História da educação infantil no Brasil- Avanços, retrocessos e desafios dessa modalidade educacional

História da educação infantil no Brasil- Avanços, retrocessos e desafios dessa...

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Pesquisas recentes apontam que o cansaço físico das professoras é muito acentuado, porque o trabalho com as crianças menores exige muita habilidade física e preparo emocional. Sobre esta questão, Ongari (2003, p. 84) ressalta que o cansaço físico é percebido como importante se considerarmos que o trabalho com as crianças pequenas implica um modo de relação centrado na corporeidade, que pode se tornar pesado do ponto de vista físico. Além de raramente ficar parada, “[...] a educadora também carrega as crianças no colo, levanta-as, principalmente para a troca; e ainda, permanece sentada ao lado delas, freqüentemente no chão, o que exige muita energia sempre que for necessário se levantar”. O cansaço psicológico também compromete esse trabalho, pois, a necessidade

Revista HISTEDBR On-line Artigo de estar sempre atenta e de satisfazer ao mesmo tempo às exigências de muitas crianças aparece como um interveniente no cotidiano das instituições.

A falta de uma metodologia adequada para o desenvolvimento de cada atividade, a excessiva escolarização ou a alfabetização precoce e a inexistência de um currículo que integre os cuidados à educação da criança, a pouca autonomia sobre a própria ação e a baixa remuneração também são questões que impedem um trabalho de mais qualidade. É importante destacar que a concretização de um bom trabalho junto às crianças se inicia pela maneira como os professores apropriam-se de modelos pedagógicos ao longo da carreira, haja vista que o contexto pedagógico requer estruturas curriculares abertas e flexíveis. Isso envolve nova concepção de currículo, entendido como trajetória de exploração partilhada de objetos de conhecimento de determinada cultura, por meio de atividades diversificadas, constantemente avaliadas (OLIVEIRA, 2002). Nessa perspectiva, o currículo não pode ser entendido como um plano individual, mas como um projeto coletivo que deve ser pensado e elaborado para o crescimento tanto do professor como das crianças. O planejamento do currículo inclui a organização de uma série de elementos que vai enriquecer o universo da escola infantil. Questões como a rotina, o tempo, o espaço, os materiais disponíveis, os brinquedos devem permear todo o desenvolvimento das atividades junto às crianças.

Planejar o currículo implica ouvir os profissionais em suas concepções e decisões, problematizar a visão deles sobre creches e pré-escolas, evitando perspectivas fragmentadas e contraditórias, que refletem a influência das várias concepções educacionais que vivenciaram ou com que tiveram contato. (OLIVEIRA, 2002, p. 168).

Não é tarefa fácil discutir sobre questões que tratam do trabalho pedagógico em instituições de educação infantil, uma vez que o cotidiano aponta para as muitas dificuldades do professor na organização desse trabalho, especialmente no que tange à rotina das crianças. Em geral, a própria literatura, quando aborda esta questão, centra-se mais no recorte de um ou outro aspecto que envolve o cotidiano da instituição, mas não fornece aos professores uma visão mais globalizante dos elementos que constituem o seu trabalho diário. No entanto, apesar de toda a problemática que ainda permeia uma grande maioria de instituições de atendimento à criança e apesar de terem tido no seu início uma função mais voltada para as questões assistenciais, apresentando, ainda hoje, muitos desses problemas, avançaram ao longo das décadas, apresentando diferentes funções no seu interior, até se consolidar como um espaço de educação para a criança pequena.

Considerações Finais

Este estudo nos permitiu trazer elementos para pensar a prática pedagógica desenvolvida no interior das escolas infantis e, sobretudo, chamar a atenção para a complexidade das relações que ocorrem no interior dessas instituições. Sua consolidação só aconteceu nas últimas décadas, em função dos movimentos sociais de luta e reivindicação pelos direitos humanos, dentre eles, o direito de todas as pessoas a uma educação de qualidade desde a mais tenra idade. As duas últimas décadas significaram um tempo de conquistas sobre os direitos da criança brasileira, a opção da família em dividir a educação com os filhos e o dever do Estado na garantia de todos esses direitos (Oliveira, 2002). Para além das questões que envolvem todos os percalços que comprometem uma

Revista HISTEDBR On-line Artigo educação mais qualitativa para essa faixa etária, consideramos que muitos são os desafios para o novo milênio. Elencamos aqueles que nos parecem mais relevantes no que tange à busca pela qualidade no interior das escolas infantis e divididos em grandes eixos, que são:

• Recursos financeiros aplicados, exclusivamente, nesse nível de ensino;

• Universalização do atendimento para todas as crianças de zero a cinco anos de idade;

• Formação inicial e continuada do professor que priorize a integração entre os cuidados e a educação da criança pequena;

• Projeto pedagógico adequado para essa faixa etária, que possibilite o enriquecimento das experiências infantis;

• trabalho coletivo entre a direção, coordenação, professor, demais funcionários da instituição e família das crianças

• ludicidade como elemento fundamental na organização do trabalho pedagógico;

• participação das famílias nas escolas infantis;

• espaço físico contendo mobiliário e material pedagógico adequado à idade das crianças;

• segurança física e psicológica que garanta o acolhimento a todas as crianças, inclusive às crianças especiais;

• articulação entre esse nível de ensino e os anos iniciais do ensino fundamental.

Ao pensar nos desafios propostos e nos muitos outros que podem contribuir para uma educação que respeite, efetivamente, o desenvolvimento e aprendizado da criança pequena, parafraseamos o pensamento de Bujes (2001) ao reconhecer que esse espaço deve ser muito mais qualificado e que, ao incluir o acolhimento e a segurança, também precisa ser um ambiente que desperte a emoção e desenvolva a sensibilidade, contemplando, assim, a curiosidade e a investigação dos pequenos infantes. Para tanto, nos baseamos nos dez aspectos-chave para uma educação infantil de qualidade, propostos por Zabala (1998, p. 50), de que, segundo ele “[...] a ordem não é importante, uma vez que a relevância de cada um dos aspectos mencionados deriva do seu conteúdo, não da sua posição na lista” e que se constituem: 1) organização dos espaços; 2) equilíbrio entre a iniciativa infantil e no trabalho dirigido no momento de planejar e desenvolver as atividades; 3) atenção privilegiada aos aspectos emocionais; 4) utilização de uma linguagem enriquecida; 5) diferenciação de atividades para abordar todas as dimensões do desenvolvimento de todas as capacidades; 6) rotinas estáveis; 7) materiais diversificados e polivalentes; 8) atenção individualizada a cada criança; 9) sistemas de avaliação, anotações que permitam o acompanhamento global do grupo e de cada uma das crianças; 10) trabalho com os pais e mães.

É conveniente ressaltar que a qualidade tem muitas leituras e pode ser analisada sob diferentes perspectivas. O importante é que a educação de qualidade da criança pequena possa ser reconhecida não só no plano legislativo e nos documentos oficiais, mas pela sociedade como um todo. Afinal essa modalidade educacional é de responsabilidade pública e, como tal, deve prioritariamente ser assumida por todos; esse é o nosso maior desafio.

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