serviço social

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Metodologias de atendimento à família: o fazer do assistente social

Cristiane da Silva de Jesus*, Karla Terezinha Rosa e Greicy Gandra Soares Prazeres

Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. *Autor para correspondência. Rua Sagrado Coração de Jesus, 189, Morro das Pedras, 88066-070, Florianópolis, Santa Catarina, Brasil. e-mail: cris-didi@bol.com.br ou gapefam@terra.com.br

RESUMO. A prática profissional dos assistentes sociais com famílias acompanha a história da profissão, o que os leva a buscar formas de atendimento mais eficazes e efetivas. O presente estudo se propõe identificar as metodologias de atenção às famílias, desenvolvidas pelo Serviço Social. O estudo, do tipo exploratório, foi realizado com assistentes sociais de instituições de Florianópolis, Estado de Santa Catarina, Brasil. Como resultado, identificamos que: a finalidade dos serviços concentra-se na área da assistência, seguida da educação e da pesquisa; como referencial teórico-metodológico, percebemos diferentes vertentes, revelando ecletismo na condução dos trabalhos; como instrumental técnicooperativo, se sobressaem os encaminhamentos, as visitas domiciliares, o estudo e o parecer social; já a forma de atuação transita entre a disciplinaridade e a interdisciplinaridade. Constatamos que o trabalho com famílias envolve quatro etapas: entrada da família, identificação, acompanhamento e seu desligamento. Os profissionais ressaltam resultados positivos e a importância de se contemplar a família como totalidade.

Palavras-chave: metodologia, serviço social, família, interdisciplinaridade.

ABSTRACT. Family attendance methodologies: the social worker’s doing. The social workers professional practice with families has been presented since the beginning of that profession, demanding of the professionals researching new and more efficient and effective ways of attending the family. The present study proposes to identify social workers family methodologies in institutions in Florianópolis, Santa Catarina state, Brazil. Results show that professionals are directed, first of all, to assistance, second to the education and at last to research. The study shows professionals using eclectic frameworks. The instruments and techniques most used are forwarding, home visits, social study and social report. Social workers performance vary between disciplinary and interdisciplinary conducts. The authors verified that the family assistance involves fours steps; the family entering in the program, identification, attendance and discharge. Professionals emphasize the positive results and the importance to attend family as a whole.

Key words: methodology, social worker, family, interdisciplinary conduct.

Introdução

Historicamente, a família sempre esteve inserida na área de atuação do Serviço Social, porém, na maioria dos serviços, ela vem sendo contemplada de maneira fragmentada, ou seja, cada integrante da unidade familiar é visto de forma individualizada, descontextualizada e portador de um problema. Em vista disso, um dos desafios da profissão é a busca de metodologias para trabalhar a família como um grupo com necessidades próprias e únicas.

Neste relato apresentamos os resultados de uma pesquisa sobre a prática profissional do assistente social com famílias, que integra o projeto

Laboratório de Saúde Familial e Cidadania: propondo modelos assistenciais e construindo um processo de trabalho interdisciplinar (Elsen et al., 1999), desenvolvido pelo Laboratório de Estudos e Práticas Interdisciplinares em Família e Saúde – LEIFAMS/UFSC.

Como um dos propósitos do LEIFAMS é o desenvolvimento de tecnologias de ensino, de pesquisa e de assistência voltadas à família, procuramos, inicialmente, conhecer as experiências nesse âmbito. Para tanto, o grupo fez um levantamento acerca da produção científica do Grupo de Assistência, Pesquisa e Educação na Área de Saúde da Família – Gapefam, bem como nas áreas de Serviço Social e de Enfermagem. O

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Acta Scientiarum. Health Sciences Maringá, v. 26, no. 1, p. 61-70, 2004 trabalho que ora apresentamos integra esses estudos e teve por objetivos: conhecer o trabalho realizado pelos assistentes sociais nos serviços de atenção à família do município de Florianópolis, Santa Catarina; identificar as metodologias desenvolvidas pelo Serviço Social no atendimento à família; e evidenciar se a interdisciplinaridade emerge no seu fazer. Em última instância, tinha o propósito de subsidiar um projeto de atenção interdisciplinar à família a ser desenvolvido posteriormente pelo Gapefam.

Material e métodos

O estudo desenvolvido foi do tipo exploratório, de natureza qualitativa, realizado em Florianópolis, em 9 instituições (3 organizações governamentais e 6 não-governamentais) que contam com assistentes sociais em seu quadro técnico. A relação desses serviços surgiu através do conhecimento das pesquisadoras e de informações do Departamento de Serviço Social da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Recorremos ainda à relação das entidades cadastradas no Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente de Florianópolis, que indicava o público-alvo atendido pelas mesmas.

Para a coleta de dados, foi construído um roteiro de entrevista semi-estruturado, previamente testado por dois peritos, do qual constam questões relacionadas ao serviço (nome, população atendida, duração, recursos humanos e financeiros, etc.) e à prática profissional (referencial teórico, instrumental teórico-metodológico, formas de atendimento, entre outros).

As entrevistas foram gravadas após autorização do entrevistado e tiveram a duração média de duas horas. Para tanto, foi realizado um contato telefônico prévio com os serviços a fim de apresentar o Gapefam e a pesquisa e verificar a existência do Serviço Social atuando junto às famílias. Sempre que havia esse trabalho, agendávamos a entrevista conforme a disponibilidade dos profissionais.

Durante o encontro, apresentávamos aos profissionais uma carta esclarecendo os objetivos da pesquisa e nossa observância aos preceitos éticos que nos norteavam, o sigilo e os direitos de pessoas, grupos, famílias e instituições envolvidos.

As entrevistas foram gravadas em fitas magnéticas e transcritas com base em Correa (1978). No decorrer deste trabalho, utilizamos as falas dos profissionais com o intuito de exemplificar os dados apresentados. Os depoimentos são apresentados seguidos de uma numeração referente ao número do serviço.

Foram entrevistados 1 assistentes sociais, sendo que 1 administrador também participou da entrevista, uma vez que este era o fundador da instituição que representava. Os dados foram agrupados por questões e posteriormente categorizados sob a forma de quadros. A discussão apresenta os resultados deste estudo na perspectiva da prática profissional.

Resultados e discussão

Finalidade dos serviços no atendimento às famílias

Na intenção de conhecer a finalidade de cada serviço, perguntamos aos assistentes sociais se as ações desenvolvidas concentram-se na área da Assistência, da Educação e ou da Pesquisa.

Os resultados apontam que 4 serviços apresentam como finalidade a Assistência às famílias, Educação e Pesquisa; 3 referiram sua atuação somente no campo da Assistência; 1 definiu o trabalho voltado para a Assistência e a Educação; e 1 na área da Educação e da Pesquisa.

Cabe ressaltar que, nos três serviços em que a

Assistência é apontada como a única finalidade adotada, percebemos que as ações educativas como orientação, socialização de informações e prevenção também são desenvolvidas, contudo, a orientação é priorizada nas falas dos assistentes sociais:

Orientação às famílias, grupos com adolescentes para integrá-los [...] discutindo temas pertinentes à adolescência.(Serviço 3)

É feita uma orientação/educação quando a criança/adolescente passa os finais de semana com a família [...].(Serviço 6)

Segundo Mioto (2002:1), “as ações sócioeducativas estão relacionadas às ações que, através da informação, da reflexão ou mesmo da relação, visam provocar mudanças (valores, modos de vida)”. Como comenta uma entrevistada:

As famílias estão buscando mais os seus direitos. [...] O vínculo que a gente tem com as famílias é muito bom [...] Eles sentem confiança para estar vindo, aí a gente esclarece e eles buscam o local certo [As famílias sentem que] podem contar com o Serviço Social, sabem que é um setor que está aberto ao apoio mesmo.(Serviço 9)

Neste contexto, a Educação aparece nos serviços com a finalidade de capacitação dos usuários e de seu desenvolvimento como cidadãos e sujeitos de direitos.

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A Pesquisa é descrita pelos assistentes sociais como uma das finalidades do serviço associada às áreas da Assistência e da Educação. Percebemos que, em alguns serviços, a pesquisa é entendida como sinônimo de levantamento de dados. Isso ocorre em serviços nos quais são realizados levantamentos junto às famílias com o objetivo de identificar seu perfil e suas necessidades e, a partir daí, traçar o plano de intervenção do projeto.

[...] A gente entendeu que seria necessário conhecer o contexto familiar dessas crianças. Então a gente elaborou um questionário com perguntas relacionadas à saúde, habitação, procedência, todo o quadro familiar, número de irmãos, renda familiar [...] A gente fez essa pesquisa e, durante as entrevistas, vimos que as pessoas não conheciam a fundação. [...] Com a pesquisa aumentou: a procura de vagas, as mães foram às reuniões e, no dia da devolução, tinham 29 famílias. [...] Na pesquisa apareceu também que elas tinham interesse em participar de algum grupo na comunidade [...], também a gente sentiu a necessidade de estar lá, atendendo à comunidade, mas não para dar cesta básica [...].(Serviço 2)

No entanto, alguns serviços também se propõem realizar estudos estatísticos e qualitativos para o conhecimento das questões sociais atendidas, principalmente na área da criança e do adolescente.

Na área da prevenção, também estamos com duas pesquisas que estão em andamento. [...] Com os agentes comunitários de saúde vão sair duas pesquisas. E tem uma que começou na área de exploração sexual [...] A idéia é retomar a pesquisa que foi iniciada no começo do ano, mas por questões de recursos humanos, foi parada. Deveriam ser feitas mais pesquisas nesta área.(Serviço 4)

Observou-se que a intenção de pesquisar é defendida pelos assistentes sociais no desejo de inserir em seu cotidiano a prática investigativa. Entretanto, isso nem sempre ocorre por fatores como o excesso de trabalho e a não-valorização de tal atividade por parte dos serviços.

Referencial teórico-metodológico utilizado pelos assistentes sociais

O processo de trabalho no Serviço Social, de acordo com Iamamoto (1997), é pautado no instrumental técnico-operativo utilizado por esse profissional. Esse instrumental não compreende apenas o arsenal de técnicas utilizadas para a efetivação do serviço, mas também o arsenal teórico-metodológico (conhecimento, valores, herança cultural, habilidades). Essa base teóricometodológica é constituída pelos "recursos essenciais que o assistente social aciona para exercer o seu trabalho" (Iamamoto, 1997:43), a fim de iluminar a leitura da realidade, direcionar melhor sua ação e moldá-la.

A apropriação do referencial teóricometodológico, por parte do assistente social, permite-lhe apreender a realidade numa perspectiva de totalidade e construir mediações entre o exercício profissional comprometido e os limites dados pela realidade de atuação.

Nessa ótica, procuramos identificar os principais referenciais teóricos apropriados pelo assistente social no trabalho com famílias, bem como as noções, os conceitos e os autores mais utilizados (Figura 1).

Serviço Referencial teórico Noções Autores

1 Teoria Sistêmica e Analítica. Família e Direitos Humanos, Família e Políticas Públicas e Família Contemporânea. Não referiram.

2 Não referiram. Educação Popular, Família, Comunidade, Educação e Rede, Criança e Adolescente.

Maria do Carmo Brant de Carvalho, Luiz Carlos Osório.

3 Pensam ser marxistas. Também usam a Fenomenologia. Família, Criança, Desenvolvimento Infantil. Vigotsky e Piaget.

4 Não referiram. Violência contra Crianças e Adolescentes, Políticas

Públicas. Azevedo e Guerra.

5 Realizaram estudos teóricos nas reuniões semanais.

Teorias de família, ECA, Violência contra Crianças e

Adolescentes. Minuchin, Azevedo e Guerra.

Não possuem uma linha propriamente diferenciada porém, procuram estar mais próximas do marxismo.

Não referiram. Não referiram.

7 Não referiram. Vínculo, Adoção, Políticas Sociais, Família.

Lídia Weber, Fernando Freire, Cláudia Fonseca, Irene Rizini, Roberto da Silva, Maria Tereza Maldonado.

8 Teoria Sistêmica.

Família, Visão antropológica (estudos da família extensa, família nuclear). Comunidade, Educação popular.

Regina Célia Mioto, Paulo Freire, Leonardo Boff, Salvador Minuchin, Cínthya Sarti.

Serviço Social – Materialismo Dialético. Instituição – Sócio- Histórico Interacionista.

Família, Ética, Textos Pedagógicos – Infância e Violência Doméstica, - Doença mental, Transtornos invasivos de desenvolvimento e Desenvolvimento Neuropsicomotor, Políticas Sociais.

Marilda Iamamoto, José Paulo Netto, Vicente de Paula Faleiros, Ivete Simionatto, Aldaíza Sposatti, Vigotsky.

Figura 1. Referencial teórico-metodológico adotado pelos profissionais.

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As principais linhas teóricas mencionadas são a

Teoria Sistêmica e o Marxismo. Ressaltamos que o quadro também evidencia que os profissionais mesclam referenciais teóricos, não citam autores mais significativos da corrente teórica e/ou conceitos adotados e alguns não demonstram coerência entre as três categorias (referencial teórico, noções e autores).

O profissional que salientou não ter clareza do seu referencial teórico, noções e autores utilizados identificou que esse limite se deve à inserção do Serviço Social na instituição há poucos meses e, portanto, ainda em processo de estruturação.

As noções, os conceitos e os autores citados estão relacionados às particularidades de cada espaço ocupacional e às demandas apresentadas ao assistente social, como: família (foco de atenção dos serviços pesquisados), educação popular (junto a grupos de famílias em comunidades), criança e adolescente (nos serviços onde este segmento é a porta de entrada), políticas sociais e públicas (sendo o Serviço Social propositor e executor das mesmas), violência doméstica, bem como àquelas pertinentes à área da adoção, educação, desenvolvimento infantil e necessidades especiais.

Percebemos que o assistente social, em seu exercício profissional, busca atualizar-se e capacitarse constantemente, a fim de oferecer respostas profissionais às demandas oriundas dos processos sociais próprios da dinâmica da sociedade brasileira. No entanto, essa busca ocorre majoritariamente a partir das exigências colocadas no contexto dos serviços onde trabalham, isto é, os assistentes sociais procuram aprofundar seus conhecimentos para atender às demandas colocadas pelos locais de trabalho. Embora, por um lado, essa capacitação mereça destaque, por outro lado, ela pode indicar um afastamento das discussões circunscritas na esfera da profissão na atualidade, tais como: o processo de trabalho, o projeto ético-político, entre outros. (Mioto, 2002).

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