Artigo-Tomada de Decisão pelo Giro de Estoques

Artigo-Tomada de Decisão pelo Giro de Estoques

(Parte 1 de 4)

O Impacto das Características do Negócio nas Decisões Logísticas e na

Organização do Fluxo de Produtos: um Estudo Exploratório em Seis Setores Econômicos

Peter Fernandes Wanke

Este artigo tem por objetivo avaliar as relações das características do produto, da operação e da demanda com as decisões logísticas de coordenação do fluxo de produtos acabados, alocação dos estoques e base para acionamento da fabricação.

Também são avaliadas as relações destas características com os tipos de organização do fluxo de produtos construídos a partir da combinação destas decisões. Uma pesquisa de campo exploratória foi conduzida nos seis maiores setores industriais listados no ranking Exame Melhores e Maiores, possibilitando a análise das correlações destas decisões com as características e o desenvolvimento de quadros conceituais de apoio à decisão. A principal conclusão da pesquisa aponta que não existe um conjunto homogêneo de características capaz de explicar as decisões tomadas, o que sugere a necessidade de segmentar uma eventual estratégia logística com base nas características do negócio.

Palavras-chaves: logística; organização do fluxo de produtos; características do negócio; estudo exploratório; empresas brasileiras.

The main objective of this manuscript is to evaluate the relationships among the characteristics of the product, the operation and the demand and the logistics decisions regarding Push/Pull, Centralization/Decentralization and Make to Order/Make to Stock. The relationships among the combinations of these three decisions and these business characteristics are also evaluated. An exploratory study was conducted in six Brazilian major industries and correlation analyses were developed. Several conceptual frameworks to support decision-making in these two different levels are presented and discussed. The major finding of the research leads to the concept of logistics segmentation based on the business characteristics, since there is no uniform set of characteristics capable of explaining all decisions considered.

Key words: logistics; product flow; business characteristics; exploratory study; Brazilian companies.

É crescente na literatura especializada de operações e serviços a importância atribuída à logística como elemento fundamental ao gerenciamento eficiente e eficaz de cadeias de suprimentos (ver, por exemplo, Lambert, Cooper e Pagh [1998]). Por gerenciamento de cadeia de suprimentos normalmente se entende a gestão dos fluxos correlatos de produtos, de informações e de recursos financeiros que vão desde o fornecedor inicial ao consumidor final (Ballou e Gilbert, 2000). A logística tem como missão principal a minimização do custo total da operação para determinado nível de serviço e é importante processo para o gerenciamento da cadeia de suprimentos, pois viabiliza a consecução destes fluxos no espaço e no tempo (Bowersox e Closs, 1996).

Para que a logística assuma papel relevante na criação de vantagem competitiva em cadeias de suprimentos, suas principais decisões devem ser articuladas ao longo do tempo, permitindo o desenvolvimento de padrões de decisão coerentes com as características do negócio. De modo geral, o desenvolvimento de padrões de decisão coerentes com as características do negócio visa à criação e à manutenção de posições competitivas sustentáveis e é uma questão amplamente estudada pela área de estratégia empresarial.

Segundo Porter (1991), esta questão estratégica poderia ser avaliada nos níveis transversal e longitudinal. O nível transversal trataria da ligação das características do negócio (por exemplo, produto, operação e demanda) com o padrão de decisões na cadeia/sistema de valor num determinado momento do tempo. O nível transversal possibilitaria melhor desempenho em termos de custo total e de nível de serviço, por meio do ajuste fino entre as decisões e as características do negócio. O nível longitudinal examinaria por que certas empresas conseguiram desenvolver posições de vantagem competitiva e sustentá-las ao longo do tempo. O autor aponta que a avaliação do nível transversal seria prioritária, porquanto, “sem uma compreensão específica do que sustenta uma posição desejável, seria extremamente complexo lidar de forma analítica com o nível longitudinal” (Porter, 1991).

Com relação à avaliação do nível transversal, a literatura de operações e serviços registra, de forma dispersa e difusa, que determinados padrões de decisão na logística seriam mais aderentes e/ou seriam verificados com maior freqüência para determinado conjunto de características do produto, da operação e da demanda. Com o objetivo de compreender o melhor nível transversal na logística, foi desenvolvida uma pesquisa de campo, de caráter exploratório, em seis setores econômicos. Este estudo exploratório teve como objetivo principal identificar quais características do produto, da operação e da demanda conformam as principais decisões logísticas, em empresas fabricantes de bens de consumo, que vendem não exclusivamente, mas necessariamente, ao varejo.

Nesta pesquisa foram consideradas as seguintes decisões logísticas: coordenação do fluxo de produtos acabados (empurrar versus puxar); alocação dos estoques de produtos acabados

(centralização versus descentralização); e base para acionamento da fabricação de produtos acabados (produção contra-pedido versus produção para estoque). De acordo com Leeuw e Goor (1999), mediante estas três decisões seria possível caracterizar a organização do fluxo de produtos em suas dimensões mais amplas: responsabilidade (coordenação do fluxo de produtos); espaço (alocação dos estoques) e tempo (base para acionamento da fabricação).

Nesta seção são apresentadas as razões conceituais e as evidências empíricas encontradas na literatura sobre como e por que diferentes características do produto, da operação e da demanda favoreceriam determinados padrões de decisões logísticas e, conseqüentemente, da organização do fluxo de produtos. Deve ser lembrado que a organização do fluxo de produtos é visceralmente associada ao propósito da logística. De acordo com a definição do Council of Logistics Management – CLM (20--): “a logística é a parte do gerenciamento de cadeias de suprimento responsável pela organização, de modo eficiente e eficaz, do fluxo de produtos e de informações do ponto de origem até o ponto de consumo final”.

Coordenação do Fluxo de Produtos Acabados

A noção de puxar ou de empurrar o fluxo de produtos acabados estaria diretamente relacionada ao estágio da cadeia responsável pela decisão de ressuprimento dos estoques (Leeuw e Goor, 1999): se o estágio posterior, mais próximo do cliente ou consumidor final, ou se o estágio anterior, mais próximo do fornecedor inicial. Um fluxo de produto puxado teria seu início no estágio posterior, por meio da transmissão para o estágio anterior de informação, baseada na demanda real, solicitando o fornecimento. Por outro lado, um fluxo empurrado teria seu início no estágio anterior, mediante a estimativa, por técnicas de previsão ou outros métodos de planejamento, das necessidades de consumo futuras. Evidências empíricas, apontadas por diversos autores (Stalk, 1988; Inman, 1999; Christopher, 2000), indicam duas características que deveriam ser observadas nesta decisão: o prazo de entrega para

Longos prazos de entrega favoreceriam que a coordenação do fluxo de produtos fosse puxada com base na demanda real, ou seja, controlada pelo estágio mais próximo do consumidor final.

Contrariamente, prazos de entrega mais curtos exigiriam que o fluxo de produtos fosse empurrado com base em previsões de venda, ou seja, controlado pelo estágio mais próximo do fornecedor inicial.

Um dos principais problemas relativos à coordenação do fluxo de produtos é a visibilidade limitada da demanda do consumidor final. O ponto até o qual a demanda do consumidor final penetra na cadeia de suprimentos em direção ao fornecedor inicial, é conhecido como ponto de desacoplamento (decoupling point), segundo Christopher (2000), ou como ponto de penetração do pedido (order penetration point), segundo Sharman (1984). O conceito implícito no ponto de desacoplamento é a mudança na forma de coordenar os fluxos de produtos. Na realidade, a questão principal não é quão distante do consumidor final está sendo colocado um pedido, mas se a demanda do consumidor final é acessível ou não para determinado estágio da cadeia. A não visibilidade desta demanda poderia levar ao planejamento empurrado por previsões de vendas, ao passo que a visibilidade desta demanda permitiria a reação com base na demanda real (Christopher, 2000).

Alocação dos Estoques de Produtos Acabados

De acordo com a literatura, diferentes características do produto, da operação e da demanda afetariam a centralização ou a descentralização dos estoques de produto acabado. As características do produto que afetariam a alocação dos estoques seriam o custo do produto vendido (CPV)(2), a densidade de custos (DC)(3) e a obsolescência (O)(4). De maneira geral, poderia afirmar-se que quanto maiores o custo do produto vendido, a densidade de custos e a obsolescência, tanto maior a tendência para centralização dos estoques (Silver e Peterson, 1985; Ballou, 1992; Christopher, 1997).

Produtos com maior custo do produto vendido e maior obsolescência tenderiam a ficar centralizados em função, respectivamente, de maiores custos de oportunidade de manter estoque e de maiores riscos de perdas de estoque. Já produtos com menor densidade de custos refletiriam maior necessidade para minimizar os custos unitários de distribuição, de modo a assegurar a sua competitividade em preço. A descentralização dos estoques permitiria a consolidação de carregamentos e a conseqüente diluição dos custos fixos de distribuição por maior número de produtos (Jayaraman, 1998).

Por outro lado, entre as características da demanda e da operação que influenciariam a alocação dos estoques, cabe destacar, respectivamente, o coeficiente de variação nas vendas (CV)(5) e o giro dos estoques (G). Quanto menor o coeficiente de variação nas vendas e maior o giro dos estoques, tanto maior a propensão para descentralização dos estoques, basicamente porque são minimizados os riscos associados ao encalhe dos produtos (Silver e Peterson, 1985; Waters, 1992; Mentzer, Kahn e Bienstock, 1998).

Base para Acionamento da Fabricação de Produtos Acabados

Envolveria a decisão entre produzir para estoque ou contrapedido, sendo sua integração com a decisão de alocação dos estoques de produto acabado de fundamental importância para o desenho dos sistemas logísticos (Bowersox e Closs, 1996; Closs e Roath, 1998; Pagh e Cooper, 1998). Algumas características do produto e da operação que influenciariam esta decisão seriam o custo do produto

O custo do produto vendido pode ser interpretado como o volume de capital de giro necessário para produzir uma unidade adicional (Lambert, Cooper e Pagh, 1998). Quanto maior o custo do produto vendido, tanto maior seria a propensão para produzir contrapedido. Analogamente, quanto maior a obsolescência, maior a propensão para produzir contrapedido, a fim de evitar perdas dos estoques (Abad, 2003). Finalmente, quanto maior a razão entre prazos, maior o prazo de entrega dos produtos para o cliente, em comparação ao prazo de entrega das matérias primas pelo fornecedor. Esta diferença de prazos poderia favorecer a produção contrapedido, na medida em que haveria maior janela para a acomodação do tempo de resposta da produção, observando-se os limites do ciclo do pedido (Romero, 1991; Inman, 1999).

Uma vez apresentadas as decisões logísticas individuais relacionadas à organização do fluxo de produtos nas dimensões responsabilidade, espaço e tempo, cabe apresentar como estas três decisões poderiam ser combinadas em tipos para a organização do fluxo de produtos.

Neste sentido, é indicada no Quadro 1 uma tipologia para classificação da organização dos fluxos de produtos, a partir da combinação das três decisões logísticas discutidas na seção anterior. Teorica- mente, existiriam oito diferentes tipos resultantes da combinação entre as duas alternativas de coorde- nação do fluxo de produtos (puxar e empurrar); as duas de alocação dos estoques (centralização e descentralização) e as duas da base para acionamento da fabricação (produção para estoque e produção contrapedido), pois 2 x 2 x 2 = 8. Entretanto, destes oito possíveis tipos, apenas seis poderiam ocorrer na prática: Empurrar/Descentralizar/Para estoque, Empurrar/Centralizar/Para estoque, Puxar/Descentralizar/Para estoque, Puxar/Descentralizar/Contrapedido, Puxar/Centralizar/Para estoque e Puxar/Centralizar/Contrapedido. A explicação lógica é que a decisão de produzir contrapedido depende exclusivamente da reação à demanda real (puxar) e não de previsões de venda (empurrar). Esta restrição eliminaria as combinações Empurrar/Descentralizar/Contrapedido e Empurrar/Centralizar/Contrapedido.

Quadro 1: Tipos de Organização do Fluxo de Produtos

Coordenação Alocação Base para Acionamento Empurrar Descentralizar Para estoque Empurrar Centralizar Para estoque Puxar Descentralizar Para estoque Puxar Descentralizar Contrapedido Puxar Centralizar Para estoque Puxar Centralizar Contrapedido

A tipologia apresentada no Quadro 1 expande a proposta de Pagh e Cooper (1998) para a classificação da organização do fluxo de produtos, ao acrescentar a dimensão de coordenação

(empurrar versus puxar). De acordo com os autores, existiriam quatro possíveis tipos de organização do fluxo de produtos acabados: Descentralizar/Para estoque, Descentralizar/Contrapedido, Centralizar/Para estoque e Centralizar/Contrapedido.

Até o presente momento, a literatura não reporta pesquisas que tenham buscado determinar quais características do negócio afetariam a escolha de determinado tipo de organização do fluxo de produtos. Artigos com relatos de evidências empíricas e justificativas para tal escolha também são escassos. Seria relevante entender quais características do negócio afetariam a escolha de determinado tipo de organização do fluxo, pois: (1) complementaria a avaliação do nível transversal, na medida em que as três decisões são consideradas em conjunto; e (2) estabeleceria as bases para a segmentação de eventual estratégia logística, a partir das características do negócio.

Tomando como ponto de partida o referencial teórico e considerando a perspectiva de uma empresa fabricante de bens de consumo, a pergunta principal a ser respondida por meio da pesquisa de campo sobre o nível transversal da criação de posições competitivas na logística é:

Quais são as características do produto, da operação e da demanda significativamente correlacionadas com as decisões logísticas individuais e com os tipos de organização do fluxo de produtos?

. Quais são as características do produto, da operação e da demanda significativamente correlacionadas com as decisões individuais de (1) coordenação do fluxo de produtos, (2) alocação dos estoques e (3) base para acionamento da fabricação de produtos acabados?

. Quais são as características do produto, da operação e da demanda significativamente correlacionadas com os tipos de organização do fluxo de produtos: Empurrar/Descentralizar/Para estoque, Empurrar/Centralizar/Para estoque, Puxar/Descentralizar/Para estoque, Puxar/Descentralizar/Contrapedido, Puxar/Centralizar/Para estoque e Puxar/Centralizar/Contrapedido?

A resposta a estas questões permitirá a proposição de quadros conceituais de apoio à tomada de decisão com relação às decisões logísticas individuais e com relação aos tipos de organização do fluxo de produtos. Estes quadros refletiriam a lógica e o referencial teórico que sustentam a avaliação transversal, permitindo identificar o padrão decisório mais aderente a determinado conjunto de características do negócio.

A população considerada como ponto de partida para a pesquisa de campo é definida pelo conjunto das 500 empresas que compõem a lista da publicação Exame Melhores e Maiores Edição 2000. A população em estudo é composta por 2 diferentes setores da economia (subpopulações), abrangendo atividades de cunho extrativo, industrial e de serviços. Em função da delimitação da pesquisa aos reconhecidos setores industriais de bens de consumo duráveis e não-duráveis que vendem necessariamente, mas não exclusivamente, para o varejo, foram descartadas as subpopulações relacionadas ao setor primário e terciário da economia, além das subpopulações do setor secundário não enquadradas nesta restrição.

As subpopulações (tamanhos) analisadas na pesquisa de campo são as dos setores Químico e

Petroquímico (46), Alimentício (40), Automotivo (31), Tecnologia e Computação (26), Eletroeletrônico (21) e Farmacêutico (17). O tamanho total destas subpopulações perfaz 181 empresas, ou

36,2% da população total de 500 empresas. Entretanto, se for considerado para efeito de definição populacional o conjunto de setores industriais de bens de consumo duráveis e não-duráveis que vendem necessariamente, mas não exclusivamente, para o varejo, o tamanho da população é de 254 empresas. As seis subpopulações analisadas pela pesquisa perfazem 71,3% deste total.

Para cada uma destas seis subpopulações foram coletadas seis amostras, obedecendo a um processo quase-aleatório (quasi-random) com repetição. O processo foi quase-aleatório, porque, apesar da amostra de cada subpopulação ter sido gerada aleatoriamente, parte das empresas inicialmente contatadas recusou-se a participar da pesquisa de campo. Isto levou a sua substituição por outras da mesma subpopulação que se dispusessem a participar da pesquisa (amostragem por conveniência). O processo foi com repetição, porquanto de cada empresa foram coletadas informações referentes a um SKU classe A em faturamento e a um SKU classe C em faturamento. A determinação do tamanho amostral para cada subpopulação teve como base o entendimento e a interconexão dos seguintes aspectos do plano de pesquisa: a possibilidade de aproximação pela distribuição normal, a estratificação da amostra e a escolha do método estatístico. Foram considerados os aspectos assinalados a seguir.

. Não existe tamanho amostral mínimo necessário para confirmar a validade da aproximação pela distribuição normal em cada subpopulação, por dois motivos básicos: além de as subpopulações serem finitas e pequenas, alguns relatos indicam o caráter assimétrico de variáveis setoriais (ver, por exemplo, Cochran [1963]).

. Como a estimação de parâmetros populacionais não é o objetivo principal da pesquisa, mas a identificação da correlação entre as variáveis (características e padrões de decisão), as frações amostrais de cada estrato não precisam ser necessariamente iguais à fração de cada subpopulação (estratificação proporcional). O tamanho amostral dos seis estratos pesquisados pode ser igual para efeitos de simplificação e de conveniência (estratificação desproporcional), segundo Moser e Kalton (1971) e Castro (1978).

. Os testes não-paramétricos não exigem que os tamanhos das amostras das seis subpopulações pesquisadas sejam iguais. Os testes não-paramétricos devem ser empregados quando não é válida a premissa da aproximação pela distribuição normal nas subpopulações (Conover, 1971).

Observados estes aspectos, optou-se inicialmente por amostras de tamanho igual a 5, em cada um dos seis setores. O quadro final com os tamanhos amostrais e as frações amostrais coletadas é apresentado na Tabela 1.

Tabela 1: Tamanhos Amostrais e Frações Amostrais Coletadas nos Seis Setores Pesquisados

Subpopulações Tamanhos Tamanhos

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