Artigo sobre Ratzel-UCG

Artigo sobre Ratzel-UCG

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Resumo: busca-se, mediante análise dos acontecimentos históricos que permeiam a unificação alemã até a formação do I Reich, analisar se e de que forma os pensamentos do geógrafo alemão Friedrich Ratzel influenciaram a geopolítica da Alemanha nazista. Contextualizando os momentos em que as idéias de Ratzel e Hitler são passadas para o papel, procura-se afirmar que a política do I Reich nada mais é do que uma releitura da política do império alemão, o que afirma a influência, ainda que indireta, da ideologia de Ratzel nos planos de conquista do Lebensraum por Hitler.

Palavras-chave: Lebensraum, I Reich

Riccardo Raggi, Raphael MelloRaphael MelloRaphael MelloRaphael MelloRaphael Mello, Vinícius Rick A INFLUÊNCIA DA TEORIA

“Estado é poder – essa célebre máxima do geógrafo alemão Friedrich Ratzel constitui a melhor e mais concisa definição de Geopolítica.

Seu conhecimento sobre o tema se notabilizou pelo engajamento intelectual no projeto bismarckiano de unificação do Estado alemão sob o comando da Prússia na segunda metade do século XIX. Segundo o geógrafo marroquino Lacoste (1988, p. 24),

Friedrich Ratzel realizou a obra que, ainda hoje, influencia consideravelmente a geografia humana: sua Antropogeografia está estreitamente ligada à sua Geografia Política. Retomando inúmeros conceitos ratzelianos, tal como o Lebensraum e dos geógrafos americanos e britânicos (Mackinder), o geógrafo Karl Haushofer dá, em seguida a primeira guerra mundial, um impulso decisivo à geopolítica. Sem dúvida numerosos geógrafos considerarão que é a última inconse- qüência estabelecer uma aproximação entre sua geografia ‘científica’ e o empreendimento do general, estreitamente ligado aos dirigentes do NSDAP (Nazional Sozialistische Deutsch ArbeiterPartei). A geopolítica hitleriana foi a expressão mais exacerbada da função política e ideológica que pode ter a geografia. Pode-se mesmo perguntar se a doutrina do Führer não teria sido largamente inspirada pelos raciocínios de Haushofer, de tal forma estreitas relações particularmente a partir de 1923-24, época em que Hitler redigiu o Mein Kampf, na prisão em Munique1.

Os ideais de Ratzel enxergavam no Estado uma emanação natural da sociedade destinada à defesa e expansão do território, enquanto suas leis de expansão espacial dos Estados, que concebem o processo civilizatório em termos de crescimento territorial, funcionaram como justificativa teórica para o movimento de unificação alemã empreendido através de guerras sucessivas.

A revolução de 1848 teve eco imediato na Alemanha, ao contrário do que acontecera com a Revolução Francesa. Insurreições populares em todos os estados da federação obrigaram os amedrontados príncipes a grandes concessões. Em maio, reuniu-se a Assembléia Nacional em Frankfurt. O arquiduque austríaco João foi eleito regente do império. O centro liberal, que visava uma monarquia constitucional com direito eleitoral limitado, era a força dominante na Assembléia. Contudo, a excessiva fragmentação partidária dificultava o trabalho legislativo. A classe política estava dividida entre a chamada “grande solução” e a “pequena solução”, ou seja, um império alemão com ou sem a Áustria (STACKELBERG, 2000).

Afinal aprovou-se uma constituição democrática, na qual se tentava conjugar o velho com o novo. Ela previa que o governo prestasse contas ao parlamento. Como a Áustria insistia em incorporar ao futuro império todo o seu território, composto de mais de uma dúzia de povos, venceu a tese da pequena solução. A Assembléia Nacional ofereceu ao rei da Prússia, Frederico Guilherme IV, a coroa hereditária do Império Alemão. Mas o soberano não quis aceitar a dignidade de imperador concedida por uma revolução. Em maio, fracassaram os levantes populares que pretendiam impor a constituição “de baixo para cima”. Selada a derrota da revolução alemã, a maioria das conquistas foram anuladas e, em 1850, foi restabelecida a Liga Alemã.

O grande progresso econômico registrado em meados do século XIX trabalhou a favor da unificação, tornando a Alemanha um país industrial, com destaque para a indústria pesada e a construção de máquinas. Na vanguarda desse desenvolvimento estava a Prússia. A pujança econômica, por sua vez, fortalecia a consciência política da burguesia liberal. O Partido Progressista Alemão, fundado em 1861, tornou-se a principal força no parlamento da Prússia, opondo-se muitas vezes ao governo.

Empossado em 1862 como chanceler, Otto von Bismarck aceitou o desafio de governar contra o parlamento e sem um orçamento por ele aprovado. Para impor a cobrança de novas taxas e assim financiar a reforma militar que pretendia fazer, recorreu a medidas repressivas, como a censura da imprensa e a restrição do direito de reunião.

Os êxitos na política externa compensaram a fraca posição de Bismarck na política nacional. Ao vencer a guerra contra a Dinamarca (1864), a Alemanha obteve os territórios de Schleswig-Holstein, no norte, passando a administrá-los juntamente com a Áustria. O objetivo de Bismarck, contudo, era anexar os dois ducados. O conflito acabou levando a uma guerra contra a Áustria, que saiu derrotada (1866). A Liga Alemã foi dissolvida e substituída pela Liga Setentrional Alemã, que reunia todos os estados germânicos ao norte do rio Meno, tendo Otto von Bismarck como chanceler (primeiro ministro).

Completando a unificação da Alemanha no sentido da pequena solução, Bismarck conquistou a Alsácia e a Lorena, numa guerra contra a França (1870-1871) deflagrada por causa de um conflito diplomático. Imbuídos de patriotismo, os estados do sul da Alemanha uniram-se à Liga Setentrional Alemã, constituindo o segundo Império Alemão ou Reich. Em Versalhes, o rei Guilherme I da Prússia foi proclamado imperador da Alemanha no dia 18 de janeiro de 1871.

A unidade alemã, portanto, não resultou da vontade do povo ‘de baixo para cima’, mas de um pacto entre os príncipes, isto é, ‘de cima para baixo’ e com a supremacia esmagadora da Prússia. O parlamento do Império, o Reichstag, era eleito por sufrágio igualitário e tinha apenas uma influência indireta no governo. O chanceler do império, embora só devesse prestar contas ao imperador, era obrigado a procurar apoio para sua política no parlamento.

Bismarck governou o império por 19 anos, fortalecendo sua posição na nova constelação de forças na Europa por meio de uma política de paz e de alianças. Sua política nacional, porém, estava distante dessa sabedoria. Combateu tendências democráticas por considerá-las inimigas do império, lutou contra a ala esquerda da burguesia liberal, contra os políticos católicos e, principalmente, contra o movimento operário organizado, que reprimiu durante 12 anos. Bismarck, de certa forma, terminou sendo vítima do seu próprio sistema. A política personalista do jovem imperador Guilherme I forçou-o à demissão em 1890. Sob o reinado de Guilherme I, a partir de 1890, a Alemanha procurou recuperar o terreno perdido na corrida imperialista das grandes potências. A participação do país no movimento colonial, porém, deu-se em proporções modestas. Suas possessões incluíam o Togo, Camarões, o Sudoeste Africano e territórios denominados de África Oriental Alemã.

O progresso material da Alemanha, aliado a um grande aumento populacional (de 41 milhões em 1871 para 61 milhões em 1910), talvez tenha sido o aspecto mais importante nas décadas que precederam a Primeira Guerra Mundial. O aumento da produção levou a um grande aumento da exportação. A siderurgia desenvolveu-se a todo vapor, dando origem a firmas poderosas como a Krupp e a Thyssen entre outras. Na indústria química os fertilizantes melhoravam a agricultura e os explosivos repercutiam no campo militar.

Um clima de intenso nacionalismo se expandiu, influenciando a política do imperador, que a definiu na seguinte máxima: “Política mundial como missão, potência mundial como objetivo, esquadra como meio” (STACKELBERG, 1999, p. 51). A ênfase dada à marinha decorria da concorrência com o Reino Unido e da brusca intensificação dos interesses coloniais germânicos.

Em 1900, uma nova lei naval dobrava o poderio marítimo alemão.

Não só se aguçava a rivalidade econômica anglo-alemã, como também se complicava o panorama internacional. Preparativos militares, com o aumento do exército, caracterizaram o ano de 1913 em que, após um clima de desconfiança internacional geral, se definiram os que viriam a ser os principais adversários do primeiro conflito mundial: Alemanha e Áustria de um lado, contra Inglaterra, França e Rússia, de outro.

Um revigoramento do processo de sistematização da então Geografia ocorrerá com as formulações do prussiano/alemão Friedrich Ratzel que publica suas obras no último quartel do século XIX. Enquanto os também estudiosos Humboldt e Ritter vivenciaram o aparecimento do ideal da unificação alemã, Ratzel vivencia a constituição real do Estado nacional alemão e suas primeiras décadas, sendo suas formulações compreensíveis apenas em função da época e da sociedade em que as engendraram, porém, triviais o bastante para “servir de instrumento poderoso de legitimação dos desígnios expansionistas do Estado alemão recém construído” (MORAES, 1986, p. 52).

A unificação tardia da Alemanha, que não impediu um relativo desenvolvimento interno, deixou-a de fora da partilha dos territórios coloniais o que alimentava um expansionismo latente que aumentava com o próprio desenvolvimento interno. Daí vem o agressivo projeto imperial, o propósito constante de anexar novos territórios. Ratzel veio a ser um representante típico do intelectual engajado no projeto estatal e sua obra propôs uma legitimação do imperialismo bismarckiano. Assim, a Geografia de Ratzel expressa diretamente um “elogio do imperialismo [...] semelhante à luta pela vida, cuja finalidade básica é obter espaço e as lutas dos povos são quase sempre pelo mesmo objetivo. Na história moderna a recompensa da vitória sempre foi um proveito territorial” (MORAES, 1986, p. 5).

O principal livro de Ratzel, publicado em 1882, denomina-se

Antropogeografia: fundamentos da aplicação da Geografia à História. Podese dizer que, nesta obra, funda a Geografia Humana. Nela, Ratzel definiu o objeto geográfico como o estudo da influência que as condições naturais exercem sobre a humanidade. Estas influências atuariam primeiro na fisiologia (somatismo) e na psicologia (caráter) dos indivíduos e, através destes, na sociedade. Em segundo lugar, a natureza influenciaria a própria constituição social, pela riqueza que propicia através dos recursos do meio em que está localizada a sociedade; atuando também na possibilidade de expansão de um povo, obstaculizando-a ou acelerando-a e ainda nas possibilidades de contato com outros povos, gerando assim o isolamento e a mestiçagem.

Ratzel realizou extensa revisão bibliográfica sobre o tema das influências da natureza sobre o homem e concluiu criticando as duas posições mais coerente: a que nega tal influência e a que visa estabelecê-la de imediato. Diz ele que essas influências vão se exercer através das condições econômicas e sociais, sendo para ele também a sociedade um organismo que mantém relações duráveis com o solo manifestas, por exemplo, nas necessidades de moradia e alimentação. O homem precisaria então utilizar os recursos da natureza para conquistar sua liberdade que, nas palavras de Ratzel (1882), “é um dom conquistado a duras penas”. O progresso significaria o maior uso dos recursos do meio, logo, uma relação mais íntima com a natureza. Quanto maior o vínculo com o solo, tanto maior seria para a sociedade a necessidade de manter sua posse. É por essa razão que a sociedade cria o Estado, segundo Ratzel (1882): “Quando a sociedade se organiza para defender o território, transforma-se em Estado”. A análise das relações entre o

Estado e o espaço foi um dos pontos privilegiados da Antropogeografia. Para Ratzel, o território representa as condições de trabalho e a existência de uma sociedade e a perda de território seria a maior prova de decadência desta. Por outro lado, o progresso implicaria a necessidade de aumentar o território, de conquistar novas áreas. Justificando essas colocações, Ratzel se utiliza do conceito de Lebensraum (Espaço Vital), este representaria uma proporção de equilíbrio entre a população de uma dada sociedade e os recursos disponíveis para suprir suas necessidades definindo, assim, suas potencialidades de progredir e suas premências territoriais.

Não é difícil observar a íntima vinculação entre essas formulações de

Ratzel, sua época e o projeto imperial alemão. Esta ligação se expressa na justificativa do expansionismo como algo natural e inevitável, numa sociedade que progride gerando uma teoria que legitima o imperialismo bismarckiano. Também sua visão do Estado como um protetor acima da sociedade vem no sentido de legitimar o Estado prussiano, onipresente e militarizado.

A geografia proposta por Ratzel privilegiou o elemento humano e abriu várias frentes de estudo, valorizando questões diferentes à História e ao espaço como: a formação dos territórios; a difusão dos homens no globo (migrações, colonizações); a distribuição dos povos e das raças na superfície terrestre; o isolamento e suas conseqüências além de estudos monográficos das áreas habitadas. Tudo tendo em vista o objeto central que seria o estudo das influências que as condições naturais exercem sobre a evolução das sociedades. Em termos de método, a obra de Ratzel não realizou grandes avanços. Manteve a idéia da Geografia como ciência empírica, cujos procedimentos de análise seriam a observação e a descrição. Porém propunha ir além da descrição, buscando a síntese das influências na escala planetária ou, em suas palavras, “ver o lugar como objeto em si, como elemento de uma cadeia” (RATZEL, 1882). De resto, Ratzel manteve a visão naturalista: reduziu o homem a um animal ao não diferenciar suas qualidades específicas, assim propunha o método geográfico como análogo ao das demais ciências da natureza e concebia a causalidade dos fenômenos humanos como idêntica ao dos naturais. Daí o mecanismo de suas afirmações. Ratzel, ao propor uma Geografia do Homem, entendeua como uma ciência natural.

Os discípulos de Ratzel radicalizaram suas colocações, constituindo o que se denomina escola determinista da geografia ou doutrina do determinismo geográfico. Os autores dessa corrente partiram da definição ratzeliana do objeto da reflexão geográfica e simplificaram-na. Orientaram os seus estudos por máximas como “as condições naturais determinam a História” ou “o homem é um produto do meio”, empobrecendo as formulações de Ratzel que falava de influências. Na verdade, todo o trabalho destes autores se constituía da busca de evidências empíricas para teorias formuladas a priori. Seus mais eminentes representantes foram E. Semple e E. Huntington. Segundo Moraes (1986, p. 58),

A primeira geógrafa americana, aluna de Ratzel, foi a responsável pela divulgação da tese deste nos EUA. Um exemplo das formulações de Ellem Semple pode ser obtido na sua teoria, que relaciona a religião com o relevo: nas regiões planas predominam as religiões monoteístas, nas regiões acidentadas predominam as religiões politeísta.

As teorias do geógrafo inglês Elsworth Huntington eram um pouco mais elaboradas. Esse autor concebia um determinismo invertido, isto é, para ele as condições naturais mais hostis seriam as que propiciariam maior desenvolvimento. O livro mais importante de Huntington se denomina Clima e sociedade, e, nele, o autor defende a idéia de que os rigores do inverno explicariam, pelas necessidades impostas (abrigo, estocagem de comida), o desenvolvimento das sociedades européias. As teses deterministas, apesar do seu simplismo, foram bastante divulgadas e aparecem com freqüência no ideário do pensamento conservador. Basta pensar nas interpretações da história brasileira, que lançam mão de teorias como a “indolência do homem tropical” ou o “subdesenvolvimento como fruto da tropicalidade” (e a inevitável comparação com o desenvolvimento dos EUA, também colônia mas em clima temperado). Enfim, “o determinismo incorre na mais completa naturalização da História humana” (RATZEL, 1882, p. 112).

Outro desdobramento da proposta de Ratzel manifestou-se na constituição da Geopolítica. Esta corrente dedicada ao estudo da denominação dos territórios, partiu das colocações ratzelianas referentes à ação do Estado sobre o espaço. Estes autores desenvolveram teorias e técnicas que operacionalizavam e legitimavam o imperialismo. Isto é, discorriam sobre as formas de defender, manter e conquistar os territórios. Os autores mais conhecidos dessa corrente foram: Kjellen, Mackinder e Haushofer. O primeiro, um sueco, foi o criador do rótulo Geopolítica. O segundo, um almirante inglês, trouxe a discussão para o nível dos Estados – maiores tratando temas como o domínio das rotas marítimas, as áreas de influência de um país e as relações internacionais. Halford Mackinder, cuja principal obra intitula-se O pivô geográfico da História, desenvolveu uma curiosa teoria sobre as ‘áreas pivôs’ que seriam o coração de um dado território. Para ele, quem dominasse esse es- paço, dominaria todo o território. O general alemão Karl Haushofer, amigo de Hitler e presidente da Academia Germânica no seu governo, foi o outro teórico da Geopolítica. Deu a esta um caráter diretamente bélico, definindo-a como parte da estratégia militar. Este autor, que desenvolveu teorias referentes sobre a ação do clima sobre os soldados, criou uma escola e influenciou diretamente os planos de expansão nazistas.

Apesar de centrado na Geografia, o projeto teórico ratzeliano era essencialmente inter-disciplinar, visando explicar temáticas essenciais para o conjunto das Ciências Humanas. Isso aparece de forma inequívoca na sua preocupação central em entender a difusão dos povos pela superfície terrestre problemática que, segundo seu próprio juízo, projetaria História, Etnologia e Geografia num mesmo plano. A História forneceria um quadro da humanidade em todas as suas porções, recompondo o movimento dos povos no planeta dos múltiplos centros originais de irradiação da civilização humana para as sedes atuais; a Etnologia explicitaria as formas de coesão interna de cada grupo, tentando apreender as transformações vivenciadas por cada povo; à Antropologia, caberia apontar o equipamento biológico, os traços somáticos de cada raça e etnia. A Geografia se encarregaria de analisar as relações que impulsionaram ou frearam o movimento humano pelo planeta, as trocas que se estabeleceram entre os homens e os meios naturais entre suas sedes originárias e os espaços pelos quais trafegam. Na visão ratzeliana, poder-se-ia dizer que o estudo geográfico almeja uma explicação global da história da humanidade, debruçando-se sobre os diferentes contextos ambientais que compõem a Terra, pesquisando suas influências na evolução dos povos. Teria, portanto, por campo material a Terra, incluindo a análise do homem como um ser terrestre e, na medida em que ocorre a interpenetração da história humana com a do planeta, a Geografia seria o domínio de contato entre os fenômenos naturais e sociais.

Ratzel também se preocupava com a questão das minorias alemãs no exterior e o quanto a sua existência influía na idéia de uma nacionalidade alemã. A questão da nacionalidade era um tema recorrente na cultura alemã pelo menos desde o século XVIII. Acompanhando a revolução que se processava na vizinha França, primeiramente com entusiasmo e depois com desapontamento (pela ascensão do corso Bonaparte e pela política expansionista que ele empreenderia), diversos filósofos alemãs – Fichte, Herder, Hegel – construíram seu conceito de nacionalidade sobre bases totalmente diversas das utilizadas pelos iluministas franceses (a ver: universalidade abstrata, liberalismo, cosmopolitismo universalizante, racionalidade mecanicista). A nação, para tais filósofos, não era o produto do contrato entre indivíduos nem fruto da vontade geral, mas sim uma comunidade mística, metafísica, particular e indissolúvel. Defende-se assim o particularismo, o não-liberalismo (expresso em sistemas políticos conservadores ou de cunho autoritário) e o misticismo. Ratzel não escapou à influência desse conceito romântico de nação. Muito do que em sua obra apresenta-se como uma regra geral sofre, no decorrer da leitura, sucessivas particularizações. Afinal ele também era um defensor da aproximação entre Geografia e Ciência Política, não estava preocupado apenas em ser um cientista, mas desejava sim fazer da Geografia um instrumento na mão dos homens de Estado. Ratzel, contudo, não foi explícito na defesa do Reich alemão como Haushofer, nunca tendo afirmado que seu objetivo principal fosse o de municiar os dirigentes do Reich de dados geopolíticos para construir uma Alemanha hegemônica em âmbito mundial.

Ratzel inicia sua exposição com um determinado conceito de Estado.

O Estado é, para ele, “um organismo que deve ser compreendido em íntima conexão com o espaço” (RATZEL, 1882, p. 63). A idéia de organismo Ratzel vai buscar na Biogeografia – a saber, disciplina que estuda a íntima relação entre as formas de vida mais primitivas e o solo ao qual se vinculam. A analogia porém não é completa: o solo, por suas características próprias, é considerado um substrato, uma base, um potencial a ser desenvolvido; o resultado final dependerá igualmente do caráter do povo que se estabelece nesse solo particular, não é o solo quem comanda a História humana de forma unilateral, bem tampouco o povo. O determinismo, se há, é de pequeno grau. Ratzel, portanto, não concebeu seu Estado como um organismo vivo, mas como um organismo moral , espiritual, responsável por articular o solo – elemento invariante, cujo potencial é latente – e o povo – elemento variável, que através de seu “espírito”, cultura, desenvolverá o potencial do solo. O Estado não pode ser um organismo biológico, já que os seres vivos estabelecem entre si relações de interdependência e, na visão de Ratzel, somente os indivíduos dependem do Estado. O Estado não se confunde, portanto, com o povo, estando acima dele (concepção de caráter conservador e autoritário, mantida por Kjellen e Haushofer). São explícitas nessa formulação as características do Reich alemão no período bismarckiano. O conteúdo ideológico das afirmações e mesmo seu caráter instrumental direto permitem incluí-la no espaço da Kulturkampf (política cultural, estimulada pelo Estado alemão no final do século XIX de forte apelo nacionalista). Os gérmens que levariam Ratzel à Geopolítica nos seus derradeiros escritos já estão presentes de certa forma na sua concepção de Estado.

Ratzel deixa claro que o desenvolvimento de um organismo estatal não é homogêneo – ele tende naturalmente à fragmentação interna, havendo valorização diferenciada das partes do território, estabelecendo-se relações do tipo “centro-periferia”, sendo que ao centro cabe a totalidade do poder. A estrutura de circulação no interior dos estados torna-se, então, de suma importância. Tal estrutura, bem como a própria coesão e unidade no interior do Estado, para serem eficientes, requerem a aplicação de estratégias, as quais Ratzel dividiu em “territoriais” e “não territoriais”. As primeiras refletiriam relações de domínio do Estado sobre o território (solo), mas não refletem projetos expansionistas (a valorização do espaço é maior que sua extensão). As segundas englobam políticas culturais e econômicas, ligadas ao fortalecimento da coesão e unidade sociais. Há empecilhos à ação integrada do Estado: os donos de terra, por exemplo, considerados uma força centrífuga e desagregadora, não merecem a simpatia de Ratzel na medida que, exercendo um poder local que se opõe à ação central do Estado, favorecem a fragmentação deste e a perda da coesão social.

Nas relações externas do Estado surge a questão das fronteiras. Ratzel (1882, p. 87) afirma que “as guerras fazem com que as fronteiras desapareçam – para evitar a conquista pelo inimigo, é fundamental possuir uma rede de circulação bem estruturada”. A estrutura de circulação aparece novamente como fator fundamental. Não é por outra razão que o Estado é um organismo espiritual e moral – são essas características que lhe permitem organizar, de forma coesa, criando uma estrutura eficiente de circulação, um território fragmentado de forma assimétrica onde coexistem diferentes populações, criando um mesmo ‘espírito nacional’. A extensão dos Estados, ou seja, o tamanho do solo, não é o que interessa aos geógrafos políticos e sim as formas de se integrar um território partido em fragmentos diversos, com populações as vezes díspares. Não obstante a sua importância, essa parte da obra de Ratzel não teve ressonância nos trabalhos posteriores tanto de Kjellen quanto de Haushofer, pois não favorecia o expansionismo do Reich alemão, tão prezado por ambos.

Os últimos trabalhos de Ratzel contradizem muitos de seus conceitos anteriores, prenunciando a Geopolítica. Neles, surge um dado novo: o autor defende uma posição imperialista na relação Estado/território. A violência, a guerra e a conquista passam a ser consideradas elementos constituintes da História humana. O embate entre as sociedades, etnias e nações podem resultar em comércio, assimilação ou em guerra e estão vinculadas ao conceito de civilização. Quando um povo num estágio inferior de civilização é englobado por um detentor de uma dinâmica avançada, o processo teria por conseqüência a fuga, aniquilação ou eliminação total. Os ‘povos naturais’, por meio da guerra, obtêm expressivo volume de recursos saqueados, além de escravos, ao passo que os ‘povos civilizados’ objetivariam a conquista territorial.

O imperativo da conquista territorial, por parte dos “ povos civilizados” , é explicado por Ratzel a partir de elementos apropriados de Malthus – o crescimento populacional e as necessidades de subsistência trariam para o Estado a necessidade de aumentar seu território. Surge, assim, o conceito de espaço vital (Lebensraum) – até então Ratzel só havia aceitado esse conceito no âmbito da Biogeografia, remetendo a organismos biológicos, seres vivos. Aplicado também ao Estado, via adoção das teorias populacionais de Malthus, Ratzel acaba por justificar o expansionismo alemão, no que influenciará toda a Geopolitik, sem esquecer Kjellen. Nesse juízo, o colonialismo é exaltado na medida que funciona como elemento difusor da civilização. Ratzel adota, assim, uma postura mais explícita quanto às relações internacionais de sua época (até então havia se mantido relativamente afastado de questões práticas), defendendo a necessidade do Império Alemão possuir mais saídas para o mar, bem como o fortalecimento dos laços entre os povos de sangue germânico, o pangermanismo. Tal mudança de atitude provavelmente deve-se ao incremento da tensão a nível internacional verificado no início do século X, fato que inflamou o nacionalismo não só na Alemanha, como também em toda a Europa. As últimas obras de Ratzel, sem sombra de dúvida, são as que mais influenciaram Haushofer e seus companheiros de Geopolitik.

O fim da Primeira Guerra Mundial proporciona grandes reviravoltas na Alemanha. A Alemanha imperial havia fracassado e o poder passou para as mãos dos democratas sociais, maior partido de oposição da era imperial.

No contexto de surgimento do Mein Kampf, a república de Weimar passava pelo seu momento mais crítico:

Graves perturbações econômicas e políticas e lutas civis caracterizaram a primeira parte, de 1919 a 1924. O governo (com freqüentes mudanças de gabinetes e coalizões de partidos) descobriu-se assediado por levantes revolucionários da esquerda, tentativas contra-revolucionárias de putsch e uma campanha de assassinatos terroristas da direita, movimentos separatistas na Baviera e Renânia, e os esfor- ços das potências vitoriosas, especialmente da França, para exigir o pagamento das reparações, nos termos estipulados pelo Tratado de Versalhes (STACKELBERG, 2000, p. 93).

A causa de toda a falta de credibilidade do governo residia, entre outros fatores, na suposta “conspiração de judeus e socialistas” que haviam minado a moral na frente interna, desacreditando o exército alemão (STACKELBERG, 2000, p. 94).

Outro fato que desagradava grande parte da opinião pública alemã, e em especial os veteranos da Primeira Guerra, era a diferença característica da política externa da república de Weimar com a do I Reich. Segundo Hitler (2001), enquanto a política externa do I Reich refletia as aspirações alemãs de se tornar uma grande potência – herança da política de Bismarck –, ou seja, uma política agressiva que buscava adquirir respeito no cenário internacional, a política da república de Weimar era caracterizada pela subserviência às vontades das potências aliadas, especialmente a França, que colocavam a Alemanha em posição de escravidão ante as exigências ‘absurdas’ do Tratado de Versalhes.

Em suma, tamanho era o grau de agitação na Alemanha do entre-guerras, tão grande a frustração com a pobreza generalizada e o ódio acumulado contra o judaísmo internacional, que se tornou inevitável a tentativa de golpe por parte dos seguidores de Adolf Hitler. No dia 09 de novembro de 1923, frustra-se a tentativa de Marcha sobre Berlim, mas os conflitos entre a polícia e os nazistas deixam 16 nazistas e 3 policiais mortos. Hitler vai a julgamento e, “por seu ato de alta traição, [...] recebeu apenas a pena mínima de cinco anos, e só permaneceu preso por oito meses” (STACKELBERG, 1999, p. 110). Daí surge a oportunidade de Adolf Hitler reunir suas idéias em um livro, na prisão de Landsberg.

Chega-se, assim, à questão crucial desse artigo: se e em que sentido as idéias de Ratzel influenciaram a política externa do I Reich. Já vimos anteriormente que as idéias de Friedrich Ratzel foram muito importantes na legitimação, ainda que somente interna, da política externa do I Reich, marcada por uma corrida colonial em busca de novos territórios que garantissem ao povo alemão o espaço suficiente para a consolidação da Alemanha como potência mundial, assim como afirma Moraes (1986, p. 56).

Dentre as várias leis espaciais elaboradas por Ratzel, as que mais nos chamam a atenção são as que se referem às relações entre população e a terra; a preocupação com o crescimento demográfico e a expansão da cultura como forma de influência. Hitler, assim como Ratzel, acreditava que “a perda de território seria a maior prova de decadência de uma sociedade. Por outro lado, o progresso implicaria a necessidade de aumentar o território, logo, de conquistar novas áreas” (MORAES, 1986, p. 56).

Isso se comprova várias vezes quando se lê Mein Kampf. Hitler (2001, p. 403-5) defendia a orientação de uma política externa que garantisse o “equilíbrio entre o solo e a população, [também diz ser dever do Estado] assegurar ao povo alemão o solo que lhe compete neste mundo”. Vê-se aqui uma profunda conexão, assim como nas idéias de Ratzel, uma ligação entre o solo (Boden) e o povo. Continuando a expor suas idéias, Hitler (2001, p. 400) vai afirmar que, em política externa, o Estado deveria ter como dever a garantia de existência da raça através do estabelecimento de “uma proporção natural entre o número e o crescimento da população de um lado e, do outro, a extensão e a qualidade do solo”.

Também é preocupação do Führer a baixa natalidade na Alemanha, vários países “ultrapassam não só em população a grandeza do povo alemão” (HITLER, 2001, p. 403). A preocupação com essa questão era tão grande que em seu governo haverá uma grande propaganda de estímulo ao aumento populacional. As mulheres que tinham mais filhos recebiam a Cruz da Mãe, uma espécie de condecoração que imitava a condecoração militar da Cruz de Ferro. Por isso era importante garantir a essa população uma forma de subsistência, um pedaço de terra para cada filho da Alemanha: Lebensraum.

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