Agricultura ecológica - príncipios básicos

Agricultura ecológica - príncipios básicos

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Centro Ecológico Apresentaçªo 1. Sol, `gua e Nutrientes 2. Indicadores Biológicos 3. Controle Biológico - Predadores e Parasitas 4. Controle Fisiológico - Trofobiose 5. Solo

6.Adubos Orgânicos 6.1Adubos Verdes/ Ervas 6.2 Estercos 6.3 Composto 6.4 Vermicomposto 6.5 Biofertilizantes Enriquecidos 6.5.1 Biofertilizantes Enriquecidos Líquidos 6.5.2 Biofertilizantes Sólidos,Adubos fermentados tipo Bokashi

7. Caldas Nutricionais e Fitoprotetoras 7.1 Calda Bordalesa 7.2 Calda Cœprica EEC 7.3 Calda SufocÆlcica

8. Manejo de Videira, Pessegueiro e Tomateiro:

ExperiŒncia na Regiªo da Serra Gaœcha 8.1 Cultura de Videira 8.1.1 Ecologia 8.1.2 Localizaçªo do Parreiral 8.1.3 Variedades 8.2 Cultura do Pessegueiro 8.2.1 Localizaçªo e Escolha do Terreno 8.2.2 Manejo de Solo eAdubaçªo 8.2.3Tratos Culturais 8.2.4 Manejo de Insetos e Doenças 8.3 Cultura do Tomateiro 8.3.1 Variedades 8.3.2 Manejo de Solo eAdubaçªo 8.3.3 Tratos Culturais: Conduçªo e espaçamento 8.3.4 Manejo de Insetos e Doenças

9. Conclusªo 10. Bibliografia

OCentroEcológicoØumaONGqueatuadesde 1985 estimulando a produçªo e o consumo de produtosecológicos.

Acreditamos que desta forma estamos contribuindo para uma outra sociedade, mais justa, fraterna e respeitosa com o meioambiente.

O manejo ecológico dos sistemas produtivos Ø o principal eixo de trabalho do Centro Ecológico, onde incluímos um forte componente de resgate e manejo da biodiversidadeagrícolaealimentar.

Para alØm do aspecto tØcnico-produtivo, tambØm trabalhamos com o estímulo à organizaçªodeprodutoreseconsumidores,à formaçªo de novas redes de produçªo e consumo, à capacitaçªo de tØcnicos em agricultura ecológica, à formulaçªo de políticas pœblicas para uma agricultura sustentÆvel e à lutacontraautilizaçªodetransgŒnicos.

OCentroEcológicoconcentrahojesuaatuaçªo emduasregiıesagroecológicasdistintas:

ASerra Gaœcha e o Litoral Norte do RSe Sul de SC. Cada uma destas regiıes possui características sócio-ambientais diferenciadas, o que tem contribuído para alimentar um esforço permanente de reflexªo sobre os princípios da agricultura ecológica e sua forma de operacionalizaçªo em contextos específicos.

RuaPadreJorges/n° 95.568-970 DomPedrodeAlcântaraRS Fone/fax:0xx(51) e.mail:centro.litoral@terra.com.br

CaixaPostal21 95.240-000IpŒRS Fone/fax:0xx(54) e.mail:c.ecologico@terra.com.br

Temos dois escritórios à disposiçªo para quaisquer informaçıes:

O presente texto foi organizado a partir de duas cartilhas jÆ existentes: Trofobiose - Novos Caminhos para uma Agricultura Sadia, publicado em conjunto pelo Centro Ecológico e pela Fundaçªo Gaia, e Biofertilizantes Enriquecidos, redigida pela equipe do Centro Ecológico. A estes textos se somaram outros materiais, elaborados para uso nos cursos de formaçªoqueoCentroEcológicorealiza.

O que aqui nos propomos Ø instrumentalizar agricultoras, agricultores e demais interessados na prÆtica da Agricultura Ecológica.

Nele iremos abordar alguns elementos bÆsicos para que o nosso entendimento sobre a agricultura e seus processos possa ser orientadocombasesmaissustentÆveis.

Um conhecido romancista francŒs disse certa feita que "a verdadeira viagem do descobrimento nªo consiste em vislumbrar novas paisagens, mas sim em ter novos olhos". Disto se tratam estes apontamentos. A paisagem Ø a mesma: solo, sol, chuva, nutrientes, plantas, insetos, fungos. O que aqui propomos Ø um novo olhar, um novo enfoque. Nªo Ø apenas sol e Ægua, mas energia que incide em nosso agroecossistema. Nªo mais pragas, mas indicadores de manejo. Nªo mais inços, ou ervas daninhas, mas plantas que nos falam da sucessªo vegetal e possuem a capacidade de repor matØria orgânica em nossossolos.

Ao escrevermos um texto de cunho tØcnico nªo queremos reduzir a Agricultura Ecológica apenas aos seus aspectos produtivos. Queremos, sim, enfatizar a importância de nos (in)formarmos para efetuarmos as escolhas que nos levarªo a construir a sociedade mais justaeharmônicaquedesejamos.

Sabemos todos que muitas de nossas escolhas, mesmo as mais simples, possuem um cunho político, colaboram no desenho de uma determinada forma de organizaçªo social. Assim, escolher entre a urØia e o biofertilizante para fornecer o nitrogŒnio que meu cultivo necessita Ø uma decisªo que vai alØm do tØcnico-agronômico e abarca tambØm dimensıes ambientais e políticas. E neste livretoabordamososprincípiosbÆsicosquenos permitem optar por tecnologias limpas, baratas e independentes do complexo industrial que hojecomprimeaagricultura.

Muito se tem dito que estamos hoje em uma encruzilhada civilizatória. O caminho que iremos tomar nesta encruzilhada depende de nossas opçıes cotidianas. Devemos assumir nossasresponsabilidadesnaconstruçªodeum mundo mais justo, tanto social quanto ambientalmente.Aqui, modestamente, desde o ponto de vista tØcnico-agronômico, esperamos estarcontribuindoparaisto.

1. SOL,GUAENUTRIENTES

Existe na China um provØrbio muito antigo que diz:"A AgriculturaØaartedecultivarosol". Esta Ø uma maneira diferente de se referir a um dos processos bÆsicos responsÆveis pela manutençªodavidanoplaneta:afotossíntese.

É um processo tªo presente no dia a dia da agricultura que quase nªo paramos para refletir nasuaimportância. Todas as plantas tŒm a capacidade de transformar a energia da luz do sol em energia para a sua sobrevivŒncia, bem como para a sobrevivŒncia de todos os seres que vivem na Terra. A fotossíntese Ø o processo pelo qual as plantas produzem matØria orgânica a partir de substâncias que estªo no ar. Para fazer isto, a parte verde da planta aproveita a energia que estÆ na luz do sol. E como a luz do sol Ø um recurso natural, renovÆvel e abundante, deve serutilizadodamaneiramaisintensapossível.

Para aumentar a capacidade das plantas de aproveitar a luz do sol, elas tŒm que ter condiçıes ótimas de funcionamento. O que sªo estas condiçıes ótimas vamos ver mais adiante. TambØm temos que investir na possibilidade de outras espØcies trabalharem captando a energia de sol. Esta energia, captada na forma de matØria orgânica e de minerais, serÆ colocada à disposiçªo de nosso cultivocomercial.

A adubaçªo verde, por exemplo, Ø isto. Todas asvantagensdaadubaçªoverdetŒmorigemna capacidade que as plantas tŒm de capturar energiadaluzdosol.

-EoqueØafotossíntese?

- Como se pode utilizar ao mÆximo a luz dosol?

-NaprÆtica,oqueØisto?

Outro exemplo Ø quando deixamos que a vegetaçªo que vem por si no nosso pomar se desenvolva. Nªo Ø preciso ter medo da competiçªodaservasdaninhasouinços. A partir da germinaçªo de uma semente qualquer começa a funcionar uma verdadeira fÆbricadeadubo,ondeocombustívelØbaratoe abundante, e o resultado só traz riqueza. É possível aproveitar o carbono e oxigŒnio que estªonoareohidrogŒnioqueestÆnaÆgua. A planta tambØm faz parcerias com a vida que tem no solo, melhorando a absorçªo de nitrogŒnio e de outros minerais, bem como Ø possível aumentar o teor de matØria orgânica do solo, etc...

Para que este processo aconteça, outra forma deenergiaquedeveestarpresenteØaÆgua. Nos ecossistemas onde a Ægua e o sol chegam emgrandequantidade,comoØocasonosuldo Brasil, Ø muito importante manter o solo coberto por plantas. Elas serªo as responsÆveis por fazer com que esta energia gere vida e nªo destruiçªo. Todos sabemos os malefícios que o sol e a chuva podem causar a um solo descoberto. Toda a forma de energia gera trabalho ou gera destruiçªo. A energia do sol e da Ægua pode tanto fazer nosso cultivo crescer (trabalho) quanto provocar erosªo e compactaçªo no solo (destruiçªo). Por excelŒncia, a planta captura a energiadosoleadaÆgua.

Claro que nªo. Ela tambØm precisa de nutrientes para o seu desenvolvimento. Nutrientes que sªo encontrados no ar, na Ægua e no solo. O que vem do ar e da Ægua chega a ser 95-98% da planta (oxigŒnio, carbono, hidrogŒnio,nitrogŒnioeenxofre). Só2-5%vŒmdosolo.

- Precisa de alguma outra forma de energia?

-Eissobastaparaumaplantacrescer? 3

Estes trŒs fatores diretos, sol, Ægua e nutrientes formam o que se chama de trio ambiental bÆsico.

A partir destes trŒs, hÆ outros fatores indiretos que influenciam o desenvolvimento das plantas.Entreelesestªoalatitude(seØmaisao sul ou mais ao norte do Brasil, por exemplo), a altitude (se Ø na baixada ou na serra), a nebulosidade, os ventos, a umidade do ar, a quantidadedearnosolo,etc...

O jeito mais eficiente Ø tendo bastante vida no solo.Quantomaisvida,maisfertilidade.Quanto mais fertilidade, maior garantia de saœde para as plantas. E quanto mais saœde, maior produtividade.

Assim, um princípio bÆsico em agricultura ecológica Ø de que o solo Ø um organismo vivo. Todo o manejo que se fizer neste organismo solotemqueserparaaumentarestavida. Deixandoosolocobertoomaiortempopossível o agricultor estarÆ aproveitando a energia, farta edegraça,quecheganasuapropriedade.Com isso pode evitar ter que recorrer à energia do petróleo, comprada na forma de adubo químico (NPK).

- Como se pode aproveitar da melhor forma possível estes recursos naturais - o sol,aÆguaeosnutrientes?

2.INDICADORESBIOLÓGICOS

A combinaçªo dos fatores ambientais com a açªo do homem determina quais as plantas (a flora) e quais os animais (a fauna) que vªo existir numa Ærea. Assim, estas espØcies vegetais ou animais sªo indicadoras das condiçıesdaqueleambiente.

ComoaprópriapalavrajÆdiz,umindicadorestÆ mostrando alguma coisa. Podemos aprender a ler na natureza o que ela estÆ querendo nos mostrar. E ela dÆ vÆrias pistas pra gente. É só quererenxergar. Algumas das pistas sªo as doenças e as pragas.Oqueelasestªoindicando?Istovamos ver mais adiante, mas, com certeza, nªo aparecemsóporquedeuvontadenelas. Outrapistasªoaservasinvasoras.

As plantas podem e devem ser vistas como um recursonaturalbaratoeamplamentedisponível para os agricultores. Tanto aquelas que sªo semeadas pelos agricultores quanto as que nascem espontaneamente. É necessÆrio entendermos o papel que a vegetaçªo "espontânea" desempenha em nosso solo, paraquedeixemosdeenxergaruminçoouerva daninha e passemos a considerar como um recurso, que estÆ à nossa disposiçªo. E que, com um manejo adequado, se torna bastante œtil.

Em um ecossistema natural todo ser vivo, seja ele vegetal ou animal, tem um papel a desempenhar (um serviço a prestar) para a comunidade da qual faz parte. AlØm de, obviamente,contribuirparaamanutençªode

-Paraqueserveumindicador?

-Porqueaservasinvasorassªo,aomesmo tempo,plantasindicadoras?

Componentes (volume) NitrogŒnio

OxigŒnio GÆs Carbônico

HidrogŒnio Total modificando. As espØcies de plantas irªo se sucedendo umas às outras com um objetivo bemdefinido:permitirqueavidaseinstalecada vez mais neste ambiente. Cada planta, ou conjunto de plantas, alØm de nos informar o estÆgiodematuridadeemqueesteambientese encontra (por isto plantas indicadoras), prepara as condiçıes para que este processo tenha continuidade, permitindo o surgimento de outras espØcies que trarªo suas contribuiçıes a esta"caminhada".

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