normal por ter como referência a sua religião, O Deus Osíris casou-se com a deusa Ìsis, união que resultou no nascimento de Hórus, que no futuro se casaria com a deusa Hathor, deusa do Amor, da beleza e dos prazeres.

Poemas de amor do antigo Egito nos mostram a relação incestuosa que existiam entre eles:

(...) Meu irmão estava junto à sua mãe

E todos os seus irmãos com ele.

O amor por ele apodera-se do coração

De todos que passam pelo caminho

(desse) jovem belo sem igual,

Irmão de virtudes excepcionais (...)

Se minha mãe soubesse o que se passa

Em meu coração logo teria percebido

Ó, Deusa de Ouro, põe isso no coração dela

E então correrei para meu irmão,

E o beijarei na frente de todos que o cercam

Não mais terei vergonha de ninguém (...)”

(ARAÚJO, 2000. PP. 307)

Em um dos registros históricos, o Óstraco do Cairo10, é percebível mais uma relação romântica incestuosa. O trecho abaixo, mostra a suavidade e romântica da relação entre esses dois irmãos, o lirismo que em encontrado a volta de uma relação sexual entre eles e a presença da religião neste poema quando é citada a Deusa Menqet, a Deusa protetora da Cerveja:

Quando a beijo e seus lábios se entreabrem

Sinto-me inebriado sem mesmo ter bebido cerveja.

Preencheu-se a ausência. Menqet embelezou-se

E leva-me à cama de minha irmã.

Vem, (criado), para que eu te fale:

Traze linho fino para seu corpo

E forra sua cama com linho real.

Seu corpo é tão delicioso

Como (a fragrância) que vem

do bálsamo tishepes”

(ARAÚJO, 2000. PP 326)

Além da relação de incesto, encontramos no Antigo Egito, referências a homossexualidade, e é mais uma vez no Panteão Egípcio que vemos a conotação religiosa ao homossexualismo. O deus Set, ao qual na mitologia egípcia é o assassino do Deus Osíris, aquele que partiu seu corpo em vários pedaços e jogou no Rio Nilo, tentou assediar e ter, o Jovem Deus Hórus, já que, como explica Luís Manuel de ARAÚJO, manter uma investida em homem, era ter sobre ele, o poder, para que desta maneira, Set mostrasse sua capacidade de reinar perante a sucessão do poder do Deus Osíris:

“é que a violação de um homem era tida por um acto de poder sobre o violado, e é nesta vertente que deve ser entendida a perseguição de Set ao filho de Osíris. (ARAÚJO, 1995. PP 119)”.

Porém, a tentativa de violação de Set não foi bem sucedida. No leito com o jovem Hórus, Set acabou engolindo o sêmen do Deus Hórus, e ele é quem acabou por ter o poder sobre o Set, então Hórus sucedeu o poder de seu pai. Porém, não eram somente na mitologia egípcia que o incesto e a homossexualidade estavam presentes. Há registro que mostram a presença de incesto na relação de Akhenaton com sua filha Ankhesenpaaton. “Aos onze ou doze anos casou com seu pai Akhenaton, vendo assim a sua essência divina confirmada em coito sagrado com o próprio faraó. (ARAÚJO, 1995. PP 114). Esta situação confirma essa crença de que a relação entre familiares purificava a linhagem sanguínea da nobreza faraônica.

A homossexualidade, também estava presente na sociedade egípcia, para ARAÚJO: “está presente num texto datado do Primeiro Período Intermediário em que o faraó Neferkaré é apontado como sendo amante do seu general Sisené.” (1995. PP 121). No livro dos mortos há uma presença de referência onde “o defunto afirmava que não se tinha deitado com homens”. Para Araújo, também era possível a homossexualidade entre as mulheres, já que no hárem, banquetes e festa orgiásticas havia várias mulheres, o que ajudava que nesses locais, houvesse práticas homossexuais entre elas.

Enquanto ao tema do Adultério, na versão mitológica também vemos a traição presente: A Deusa Néftis, vestiu-se com o vestido da irmã, Ísis, e assim, seduziu o Deus Osíris. Mostrando mais uma vez a força e presença da mitologia egípcia em todos os temas em que tratamos a sexualidade.

Podemos analisar a relação da traição na sociedade egípcia a partir das referências da autora JACQ e o autor português, ARAÚJO. As mulheres egípcias dotavam de enorme respeito, elas eram tratadas iguais aos homens, não havia distinção social entre os gêneros. Segundo JACQ, as mulheres, caso houvesse uma separação com o marido, era indenizada por este, e um dos motivos que dava a mulher direito sobre uma contestação do matrimônio, era o adultério11.

Porém, no livro de ARAÚJO, encontramos uma posição mais radical, quanto à forma que o adultério foi tratado pelos egípcios:

Passando das ocorrências míticas para as de âmbito humano, recordemos aquele episódio do reinado de Nebkaré (III dinastia), que ficou mesmo irado ao saber que a esposa de um alto funcionário tinha cometido adultério com um soldado. Consta que ordenou que a mulher fosse queimada e as suas cinzas atiradas ao rio, punição verdadeiramente invulgar.” (ARAÚJO, 1995. PP 122)

Diferente da posição de JACQ, em que ponha a mulher como à traída, invertendo os valores, ARAÚJO nos fala sobre a traição da mulher ao homem, sobre a culpa que ela, em vista pelos egípcios, tinha em cometido o adultério:

A mulher parece ter sido a culpada de tudo, pois lhe agradara o jovem soldado e, com a conivência de uma serva e o intendente do próprio marido, prepara uma idílica casinha onde permaneceu o dia inteiro, bebendo e fazendo amor com o homem até o por do sol.” (ARAÚJO, 1995. PP 122)

Dá pra se notar, a posição negativa que se tinha o adultério, seja em relação do homem ou a mulher. JACQ nos mostra uma posição legal, de direito que as mulheres tinham ao serem traídas, enquanto ARAÚJO nos relata uma posição radical, de um caso de traição da mulher ao esposo.

A referência que temos à prostituição é o caso das concubinas e as mulheres da “Casa de Cerveja”, que existiam no antigo Egito. As concubinas, mulheres que serviam a nobreza, são representadas em figuras nos túmulos, nuas, em representação as mulheres que garantiam aos homens, inesgotável prazer sexual, como disse a JACQ, mas são teorias falhas, pois ainda deixam dúvidas devido a essas figuras aparecerem em túmulos de mulheres e meninas. A “Casa de Cerveja” nos deixa registros de que mulheres da vida, “jovens prontas a satisfazerem todos seus desejos”, nos confirma uma relação de prostituição que existia no Antigo Egito, porém não associadas às prostitutas atuais, mas sim a mulheres que, como diz JACQ seriam mulheres com “uma tatuagem na coxa, sabiam dançar, tocar música e distrair os homens. Muitas eram estrangeiras, especialmente babilônias”, sendo comparada mais as gueixas japonesas, mulheres da arte da sedução, da dança e do canto.

Segundo ARAÚJO, também há registro de um caso em que o faraó Khufu, teria posto sua filha a prostituir-se para juntar dinheiro para construir o túmulo real, caso tomasse gosto pelo serviço, ela poderia pensar em até mesmo construir uma pequena pirâmide para ela.

Enquanto os faraós possuíam as concubinas em seu hárem, há relações pornográficas referenciadas à rainha Hatchepsut, encontrados em Deir El-Bahari, através de registros gráficos, o que deixa a entender que a Rainha, mantinha relações com vários homens.

(...) parecendo neste caso as obscenidades terem a ver com a rainha Hatchepsut e o seu favorito Senenmut: um par representado na rocha mostra uma mulher em pé, dobrada, e um homem por detrás – para John Romer trata-se da célebre rainha oferecendo-se à investida do seu arquitecto e vizir, de quem pelos vistos os seus subordinados não gostavam.” (ARAÚJO, 1995. PP 123)

Em contraponto, os egípcios não aprovavam o excesso, para eles tudo que era feito em excesso fazia mal, existem advertências as práticas em abusivas, em especial a bebida e ao sexo: “Os escribas dirigem sérias advertências aos alunos que esquecem o trabalho para se entregar aos prazeres da bebida e do sexo” (JACQ, 2000. PP 166). JACQ continua a falar também sobre as advertências feitas pelo sábio Ptah-Hotep em relação à sedução da mulher, aos cuidados que se deve ter com as mulheres estrangeiras, comparando a um mar profundo, e também ressalta os perigos que se deve ter o possuir uma mulher jovem: “mulher-criança, cujo desejo sexual nunca será saciado por nenhum homem.”.

Em profundidade, os textos de JACQ e ARAÚJO12, tornam-se uma superfície para se compreender poemas, escritos e registros que foi legada a nós. A base que temos para compreensão de toda uma cultura é apenas um pedaço daquilo que sobreviveu ao tempo. Os textos “Poemas de Amor no Antigo Egipto” e “Escritos para Eternidade”13 retratam-nos um pouco desse pequeno vestígio. Compreender esse universo erótico, envolvido num tema que tem o gênero intimamente ligado as suas pesquisas, a forma com que homens e mulheres eram tratados, em especial, as mulheres, cuja História por vezes a fez inferior, nos faz produzir conhecimentos sobre esta sociedade antiga, que nos fala e ensina tanto, uma sociedade ao qual a vida não estava ligada só a nossa curta passagem aqui na terra, e sim a toda uma eternidade pós-morte, onde o prazer e o bem-estar vivido deveriam ser características mantidas em sua eternidade.

A sexualidade egípcia é uma característica que nos diz muito dessa cultural milenar. Uma civilização em que tudo estava ligado à natureza, a religião e ao símbolo. Sua literatura romântica e erótica é muito carregada de signos, adorações aos deuses e deusas, conotações relacionadas à natureza, uma esfera mítica que nos proporciona a extensão de novos conhecimentos e novas perspectivas aos estudos do mundo antigo.

O trabalho da história no Egito Antigo abrange toda essa esfera mitológica. Com a compreensão dos signos, podemos atingir esse conhecimento que nos foi deixado, registros da vida sexual, poemas românticos, canções aos Deuses, figuras pornográfica em túmulos, gravuras eróticas, papiros médicos, objetos da vaidade e adornos sexuais que nos ligam a uma cultura que acreditava na vida pós-morte, e realmente, ficou “eternizada” em nossos estudos.

1 Trecho do texto “Poemas de Amo do Antigo Egipto”, Ed. Assírio e Alvim. 1998.

2 As fontes dos poemas de amor são: o Papiro de Chester Beatty I, o Papiro Harris 500, o Papiro Turim 1996, Papiro Turim e o Óstraco do Cairo.

3 Deus Atum de Heliópolis, cujo mito relata a criação do mundo através de sua masturbação, ao qual, ele se autofecundou. E Osíris, deus que após morte, e partido em pedaços foi encontrado pela esposa, Ísis, que recuperou seu pênis, onde copulou, e originou o deus Hórus, filho deles. Rf. Erotismo Demiúrgico (Araújo, 1995).

4 Ver. Cap.”Mulheres no Poder”. As Egípcias. 2000. PP 73-102. Christian Jacq

5O quinto dia do mês de Paofi era mau para o amor (...).O nascido neste dia morrerá de um excesso de prazeres sexuais”. (ARAÚJO, 1995. PP 126)

6 Em Tebas, acreditava-se que o mundo descendia de Amon. Em Heliópolis acreditava-se que o universo descendia da masturbação de Atum; e em Mênfis, o mundo originara pela palavra do deus Ptah. Ver Estudo Sobre Erotismo – Erotismo Demiúrgico (ARAÚJO, 1995).

7 Rf. “(...) a rapariga evocada a sair da água não está nua, mas sim vestida com uma túnica molhada que, na transparência do fino linho, se lhe cola ao corpo.” (ARAÚJO, 1995. PP 16)

8 “(...) Vou mostrar como sou bela, no meu vestido de linho branco, humedecido pelos balsamos (...) peixe vermelho preso em minha mão. (...)”. Rf. Óstraco achado em Deir El-Medina. Erotismo no Antigo Egito. “(...) Os egípcios acharem fascinante a Imagem do vestido humedecido colado ao corpo humano da mulher, e para conotação fálica do peixe.” (ARAÚJO, 1995. PP 115).

9 Rf. Erotismo Profiláctico. (ARAÚJO, 1995. PP 75)

10 Rf. “Óstraco do Cairo 1266+25218 (vaso encontrado em Deir el-Medina) datado em torno das 19º-20º dinastias, contém dois conjuntos de poemas que totalizam 14 peças. A última das quais praticamente inelegível.” (ARAÚJO, 2000. PP 302)

11 Ver. Capítulo “O Casamento no Antigo Egito” por Mariana Bacelar.

12 Rf. Ao texto “Erotismo no Antigo Egipto”, de José Manuel de Araújo

13 Autores: desconhecido – Editora Assírio e Alvim (1998); e José Manuel de Araújo (2000), respectivamente.

Página 29

Comentários