2 - regiao - e-organização - espacial - roberto - lobato - correa

2 - regiao - e-organização - espacial - roberto - lobato - correa

(Parte 1 de 3)

Roberto Lobato Corrêa

Região

e

Organização

Espacial

7ª Edição

Editora Ática

São Paulo

2000

Sumário

1. Introdução

2. As correntes do pensamento geográfico

o determinismo ambiental

o possibilismo

o método regional

A nova geografia

A geografia crítica

3. Região: um conceito complexo

Região natural e determinismo ambiental

Possibilismo e região

Nova geografia, classes e região

Região e geografia crítica

Região, ação e controle

4. Organização espacial

Organização espacial: uma conceituação

Organização espacial: capital e Estado

Organização espacial: reflexo social

Organização espacial e reprodução

Estrutura, processo, função e forma

Espaço e movimentos sociais urbanos

5. Vocabulário crítico

6. Bibliografia comentada

Referencia bibliográfica de rodapé

1

Introdução

O propósito deste estudo é introduzir o estudante de geografia em dois conceitos fundamentais: o de região e o de organização espacial. Eles também são considerados por outras ciências sociais como a sociologia e a economia, mas não têm nestas a relevância adquirida na geografia. Ao longo da história da geografia, têm se situado no centro da discussão sobre o seu objeto, e erigidos na prática como os conceitos de maior importância. Outros conceitos podem ser considerados, a nosso ver, de menor importância, tais como posição geográfica e sítio.

Os conceitos de região e de organização espacial são básicos para se compreender o caráter distinto da geografia no âmbito das ciências sociais, indicando a via geográfica de conhecimento da sociedade, quer dizer, das relações entre natureza e história. A discussão destes termos, por outro lado, pressupõe que se tenha uma certa informação da evolução do pensamento geográfico desde, pelo menos, o final do século XIX, quando a geografia assume o caráter de disciplina acadêmica, dotada de um processo de mudança de paradigmas que se insere no bojo da história.

O presente estudo compõe-se de três partes. A primeira delas procura situar o leitor em termos de como se pensa a geografia nesse espaço de tempo. Esta parte tem o caráter de introdução às outras duas, procurando colocar em evidência os modelos geográficos básicos, dentro dos quais se discutem os conceitos de região e de organização espacial. Assim, não se trata da apresentação das correntes de pensamento geográfico de per si, pois elas têm como foco os dois conceitos-chave de que estamos tratando. Para este assunto de vital importância na formação do geógrafo e do professor de geografia, sugerimos que se leia o livro de Antonio Carlos Robert Moraes (1981). A "Bibliografia comentada" cobre, por outro lado, a história do pensamento geográfico com certa profundidade.

A segunda parte aborda os diversos conceitos de região, enquanto a terceira apresenta a questão da organização espacial. Constituem o centro deste estudo. Ao final, muitas questões terão sido levantadas e ficarão sem respostas. Em parte esta é a nossa intenção. E tem como finalidade o aprofundamento das discussões sobre os conceitos de região e organização espacial.

2

As correntes do pensamento geográfico

No nosso entender, as principais correntes de pensamento geográfico ou paradigmas da geografia são os seguintes: o determinismo ambiental, o possibilismo, o método regional, a nova geografia e a geografia crítica. Foram formalmente explicitadas a partir do final do século XIX, constituindo uma seqüência histórica de incorporações de práticas teóricas, empíricas e políticas que, não excluindo nenhuma delas, apresenta a cada momento um ou dois padrões dominantes. Assim, o determinismo ambiental e, menos ainda, o possibilismo não desapareceram totalmente, mas perderam o destaque, sobretudo o determinismo ambiental. Por outro lado, a geografia crítica é o último modelo a ser incorporado, passando a coexistir conflitivamente com os outros, principalmente a nova geografia.

Estas tendências estão fundamentadas, de um modo, na consideração da geografia como um saber calcado em uma das três abordagens: o estudo das relações homem/meio, o de áreas e os locacionais. Adicionalmente, tem sido adotada uma combinação de duas ou três das abordagens acima referidas. De outro, as correntes fundamentam-se em diferentes métodos de apreensão da realidade.

Entre eles, destaca-se o positivismo, quer na sua versão clássica, quer na do positivismo lógico. O materialismo histórico e a dialética marxista, que dão base ao segmento mais importante da geografia crítica, são métodos de incorporação recente à geografia. Subjacente a todos os paradigmas há um denominador comum: a geografia tem suas raízes na busca e no entendimento da diferenciação de lugares, regiões, países e continentes, resultante das relações entre os homens e entre estes' e a natureza. Não houvesse diferenciação de áreas, para usar uma expressão consagrada, certamente a geografia não teria surgido. Estamos falando, pois, do cerne da geografia, ainda que o seu significado não tenha sido sempre o mesmo. Os conceitos de região e organização espacial estão vinculados a esta idéia básica em geografia.

o determinismo ambiental

A geografia emerge como uma disciplina acadêmica a partir de 1870. Até então, e desde a Antigüidade, a geografia compunha um saber totalizante, não desvinculado da filosofia, das ciências da natureza e da matemática. Com Varenius no século XVII, Kant no XVIII, e Humboldt e Ritter já na primeira metade do XIX, a geografia vai gradativamente configurando um conhecimento específico, sem contudo perder de vez a visão globalizante da realidade.

As últimas décadas do século XIX caracterizam-se por dois processos que são extremamente importantes para a história do homem e da geografia. De um lado, o capitalismo passa a apresentar uma progressiva concentração de capitais, gerando poderosas corporações monopolistas e uma nova expansão territorial. Inaugura-se a sua fase imperialista. O outro processo, que se vincula ao primeiro, é o da fragmentação do saber universal em várias disciplinas. Assim, criam-se departamentos de geografia nas universidades européias e, mais tarde, nas norte-americanas, conforme aponta, entre outros, Brian Hudson1.

Foi o determinismo ambiental o primeiro paradigma a caracterizar a geografia que emerge no final do século XIX, com a passagem do capitalismo concorrencial para uma fase monopolista e imperialista. Seus defensores afirmam que as condições naturais, especialmente as climáticas, e dentro delas a variação da temperatura ao longo das estações do ano, determinam o comportamento do homem, interferindo na sua capacidade de progredir. Cresceriam aqueles países ou povos que estivessem localizados em áreas climáticas mais propícias.

Fundamentando a tese do determinismo ambiental, estavam as teorias naturalistas de Lamarck sobre a hereditariedade dos caracteres adquiridos e as de Darwin sobre a sobrevivência e a adaptação dos indivíduos mais bem dotados em face do meio natural. Estas teorias foram adotadas pelas ciências sociais, que viam nelas a possibilidade de explicar a sociedade através de mecanismos que ocorrem na natureza. Foi Herbert Spencer, filósofo inglês do século XIX, o grande defensor das idéias naturalistas nas ciências sociais.

Na geografia, no entanto, as idéias deterministas tiveram no geógrafo alemão Frederic Ratzel seu grande organizador e divulgador, ainda que ele não tivesse sido o expoente máximo. A formação básica de Ratzel passou pela zoologia, geologia e anatomia comparada; foi aluno de Haeckel, o fundador da ecologia, que o introduziu no darwinismo. No entanto, seu determinismo ambiental foi amenizado pela influência humanista de Ritter, Criou, desta forma, a geografia humana, denominada por ele de antropogeografia e marcada pelas idéias oriundas das ciências naturais.

Nos Estados Unidos e, em menor escala, na Inglaterra, o determinismo imprimiu-se profundamente no nascimento da geografia. O primeiro dos países passava, no final do século passado e início deste, por uma fase de afirmação nacional, em que se justificava o progresso através das riquezas naturais. Ellen Semple, discípula de Ratzel, discorre sobre as influências das condições geográficas (configuração da costa, padrão dos rios, cadeias de montanhas, climas etc.) na história norte-americana.

A Inglaterra tornara-se, nesse momento, a grande metrópole imperialista. O determinismo ambiental justificava a expansão territorial através da criação de colônias de exploração no continente africano, e de povoamento em regiões temperadas, a serem ocupadas pelo excedente demográfico britânico e europeu.

Na realidade, o determinismo ambiental configura uma ideologia, a das classes sociais, países ou povos vencedores, que incorporam as pretensas virtudes e efetivam as admitidas potencialidades do meio natural onde vivem. Justificam, assim, o sucesso, o poder, o desenvolvimento, a expansão e o domínio. Não é de estranhar, pois, que na Grécia da Antigüidade se atribuíssem às características do clima mediterrâneo o progresso e o poderio de seu povo em face dos asiáticos que viviam em áreas caracterizadas pela invariabilidade anual das temperaturas. Muito mais tarde, no final do século XIX, seriam outras as características climáticas consideradas como favoráveis ao crescimento intra e extraterritorial. Transformava-se assim em natural, portanto fora do controle humano, uma situação que é econômica e social, histórica portanto, denominada imperialismo.

Estabeleceu-se uma relação causal entre o comportamento humano e a natureza, na qual esta aparece como elemento de determinação. As expressões fator geográfico e condições geográficas, entendidas como clima, relevo, vegetação etc., são heranças do discurso ideológico determinista. Outra delas, particularmente relevante para nós, é a região natural. Voltaremos a ela em breve.

Ratzel, por sua vez engajado no projeto de expansão alemã, legou-nos o conceito de espaço vital, quer dizer, o território que representaria o equilíbrio entre a população ali residente e os recursos disponíveis para as suas necessidades, definindo e relacionando, deste modo, as possibilidades de progresso e as demandas territoriais. O espaço vital está implicitamente contido na organização espacial, delimitando, no campo do capitalismo, parte da superfície da terra organizada pelo capital e pelo Estado capitalista, extensão que se tornou necessária à reprodução do mesmo. Em linguagem organicista, espaço vital equivale à expressão espaço do capital.

o possibilismo

Em reação ao determinismo ambiental surge, na França no final do século XIX, na Alemanha no começo do XX e nos Estados Unidos na década de 20, um outro paradigma da geografia, o possibilismo. À semelhança do determinismo ambiental, a visão possibilista focaliza as relações entre o homem e o meio natural, mas não o faz considerando a natureza determinante do comportamento humano.

A reação ao determinismo ambiental, mais forte na França, tem como motivação externa a situação de confronto entre ela e a Alemanha. O possibilismo, francês em sua origem, opõe-se ao determinismo ambiental germânico. Esta oposição fundamenta-se nas diferenças entre os dois países.

Ao contrário da Alemanha, unificada em 1871, a França já era França há muito tempo. Lá a revolução burguesa tinha se dado de modo mais completo, extirpando os resquícios feudais, ainda existentes na Alemanha. Esta chega tardiamente à corrida colonial, enquanto a França dispunha, então, de um vasto império; os interesses expansionistas alemães voltaram-se, em grande parte, para a própria Europa. Acrescente-se ao quadro a luta de classes, que assumia formas mais acirradas na França, a exemplo da Comuna de Paris.

Neste contexto, a geografia francesa teria de cumprir simultaneamente vários papéis:

a) Desmascarar o expansionismo germânico – criticando o conceito de espaço vital – sem, no entanto, inviabilizar intelectualmente o colonialismo francês;

b) Abolir qualquer forma de determinação, da natureza ou não, adotando a idéia de que a ação humana é marcada pela contingência;

c) Enfatizar a fixidez das obras do homem, criadas através de um longo processo de transformação da natureza; assim os elementos mais estáveis, solidamente implantados na paisagem, são ressaltados, não se privilegiando os mais recentes, resultantes de transformações que podem colocar em risco a estabilidade e o equilíbrio, alcançados anteriormente. Daí a ênfase no estudo dos sítios predominantemente rurais.

No plano interno à geografia, havia a reação a ela ter sido definida por uma relação de causa e efeito – a natureza determinando a ação humana - e não por um objeto empiricamente identificável. Pensou-se, então, na paisagem como uma criação humana, elaborada ao longo do tempo, sendo a paisagem natural transformada em cultural ou geográfica.

Na realidade, para Vidal de Ia Blache, o mestre do possibilismo, as relações entre o homem e a natureza eram bastante complexas. A natureza foi considerada como fornecedora de possibilidades para que o homem a modificasse: o homem é o principal agente geográfico. Vidal de Ia Blache redefine o conceito de gênero de vida herdado do determinismo, conforme aponta Paul Claval (1974): trata-se não mais de uma conseqüência inevitável da natureza, mas de

um acervo de técnicas, hábitos, usos e costumes, que lhe permitiram utilizar os recursos naturais disponíveis

tal como Moraes (1981) a ele se refere. Os gêneros de vida pensados anteriormente exprimiam uma situação de equilíbrio entre população e os recursos naturais. Uma paisagem geográfica enquadraria, na verdade, a área de ocorrência de' uma forma de vida.

A paisagem geográfica tem, ainda, uma extensão territorial e limites razoavelmente identificáveis. Nestes termos, a região é a expressão espacial da ocorrência de uma mesma paisagem geográfica. O objeto da geografia possibilista é, portanto, a região, e a geografia confunde-se, então, com a geografia regional.

Enquanto formas criadas pelo homem sobre a superfície da Terra, a paisagem poderia ser considerada sinônimo de organização espacial? Primeiramente, lembre-se de que este conceito não foi cogitado pela geografia

vidaliana.

(Parte 1 de 3)

Comentários