JOSÉ CARLOS DE MEDEIROS PEREIRA - Medicina, Saúde e Sociedade - Medicina Social

JOSÉ CARLOS DE MEDEIROS PEREIRA - Medicina, Saúde e Sociedade - Medicina Social

(Parte 2 de 3)

Medicina, gozando de maior ou menor prestígio conforme o momento histórico e os paradigmas científicos pelos quais ela se norteou, freqüentemente consideraram o fato de os homens doentes serem também participantes de determinadas relações sociais, as quais é preciso levar em conta. Especialmente nos últimos anos, por influência de tais correntes, a Medicina vai deixando de ser quase que apenas o conhecimento (biológico principalmente) da doença e dos meios de curá-la e/ou a ciência do corpo humano, normal e patológico. Um número significativo de trabalhadores na área vai percebendo, cada vez com maior clareza, que a explicação das doenças e sua cura é facilitada pelo conhecimento do contexto social em que vivem as pessoas. Bem ou mal, eles têm buscado explicá-las através da referência a fatores sociais, ainda que, o mais das vezes, esse social seja encarado como constituído por características de pessoas, na já tradicional concepção multicausal da doença. Apesar disso, na atualidade, muitos dos cultores da disciplina médica procuram ampliar o objeto da mesma, a maneira de representá-lo cientificamente e o modo de apreendê-lo. Cada vez mais, em face disso, cremos que a Medicina tenderá a ser concebida também como uma ciência históricosocial, percebendo que as características dos seres humanos (doentes ou não) são sobretudo um produto de forças sociais mais profundas, ligadas a uma totalidade econômico-social que é preciso conhecer e compreender para explicarem-se adequadamente os fenômenos de saúde e de doença com os quais ela se defronta.

Passando a Medicina a ser encarada como atrás, suas práticas sociais puderam vir a ser, também, objeto de investigação médica e não apenas de alguma ciência social. De qualquer forma, essas novas concepções facilitaram a constituição da Medicina Social, voltada para o estudo tanto dos processos que mantêm a saúde ou provocam a doença como das práticas sociais que procuram recuperar ou manter aquela. Trata-se de uma mudança qualitativa, porque o objeto de tal disciplina não é representado por corpos biológicos, mas por corpos sociais. Não se trata, tão-somente, de indivíduos, mas de sujeitos sociais, de grupos e classes sociais e de relações sociais

20MEDICINA, SAÚDE E SOCIEDADE referidas ao processo saúde-doença. Realizada tal mudança, as práticas sociais da medicina e a doença seriam objeto de investigação, especificamente, dessa disciplina social, que se poderia vincular à Medicina desde que ela fosse concebida como uma ciência que tivesse um objeto social e natural ao mesmo tempo.

A rotação de perspectivas quanto ao modo de encarar e interpretar esses objetos de estudo representa uma ruptura em relação à corrente positivista predominante. Tal rotação faz avançar a interpretação, introduzindo tipos diversos de explicação, sobretudo sociológica. O uso deles pela Medicina Social permite a inserção dos fatos observados e das relações descobertas em teorias mais abrangentes; permite ver coisas novas, como se elas estivessem sendo criadas pelo investigador porque, agora, fatos conhecidos são olhados a partir de outros pontos de vista, embora também conhecidos(16: 101). É certo que os paradigmas da Biologia, de modo geral usados na Medicina, são menos controvertidos. Eles permitem, inclusive, que quase todos os investigadores utilizem o mesmo modelo de análise, ao qual se conformam, Mas tal procedimento gera menores oportunidades de questionamento e, conseqüentemente, de reflexões sobre as questões estudadas(7). Ora, nas Ciências Sociais inexiste um paradigma único sobre o qual se assente um crescimento científico cumulativo. Sua existência implicaria num acordo entre seus grandes cientistas quanto à concepção da sociedade, o que seria praticamente impossível pois esta, ao contrário dos objetos naturais com os quais lida a Biologia e outras ciências naturais, é plena de divisões e conflitos dos quais o próprio investigador é parte. Mas, com isso, o avanço proporcionado pode ser significativo: uma criatividade mais expressiva, mais profícua, cientificamente falando, que acaba produzindo resultados também significativos.

Adotar a perspectiva da Medicina Social implica em encarar a enfermidade como um fenômeno social também. Tomá-la como um

21José Carlos de Medeiros Pereira fenômeno natural, como habitualmente se faz, tem implicações políticas inegáveis: permite transformar problemas sociais em problemas técnicos, com soluções dependentes da adoção de procedimentos igualmente técnicos e não políticos. Diga-se que o primeiro tipo de solução é o geralmente disponível pelos serviços médicos. Tal fato contribui, certamente, para a Medicina tender a adotar antes um tipo de explicação e não outro. Não nos esqueçamos que ela é, em grande parte, uma técnica de intervenção. Esta característica, e a formação, da mesma forma, muito técnica dos médicos, favorecem a adoção de uma concepção fragmentada do homem e da doença. Tal fragmentação, feita com o objetivo de melhor analisar, para conhecer, o objeto de estudo, impede que este seja inserido num todo social coerente. Tratando-se, porém, de objeto e de problemas sociais, idealmente se exigiria, de quem explica e propõe soluções, a percepção de como se estrutura e funciona o sistema social no qual um se insere e os outros ocorrem. A proposta da Medicina Social pretende preencher essa lacuna, procurando ultrapassar o nível de concreticidade dos fenômenos médico-sociais, não os tomando como se eles fossem transparentes, como muitas vezes se faz. Oferecendo uma visão mais abrangente da doença e dos homens doentes, essa disciplina pretende chegar a uma interpretação sociologicamente mais rigorosa dos fenômenos e a uma proposição de soluções socialmente mais relevantes. Ou seja, ela se propõe ultrapassar a mera aparência dos mesmos, para chegar, realmente, ao que considera a sua essência.

Para a Medicina Social boa parte das doenças constitui uma manifestação muito concreta das relações sociais (sobretudo de produção) de que os homens participam. Por isso é que elas se apresentam tão diversamente, se consideramos os diferentes segmentos sociais. Vinculando-se ao modo como os homens vivem, trabalham, se divertem, se relacionam enfim, a prevenção da enfermidade, mantendo-se a saúde, tem muito a ver com quaisquer melhorias nas condições de vida proporcionadas, entre outras coisas, pela diminuição da desnutrição, pelo acesso a moradias mais adequadas, pelo exercício de um trabalho física e mentalmente menos

22MEDICINA, SAÚDE E SOCIEDADE desgastante etc. Em outras palavras, os homens enfermam e morrem desigualmente por pertencerem a uma e não a outra classe social, por exercerem diferentes ocupações, por se vincularem a este ou aquele setor econômico (rural ou urbano-industrial por exemplo), por compartilharem culturas ou sub-culturas distintas etc. Isto é que os faz correr riscos desiguais de contraírem moléstias e de morrerem. Os trabalhadores rurais, por exemplo, correm mais riscos do que os burocratas do serviço público por estarem muito mais expostos

Ainda que como fenômeno biológico a doença possa ter características universais, podendo o homem ser encarado como um ser isolado, da perspectiva da Medicina Social, fora de seu contexto social esse homem é uma abstração, algo que não existe. Ele participa de uma sociedade histórica, dividida, conflituosa, competitiva, em que os diferentes segmentos sociais têm desigual poder, riqueza e prestígio. Por isso, uma visão reducionista do problema de saúde e doença, perdendo de vista essa totalidade social, acaba não proporcionando o entendimento procurado do problema. A divisão deste em partes, para se proceder à análise, pode ser conveniente apenas quando, em seguida, faz-se a síntese, chegando a uma concepção enriquecida do conjunto do qual se partiu. Só quando se tem um mínimo de percepção dos fatores sociais produtores da enfermidade é que se pode compreender porque a presença da causa necessária de uma doença não necessariamente a desencadeia se não estiverem presentes as condições suficientes para que ela exista. É nesse sentido que se pode dizer que a verdadeira causa da tuberculose são as precárias condições de vida e não o bacilo de Koch.

Na explicação cabal da produção tanto da saúde como da doença entre os homens, na quase totalidade dos casos, é preciso, pois, ter em conta as relações sociais de que eles participam numa realidade social concreta. Nesse sentido é que podemos ousar afirmar que se o DDT e o BHC matam barbeiros em todo lugar, também é incontestável que se as pessoas tivessem outras condições de moradia e

23José Carlos de Medeiros Pereira melhores condições de vida, a incidência e a prevalência de uma doença como a de Chagas possivelmente diminuiriam em proporção maior do que quando se tentam soluções baseadas na noção de que sua causa fundamental é a presença de triatomíneos infectados. Da mesma forma poderíamos nos referir à esquistossomose. Freqüentemente se pensa em combatê-la procurando melhores moluscocidas e não em fazer com que as pessoas vivam em condições de não precisar entrar em contacto com águas infestadas. Num e outro caso,quando a explicação da doença não contempla o social, as soluções aventadas deixam intocada a estrutura social determinante da doença

É o caso de muitas proposições epidemiológicas que partem do pressuposto da inevitabilidade da presença do homem numa determinada cadeia epidemiológica. Ora, se suas relações com os outros homens e com a natureza fossem diferentes da que está ocorrendo naquele lugar e naquele momento histórico ele não participaria de tal cadeia. Sem que essas relações sejam levadas em consideração, a Medicina, o mais das vezes, vai se limitar a enfrentar a doença já produzida. Evidentemente, este modo de proceder constitui uma solução correta em face do problema individual existente, mas não como explicação e solução, ao nível coletivo, do fenômeno doença. O pressuposto da inevitabilidade desta se suas causas necessárias não forem afastadas assenta-se na tendência das ciências naturais de se voltarem para as características universais da produção dos fenômenos. Esta tendência se vincula, por sua vez, à suposição de que se está diante de um universo contínuo, em que as diferenças pouco explicam. Ora, não é este o caso de qualquer fenômeno e processo envolvendo seres humanos, pois, em termos societários, é cientificamente incorreto desconsiderar-se as diferenças sociais. Se não nos voltarmos para elas, nossas constatações a respeito, por exemplo, da incidência e prevalência de quaisquer doenças serão meras abstrações. Não nos dirão que grupos ocupacionais ou frações de classes sociais são afetados. De fato, como já nos dizia Marx, a população é uma abstração se deixarmos

24MEDICINA, SAÚDE E SOCIEDADE de lado suas divisões.

É em decorrência do fato de as relações sociais variarem historicamente que existe, também, uma historicidade das doenças. Dependendo da evolução das condições específicas existentes numa dada formação social concreta, umas doenças surgirão e outras desaparecerão. A tuberculose, por exemplo, foi uma doença largamente disseminada enquanto perduraram as condições de existência precárias determinadas, entre outras razões, pela Revolução Industrial. Neste século, entretanto, diminuiu de muito sua morbi-mortalidade sempre que essas condições melhoraram, antes mesmo de terem sido descobertos tuberculostáticos eficazes. Da mesma forma, à medida que uma sociedade passa de predominantemente rural a urbano-industrial serão diferentes as enfermidades que afetarão seus membros. Poderão diminuir as zoonoses e verminoses mas aumentar os acidentes (de trabalho, de trânsito), as violências ou as doenças cardio-vasculares. Em termos mais gerais, pensemos na passagem do mundo subdesenvolvido: a doença sobe dos intestinos para os pulmões. O que é poluído agora

Tradicionalmente concebe-se a assistência médica como o conjunto de práticas sociais da Medicina visando, especificamente, a promoção da saúde e a prevenção e cura da doença ao nível individual. Não entrariam na definição aquelas atividades promotoras de saúde não exercidas por profissionais da saúde, como também as medidas coletivas. Há um certo consenso, por exemplo, de que o saneamento é antes engenharia sanitária do que medicina. Nem mesmo as medidas levadas a cabo pela medicina preventiva são sempre encaradas como assistência médica. Estão também excluídas a indústria farmacêutica, de aparelhos hospitalares etc. Cecília Donnangelo resume o que foi dito afirmando que a assistência médica seria o “conjunto de ações

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Há outras concepções de assistência médica mas, para nossos propósitos vamos nos cingir a esta para distingui-la de Saúde Pública, no sentido de medidas orientadas coletivamente visando o atingimento dos fins mencionados acima.

Ainda que a assistência médica diga respeito exclusivamente à atividade exercida por médicos, de modo algum, como já foi dito, ela se faz tendo em conta apenas critérios médicos. É que as práticas sociais referidas constituem uma instituição social cujo funcionamento e dinâmica obedecem a determinações extramédicas. Dificilmente serão os médicos que, nas condições concretas de sua atuação, decidirão quem e como alguém será atendido e considerando critérios tão-somente médicos. O mais das vezes, como umas vidas têm mais valor do que outras em termos societários, políticos e econômicos, serão nesses termos que as decisões serão tomadas. Ou seja, os pacientes serão assistidos em razão de sua capacidade de pagamento, ou porque podem exigir a assistência médica dado o poder de que dispõem ou, ainda, porque são considerados economicamente mais produtivos do que outros. Sobretudo nas sociedades capitalistas, em que há um quase completo domínio dos interesses econômicos, os valores alheios à medicina tenderão, em muito, a orientar as decisões.

Sendo assim, há necessidade de analisar mais profundamente os aspectos sociais, políticos e econômicos responsáveis pelo desvirtuamento dessa assistência (em relação ao ideal expresso) de modo a não produzir os resultados que, medicamente, dela seriam esperáveis na redução, por exemplo, da morbi-mortalidade do conjunto da população. Nessa análise, uma das primeiras questões que chamam a atenção é a tendência de considerar a saúde e a doença como sendo de responsabilidade individual. Esta é, em grande parte, uma conseqüência de modo predominante de pensar nas sociedades capitalistas. Contudo, ela já era também a visão dominante na medicina. Mesmo antes do capitalismo a atenção médica era considerada uma questão individual(5). Além do mais, agravando o

26MEDICINA, SAÚDE E SOCIEDADE problema, ao não se voltar para a determinação social da saúde e da doença, a assistência médica acaba atuando, muito freqüentemente, mais sobre os efeitos do que sobre as causas.

A determinação social da assistência médica é claramente percebida inclusive quando se estuda sua história. Como nunca existiram sociedades históricas sem imensas desigualdades sociais, o que se vai observar é que o tratamento e prevenção da doença sempre variaram de um segmento social para outro. No capitalismo, especificamente, pode-se mesmo dizer que a proteção da vida e da saúde depende de um cálculo econômico. Isto é visível, por exemplo, na própria distribuição geográfica dos médicos. Eles, como diz Illich, têm tendência compreensível de se instalarem “onde o clima é sadio, a água pura e as pessoas podem pagar seus serviços”(6). Mas não é só por regiões, evidentemente, que a distribuição é desigual. O mesmo se pode dizer em relação às várias classes sociais. À distribuição desigual dos médicos pode-se acrescentar uma série de outros serviços de saúde, como hospitais, centros de saúde, laboratórios, pessoal para-médico etc. Há uma hierarquia de tratamento porque os corpos são vistos socialmente. Ou seja, eles se hierarquizam de acordo com sua produtividade, com o capital neles investido (por exemplo, num médico investiu-se mais do que num professor primário), com seu status, com seu poder. Muitas vezes, mesmo quando o Estado se volta (em termos de assistência médica) para a população marginal e o sub-proletariado é porque está preocupado em diminuir as tensões sociais, por exemplo.

Evidentemente, numa sociedade capitalista, é inevitável que se façam tais cálculos econômicos e políticos e se considere a capacidade de pagamento dos que se encontram enfermos. Afinal os recursos são sempre escassos (em face do modo como são estruturados os serviços). Daí ser necessário que se tenha uma base “racional” para decidir. Ao estabelecê-la considerando coisas como a produtividade ou a capacidade (expressa na possibilidade de pagar), o sistema social vigente pode tornar a diferenciação da assistência médica relativamente aceitável para o conjunto da população, porque

27José Carlos de Medeiros Pereira se funda em distinções tidas como socialmente normais em nossa sociedade. É claro que seria incorrer num mecanicismo pouco defensável explicar toda e qualquer transformação no âmbito da assistência médica como estando inteiramente vinculada aos interesses do capital. Em qualquer sistema sócio-econômico global as instituições sociais nele existentes tendem a funcionar de modo a reproduzi-lo. Assim sendo, a medicina, enquanto prática social, acaba tendo esse papel no capitalismo como teria em outro modo de produção.

Na verdade, é muito interessante observar que a orientação coletiva da medicina, enquanto assistência médica, é muito mais expressiva com o avanço do capitalismo do que em modos de produção anteriores. Os serviços de assistência crescem quantitativamente e segmentos sociais, até então desassistidos, são incorporados ao cuidado médico. Uma outra explicação para essa incorporação, além das já mencionadas (preocupação com a produtividade e controle das tensões sociais) estaria no fato de que tanto a indústria farmacêutica como a de equipamentos cresceu enormemente nestas últimas décadas. Como o lucro dessas atividades só se efetiva através dos atos médicos, que levam ao consumo das mercadorias produzidas por essa indústria, ela pressiona sempre no sentido de que os cuidados médicos se estendam a uma porção maior da população. É evidente que a própria população, por sua vez, luta para que o Estado proporcione sempre assistência médica mais adequada, o que leva à expansão da mesma, ainda que com diferenciação muito grande de qualidade, conforme se assinalou.

A discussão sobre relações da assistência com a estrutura social pode ser encarada ainda sob outros aspectos, mas vamos nos limitar a estes. Poderíamos, por exemplo, discutir o enorme desenvolvimento do aparato técnico dessa assistência; a crescente politização do ato médico; os movimentos de contestação a esse gigantismo tecnológico; a contradição gerada pelos custos crescentes dessa assistência, o que inevitavelmente vai lhe estabelecer um limite; as tentativas de racionalização dos serviços médicos; o surgimento

28MEDICINA, SAÚDE E SOCIEDADE de medicinas alternativas etc. Os limites de espaço nos obrigam, entretanto, a restringirmos nossa exposição aos pontos abordados.

O desenvolvimento de uma disciplina como a Medicina Social contribuiu, ao lado de outras causas evidentemente, para esclarecer a dupla natureza (biológica e social) do objeto da Medicina. O processo saúde-doença tendeu, cada vez mais, a ser percebido como sendo determinado (em boa parte pelo menos) pelo funcionamento e dinâmica do sistema social inclusivo onde ele ocorre. Passaram a ser devidamente consideradas as diferenças sociais na produção dos ditos fenômenos. Percebeu-se que saúde e doença só são explicáveis quando a sociedade deixa de ser vista como um todo homogêneo, estável e ahistórico e passa a ser, ao contrário, visualizada como dividida em classes, estratos e grupos sociais, freqüentemente opostos e mesmo antagônicos. Sob esse prisma, foram inovadas as concepções metodológicas que norteavam o entendimento da enfermidade. Ultrapassando relações causais imediatas, geralmente vinculadas apenas às características do organismo biologicamente considerado, a rotação de perspectivas proporcionada permitiu chegar à noção de totalidade social. Ou seja, entender que nem mesmo são as características sociais das pessoas que explicam boa parte das doenças, mas o conjunto de forças sociais mais profundas, as quais só podem ser adequadamente compreendidas quando nos voltamos para o bosque, deixando de nos cingir tanto às árvores que o compõem. Em termos de explicação e solução do problema doença, a novel disciplina tem mostrado que encarar o homem isoladamente, ou a população indistintamente, implica, sem dúvida, em construir uma abstração inadmissível.

A explicação sociológica dos fenômenos médico-sociais, contudo, refere-se, principalmente, aos processos sociais vinculados às práticas sociais da medicina (especialmente assistência médica). É que, nesse caso, os fenômenos são inequivocamente sociais, com

29José Carlos de Medeiros Pereira a especificidade de estarem vinculados à área médica. A visão mais abrangente e totalizadora de como se estrutura, funciona e se transforma o sistema social, permite à Medicina Social determinar com mais precisão os aspectos extramédicos presentes na assistência médica. Tratando-se de uma sociedade dividida em segmentos sociais que mantêm entre si relações de dominação-subordinação ao nível sócio-econômico e político, entende-se que, nela, a proteção da vida e da saúde dependa de um cálculo econômico. É que, na verdade, tal assistência não é prestada, exatamente, a corpos biológicos mas a corpos sociais. O que está em jogo é a produtividade dos mesmos, seu poder, sua riqueza, seu prestígio. Quem os possui recebe tratamento (ou melhor tratamento). Não se pode, evidentemente, desconsiderar a capacidade política das classes dominadas de lutar por uma melhor atenção médica, mas a expansão da mesma, ocorrida no capitalismo, vincula-se, em grande parte, ao processo de reprodução ampliada do capital. Ou seja, valores alheios à ordem médica, em geral, orientam as decisões nesse campo.

Enfim, uma diferente concepção geral do mundo e o domínio de outro instrumental metodológico, permitiram desenvolver um marco teórico de mais longo alcance seja no tocante à explicação do processo saúde-doença, seja na compreensão dos determinantes das práticas sociais da medicina.Tornou-se evidente que, para isso, era necessário considerar a sociedade específica em que esses fenômenos ocorrem, com seu sistema de estratificação social, de produção econômica e de distribuição de bens e serviços. Sobretudo no caso da assistência médica, a perspectiva aberta pela Medicina Social apontou o fato de as soluções aventadas, ao nível individual e coletivo, basearamse, freqüentemente, numa percepção incorreta das relações sócioculturais e dos interesses político-econômicos envolvidos. Se a visão predominante contribui, muitas vezes, para tecnificar variados problemas que são principalmente sociais, transformando-os em problemas médicos, esta outra (ainda heterodoxa) tende a colocá-los no campo específico de sua resolução: o político.

RESUMO

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O artigo apresenta o ponto de vista da Medicina Social quanto ao estudo tanto do processo saúde-doença como da assistência médica. Nele, de início, se aponta o fato de essa disciplina ter-se aproveitado, recentemente das contribuições feitas pela Epidemiologia Social (no tocante à interpretação social do processo saúde-doença) e pela Sociologia da Saúde (quanto à determinação extramédica da assistência médica). É exposto, em linhas gerais, o modo como essa disciplina explica os dois processos. Esclarece-se como ela concebe a Medicina como uma ciência histórico-social também, encarando os homens, sadios ou doentes, não apenas como corpos biológicos mas, sobretudo, como corpos sociais, inseridos em sociedades dadas, membros de determinadas classes e grupos sociais, participantes de relações sociais específicas. Indica-se como a rotação de perspectiva decorrente, ao alterar o paradigma do investigador, permite a este ver coisas novas em relação aos mesmos fatos.

Em seguida estuda-se mais de perto a enfermidade como fenômeno social. Mostra-se como vê-la apenas como fenômeno natural tem enorme signficado político, pois transforma os problemas sociais envolvidos na produção da doença em problemas técnicos e não políticos. A Medicina Social, ao não fragmentar seu objeto, insere o fenômeno num todo social coerente, ao contrário da Medicina tradicional. Sua proposta de investigação ultrapassa o exagerado nível de concreticidade com que esta vê o processo saúde-doença, permitindo-lhe considerar outros aspectos essenciais do mesmo. É que a nova disciplina entende que o estudo do homem, sadio ou doente, isolado de seu contexto social, constitui mera abstração, já que ele participa de sociedades históricas, divididas, conflituosas, competitivas, em que os diferentes segmentos sociais têm desigual poder, riqueza e prestígio. Conseqüentemente, não se pode tomar a presença do homem numa determinada cadeia epidemiológica como inevitável. Ou seja, a Medicina Social volta-se para as diferenças sociais, considerando-as fundamentais.

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Na parte final discutem-se os determinantes extramédicos da assistência médica. Este seria o outro conjunto de fenômenos pela qual se interessaria a disciplina examinada. Depois de se definir o que se entende por assistência médica, mostra-se como as práticas sociais da mesma configuram uma instituição social. Tomando-a como tal, verifica-se que a assistência médica raramente guia-se por critérios tão-somente médicos: em termos societários, políticos e econômicos, umas vidas têm sempre mais valor do que outras. As mesmas diferenças de tratamento são também claramente percebidas quando se estuda a história da assistência médica. É que como os corpos são principalmente sociais, eles se hierarquizam de acordo com sua produtividade, com o capital neles investido, segundo seu status e poder. Mesmo quando a assistência médica se volta para as populações marginais, o mais das vezes o que se pretende com ela é diminuir as tensões sociais.

O autor entende, contudo, que explicar toda e qualquer transformação no âmbito da assistência médica como se vinculando inteiramente aos interesses do capital seria incorrer num mecanismo inadmissível. Crê que para explicar cabalmente o processo em discussão seria preciso ter em conta toda a complexidade da realidade social, na qual os aspectos políticos e sociais, por exemplo, desempenham também um importante papel. Ainda que sendo as determinações econômicas as mais evidentes, sem dúvida, haveria ainda que discutir outros pontos, como a influência da ciência e da técnica no aparato técnico dessa assistência, a crescente politização do ato médico, os movimentos de contestação ao tipo de assistência médica hoje em voga, as tentativas de racionalização dos serviços médicos, o surgimento de medicinas alternativas etc.

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2. MEDICINA PREVENTIVA, SAÚDE PÚBLICA E PROBLEMAS SOCIAIS

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2.1. O PROJETO PREVENTIVISTA E A NOÇÃO DE SUBDESENVOLVIMENTO*

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