A relevância da introdução

A relevância da introdução

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Revista Língua e LiteraturaFW v. 9 n° 13 p. 1 - 27 2007

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A relevância da introdução para a escrita do texto acadêmico

Cecil Jeanine Albert Zinani1 Salete Rosa Pezzi dos Santos2

Resumo: O texto científico é relevante para alunos de graduação e pós-graduação, porque é através desse gênero que o conhecimento pode ser apresentado e socializado. Uma das maiores dificuldades dos estudantes para escrever um texto de cunho científico é como iniciar o trabalho. Esse tema leva à discussão sobre a escrita da introdução do texto, se ela deve ser feita no início do processo de escrita ou deveria ser deixada para o momento final. Além disso, este estudo apresenta os elementos constitutivos de uma introdução e como devem estar articulados, a fim de assegurar a coesão e a corência do texto.

Palavras-chave: Escrita acadêmica. Texto científico. Introdução.

Para iniciar, algumas considerações. A produção de textos acadêmicos torna-se cada dia mais relevante nas Universidades, tanto nos cursos deDoutora em Letras pela UFRGS. Docente e pesquisadora no Departamento de Letras e no Programa de Mestrado em Letras e

Cultura Regional da UCS.Doutora em Letras pela UFRGS. Docente e pesquisadora no Departamento de Letras e no Curso de Pós-Graduação Lato Sensu Especialização em Literatura Infanto-Juvenil da UCS.

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Graduação como de Pós-Graduação, cujos alunos necessitam apresentar conhecimentos produzidos em algum ramo do saber. Além disso, essa atividade é considerada como o retorno esperado das Bolsas de Iniciação Científica e de Pós- Graduação e dos Projetos de Pesquisa que são financiados pela própria Universidade ou por órgãos de fomento, uma vez que é a forma mais adequada para socializar essa modalidade de conhecimento. A produção escrita acadêmica, explicitada em suas finalidades e concretizada nos diversos gêneros, trabalho de conclusão de curso, artigo acadêmico, monografia, dissertação, tese, relatório de pesquisa provoca não só uma significativa preocupação nos autores como uma discussão relevante: como iniciar o trabalho? Essa questão remete, imediatamente, à introdução do texto e aos aspectos que a constituem.

A introdução é uma parte relevante do texto, visto que, através de uma modalidade descritiva, apresenta os aspectos mais significativos do trabalho, orientando o autor do texto na medida em que não só faculta que seus objetivos sejam atingidos, como também deflagre o interesse do leitor, favorecendo a recepção de acordo com as expectativas do destinatário. Dessa forma, uma introdução bem organizada apresenta o tema que será abordado no texto, os objetivos do estudo, a contextualização, a justificativa e a relevância do assunto, a metodologia, indicadores do referencial teórico e o plano de exposição, elementos que, de forma articulada, vão delinear o conteúdo do trabalho e de que maneira ele será desenvolvido.

Desde os primeiros contatos com alunos, nas disciplinas que orientam a construção desses textos, percebe-se, como já referido, a preocupação de como deve ser iniciada essa atividade, o que desemboca em outro problema: a introdução deve ser feita inicialmente, isto é, deve orientar a produção, ser uma diretriz cujos limites precisam ser respeitados, ou deve ser redigida depois de a escrita estar concluída, ‘prometendo’, no início, o que, efetivamente, já foi obtido. A constatação dessa realidade possibilitou que se processasse uma reflexão sobre o problema, o que levou ao aprofundamento do estudo dos aspectos constitutivos do texto científico e discussão da importância da introdução como elemento norteador de todo o trabalho a ser desenvolvido, o que remete para a hipótese de que a introdução deva ser redigida inicialmente.

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Assim, o presente texto tem como finalidade discutir a relevância da introdução como elemento orientador para a produção do texto científico, tendo por base reflexões sobre esse tópico, fundamentadas em autores reconhecidos nessa área de estudos. Além disso, examina-se a organização de uma introdução, a partir do modelo teórico desenvolvido por Swales (1990), aplicando-o na análise de um texto introdutório, buscando, assim, explicitar as diferentes partes que o compõem.

Por falar em introdução...

Ao considerar a relevância da introdução em um texto científico, torna-se fundamental, primeiramente, examinar alguns passos que antecedem essa produção. Evidências empíricas observadas no desenvolvimento de atividades referentes à elaboração de textos acadêmicos fundamentaram algumas constatações: inicialmente, verificou-se que a organização e a estruturação de um projeto é condição fundamental para a elaboração do texto. Constatou-se, também, que a organização de um bom projeto exige certo nível de conhecimento sobre o assunto a ser trabalhado, o que só será conquistado à medida que for construído um repertório de leituras sobre o assunto. Nesse sentido é interessante rever a contribuição de Matos (1994) que apresenta, para o desenvolvimento do trabalho acadêmico, estas etapas: a heurística, a projetiva e a executiva.

A etapa heurística compreende a determinação da temática, a seleção do material bibliográfico e a coleta de dados. Na determinação da temática, entre outros aspectos, Matos (1994) enfatiza a importância da delimitação do tema, favorecendo uma abordagem em profundidade. Além disso, o autor refere a importância da problematização adequada, o que favorecerá a objetividade do trabalho. Na seleção do material de pesquisa, o percurso a ser seguido vai do global para o particular, inciando-se com informações gerais, seguindo-se artigos específicos, priorizando-se a atualidade do material bibliográfico. A coleta de dados compreende a assimilação das idéias básicas do autor, bem como a argumentação desenvolvida.

A segunda etapa, a projetiva, subdivide-se em uso e sistematização de fichas e esquema inicial. O fichamento do material que será utilizado é muito útil porque funcionará “como um banco de dados personalizado, sempre à disposição

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14Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões do estudioso. São como os tijolos de uma construção: matériaprima indispensável para se levantar a casa”. (MATOS, 1994, p. 67). O esquema inicial, denominado pelo autor de “esquema intuitivo”, indica as grandes linhas do trabalho a ser desenvolvido. Um esboço mais definido – ainda que não seja o definitivo – concretiza-se na medida em que o autor organiza o material disponível, obtendo, assim, uma visão mais aprofundada do conteúdo e a eventual averiguação de falhas no processo.

Por fim, Matos (1994, p. 68-69) refere a etapa executiva, apontando que esta “consiste na elaboração efetiva do trabalho a partir do material pesquisado e classificado”. Para concretizá-la, o autor sugere observar partes integrantes da monografia, entre as quais, vale ressaltar o estudo da introdução e seus vários aspectos. Complementando a etapa executiva, o autor enfatiza a relevância da reescrita, como possibilidade de refinamento do texto.

Como se pode perceber, as etapas heurística e projetiva apresentadas por Matos (1994) concorrem para a organização do projeto do texto acadêmico. Dessa maneira, na medida em que o projeto contemplar os aspectos apropriados, contribuirá para a produção de uma escrita científica adequada. Além disso, a articulação coesa e coerente desses aspectos facilitará a organização do texto introdutório, o qual apresenta características específicas.

A problemática que envolve a introdução não é uma preocupação recente. Já aparece definida por Aristóteles na Poética (1991, p. 207) quando afirma: “‘Princípio’ é o que não contém em si mesmo o que quer que siga necessariamente outra coisa, e que, pelo contrário, tem depois de si algo com que está ou estará necessariamente unido”. Depois do filósofo, muitos estudiosos têm abordado essa questão, destacando a relevância da introdução e posicionando-se sobre o momento em que ela precisa ser redigida: após escrever o texto propriamente dito, durante ou antes desse processo. Entre os autores contemporâneos que se posicionam pela produção da introdução como um trabalho posterior à redação do texto, encontram-se Salomon (1977), Serafini (1995), Leite (1997) e Folscheid & Wunenburger (1997).

Salomon (1977) argumenta que, se a introdução for realizada após a produção do texto, poderá apresentar mais claramente tanto os objetivos do trabalho como os aspectos que o particularizam, ou seja, quais as questões que são

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Por sua vez, Serafini (1995) inicia a discussão sobre introdução, apresentando duas modalidades: a introduçãoenquadramento e a introdução para chamar a atenção. A introdução-enquadramento consiste em enfatizar o problema de pesquisa já presente no título, destacando sua relevância e atualidade. Pode apresentar um resumo dos aspectos mais relevantes do trabalho, focalizando as idéias que serão desenvolvidas. É nessa modalidade que defende a redação da introdução depois de finalizar o texto, uma vez que, segundo a autora, é imprescindível ter bem presente o conteúdo que foi desenvolvido, para redigir uma introdução adequada. Já a introdução para chamar a atenção objetiva conquistar o interesse do leitor, através da utilização de estratégias como citações ou informações curiosas. Além disso, pode apresentar “exemplos concretos, antecipando problemáticas que serão desenvolvidas depois, no corpo do texto, com a finalidade de envolver emocionalmente o leitor.” (SERAFINI, 1995, p. 73). Serafini considera preferível utilizar esse tipo de introdução, não se manifestando sobre o momento adequado para redigi-la.

Também Leite (1997, p. 141) postula o princípio da escrita da introdução após a redação do texto. Para o autor “não resta dúvida de que a introdução só pode ser bem redigida depois do desenvolvimento pronto, ou seja, depois do total conhecimento daquilo que foi apresentado no decorrer do trabalho”.

Ainda defendendo esse posicionamento, Folscheid &

Wunenburger (1997) desenvolvem duas modalidades de argumentação: a primeira, de ordem metodológica, uma vez que nela se anunciam as linhas mestras do problema; e a outra, de ordem filosófica, visto que ela já integra o pensamento filosófico. Os autores enfatizam sua opinião, afirmando que

Compor a introdução após a redação do exercício permite, assim, estabelecer uma melhor unidade entre o que é anunciado na introdução e o conjunto das interrogações e problemas tratados a seguir; isso garante (em princípio) um alto nível de redação para essa introdução: ela deve ser atraente, intelectualmente excitante (é preciso abrir o apetite do leitor), brilhante e determinada, decisiva na exposição da “razão” do tema. (FOLSCHEID &

WUNENBURGER, 1997, p. 219).

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No entanto, no mesmo capítulo, Folscheid &

Wunemburger (1997, p. 220) afirmam: “Se a traição começa já na introdução, não se pára mais de escorregar...”. Essa declaração pode ser entendida como abertura para outra maneira de entender a questão, uma vez que, se a introdução deve exigir fidelidade, pode-se pressupor, então, que ela deva ser redigida inicialmente, servindo como elemento norteador, ao qual todo o texto está subordinado. Nessa mesma perspectiva, os autores ainda afirmam que

tempo que passa(FOLSCHEID &

a escolha do momento é uma questão de gosto e de hábito; alguns se tranqüilizam, procedem por esboços, se organizam com um primeiro bosquejo que melhoram e corrigem a seguir. Mas é preciso estar atento nesse trabalho de retificação e vigiar o WUNENBURGER, 1997, p. 219).

Essa assertiva alarga as possibilidades em relação ao momento em que a introdução deva ser escrita, relacionandoo ao hábito e ao gosto do autor. Entretanto, ainda uma vez, parece pressupor que o momento mais indicado para a redação da introdução é efetivamente o começo, ainda que os autores enfatizem a relevância da reescrita.

O posicionamento de que a escrita da introdução deve constituir a primeira atividade a ser desenvolvida na construção de um texto, orientando a sua produção, é defendido tanto por teóricos que marcam essa disposição de forma explícita, como também por outros que utilizam para isso marcas textuais.

Nessa perspectiva, Eco (1977, p. 82) enfatiza que introdução e índice são as primeiras atividades a serem realizadas na produção de uma tese. Defende a redação do índice como uma modalidade “para definir o âmbito da tese”. Tanto o índice quanto a introdução apresentam caráter provisório, visto que serão reescritos várias vezes durante a redação do texto. A importância da reescrita, segundo o autor, consiste no fato de mostrar que a pesquisa tanto pode ter acrescentado novas idéias como reduzido as pretensões do autor, em função do percurso realizado durante a investigação. Cabe ressaltar a importância da reescrita como forma de aperfeiçoamento de qualquer texto, inclusive da introdução do texto acadêmico, como também asseveram os já citados Folscheid & Wunenburger (1997).

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Outros autores, que não se manifestam explicitamente quanto ao momento adequado para a redação da introdução, fazem-no através de marcas em seus discursos. Nesse sentido, Medeiros (1991, p. 118) destaca: “Prepara-se o leitor [na introdução], elucidando uma série de questões que, se desconsideradas, poderiam obscurecer as idéias expostas. (...) explica-se ao leitor que aspectos serão tratados”. O tempo verbal (serão) no futuro, utilizado pelo autor, remete a pressupor uma ação que será realizada posteriormente, corroborando a posição de que a introdução deve ser a primeira parte do trabalho a ser redigida.

A questão do tempo verbal também pode ser verificada em Barbosa (1994, p.172), ao referir-se à introdução como sendo “...uma definição do tema a ser questionado; [...] uma análise do tema, um esquema de suas partes (que, geralmente, serão questionadas uma a uma no desenvolvimento da redação).” A posição de Barbosa (1994, p. 173) torna-se mais evidente quando afirma que “Tendo como ponto de partida a introdução escolhida por você, a própria seqüência de idéias provocada por ela se transforma no fio da meada de seu texto, desencadeando um desenvolvimento e uma conclusão”.

Como Medeiros e Barbosa, Boaventura (1997, p. 1) apresenta em seu discurso a marca do tempo futuro, sinalizando seu posicionamento: “A introdução encerra, implicitamente, toda a exposição, dando idéia de como será desenvolvida.” Assim também, Henriques & Medeiros (1999, p. 51), na obra Monografia no curso de direito, iniciam a discussão sobre a introdução, postulando que,

Etimologicamente, o termo vincula-se ao latim intro (dentro) + ducere (levar, conduzir para dentro). O verbo ducere liga-se a dux, o chefe, o organizador, em que se percebe a idéia de levar em continuidade, em oposição, pois, à descontinuidade.

Se é possível afirmar a importância do texto introdutório para o desenvolvimento do trabalho acadêmico, a partir das observações dos autores, também pode-se constatar que, se a introdução for escrita antes do restante do texto, estará assegurada a presença dos elementos significativos que garantirão a progressão textual de forma coesa e coerente, evitando-se possíveis desvios de percurso.

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