Esterilização pelo peróxido de hidrogênio

Esterilização pelo peróxido de hidrogênio

ESTERILIZAÇÃO DE TERMOSSENSÍVEIS: UMA SOLUÇÃO PROFISSIONAL

-

INTRODUÇÃO           O uso em cirurgias de instrumentais eletrônicos, ópticos e à base de polipropileno, criou um desafio para a desinfecção e esterilização dos mesmos. Por serem materiais que não podem ser expostos ao vapor das autoclaves ou ao calor seco, restavam, para sua desinfecção, apenas a possibilidade de uso do álcool e das soluções de formaldeído. O primeiro no entanto, pode causar danos ao material enquanto o segundo é potencialmente perigoso à manipulação. Diante desse dilema, a ciência e a indústria médica desenvolveram a técnica da esterilização por gás de EtO (óxido de etileno) e da desinfecção de alto nível por soluções de glutaraldeído alcalino ativado.           Atualmente, preocupações com a saúde ocupacional e meio ambiente, associadas a necessidades econômicas, levaram muitos países a examinar detalhadamente o uso de EtO e as práticas de desinfecção. Novas tecnologias ou modificações nos processos existentes vêm sendo, então, desenvolvidos. Na última década, o FDA - Foods and Drugs Administration (USA) - autorizou três novos sistemas de esterilização a baixa temperatura que não utilizam óxido: o STERIS System, um processo líquido, específico para endoscópios flexíveis; o Abtox Plazlyte, um sistema a base de ácido peracético e o STERRAD® System a base de plasma de peróxido de hidrogênio. Dos três, somente o STERRAD® System é usado em centros de esterilização.

IIESTERILIZAÇÃO           Por definição, um processo de esterilização deve ter capacidade de inativar uma ampla variedade de microorganismos, incluindo os esporos bacterianos resistentes. O processo de esterilização se diferencia do de desinfecção por ser capaz de destruir todas as formas de microorganismos.           A funcionalidade de qualquer sistema de esterilização deve ser medida pela eficácia em exterminar organismos, e pela sua habilidade em não prejudicar, ou de não afetar de forma negativa, as propriedades funcionais dos dispositivos médicos. No meio hospitalar utilizam-se as expressões "esterilização a quente" e "esterilização a frio" para identificar os processos que danificam, ou não, os materiais termossensíveis. Esta nomenclatura se faz necessária devido ao número de materiais termossensíveis empregados pelos profissionais da saúde: látex, tecidos plásticos, polietilenos, polipropilenos, fibras óticas, silicones, aparelhos eletrônicos, dentre outros.           Os métodos de esterilização a quente, por utilizarem altas temperaturas e pressão, danificam, a curto, médio ou longo prazo, os artigos esterilizados. Os processos de esterilização a frio, por sua vez, utilizam produtos químicos à temperatura quase ambiente, que não prejudicam a estrutura dos materiais termossensíveis. Todos os instrumentos que penetram nos tecidos ou vasos sangüíneos, ou que entram em contato com as membranas mucosas ou feridas, devem ser esterilizados. Porém os métodos físicos de esterilização que utilizam temperaturas elevadas, ou radiação ionizante, não são universalmente aplicáveis.           Nem todos os dispositivos que precisam ser esterilizados conseguem tolerar a exposição a temperaturas que excedam os 100° C. Por outro lado, a radiação ionizante pode produzir alterações químicas indesejáveis em alguns materiais. Tradicionalmente os esterilizantes gasosos têm sido empregados para esterilizar dispositivos incompatíveis com o calor úmido, calor seco ou radiação ionizante.           O EtO e o formaldeído são os esterilizantes gasosos mais freqüentemente usados. Esses agentes, no entanto, apresentam limitações e reconhecidos problemas associados ao seu uso, razões pelas quais esterilizantes gasosos alternativos têm sido desenvolvidos.           O processo de esterilização com óxido de etileno (EtO) é de execução difícil devido às inúmeras exigências de controle. Deve haver uma relação correta entre a concentração de gás, umidade relativa, tempo de exposição, pressão e temperatura. Qualquer alteração em uma destas variáveis afetará as outras e implicará na redução da qualidade do processo. Como o EtO é altamente tóxico, exige cuidados especiais na manipulação, durante o processo e na remoção de seus resíduos (aeração), para que se torne seguro para uso.           As soluções químicas de glutaraldeído e formaldeído são utilizadas como métodos de desinfecção. Os artigos são inseridos diretamente na solução, sem embalagens, sendo necessária a manipulação direta após o processo, para enxágüe, secagem e empacotamento. Após o processo (10 horas de imersão completa), o material estaria estéril. Porém, para ser utilizado, é necessária a remoção dos resíduos da solução esterilizante, por ser esta altamente tóxica e corrosiva. Deste modo, no momento em que há manipulação, apesar dos cuidados durante a remoção dos resíduos, mesmo com a utilização de luvas estéreis, haverá contaminação. Por este motivo, como método de esterilização, o uso dessas soluções químicas não pode ser considerado seguro. Basicamente, são dois os fatores que determinam qual processo de esterilização deve ser empregado: 1- a sensibilidade do material: material termossensível não pode ser esterilizado por calor e material metálico não pode ser esterilizado por soluções químicas (são corrosivas). 2- a velocidade de esterilização: para artigos de múltiplo uso com alto custo de aquisição, e portanto escassos, o processo deve ser capaz de oferecer esterilização rápida e segura para sua pronta disponibilização.

A disponibilidade do material estéril é calculada por:

Observa-se, pela equação acima que quanto menor for o tempo exigido para esterilização dos materiais, maior será sua taxa de disponibilização para uso ou, em outras palavras, que a uma redução no tempo de esterilização associa-se um menor investimento em aquisição de materiais.

A ÚLTIMA PALAVRA EM TECNOLOGIA DE ESTERILIZAÇÃO           A Advanced Sterilization Products (ASP) uma companhia Johnson&Johnson Co. Irvine USA, desenvolveu o esterilizador STERRAD® que utiliza uma combinação de plasma e vapor de peróxido de hidrogênio (H2O2), a baixa temperatura, para esterilizar rapidamente a maioria dos dispositivos médicos, sem deixar resíduos tóxicos. O peróxido de hidrogênio é bactericida, viruscida, tuberculiscida, esporocida e fungicida. Age por meio da produção de radicais livres que lesam membranas lipídicas, DNA e outros componentes celulares essenciais.           O ciclo de esterilização do esterilizador STERRAD® consiste na injeção de vapor de peróxido de hidrogênio na câmara de tratamento e emissão de microondas, resultando num plasma com radicais livres que desnaturam proteínas microbianas, levando à morte celular. Abaixo apresenta-se um quadro com as características das diversas etapas do processo de esterilização por Peróxido de Hidrogênio:

O QUE

COMO

PORQUÊ

Lavagem, enxágüe e secagem

Limpeza adequada com enzimático, desincrustante, lubrificante e secagem rigorosa

A umidade interfere no processo de vácuo e a presença de matéria orgânica inibe o contato do material com o agente esterilizante

Embalagem

Invólucros permeáveis de polipropileno ou Tyvek

Permitir contato com o H2O2 e permitir manipulação segura do material

Acondicionamento no STERRAD para esterilização

Disposição dos pacotes no interior da câmara em bandejas próprias rasas

Proporcionar homogeneidade de ação do agente esterilizante em todos os itens

Primeira fase: Vácuo

A pressão da câmara é reduzida a 0.3_mmHg, de 5 a 20 minutos à temperatura ambiente

Propiciar a vaporização do H2O2 na câmara

Segunda fase: Injeção

Injeção no interior da câmara de solução de peróxido de hidrogênio a 58% durante 6 minutos

Permitir entrada do H2O2 na câmara

Terceira fase: Difusão

Difusão do vapor de peróxido de hidrogênio no interior da câmara por 12 minutos

Permitir contato do vapor com os materiais

Quarta fase: Plasma

Emissão de microondas no interior da câmara durante 12 minutos

Gerar um campo plasmático com produção de radicais livres que são o principio da esterilização

Quinta fase: Ventilação

Série de ciclos de ventilação, com níveis de vácuo e de repressurização, durante 2 minutos

Restauração da câmara à pressão atmosférica, para retirada dos pacotes, sem necessidade de aeração posterior.

 A ASP mantêm um extenso programa de testes de funcionalidade de dispositivos médicos termossensíveis garantindo que, após exposição a 100 ciclos de esterilização no STERRAD®, os dispositivos médicos mantêm inalteradas suas propriedades, tais como afiação, flexibilidade, claridade ótica, descarga elétrica, etc.           Uma grande variedade de equipamentos e artigos médico-cirúrgicos podem ser esterilizados por este método, incluindo aí a maioria dos instrumentais hoje esterilizados através de óxido de etileno. As vantagens do processo a base de peróxido de hidrogênio advém de sua compatibilidade com artigos termossensíveis, de seu curto ciclo de esterilização e da rapidez que proporciona para a reutilização dos materiais.           Como qualquer outro processo de esterilização, é imperativo que os artigos estejam rigorosamente limpos, sendo este um aspecto crítico para a eficácia do método.           O sucesso da esterilização depende da correta e criteriosa escolha, aplicação e observação das características peculiares de cada agente químico e dos fatores interferentes. Além disto, é imprescindível que os profissionais envolvidos, ressaltando a importância do trabalho desenvolvido, preencham os requisitos de qualidade estabelecidos para a total segurançadoprocesso .           A ineficácia de um processo de esterilização implica em não se alcançar o objetivo, que é a destruição dos microorganismos indesejáveis, significando risco para o profissional e para o paciente.

CONTROLE DE QUALIDADE DO PROCESSO DE ESTERILIZAÇÃO NO STERRAD 100S           Para a certificação de que o artigo processado está estéril, são promovidos testes de validação do processo e realizadas manutenção dos equipamentos e das rotinas de trabalho. A validação do processo envolve:           Qualificação de Instalação (certificação emitida pela Johnson após visita ao local de instalação do equipamento e treinamento da equipe) que indica estar o STERRAD System apto a reproduzir o processo para o qual foi concebido.           Qualificação de Desempenho que é definida pelo uso de indicadores químicos e biológicos que garantem a conformidade do processo ao padrão (controle da rotina). A garantia da esterilização no STERRAD 100S é assegurada por três meios: 1) Indicador Paramétrico: relatório automatizado emitido ao término de cada ciclo, onde são apresentados os parâmetros de controle de esterilização. 2) Indicador Biológico: realizado duas vezes por semana, no primeiro ciclo das 2as e 5as feiras, através de contagem do Bacillus sterathermophilus (forma esporulada mais resistente aos agentes esterilizantes físicos e químicos ). 3) Indicador Químico: Marcador de concentração "ótima" do peróxido de hidrogênio no interior da câmara. Os indicadores utilizados são: - fita indicadora - utilizada no interior da embalagem com manta de polipropileno / TNT ( embalagem específica do STERRAD 100S); - fita teste utilizada para selar as embalagens de TNT; - indicador químico impresso no TyvekÒ. IV - MONITORIZAÇÃO DO STERRAD SYSTEM           O esterilizador STERRAD opera em ciclos fixos e automáticos, controlados por um microprocessador. Todos os parâmetros críticos do processo são monitorados durante a operação do equipamento e, ao final de cada ciclo, um registro impresso dos parâmetros do processo é obtido. Se algum parâmetro exceder os limites aceitáveis, que foram pré-estabelecidos, o ciclo de esterilização é cancelado e o registro impresso declarará o motivo.           Ao ser operado dentro dos limites pré-estabelecidos do processo, o STERRAD garante a reprodutividade e, consistentemente, um nível de esterilidade mínimo de 10-6 (SAL).           O CENAT ( Centro de Esterilização de Natal ) mantêm um registro de controle para cada lote de esterilização realizada. As seguintes informações são armazenadas: 1. n º do lote; 2. nome do responsável técnico; 3. tempo de exposição; 4. conteúdo geral da carga; 5. temperatura de exposição; 6. resultado do indicador químico; 7. resultado do indicador biológico.           Embora as técnicas empregadas sejam de fácil aprendizado e execução, a responsabilidade da equipe de enfermagem sobre o processo em todas as suas fases é inequívoca. A liberação de um artigo hospitalar para o uso deve estar aliada à certeza da segurança para o usuário (pacientes e profissionais da área de saúde). A esterilização de material termossensível é um procedimento delicado e requer total concentração e empenho da equipe com sua limpeza e preparo. O processo de esterilização, qualquer que seja o método empregado, é de importância fundamental para a manutenção da qualidade da assistência oferecida.

 

Comentários