Fascículo 3 - Urbanização, sim ; favelização, nao

Fascículo 3 - Urbanização, sim ; favelização, nao

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A partir do ano que vem, mais da metade dos 6,7 bilhões de habitantes do planeta viverá nas cidades. A urbanização, porém, é fenômeno recente: até meados do século XIX, menos de 2% viviam em cidades. Foi só no século passado que surgiram as megacidades. A urbanização desordenada multiplica as favelas, onde vive 1 bilhão de pessoas. O desafio é fazer com que a pujança econômica diminua, e não aumente, o problema. Como mostramos neste fascículo, isso só será possível com a adoção de políticas que dêem prioridade a serviços públicos nas áreas necessitadas.

O crescimento demográfico vertical PÁG. 4

Teste: o que são redes da globalização PÁG. 5

4 questões sobre aspectos das metrópoles PÁGs. 6 e 7

Urbanização, sim; favelização, não

Só políticas públicas evitarão que, com a expansão das megacidades, mais pessoas vivam precariamente

> História > Geografia

Vila Brasilândia, na zona norte de São Paulo; as favelas resultam do crescimento desordenado das cidades

2 i revista época i 1 de junho de 2007

Pedestres em

São Paulo; a metrópole caminha para se tornar uma hipercidade

Ao que tudo indica, a urbanização é um processo irreversível na trajetória da humanidade. Entenda-se por urbanização o crescimento da população urbana em ritmo mais acelerado que o da população rural. A partir de 2008, mais da metade dos atuais 6,7 bilhões de habitantes do planeta viverá nas cidades. Além disso, a expectativa é que, ao longo dos próximos 30 anos, a população urbana africana e asiática dobre, acrescentando 1,7 bilhão de pessoas ao meio urbano — mais que as populações da China e dos Estados Unidos juntas. Essas são projeções do relatório Situação da População Mundial 2007: Desencadeando o Potencial do Crescimento Urbano, publicado pelo Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA).

Cada vez mais os espaços urbanos vêm representando o lugar das principais realizações e frustrações da humanidade. Porém, a urbanização é um fenômeno relativamente recente – até meados do século XIX, menos de 2% da população mundial vivia em cidades. Trata-se também de um processo que ocorre de forma bastante desigual, tanto no tempo quanto no espaço terrestre.

Na Europa e nos Estados Unidos, por exemplo, a última metade do século XIX representou o período de acelerada urbanização, enquanto nos países subdesenvolvidos o fenômeno só se intensificou após a Segunda Guerra Mundial. A principal causa desse processo foi a transferência para a cidade de populações rurais, induzidas pelas precárias condições no campo e pelas oportunidades oferecidas pelos empregos na indústria, no comércio e nos serviços. Contudo, o relatório do UNFPA ressalta que, atualmente, a maior parte do crescimento da população urbana resulta do crescimento vegetativo, e não da migração.

entenda o assunto a urbanização pode ser irreversível, não a favelização

Megacidades continuarão crescendo no mundo todo; só o planejamento do Estado evitará que mais pessoas vivam em

POR SINVAL NEVES SANTOS

condições precárias

A urbanização é fenômeno recente: no século XIX, 2% da população vivia em cidades

Alguns sites são recomendáveis para aqueles que quiserem se aprofundar em temas ligados à urbanização. A seguir, três deles que podem ser consultados: http://www.unfpa.org.br/ (Fundo de População das Nações Unidas); http://www.unhabitat org/ (Programa das Nações Unidas para os Estabelecimentos Humanos); e http://www.ibge gov.br (Instituto brasileiro de Geografia e Estatística).

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Para as próximas décadas, a urbanização nos países desenvolvidos e na América Latina – regiões que possuem atualmente taxas de população urbana superior a 75% – apresentará ritmos de crescimento bastante modestos, enquanto o crescimento vertiginoso ocorrerá na Ásia e na África. Essas são as estimativas do Programa das Nações Unidas para os Estabelecimentos Humanos (UN-Habitat), divulgadas no Relatório sobre o Estado das Cidades do Mundo 2006/2007. Ao longo do século X, sobretudo em sua segunda metade, o processo de urbanização foi acompanhado do surgimento de imensas aglomerações urbanas, as megacidades, metrópoles densamente povoadas, com mais de 10 milhões de habitantes. Hoje, pelo menos 10% da população mundial vive nesses espaços. Atualmente, já se utiliza o conceito de metacidades ou hipercidades para centros urbanos com mais de 20 milhões de habitantes; em meados dos anos 1960, Tóquio se converteu na primeira delas. Para 2020, prevê-se que Mumbai, Délhi, Daca e Jacarta (Ásia), Cidade do México, Nova York e São Paulo (América) e Lagos (África) também atinjam o status de metacidade.

Assim, considerar os processos de urbanização e de multiplicação das cidades tornou-se imprescindível para a compreensão da humanidade e de seu espaço. Para analisarmos o funcionamento do meio geográfico atual, marcado pelo processo de globalização, precisamos atentar para o papel das cidades globais, aquelas que possuem instrumentos de comando da economia e da sociedade em escala global. Nova York, Los Angeles, Londres e Paris são bons exemplos de cidades que exercem um papel de comando e regulação sobre as outras cidades e o resto do mundo; enquanto São Paulo, Cidade do México e Johannesburgo podem ilustrar um segundo nível de cidades globais, por influenciarem áreas menores e mais delimitadas do planeta.

É nas cidades globais que encontramos as maiores concentrações de objetos e sistemas técnicos (edificações, redes de hotelaria, sistemas de transporte, redes de telecomunicações etc.). Isso permite que elas centralizem informações e serviços globais. A instalação de tais objetos nos territórios dessas cidades atrai sedes de grandes empresas, importantes centros financeiros, centrais de grupos de mídia e outros núcleos de decisão que possuem a capacidade de con-

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São Paulo deverá se tornar uma hipercidade em 2020, com mais de 20 milhões de habitantes lustrações:

b URY

/ Fonte: ONU kroY avoN oiuqóT serdnoL siraP iabmuM ocixéM oluaP oãS ihléD acaD sogaL

Fonte: ONU, National Geographic, maio 2007 CresCimento da população urbana nas maiores Cidades do mundo – 1950-2020

5,28 bilhões

População mundial total

Gráfico 3

Projeção

Rural Urbana

2008 Previsão de que a população urbana superará a rural população mundial total

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incontáveis lugares do globo

trolar a dinâmica e a intensidade dos fluxos (financeiros, culturais, de informação, de pessoas etc.); estes, por sua vez, promovem uma crescente integração entre

Por outro lado, a aceleração da urbanização, sobretudo nos países periféricos, veio acompanhada de crescimento urbano desordenado, ocasionando inúmeros problemas socioambientais, como a multiplicação de bairros com infra-estrutura deficiente, habitações situadas em áreas de risco e alterações nos sistemas naturais. Claro que essas áreas menos valorizadas são ocupadas pelas populações de baixa renda, por isso se afirma que esse tipo de expansão urbana reflete uma organização do espaço que produz e acentua desigualdades econômicas e sociais. O fenômeno da favelização é uma das principais evidências territoriais desse processo.

Favela, na definição usada pela ONU, são áreas urbanas em que a maioria dos residentes vive aglomerada em habitações ilegais desprovidas de água tratada e saneamento. Atualmente, a Terra conta com perto de 1 bilhão de seres humanos amontoados em favelas, encontradas em todos os quadrantes do globo. E o ritmo se acelera! A previsão é que esse tipo de submoradia terá 1,4 bilhão de habitantes em 2020, já que as populações das favelas vêm aumentando em 2,2% ao ano; a situação é pior na África negra, onde a taxa de crescimento anual supera os 4,5%, segundo as projeções do Relatório sobre o Estado das Cidades do Mundo.

Especialistas que elaboraram esse estudo ressaltam que “o crescimento econômico não leva automaticamente à assimilação das favelas”. Assim, podemos concluir que um dos principais desafios de nosso tempo é criar formas para que a intensificação da globalização não acentue as diferenças socioterritoriais, que já são assustadoras. Ou, de forma mais otimista, o desafio está em fazer com que a pujança dos crescentes fluxos econômicos se reverta na diminuição dessas diferenças. Tarefa que só se tornará possível a partir de uma efetiva participação do Estado no planejamento urbano. Para tal, o poder público deve adotar políticas territoriais adequadas, priorizando a instalação de equipamentos urbanos públicos (como redes de abastecimento e saneamento, redes de transporte, redes de eletrificação e telefonia, postos de saúde e hospitais, escolas e universidades) nas áreas mais necessitadas das cidades.

SINVAL NEVES SANTOS, mestre em Geografia Humana pela USP, é professor da rede privada de ensino e de cursos pré-vestibulares

Ilustração: AKE ASTbURY

O crescimento vegetativo ou natural da população, também chamado de movimento demográfico vertical, corresponde à diferença entre a taxa de natalidade e a taxa de mortalidade num certo período. Pode ser positivo, quando o número de nascimentos é maior, ou negativo, se a mortalidade for maior. Esse número varia muito de um país para outro em função das desigualdades socioeconômicas e também oscilou bastante ao longo da História.

Desde as últimas décadas do século X, o ritmo de crescimento da população mundial vem diminuindo. Entre 1970 e 2000, a taxa de crescimento populacional caiu de 2,1% para 1,6% ao ano. No entanto, há uma grande diferença entre as taxas dos países desenvolvidos, abaixo de 1%, e as taxas observadas em algumas regiões subdesenvolvidas, superiores a 2% ao ano. Enquanto alguns países europeus, como Itália e Alemanha, implantam campanhas de estímulo à natalidade, a fim de evitar a redução populacional, o governo indiano tenta diminuir o rápido crescimento de sua população, acima dos 2,5% ao ano.

Na maioria dos países africanos, as taxas de crescimento vegetativo são elevadas, sobretudo na chamada África negra, ou África subsaariana, que inclui os países africanos situados ao sul do Deserto do Saara. Essa região, cada vez mais populosa, apresenta as piores condições de vida do planeta. André Guibur é professor de Geografia na rede privada e em cursos pré-vestibulares o CresCimento VeGetatiVo por andré Guibur

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Planejamento é necessário para que o crescimento das cidades não leve à favelização taXa mÉdia anual de

CresCimento da população (%) – 2002 menos de 0 de 0 a 1 de 1 a 2 de 2 a 3 mais de 3 sem dados

180º 180º 90º

30º 120º 120º0º 0º

60º 60º redes da globalização

O teste abaixo é baseado numa obra de Milton Santos; a resposta e os comentários podem ser checados no próximo capítulo

O fragmento acima faz referências a redes formadas por sistemas técnicos que permitem a interligação entre inúmeros pontos do globo. A respeito da distribuição geográfica de tais redes, podemos afirmar que: A) encontram-se distribuídas de forma homogênea, sendo que as cidades globais representam seus principais pólos de comando, devi- do à sofisticação de seus sistemas financeiros e dos serviços de telecomunicações. b) apesar de não se encontrarem perfeitamente distribuídas no espaço geográfico, permitem a todas as pessoas residentes em uma megacidade se beneficiar com o fenômeno da globalização. C) possuem uma distribuição heterogênea, sendo que as megacidades representam os principais nós dessas redes, devido à concentração de fluxos financeiros, culturais e de pessoas. D) possuem densidade desigual, sendo que as cidades globais representam os principais nós dessas redes, devido à concentração de objetos e sistemas técnicos implantados em seus territórios. E) Apresentam uma distribuição equilibrada, sendo que as cidades globais representam os principais centros de comando, devido ao contingente populacional superar os 10 milhões de habitantes.

O primeiro filme (batismo de

Sangue) toma por base o belo livro de mesmo nome, de autoria de Frei betto, que retrata o envolvimento de frades dominicanos na luta contra a ditadura militar e a perseguição, com prisões, torturas e mortes, que se abateu sobre o grupo.

Já o segundo filme (O Ano em Que

Meus Pais Saíram de Férias) toma por base a história de uma criança, em belo Horizonte, no início dos anos 70, que é obrigada a viver com o avô para que os pais possam sair de férias, na verdade um eufemismo para esconder a necessidade de fuga da repressão. O avô do garoto morre, e este passa a viver com um vizinho, aguardando ansiosamente a volta dos pais.

Gabarito: alternativa C. [Da ditadura militar no brasil – 1964 a 1985 (para alguns autores, 1989) e enfocam questões como repressão, tortura e resistência armada.] resposta da questÃo inédita do fascículo i sangue e férias sob a ditadura militar

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“As redes são a condição da globalização (...). Sua qualidade e quantidade distinguem as regiões e lugares, assegurando aos mais bem dotados uma posição relevante e deixando aos demais uma condição subordinada. São os nós das redes que presidem e vigiam as atividades mais características deste nosso mundo globalizado.” Milton Santos, O País Distorcido: o Brasil, a Globalização e a Cidadania (Publifolha: São Paulo, 2002)

Milton Santos, autor de O País Distorcido

MARCOS ISSA/AGÊNCIA O GLObO

Caio

Blat em

Batismo de Sangue

5 | revista época | fascículo i5 | revista época | fascículo i

Caio

Blat em

Batismo de Sangue

i revista época i 1 de junho de 20076 | revista época | fascículo i

2ª questão

Os cenários metropolitanos em todo o Globo têm muitos aspectos em comum: grande concentração de pessoas, um ou mais centros de negócios onde a vida econômica pulsa com intensidade, variada atividade cultural, etc. No entanto, observe as figuras e leia as afirma- ções a seguir.

(Demétrio Magnoli e Regina Araújo. Projeto de Ensino de Geografia. São Paulo: Moderna, 2000, p. 154-5)

I. embora, atualmente, com ritmos diferentes de crescimento, muitas das metrópoles dos países capitalistas ricos e pobres apresentam problemas ligados à pobreza e marginalização de parte de seus habitantes. I. as questões ligadas à violência e ao desemprego fazem parte do cotidiano das megacidades subdesenvolvidas, mas não existem nos países ricos. I. as subabitações representam a mais antiga solução para o problema de moradia e, de modo geral, estão situadas em áreas decadentes, nas proximidades do centro das cidades.

Está correto SOMENTE o que se afirma em: A) I b) I C) II D) I e I E) I e II Puccamp, 2005 (questão 45)

A questão apresenta a resposta na apreciação atenta das imagens. Observe que o enunciado se inicia com uma afirmação positiva sobre o assunto, mas a expressão “no entanto” indica que tais aspectos positivos não eliminam os negativos, que estão denunciados nas imagens. Nas fotos, fica enfatizado que nos grandes centros urbanos encontramos graves problemas sociais – tais como submoradias e desemprego – coexistindo com o dinamismo econômico citado no enunciado. A observação da foto número 2 – tirada em Nova York – evidencia que tais problemas não são uma exclusividade dos países subdesenvolvidos.

1ª questão

A urbanização dos países subdesenvolvidos constitui um fenômeno marcante da segunda metade do século X. As características desse fenômeno, na América Latina, expressas na paisagem urbana das metrópoles, são decorrentes da: A) instalação de indústrias de bens de produção nos arredores das pequenas cidades e próximas às fontes de matéria-prima. b) industrialização tardia e da modernização das atividades agrícolas, conjugadas à concentração de pessoas nas grandes cidades. C) aglomeração humana e do aumento do poder aquisitivo da população, favore- cidos pela expansão do capital financeiro na economia. D) inovação tecnológica e do aumento da produtividade das indústrias de bens de consumo, para suprirem as necessidades da vida urbana. E) implementação de parque industrial e da regulação, por meio do planejamento governamental, de deslocamentos populacionais para as cidades. UFG, 2006 (questão 56)

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