Metodologia dialetica

Metodologia dialetica

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ARNONI, Maria Eliza Brefere∗ – UNESP – meliza@unesp.ibilce.br GT-04: Didática

metodologia dialética, porém desapareceu sem ter realizado sua vontade

Até o fim de sua vida (Marx) quis escrever uma exposição da Henry Lefebvre

ou seja, o método que operacionaliza

A questão metodológica da aula, discutida sob diferentes enfoques, é tema recorrente na produção acadêmica da área educacional, mesmo de forma implícita. Essa recorrência aponta a relevância do tratamento metodológico no trabalho educacional, mesmo que ele não se apresente embasado pelos pressupostos teóricos que o informam,

A discussão apresentada neste texto pauta-se, justamente, na apresentação da

Metodologia da Mediação Dialética (M.M.D.), uma proposição metodológica que operacionaliza o método dialético e a concepção de mundo que este informa, a totalidade, entendida como complexo de complexos que expressa o movimento real da realidade.

Tendo como pressuposto que a teoria dialética explicita a concepção crítica de mundo e o método dialético, como caminho teórico, também expressa a visão dialética de mundo e a ontológica do ser social, pode-se concluir que ambos, teoria e método, permanecem na dimensão teórica e possibilitam a interpretação da realidade posta. O método, sendo um “caminho teórico”, não é prático e, assim, não é possível sua transposição in natura para a prática. O método não responde diretamente a questão metodológica da aula, mas, constitui-se no fundamento do processo de sua operacionalização, ou seja, os fundamentos teóricos do método informam o processo da sua passagem para a prática e, isto, exige uma pesquisa teórica da questão metodológica. Nesta perspectiva, pode-se inferir que, na educação escolar, a

∗ Linha de Pesquisa:Teorias Pedagógicas, Trabalho Educativo e Sociedade – Grupo de Pesquisa Educação e Ontologia do Ser Social.

metodologia de ensino representa a garantia de a teoria crítica ser aplicada na prática da aula, transformando-a a direção teórica pretendida.

Movida por esta necessidade, venho investigando a aplicação prática do método dialético em uma aula, por intermédio da proposição metodológica, a M.M.D., centrada no ensino, na aprendizagem e na relação entre ambos. Esta pesquisa expressa a possibilidade de a teoria crítica (dialética e ontológica) tornar-se completa, superandose, ao se articular à prática, negando-a, por considerá-la seu pólo contraditório.

Na concepção teórico-crítica de mundo, a educação escolar objetiva a transformação da sociedade posta e a aula, como unidade da educação escolar, devem não só preservar a concepção teórico-crítica, mas superá-la e, para isso, caminhar em direção oposta à teoria, na direção da prática, para também negá-la, segundo a teoria crítica. Esta contradição entre teoria e prática cria, pela superação, a práxis crítica que operacionaliza o método da teoria crítica que a informa.

A expressão pesquisa teórica da questão metodológica reitera o vínculo entre os fundamentos teóricos da Lógica Dialética, da Ontologia do Ser Social, do Método Dialético e da Metodologia da Mediação Dialética, para evitar que a questão metodológica caia na esteira estigmatizada de um trabalho secundário e menos importante, atravancando, assim, a possibilidade de objetivação1 de princípios críticos, em práticas concretas. Não considerar a dimensão teórica da metodologia de ensino, por ela organizar (prévia-ideação2) a forma prática do trabalho educativo, é colaborar com a alienação dos envolvidos com a educação escolar.

Neste trabalho apresento a M.M.D. e sua contribuição para a educação escolar, o fato de ela centrar-se na mediação pedagógica, a relação dialética que se estabelece entre professor e aluno, entendidos como seres sociais que desenvolvem a aula e, nela, se desenvolvem. Esta proposição metodológica tem por base a lógica dialética e a ontologia do ser social e, também, valoriza a lógica formal, base de produção do conhecimento científico, necessário para o trabalho educativo. Para desenvolver esta proposta, pretendo discutir: 1 - A questão metodológica: uma discussão introdutória; 2 - A Lógica dialética e a Ontologia do Ser Social; 3 – A Metodologia da Mediação

1 Ao ser levada à prática a prévia-ideação se materializa, se objetiva e, esse processo de conversão do idealizado promove a transformação de um setor da sociedade (LESSA, 2207).

2 Momento de planejamento que antecede e dirige a ação, segundo Lukács, as conseqüências da ação são antevisadas na consciência, de tal maneira que o resultado é idealizado, projetado na consciência, antes que seja construído na prática (LESSA, 2007).

Dialética e a operacionalização do método dialético. Diante do exposto, apresento as considerações finais.

1. A questão metodológica: uma discussão introdutória.

Warde (1991), em sua discussão sobre o estatuto epistemológico da Didática, já alertava para a identidade lógica que preside os resultados das ciências a serem ensinadas (conteúdos de ensino) e a lógica que preside a aquisição desses conteúdos, apontava a diferença entre a pesquisa e o ensino, uma questão metodológica. Para a autora,

[...] é certo que os conhecimentos científicos já se oferecem ao ensino como “objeto” logicamente construído, mas é certo, também, que eles nada dizem quanto à forma para a sua aquisição por diferentes faixas etárias, em diferentes condições sociais. É, portanto, descabido supor que em cada situação de aprendizagem, diante de diferentes conteúdos, a criança e o adolescente se tornam diferentes sujeitos cognoscentes.

Considerando as asserções apresentadas, a autora supõe que, para a

É interessante depreender os aspectos importantes da educação escolar nas considerações da autora, por intermédio das seguintes asserções: 1ª. Os conhecimentos científicos, logicamente construídos, se oferecem “prontos” para serem tomados como objetos do ensino; 2ª. Os conhecimentos científicos – objetos de ensino - nada dizem quanto à forma para a sua aquisição; educação escolar, em cada situação de aprendizagem, diante de diferentes conteúdos, a criança e o adolescente se tornam diferentes sujeitos cognoscentes.

Segundo Warde (1991), essa consideração é de caráter pontual, ainda não resolvida, e exige maior espaço e tempo para ser desenvolvida em toda sua extensão e complexidade.

A situação descrita expressa a necessidade de se investigar as questões do ensino, a tarefa principal da educação escolar, em todos os níveis escolares (Educação Básica e Superior) e, o mais importante, desvincular a lógica de aquisição do conceito científico da lógica da produção do mesmo.

Pode-se, também, depreender a necessidade de uma metodologia de ensino nos trabalhos de Dermeval Saviani. Ele cunhou a denominação de “histórico-crítica”

(SAVIANI, 2007) para expressar sua concepção global de educação, com base no materialismo histórico e dialético, já apresentada em obras anteriores. E, ao discutir a Pedagogia histórico-crítica (SAVIANI, 1997), afirmando que o saber que interessa à educação é aquele que emerge como resultado do processo de aprendizagem, desenvolvido pelo aluno, e que a educação tem que tomar por referência, como matériaprima de sua atividade, o saber objetivo produzido historicamente, ele aponta para a necessária e adequada relação do ensino com a aprendizagem e mostra, mesmo não explicitamente, a necessidade da metodologia de ensino e, portanto, a relevância da questão metodológica.

O autor, também, apresenta como tarefa a que se propõe a Pedagogia Histórico-

Crítica, em relação à educação escolar, o trabalho educativo que, segundo Saviani

− Identificação das formas mais desenvolvidas em que se expressa o saber objetivo produzido historicamente, reconhecendo as condições de sua produção e compreendendo as suas principais manifestações bem como as tendências atuais de transformação;

− Conversão do saber objetivo em saber escolar de modo a torná-lo assimilável pelos alunos no espaço e tempo escolares;

− Provimento dos meios necessários para que os alunos não apenas assimilem o saber objetivo enquanto resultado, mas aprendam o processo de sua produção bem como as tendências de sua transformação.

Nesta concepção de trabalho educativo, entendido como ação adequada a finalidades, ele se apresenta como uma proposta intencional de conversão do saber objetivo em saber escolar de modo a torná-lo assimilável pelos alunos no espaço e tempo escolares. A ação de converter o saber produzido pela pesquisa em saber para o ensino, para que o aluno possa assimilá-lo e torná-lo em saber aprendido, mostra diferentes planos do conhecimento presentes no trabalho educativo.

No conceito de trabalho educativo, proposto por Saviani (1997), acima descrito, se observa os planos do conhecimento que ele engloba e tratamento teórico diferenciado que eles recebem. No primeiro item, ao se referir ao saber objetivo produzido historicamente, o autor deixa claro o vínculo deste saber objetivo com a pesquisa produzida pelas grandes áreas do conhecimento (CNPq3), o que valoriza o saber objetivo por ser produzido pela pesquisa acadêmica, uma pressuposto validado pela

3 Ciências Exatas e da Terra; Ciências Biológicas; Engenharias; Ciências da Saúde; Ciências Agrárias; Ciências Sociais Aplicadas; Ciências Humanas; Lingüística, Letras e Artes e Outros.

academia e sociedade atual. No entanto, no segundo item, ao propor, como necessário, a conversão do saber objetivo em saber escolar, o autor não explicita o vínculo desta conversão com a pesquisa e, com isso, pode induzir que a conversão realiza-se “fora” das bases teóricas do saber objetivo, promovendo o esvaziamento teórico do processo de conversão e, conseqüentemente, do saber escolar. O terceiro item reafirma o segundo, nele, o autor, ao propor a necessidade do provimento dos meios necessários para que os alunos assimilem o saber objetivo, sem vincular “os meios” à conversão e aos fundamentos teóricos da produção da pesquisa, podem convalidar a secundarização do ensino, em relação à pesquisa.

Essa análise da concepção de trabalho educativo tem por objetivo apontar para a necessidade de se investir na pesquisa teórica da questão metodológica, como forma de colaborar com o referido autor que, a partir da década de 80, traz, por intermédio de sua pesquisa, a possibilidade de a escola brasileira superar as abordagens pedagógicas vigentes. Ele discute a concepção progressista de educação, sustentada pelo pressuposto básico de desenvolvimento do homem pela consciência da necessidade de superação das formas de relações sociais opressivas, mediante a transformação social.

Baseado na teoria histórico-crítica da educação escolar (SAVIANI, 1997), a

M.M.D. explicita teoricamente a conversão do saber objetivo em saber escolar, entendendo-a como o processo de transformação do conceito da Ciência de Referência da disciplina escolar, produzido pela pesquisa, em conceito de ensino desta Ciência, também, produzido pela pesquisa. Esta proposição defende a preservação do saber objetivo e propõe sua transformação em conhecimento para o ensino, para que ele possa ser compreendido pelo aluno. Constata-se, assim, que esta conversão é a responsável pelo desenvolvimento do trabalho educativo proposto por Saviani (1997), que permite, segundo o autor, ao aluno assimilar subjetivamente, o saber objetivo, a intencionalidade de uma teoria educacional crítica. No entanto, o autor alerta que ensino não é pesquisa.

Segundo a proposição metodológica da M.M.D., discutida com mais detalhes na continuidade deste trabalho, a conversão é o processo de transformação do saber de um plano da pesquisa, com base na Lógica Formal (conceitos da Ciência de Referência), para outro plano da pesquisa, com base na Lógica Dialética (conceitos para o ensino), com vistas à aprendizagem do aluno.

Para Duarte (1999), a corrente educacional apresentada pela Pedagogia

Histórico-Crítica exige propostas pedagógicas concretas, viáveis e coerentes com o objetivo de contribuir, através da especificidade da prática pedagógica, para o processo de superação das relações sociais de dominação. As teorias educacionais críticas precisam passar da crítica à ação, da teoria à prática fazendo com que fossem se multiplicando os clamores no sentido de que essa concepção pedagógica se desenvolvesse de modo a exercer um influxo mais direto sobre a prática específica dos professores na sala de aula.

Para o autor, o desafio pedagógico consiste na elaboração de um corpo teórico que possibilite aos educadores a realização de análises críticas historicizadoras daquilo que caracteriza a própria especificidade do objeto da Pedagogia, isto é, o processo educativo.

produção do conhecimento são os mesmos que fundamentam o ensino

Nestas discussões, a transposição didática é uma das poucas propostas, no campo da educação, que discutem a relação pedagógica, porém a idéia de transpor o conhecimento científico, produzido sob bases epistemológicas, para a didática, ou seja, para o ensino, já estabelece a o supremacia do epistemológico em relação ao ontológico, não citado. Assim, apesar do foco na relação pedagógica, esta teoria reproduz a mesma perspectiva das demais: prevalece a noção de que os princípios que informam a

Diante do exposto, a proposição metodológica da M.M.D., segundo seus pressupostos teóricos, afirmam o caráter distinto do ensino e da pesquisa, como atividades humanas: o ensino é ontológico e a pesquisa epistemológica.

2. Lógica dialética e Ontologia do Ser Social: fundamentos do método dialético que informam uma concepção de realidade ou de mundo

O conhecimento da realidade, o modo e a possibilidade de conhecer a realidade dependem, afinal, de uma concepção da realidade, explícita ou implícita. A questão: como se pode conhecer a realidade? É sempre precedida por uma questão mais fundamental: que é a realidade?

Karel Kosik

Explicitar a concepção de mundo, segundo os fundamentos filosóficos da Lógica

Dialética e da Ontologia do Ser Social, é fundamental para tê-la como pressuposto na interpretação do real e na elaboração da proposta de intervenção na realidade posta, no sentido de transformá-la.

A dialética é a lógica do movimento, da evolução, da mudança e, portanto, considera as coisas e os conceitos no seu encadeamento e nas suas relações mútuas, em ação recíproca.

Para Novack (2006), a dialética é a lógica da matéria em movimento e, portanto, a lógica das contradições, porque a evolução é intrinsecamente autocontraditória. Enfim, a dialética é uma lógica que expressa um modo de compreender o mundo como realidade concreta e, portanto, contraditória, dinâmica e dialética e, neste aspecto, tornase necessário recorrer à célebre frase de Karl Marx, o concreto é concreto porque é a síntese de múltiplas determinações, isto é, a unidade do diverso.

Para Kosik (1995), o concreto ou a realidade, não são, por conseguinte, todos os fatos, o conjunto dos fatos, o agrupamento de todos os aspectos, coisas e relações, e sim, a estrutura significativa para cada fato, a totalidade.

A categoria totalidade, segundo Lukács (1979), adquire no plano ontológico um significado que antes não possuía, a totalidade é a estrutura de fundo da construção formada pela realidade em seu conjunto. Uma realidade que não possui simplesmente uma constituição totalitária, mas consiste de partes, de “elementos” que, também, são, por seu turno, estruturados como totalidades. O todo é uma totalidade que se constrói com inter-relações dinâmicas de totalidades relativas, parciais, particulares: nesse princípio encontra-se a real essência ontológica do mundo.

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