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Esta apostila foi produzida por ACHEI CONCURSOS http://www.acheiconcursos.com.br

Aqui você encontra aulas, apostilas, simulados e material de estudo diverso para se preparar para os principais concursos públicos do Brasil.

A proposta do livro

Meu Deus do céu, não tenho nada a dizer. O som de minha máquina é macio. Que é que eu posso escrever? Como recomeçar a anotar frases? A palavra é o meu meio de comunicação. Eu só poderia amála. Eu jogo com elas como se fossem dados: adoro a fatalidade. A palavra é tão forte que atravessa a barreira do som. Cada palavra é uma idéia. Cada palavra materializa o espírito. Quanto mais palavras eu conheço, mais sou capaz de pensar o meu sentimento. Devemos modelar nossas palavras até se tornarem o invólucro mais fino dos nossos pensamentos.

(Clarice Lispector - A descoberta do mundo Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1984)

De qualquer forma o prazer não implica facilidade, ele é trabalho e procura e construção: o

prazer da escritura não se separa do prazer da leitura. Quem escreve é o primeiro leitor de si próprio.

(Joaquim Brasil - O impossível prazer do texto - Leitura: Teoria & Prática, ABL/UNICAMP, 1993, no 2)

emoção, de imaginaçãoe, quando comunicamos nossas mensagens, seres plenamente
capazes de linguagem. Mas, onde estão as palavras?Cada um de nós se pergunta a cada

Você sabe que as palavras nos singularizam enquanto seres capazes de razão, de situação de mudez, de impotência diante dos sentimentos e pensamentos que buscam sair do limbo, que precisam traduzir-se em opiniões, argumentos, histórias, enfim, em intervenções na realidade.

E, no entanto; sabemos a resposta: as palavras estão dentro de nós, elas nos revelam à medida que vencemos os bloqueios e as camisas-de-força que as reprimem.

Nesta apostila, vamos procurar reconquistar nossas palavras. Aquelas palavras que fogem, quando é preciso redigir.

As palavras com as quais - se souber articulá-las - você povoa o mundo de sua humanidade, de sua competência, da especificidade que possui, enquanto produtor de um texto próprio. O texto próprio é aquele que não se confunde com nenhum outro, embora obedeça a técnicas e orientações comuns.

Pensando especificamente na linguagem escrita, a proposta deste trabalho consiste justamente em apresentar técnicas e orientações sobre redação, conjugando-as com a necessidade de originalidade. Talvez a mais importante de todas, num mundo cada vez mais massificado, mais achatador das diferenças, e, portanto, mais pobre de dizeres expressivos.

O objetivo primordial é orientar, do ponto de vista técnico e criativo, a prática da escritura do texto, em suas diversas modalidades e contextos de produção, para qualquer situação em que seja necessário redigir, e também para o exercício da linguagem escrita enquanto atividade vital da Expressão e da Comunicação humanas.

Portanto, se gostar da apostila, se a manusear a cada consulta com maior familiaridade, você com ela vai se sentir seguro, se saber capaz de enfrentar as redações que Ihe são solicitadas nos exames vestibulares, nos concursos, nos desafios profissionais, no diaa-dia da escola, do trabalho, dos relacionamentos.

Trata-se, enfim, de uma apostila para a vida, para deflagrar algo que Ihe pertence e que busca espaço de expressão, dentro de você: a sua linguagem, os seus pontos de vista, a descoberta da travessia rumo ao amadurecimento de sua capacidade de interlocução que se dá pelas palavras que tem; reinventadas.

Escrevendo com gosto, com imaginação motivada pelo desejo, provavelmente você escreverá melhor e mais expressivamente, do que se optar por fórmulas prontas, pensando apenas em supostas facilidades. A sabedoria está em conjugar lucidez e poeticidade, lógica e criação. Pensar criadoramente, com lógica; criar logicamente, com imaginação.

Como se organiza e como utilizar a apostila

Esta apostila possui três grandes núcleos - Descrição, Narração, Dissertação - os quais correspondem aos três tipos de textos fundamentais.

Em torno de tais núcleos são abordadas, em forma de verbetes e/ou de unidades temáticas, as principais características das modalidades. Esta abordagem priorizará sua utilização prática, isto é, focalizará, através de exemplos comentados, os meios de operacionalizá-las com competência técnica e capacidade criadora.

Assim, após uma apresentação geral, significativamente denominada Dicas e

Pressupostos para a realização de um bom texto, passaremos aos núcleos propriamente ditos.

O núcleo I será dedicado à Descrição, o núcleo I à Narração e o núcleo II à Dissertação.

De acordo com seus interesses, suas dúvidas e necessidades, você escolhe o seu roteiro de leitura, tanto em relação ao(s) verbete(s) temático(s) no(s) qual(is) quer se concentrar, quanto em relação ao(s) tópico(s), dentro de cada um deles, que pretende desenvolver.

Trata-se, enfim, de uma obra de consulta, que substitui a leitura linear por aquela instigada pelos objetos e objetivos de conhecimento e de reflexão surgidos no cotidiano, à propósito de situações concretas de produção textual.

Apresentação Geral: pressupostos e sugestões para a realização de um bom texto

Seja como for, todas as "realidades" e as fantasias" só podem tomar forma através da escrita, na qual exterioridade e interioridade, mundo e ego, experiência e fantasia aparecem compostos pela mesma matéria verbal; as visões polimorfas obtidas através dos olhos e da alma encontram-se contidas nas linhas uniformes de caracteres minúsculos ou maiúsculos, de pontos, vírgulas, de parênteses; páginas inteiras de sinais alinhados, encostados uns nos outros como grãos de areia, representando o espetáculo variegado do mundo numa superfície sempre igual e sempre diversa, como as dunas impelidas pelo vento do deserto.

(Ítalo Calvino - Seis Propostas para o Próximo Milênio - São Paulo, Companhia das Letras, 1990)

Neste espaço introdutório, vamos enumerar alguns pressupostos básicos necessários para uma boa produção textual, independentemente da modalidade escolhida. Vamos, também, relacionar tais pressupostos com sugestões que lhes facilitem a compreensão e a operacionalização.

Leia e releia cada uma das orientações, sem se preocupar com detalhes sobre a forma de viabilizá-las, na especificidade de cada tipo de texto redigido. Seu conteúdo será retomado ao longo de toda a apostila, nos verbetes e tópicos apresentados.

! Ter o domínio correto da língua e o conhecimento de seus mecanismos básicos, em termos de estrutura / coerência / vocabulário / clareza / correção de linguagem.

Para atingir este pressuposto, é necessário familiarizar-se com a língua escrita culta, o que conseguimos por meio da leitura de diversos tipos de textos e também da consulta sistemática a gramáticas e dicionários.

! Ter a capacidade de deflagrar e de organizar idéias: saber conjugar "inspiração" e "transpiração".

Organizar as idéias, necessariamente, opõe-se à fragmentação com que aparecem em nossa mente. Pensamos numa velocidade e escrevemos em outra. Precisamos, então, para escrever, por um lado permitir e incentivar o fluxo de nossas idéias, e por outro organizá-las, isto é, perceber e explicitar as relações que há entre elas.

Para a realização eficiente deste processo, é necessário primeiro respeitar os mecanismos da chamada "inspiração", ou seja:

MOMENTO CRIADOR: INSPIRAÇÃO " Não inibir o que vem à mente a partir da necessidade de escrever algo, seja o que for.

" Rascunhar o que for aparecendo com a preocupação única de ser fiel ao fluxo de percepções, intuições, divagações, sentimentos, pensamentos etc, deflagrados pelo tema proposto (lembre-se de que "palavra-puxa-palavra": você precisa conquistar um ritmo de desenvoltura e de familiaridade com a palavra escrita, para que por meio dela se perceba mais criativo; suas palavras, liberadas, podem surpreender-Ihe positivamente a auto-imagem, enquanto ser capaz de expressão, de comunicabilidade e, portanto, de linguagem).

" Transformar em hábito tal procedimento, sistematicamente anotando observações, insights e opiniões sobre o que acontece de interessante no cotidiano, seja em experiências vividas, seja em leituras, em contato com as pessoas, a TV, o cinema etc.

Em seguida, é hora da "transpiração": a montagem do texto, a escolha do que deve ficar e do que deve sair; se necessário, acrescente algumas coisas e retire outras, "enxugando" e "refinando" o que escreveu. Consulte uma gramática e um dicionário para a realização da tarefa. Após esta seleção, ordenar as frases, fundamentalmente a partir de dois critérios:

" Perceber a diferença entre o principal e o secundário, hierarquizando a seqüência de parágrafos de modo a tornar claro, legível e interessante o seu texto ao leitor.

" Saber conciliar ponto de vista, opinião, tomada de posição com argumento, fundamentação, subsídio para que aquilo que você viu, relatou ou questionou tenha consistência fora de você, isto é, possua vínculo lógico com o real e ao mesmo tempo possa despertar prazer em quem lê.

Seja num tipo de percepção sobre um determinado objeto que pretende descrever, seja no sentido de um evento real ou imaginário que almeja narrar, seja numa tese que gostaria de defender, isto é, na Descrição, na Narração e/ou na Dissertação, a base do bom texto está no equilíbrio entre afirmar (ou sugerir) e subsidiar com elementos pertinentes a afirmação.

" Pensar criadoramente, com lógica; criar logicamente, com imaginação: nunca devemos nos esquecer de que um bom texto ao mesmo tempo deve convencer (por meios lógicos) e persuadir (por meios retóricos), quer dizer, deve chegar à razão, à inteligência, e também ao coração, aos sentimentos. Por isso, não podemos separar uma coisa da outra; ao contrário, é fundamental saber conjugar lucidez e poesia, lógica e criação. Assim, o que temos a expressar revela ao mesmo tempo saber e sabor, o que seduz e portanto engaja quem nos lê ao nosso texto.

" Adquirir e/ou depurar uma constante prática de leitura: o ato de escrever está muito ligado ao ato de ler. Ambos devem ser realizados de maneira crítica, atenta, quer dizer, não mecânica nem passiva, tomando-se o leitor um criador, capaz de pensar por si mesmo e ao mesmo tempo de dialogar criticamente com o que lê para produzir o seu texto.

" Relacionar texto e contexto, ou seja, o tipo de texto a ser produzido precisa ser compatível com a situação concreta que deflagra a sua produção. Assim, ao fazermos um relatório, um memorando, uma circular etc, devemos cuidar sobretudo da precisão do vocabulário, da exatidão dos pormenores e da sobriedade da linguagem. Por outro lado, ao realizarmos uma narração imaginativa: (por exemplo para criar um texto publicitário, ou de ficção), a elegância e os requisitos da expressividade lingüística - como os tons afetivos e as explorações de polissemia - são prioridades. Entretanto, estas coisas não são estanques: o esclarecer convencendo e o impressionar agradando andam juntos, como veremos ao longo de todo o livro.

1o NÚCLEO - DESCRIÇÃO 1 - Definição: o que é descrever

Descrever é representar com palavras um objeto - uma coisa, uma pessoa, uma paisagem, uma cena, ou mesmo um estado, um sentimento, uma experiência etc - fundamentalmente por meio de nossa percepção sensorial, nossos cinco sentidos: visão, tato, audição, olfato e paladar.

No texto descritivo, o sujeito cria uma imagem verbal do objeto - entenda-se a palavra no sentido mais amplo possível -, dando suas características predominantes, apresentando os traços que o singularizam, de acordo com o objetivo e o ponto de vista que possui ao realizar o texto.

Leitura Comentada: Um Texto Descritivo

Ela possuía a dignidade do silêncio. Seu porte altivo era todo contido e movia-se pouco. Quando o fazia, era como se estivesse procurando uma direção a seguir; então, encaminhava-se diretamente, sem desvios, ao seu objetivo.

O cabelo era louro-dourado, muito fino e sedoso, as orelhas pequenas. Os olhos tinham o brilho baço dos místicos. Pareciam perscrutar todos os mistérios da vida: profundos, serenos, fixavam-se nas pessoas como se fossem os olhos da consciência, e ninguém os agüentava por muito tempo, tal a sua intensidade. O olho esquerdo tinha uma expressão de inquietante expectativa.

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