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Os aspectos a serem abordados surgiram das questões identificadas como relevantes no contexto atual e envolvem, por exemplo, o uso de energia nuclear para geração de energia elétrica, seus possíveis usos bélicos, as contribuições tecnológicas dela decorrentes, assim como seus riscos e benefícios. De uma maneira geral, não diferem daqueles já apontados nos livros didáticos. Apenas que, nessa proposta, são as questões centrais a serem compreendidas.

Como o universo das questões a serem trabalhadas é muito amplo, não seria possível nem recomendável, contudo, estabelecer uma proposta fechada e definitiva de tratamento ou organização do tema no Ensino Médio. A estrutura que apresentamos tem o objetivo, apenas, de ilustrar a estratégia de seleção sugerida, com a intenção de superar as limitações das seleções adotadas tradicionalmente nos livros didáticos.

A Tabela 2 representa a organização de nossa proposta em forma de uma matriz que apresenta, nas colunas, os três eixos já mencionados como objetivos desejados e, nas linhas, os diferentes tópicos da Física Nuclear. A estrutura sob forma de matriz procura explicitar um aspecto que é essencial em construções dessa natureza e que diz respeito às articulações internas a serem buscadas entre os diferentes aspectos. Assim, os tópicos tratados nas abordagens de aspectos cotidianos, tecnológicos e sociais (B) ou históricos, sociais e culturais (C) devem ser subsidiados pelos científicos conceituais (A). Ou seja, trata-se de uma proposta de seleção e organização de conteúdos que visa propiciar essa articulação.

Aspectos científicos conceituais Aspectos cotidianos e tecnológicos Aspectos históricos, sociais e culturais

O que é EN?

O modelo atômico, o núcleo e sua estabilidade. Energia liberada (radiação nuclear) em busca da estabilidade

Onde está presente a EN? (Como se detecta?)

Questões atuais – levantamento e problematização.

Perguntas.

Por que é emitida? Curva Z x N

Radioatividade, decaimentos e transformações

Como aproveitar? (Utilizações “locais”)

Na medicina, na agricultura, na indústria, etc.

Descoberta por acaso? Os impactos sociais dessas tecnologias.

De onde vem? ?E = ?mc2

Fissão e Fusão Energia de ligação

Como aproveitar? (Utilização “concentrada”)

Usinas e Bombas

Uso bélico e política Bombas, corrida armamentista e poder Usinas e desenvolvimento

4 Quanto e com que

Atividade, meia vida, etc. Detectores

Faz bem? Faz mal?

Efeitos biológicos e ambientais Riscos e Benefícios

Questões atuais: aspectos políticos e econômicos

Enriquecimento do U, Irã, países com bombas, etc. Debate e síntese: Usinas nucleares – vale a pena?

Tabela 2: Proposta de matriz para organização da Física Nuclear

Para ilustrar uma das formas de articulação interna de nossa organização, exemplificamos um dos possíveis percursos, o 1B – 1A – 2A – 2B, no qual “percorremos” quatro “células” da tabela articulando esses assuntos. O ponto de partida de nosso percurso constitui a primeira atividade de nossa proposta, denominada: Onde há Energia Nuclear?(1B), na qual os alunos recebem uma série de palavras que fazem parte do “cotidiano” e do mundo em que vivemos, como:

Urânio, aparelho de raio x, sol, cigarro, usina nuclear, bomba atômica, Nagasaki, câncer etc e devem classificá-las em três blocos: “Sim, Não e Depende”, utilizando o seguinte critério: Esse objeto tem energia nuclear disponível? Assim, a partir dessa atividade geram-se questões que demandam conceitos de modelo atômico, núcleo e a instabilidade (1A). E ainda com esse objetivo, construímos a curva Z x N (2A), para explorar as aplicações da energia nuclear em diferentes setores da sociedade (2B).

Desse modo, as atividades, visando à sala de aula do Ensino Médio, são realizadas por meio de diferentes “percursos” na Tabela 2.

Assim, as perspectivas apontadas por Santos (2001) e por nós sinalizadas anteriormente, referentes às possíveis abordagens das relações CTS, passam a estar contempladas, explicitamente, na matriz desenhada para a Física Nuclear. Mantida essa estrutura, os elementos que compõem as linhas e colunas podem ser readequados às diferentes realidades escolares dos professores de Ensino Médio e aos interesses de seus alunos. Mas o essencial, nessa proposta, é que sejam os temas tecnológicos, sociais ou ambientais que passem a “exigir” os conteúdos de física nuclear correspondentes. Dessa forma, espera-se que o cotidiano dos alunos passe a envolver um número maior de objetos, processos, fenômenos, problemas, discussões e questionamentos, referentes à energia nuclear.

Considerações

Nossos resultados sinalizam que os livros didáticos, voltados ao Ensino Médio, não trazem conhecimentos de física nuclear suficientes para contemplar os objetivos educacionais desejados. O tratamento e a importância desse tema, no contexto dos temas de FMC abordados é também bastante reduzido, o que contrasta com a relevância das questões tecnológicas e sociais atuais.

As seleções de conteúdo realizadas nesses livros, ou suas opções sobre o saber a ser ensinado, privilegiam aspectos internos do conhecimento científico. E o tipo de abordagem predominante não enfatiza sequer elementos relativos à natureza da ciência, ou seja, às “novidades” que os conhecimentos de FMC evidenciam, em termos de concepções, visões de mundo ou formas de investigação, restringindo-se aos conteúdos propriamente ditos. Há, portanto, ênfase no conteúdo de física envolvido, com poucas discussões envolvendo, de fato, aspectos cotidianos, tecnológicos, sociais, históricos e culturais, mais pertinentes aos objetivos desejados.

Verificamos que a grande maioria dos livros didáticos de Ensino Médio realiza um tratamento da Física Nuclear tal como os demais conteúdos da “Física Clássica”, ou seja, essencialmente formal, abstrato e com fins no conhecimento de física em si próprio. E, dada a breve extensão com que os temas são discutidos, são privilegiados os aspectos informativos e não uma discussão conceitual propriamente dita. Conclui-se disso que os livros didáticos ao inserirem desse modo a Física Nuclear, estão “somando” novos conteúdos aos já existentes sem, contudo, responder às demandas da área de ensino de Física ou abordar aspectos que consideramos essenciais para a construção de um conhecimento significativo.

Acreditamos que uma organização (ou reorganização) de conteúdos que vise à inserção da FMC no EM requer mais que somar ou “transpor” novos conceitos e teorias da Física, mas de rearticulá-los, considerando não apenas a física contemporânea, mas o mundo contemporâneo. Possibilitando, com esses novos conhecimentos, uma compreensão, participação e atuação crítica nesse mundo.

Nos livros didáticos os aspectos tecnológicos, históricos ou sociais são inseridos pontualmente, como decorrência dos aspectos conceituais, ou seja, como

“ilustração” ou exemplo de aplicação dos conteúdos científicos. Nessa seqüência, pode-se perceber que “as questões do mundo contemporâneo” e suas diferentes dimensões, constituem um “apêndice” da física.

Assim, apontamos a necessidade de uma revisão dos critérios de seleção dos conteúdos a serem ensinados, propondo tomar como referência elementos da perspectiva CTS. Os aspectos tecnológicos e sociais, mais próximos do cotidiano dos alunos, passam a ser o ponto de partida para a aquisição e aprofundamento de conceitos científicos.

Nesse sentido, uma estruturação de propostas de organização curricular, sob forma de matriz temática, permite explicitar melhor as ênfases desejadas. Propostas dessa natureza enfatizam as articulações a serem buscadas, entre o conhecimento científico e o contexto do aluno, transformando os conteúdos da

Física em instrumentos para compreensão do mundo e não como objetivos em si mesmos, visando apenas uma utilização futura.

No exemplo apresentado, problematizamos o tema “Energia Nuclear”, partindo do conhecimento e da “vivência” dos alunos em relação a esse assunto, contemplando os aspectos sociais, tecnológicos, culturais para articulá-los, em seguida, aos aspectos científicos e conceituais. Dessa maneira acreditamos que o ensino de Física ganha um espaço mais significativo.

Ao mesmo tempo, esperamos ter contribuído com elementos para uma discussão mais geral acerca dos critérios de seleção e organização de conteúdos, que pode ser extrapolado para outras áreas e situações.

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