Nematóides

Os nematóides são organismos extremamente pequenos (microscópicos) e translúcidos que estão entre os mais abundantes animais da Terra. Aproximadamente 10% do gênero são considerados patógenos de plantas. Dada sua abundância, sempre conseguimos encontrar nematóides no solo. O diagnóstico laboratorial é importante para determinar a espécie de nematóides presentes e em que quantidade. Apesar de já haver determinação do número mínimo de nematóides parasitários de plantas presentes para causar danos, para a maioria desses nematóides, este número mínimo depende também da saúde da planta, por isso o dano é muitas vezes associado ao turf que está sob estresse. Quão maior o estresse ao qual a planta está sofrendo, menor será o número de nematóides patogênicos necessários para causar danos.

Foto 1: Injúria causada por nematóides em green de Poa annua, é similar a injúria causada por deficiência de nutrientes. Nas áreas infectadas houve perda total do sistema radicular.

Os nematóides atacam a raiz da grama, causando uma redução ou perda do sistema radicular. O resultado é a incapacidade da planta de consumir água e nutrientes. Os sintomas geralmente aparecem como deficiência hídrica ou nutricional, o que leva ao afinamento do turf. As condições que geralmente favorecem o crescimento e desenvolvimento dos nematóides patogênicos de plantas incluem períodos estendidos de temperatura do solo moderada, e solos com textura arenosa. A expressão dos sintomas é maior quando a planta estressada está sob altas temperaturas, e os sistemas radiculares prejudicados já não podem fornecer a umidade adequada. Solos contendo grande quantidade de areia podem aumentar ainda mais os danos, já que tem pouca capacidade de reter nutrientes e umidade.

Foto 2: Dano causado por nematóides em um turf de grama Bermuda. Sintomas são similares aos causados por estresse de seca.

Apesar de haverem inúmeros nematóides patogênicos, alguns dos mais devastadores e potencialmente devastadores são mencionados abaixo.

Belonolaimus spp. – considerado o nematóide mais prejudicial de gramados. É conhecido por causar danos a grama bermuda em níveis tão baixos quanto 10 nematóides por 100 c de solo. Estes nematóides se alimentam da ponta das raízes, produzindo grandes lesões e um sistema radicular curto. Nos Estados Unidos estes nematóides passaram também a parasitar greens de creeping bentgrass.

Hoplolaimus galeatus – é o nematóide mais comum em putting greens nos

Estados Unidos. Estes nematóides produzem lesões marrons que incham levemente. O sistema radicular aparenta estar apodrecendo e a raiz não se desenvolve.

Foto 3: Nematóide formador de galhas (fêmea)

Meloidogyne spp. – nematóides formadores das galhas – Ocorre principalmente em greens de creeping bentgrass. Os sintomas geralmente aparecem como manchas amareladas em greens, durante períodos de altas temperaturas. As raízes que são infectadas incham e formam galhas. As raízes tornam-se marrons ou tem aparência de apodrecimento.

Entre as doenças que afetam a produtividade de fruteiras de clima temperado, aquelas causadas por nematóides assumem grande importância em virtude dos sérios prejuízos causados à planta e, indiretamente, ao produtor, pela redução dos lucros. Os nematóides fitoparasitas prejudicam as plantas pela ação nociva sobre o sistema radicular que, por sua vez, afeta a absorção e a translocação de nutrientes, alterando a fisiologia da planta. Esses organismos também podem predispor a planta a doenças e a estresses ambientais ou atuarem como transmissores de outros patógenos.

Já foram relatadas mais de 30 espécies de nematóides fitoparasitas em plantas de pessegueiro, destacando-se como mais importantes, Meloidogyne spp., Mesocriconema spp., Xiphinema spp. e Pratylenchus spp. Esses nematóides podem reduzir o vigor e produção do pomar e, ocasionalmente, em conjunto com outros fatores, causarem a morte da planta. Nos Estados Unidos as perdas causadas por fitonematóides em pessegueiro foram estimadas em 15%, nas condições brasileiras, até o presente momento, não se dispõe de dados.

Doenças causadas por nematóides:

Entre fruteiras de caroço, a maioria dos trabalhos associados com fitonematóides foi realizada com a cultura do pessegueiro. Já foram relatadas mais de 30 espécies de nematóides fitoparasitas em pessegueiro, destacando-se como mais importantes Meloidogyne spp., Mesocriconema spp., Xiphinema spp. e Pratylenchus spp. Esses nematóides podem reduzir o vigor e a produção do pomar e, ocasionalmente, em conjunto com outros fatores, causar a morte da planta.

Nematóides-das-galhas:

Distribuição geográfica - Os fitonematóides desse gênero têm sido relatados, freqüentemente, causando danos econômicos em fruteiras de caroço nas mais variadas regiões do mundo. As principais espécies prejudiciais ao pessegueiro são: M. javanica, M. incoginta, M. arenaria e M. hapla. Em levantamentos realizados em pomares de pessegueiro do Rio Grande do Sul, as espécies detectadas e associadas com maior freqüência ao sistema radicular das plantas, foram M. javanica e M. incoginta.

Sintomatologia - Visualmente pode ser observada a presença de engrossamento (galhas) nas raízes do pessegueiro atacado. As plantas afetadas apresentam sinais de enfraquecimento, baixa produção, desfolhamento precoce e declínio prematuro, podendo ocorrer, ocasionalmente, a morte da planta, sendo os sintomas potencializados sob condições de seca.

Fig. 1. Raízes de pessegueiro apresentando galhas causadas por Meloidogyne javanica em solo altamente infestado.

Ciclo de vida e epidemiologia - As espécies de Meloidogyne que atacam o pessegueiro inicialmente penetram na raiz, na fase infectiva - juvenil de segundo estágio(J2). Posteriormente, os machos adultos abandonam o sistema radicular, e, as fêmeas, permanecem no interior das raízes, como endoparasitas sedentárias, até o final do seu ciclo de vida, induzindo a formação de galhas. O ciclo de vida do nematóide das galhas é de aproximadamente quatro semanas, podendo prolongar-se sob condições de temperatura mais favoráveis. Temperaturas inferiores a 20oC ou superiores a 35oC e condições de seca ou de encharcamento do solo afetam o desenvolvimento e a sobrevivência do nematóide. Geralmente, o pessegueiro sofre mais danos, pelo nematóide, em solos arenosos do que em solos de textura mais fina.

Controle - A produção de mudas em viveiro deve ser realizada em locais isento de nematóides, uma vez que plantas contaminadas são importantes agentes de disseminação desse patógeno e de outras doenças, podendo comprometer a sanidade do pomar futuramente. Para produção de mudas em viveiro, é importante que se envie, anteriormente ao plantio, uma amostra de raízes e de solo do local para um laboratório especializado, visando à determinação da presença e identificação de possíveis nematóides fitoparasitas. O plantio de mudas certificadas, isentas de Meloidogyne spp é a medida de controle mais importante. No caso de detecção de nematóides prejudiciais ao pessegueiro, devese proceder à rotação de culturas na área infestada por, no mínimo, dois anos consecutivos. Entretanto, um ano antes do estabelecimento do pomar, recomenda-se amostragem do local para análise nematológica.

A utilização de porta-enxertos resistentes ou tolerantes é uma alternativa barata que pode ser adotada pelo agricultor quando detectada a presença do nematóide no local de plantio. Os porta-enxertos Nemaguard, Nemared, Okinawa são resistentes ao nematóide-das-galhas; entretanto, os dois primeiros apresentam problemas de adaptação às condições climáticas brasileiras. A cultivar Okinawa produz grande porcentagem de caroços com dois embriões, porém esse problema pode ser resolvido através da propagação por estaquia. Flordaguard, material proveniente da Flórida, EUA, apresenta características altamente desejáveis, possuindo além de elevada resistência a nematóides, baixa exigência em frio. Embora pouco conhecidos no Brasil, Myrabolan 29Ce Mariana 2426 são materiais provenientes de ameixeira, que não apresentam problemas de compatibilidade com diversas cultivares de pessegueiro, tendo, ainda, tolerância a solos mal drenados e imunidade às espécies do nematóide-das-galhas de maior freqüência. Entretanto, ainda não há informações sobre o comportamento destes dois porta-enxertos nas condições brasileiras.

A utilização da rotação de culturas, além de melhorar a estrutura do solo, é uma boa opção para áreas altamente infestadas com nematóides, seja para instalação de viveiros e novos pomares, seja para uso como cultura intercalar ou em consorciação. O cultivo alternado de espécies antagônicas de inverno e de verão por um período de pelo menos dois anos pode permitir a reutilização da área onde foi detectada a presença do nematóide.

O controle químico de nematóides através do uso de nematicidas é antieconômico e pouco eficiente, podendo causar, também, sérios problemas à saúde humana e contaminar o meio ambiente. No Brasil, ainda não se dispõe de nenhum nematicida registrado para a cultura do pessegueiro.

Nematóide-anelhado:

Fig. 2. Nematóide anelado (M. xenoplax)

Distribuição Geográfica e Ocorrência - Os nematóides anelados são comumente disseminados e associados a muitas plantas hospedeiras. Mesocroconema xenoplax e M. curvata são os principais fitonematóides deste grupo que afetam as fruteiras de caroço e a amendoeira. Estes nematóides são amplamente distribuídos, tendo sido detectados na América do Norte, Europa, África, Ásia e América do Sul. Altas populações de M. xenoplax são freqüentemente encontradas em pomares de pessegueiro, afetando as plantas.

No Brasil, a ocorrência de M. xenoplax, associada à morte-precoce-do pessegueiro, vem do Estado de São Paulo. No Rio Grande do Sul, essa espécie está amplamente distribuída nos pomares de pessegueiro. Estudos realizados no início da década de 90, na região sul do Rio Grande do Sul, demonstraram a correlação positiva entre populações desse nematóide e os sintomas de morte precoce em pessegueiro.

Ciclo de vida e Epidemiologia - M. xenoplax, alimenta-se das raízes da planta, como um ectoparasita, em todas as fases de sua vida, induzindo alterações celulares nos sítios de alimentação. O nematóide anelado pode permanecer no mesmo local parasitado da raiz, por até oito dias. A duração do ciclo de vida varia de quatro a oito semanas, dependendo da temperatura, da umidade, do pH, do tipo de solo e da planta hospedeira. Sob temperatura de 24oC, o ciclo de vida é de 30 dias. Entretanto, as populações desse nematóide também se reproduzem no inverno, quando a temperatura do solo varia entre 7ºC e 13oC.

Danos e Sintomatologia - M. xenoplax é o nematóide mais amplamente disseminado na região produtora de pêssego do Rio Grande do Sul. O parasitismo de raízes de pessegueiro por este organismo pode causar destruição, atrofiamento e morte das raízes, interferindo, conseqüentemente, na dormência e capacidade da planta em suportar estresses.

Fig. 3. Planta aparentemente apresentando sintoma de morte precoce.

Estudos sobre a avaliação de níveis populacionais críticos deste nematóide no solo mostraram que populações iguais ou superiores a 1000 nematóides/100 cm3 de solo causaram sintomas de morte. Porém, em pomares bem conduzidos, onde os sintomas de morte foram constatados, foram observadas populações duas a três vezes maiores, evidenciando que os tipos de práticas culturais e nutrição de plantas adotadas influenciaram na manifestação da síndrome.

Controle - As primeiras medidas de controle estão relacionadas à produção ou à aquisição de mudas livres de nematóides parasitas e ao plantio em áreas isentas dos patógenos. Na implantação de viveiros ou instalação de pomares, é importante a realização de análise nematológica do solo para a identificação das espécies incidentes. Caso seja detectada a presença de nematóides prejudiciais à cultura no local de instalação do viveiro, recomenda-se, a substituição da área, ou o emprego de rotação de cultura com espécies não hospedeiras, por um período mínimo de dois anos ou, ainda, a desinfecção do solo com produto fumigante, em pré-plantio.

Da mesma forma, em caso de detecção da presença de M. xenoplax no local onde serão instalados novos pomares, é importante conhecer o nível populacional do mesmo. Trabalhos realizados nos Estados Unidos mostraram que o limiar de dano econômico para a cultura é de 50 M. xenoplax/100 cm3 de solo. Mantendo-se as populações do nematóide abaixo desse nível, a longevidade dos pessegueiros e a manutenção da produtividade podem ser assegurados. As estratégias utilizadas para o controle baseiamse, principalmente, no uso de rotação de culturas e no plantio de pessegueiro sobre porta-enxertos tolerantes, visto que até o momento não existem cultivares resistentes a essa espécie de nematóide.

O controle químico mediante o uso de nematicidas, é anti-econômico e pouco efetivo. Em excesso, esses produtos são extremamente tóxicos ao homem e ao meio ambiente. Até o momento, não se dispõe de nematicidas registrados para a cultura do pessegueiro no Brasil. Isto se deve, principalmente, ao pouco interesse das empresas pela cultura. Em países como os Estados Unidos, o controle químico de nematóides é feito com os nematicidas 1,3-dicloropropene, liberado somente para aplicação em préplantio, e Fenamifós, para uso em pós-plantio. Porém, os custos elevados das aplicações têm desestimulado a utilização dos referidos produtos.

As cultivares Nemaguard, Lovell e Flordaguard, apesar de permitirem a reprodução de M. xenoplax, são tolerantes às altas populações do nematóide presentes no campo. Entretanto, deve-se considerar que Lovell é altamente suscetível a Meloidogyne spp. e 'Nemaguard' apresenta problemas de adaptação em solos arenosos. Por sua vez,

'Flordaguard' reúne várias características favoráveis, como resistência ao nematóidedas-galhas, pouca exigência em frio e tolerância ao cultivo em solos arenosos.

Além de controlar o nematóide, deve-se efetuar algumas práticas culturais que são fundamentais para reduzir as perdas de plantas por PTSL:

Fazer a aplicação de calcário em pré-plantio, corrigindo-se o pH para 6,5; Efetuar a poda tardiamente, preferencialmente, próximo à floração;

Fazer adubações e aplicação de calcário de acordo com as necessidades da cultura, baseando-se em análise de solo e foliar.

Outros Nematóides:

Nematóide adaga (Xiphinema spp.):

Entre as espécies deste gênero, Xiphinema americanum (grupo americano) é considerado o nematóide de maior importância econômica. O nematóide-adaga reduz o vigor das plantas, agindo, ainda, como vetor de viroses na cultura do pessegueiro. Esses nematóides alimentam-se como ectoparasitas, causando necroses radiculares e dilatações na ponta das raízes finas. Sob alta infestação, é comum a redução na produção e o retardo no crescimento das plantas.

Nematóide-das-lesões (Pratylenchus spp.):

O nematóide-das-lesões pode afetar o estabelecimento, o crescimento e a longevidade do pomar, bem como a produção de frutas. Entre as espécies desse gênero, Pratylenchus penetrans, P. vulnus, P. coffeae e P. brachyurus são consideradas as mais importantes economicamente na produção de frutas e amêndoas. P. penetrans e P. vulnus são as espécies mais danosas ao pessegueiro. Esses patógenos se alimentam como endoparasitas migradores, causando lesões necróticas (escurecimento) nas raízes, em virtude da movimentação intracelular nos tecidos parasitados. No pessegueiro, esses nematóides causam degeneração do sistema radicular, predispondo a planta a infecções causadas por outros microrganismos fitopatogênicos.

No Brasil, os nematóides do gênero Pratylenchus e de outras espécies como

Helicotylenchus, Tylenchus, Paratylenchus, Trichodorus, Paratrichodorus, Hemicycliophora e Rotylenchus têm sido freqüentemente detectados em pomares de pessegueiro, porém sob baixos níveis populacionais. Pouco se sabe sobre seus danos na cultura do pessegueiro, não tendo sido confirmada patogenicidade, até o presente momento.

FACULDADE DE CIÊNCIAS AGRÁRIAS DE ARARIPINA-

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