Revista - biotecnologia ed 07 - encarte

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Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento - Encarte Especial 67

Revista Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento publica no encarte especial desta ediçªo dois importantes artigos para o setor agrícola.

O Melhoramento de Plantas na Virada do MilŒnio, faz uma retrospectiva do melhoramento de plantas na agricultura, com uma importante anÆlise crítica aos dias de hoje, quando a biotecnologia Ø incorporada à rotina do melhoramento genØtico.

Plantas TransgŒnicas de Batata Resistente ao Vírus do Mosaico, Ø outro artigo de suma importância, pois trata-se da primeira planta transgŒnica a ser testada em condiçıes de campo pela Embrapa.

Aluízio BorØm

Ph.D. Professor,

Departamento de Fitotecnia da UFV, 36.571-0,Viçosa, MG.

E-mail: borem@mail.ufv.br

Sandra Cristina Kothe Milach

Ph.D. Professor,

Departamento de Plantas de Lavoura UFRGS, Cx. Postal 776, 90.001-950, Porto Alegre, RS.

Fotos cedidas pelos autores

A transiçªo da fase de coleta e caça para a agricultura ocorreu hÆ cerca de dez mil anos independentemente e em vÆrios locais no mundo. Naquela Øpoca iniciou-se a domesticaçªo da maioria das espØcies cultivadas, dando início às atividades agrícolas. Os melhoristas foram responsÆveis pelo fenomenal progresso genØtico de um vasto nœmero de espØcies. Incluem-se os híbridos, a introgressªo de genes de ancestrais silvestres e a própria Revoluçªo Verde iniciada com os cereais na dØcada de 60. As novas variedades desenvolvidas pelo melhoramento genØtico, associadas ao uso de tecnologia adequada (fertilizantes, preparo do solo etc.), permitiram que importadores de alimentos se tornassem exportadores. A despeito das contribuiçıes do melhoramento genØtico e do ambiente, as perspectivas de contribuiçªo no futuro sªo ainda maiores. Na virada do milŒnio o melhoramento no mundo globalizado enfrenta novos desafios, tendo a sua disposiçªo novas tecnologias. Acredita-se que ele deva continuar evoluindo em direçªo a progressos genØticos mais previsíveis de forma gradativa, com o uso da biotecnologia. A parceira estabelecida entre melhoristas e biotecnologistas resultarÆ em benefícios para a sociedade. Atualmente, variedades desenvolvidas via biotecnologia estªo sendo cultivadas em grandes Æreas em diversos países. Todavia, alguns possíveis impactos negativos da biotecnologia tem sido considerados, a exemplo da vulnerabilidade biotecnológica interespecífica, passível de ocorrer quando, por exemplo, um gene da resistŒncia a uma praga fosse introduzido em vÆrias espØcies simultaneamente, resultando na possibilidade de uma suscetibilidade endŒmica na eventualidade de quebra desta resistŒncia. A corrida da biotecnologia certamente criarÆ novas perspectivas para o melhorista mas, eventualmente, poderÆ estabelecer platôs de rendimentos com as restriçıes impostas pela piramidaçªo de genes para as características criadas via biotecnologia, resultando no que se denomina de arresto gŒnico.

O melhoramento de plantas nasceu com o início da agricultura. Na verdade Ø difícil precisar se foi a agricultura que incentivou a prÆtica do melhoramento de plantas pelos primeiros agricultores ou vice-versa. Provavelmente, ambos evoluíram paralelamente na direçªo de aumentos na qualidade e na produtividade das culturas domesticadas pelo homem.

Assim, dos primórdios da agricultura atØ hoje, o melhoramento passou por muitas modificaçıes no exercício da sua prÆtica, mas poucas mudanças foram observadas, nos œltimos 50 anos, em seus princípios fundamentais de geraçªo de variabilidade.

No momento que se fazem reflexıes, na virada do milŒnio, surgem muitas indagaçıes a respeito de como e para onde continuarÆ evoluindo o melhoramento de plantas. O certo Ø que o sØculo X presenciou grandes avanços na prÆtica do melhoramento, como a automatizaçªo de plantio, a colheita de experimentos com maquinaria especializada; a informatizaçªo da maioria dos programas de melhoramento no mundo e a rapidez no processamento e divulgaçªo de dados. TambØm os conhecimentos de genØtica, estatística, bioquímica e fisiologia associados às prÆticas da genØtica quantitativa, da mutagŒnese, da cultura de cØlulas e tecidos e, mais recentemente, da biologia molecular, representam auxílios para o melhoramento de plantas. Todos esses avanços no conhecimento ocorridos no final deste milŒnio geraram grande expectativa a respeito do que esta por vir no próximo milŒnio.

Apesar de ser tarefa Ærdua e na maioria das vezes impossível, a prediçªo dos os avanços da ciŒncia, cabe analisar os fatos e refletir sobre o futuro do melhoramento de plantas. Neste contexto, o objetivo principal deste artigo Ø o de revisar a trajetória do melhoramento de plantas atØ o presente, abordando em perspectiva panorâmica sua evoluçªo em direçªo à virada do milŒnio.

A Revoluçªo Agrícola A atividade agrícola, conforme docu-

Figura 1 - Localizaçªo dos centros de origem das espØcies cultivadas. Fonte: VAVILOV, (1926)

Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento - Encarte Especial 69 mentada pela história e por registros arqueológicos, tem sido inseparÆvel da evoluçªo e da atividade da sociedade humana (HARLAN, 1992). Acredita-se que o homem tenha surgido hÆ pelo menos dois milhıes de anos. Pouco Ø conhecido, contudo, a respeito da dieta dos primeiros ancestrais, mas Ø geralmente aceito que os nossos antepassados mais recentes eram caçadores e tambØm coletavam frutas, nozes, raízes e grªos como fonte de alimentos. Assim, a atividade agrícola nªo se tornou usual, para produçªo de alimentos, atØ hÆ cerca de 10.0 anos.

A agricultura se originou da domesticaçªo de plantas e animais e começou em vÆrios locais, simultaneamente, promovendo mudança notÆvel na maneira como o homem obtinha seu alimento. O extrativismo passou gradativamente a dar lugar à agricultura, transiçªo hoje conhecida como Revoluçªo Agrícola (FLANNERY, 1973).O homem domesticou, na sua existŒncia, somente cerca de cem a duzentas, de milhares de espØcies vegetais. Destas, menos de 15 atualmente suprem a maior parte da dieta humana (CONWAY & BARBIER, 1990). Estas 15 espØcies podem ser agrupadas nas seguintes classes: (a) Cereais: arroz, trigo, milho, sorgo e cevada; (b) Raízes e caules: beterraba, cana-de-açœcar, batata, mandioca e inhame; (c) Legumes: feijªo, soja e amendoim; e (d) Frutas: citros e banana.

Para identificar os possíveis pontos geogrÆficos onde a agricultura começou, o engenheiro-agrônomo russo Nicolai Ivanovich Vavilov identificou regiıes onde as espØcies vegetais localizavam-se com maior diversidade e encontrou oito regiıes geograficamente isoladas, que denominou centros de origem: 1. ChinŒs; 2. ˝ndiano; 2a. Indo-malaio; 3. `siÆtico Central; 4. Oriental Próximo; 5. Mediterrânico; 6. `bissínio; 7. Mexicano do Sul e Centro-Americano; 8. Sul-Americano; 8a. ChiloØ; e 8b. Brasileiro-paraguaio (Figura 1).

Como sugerido anteriormente, o homem passou de caçador-pescador-extrativista para criador de animais e agricultor, o que caracterizou a Revoluçªo Agrícola. A emergŒncia da agricultura, que Ø a fundaçªo sobre a qual as civilizaçıes atuais se apoiam, teve vÆrias conseqüŒncias importantes. Primeiro, ela resultou em aumento da populaçªo mundial, provavelmente pela facilidade do homem obter seu próprio alimento, mudando a relaçªo homemterra. Estimativas sugerem que na prØ- história seriam necessÆrios 250 ha de terra para alimentar um homem por ano (Figura 2). Atualmente essa relaçªo Ø de 1 ha por pessoa por ano. A agricultura tambØm modificou a estratificaçªo social, formando a classe dos proprietÆrios de terra. Finalmente, aumentou o impacto do homem sobre a natureza, pela substituiçªo dos ecossistemas naturais pela produçªo agrícola.

O Melhoramento de Plantas

A composiçªo genØtica atual das diversas culturas Ø o resultado da domesticaçªo e melhoramento que elas foram submetidas durante os sØculos. No entanto pergunta-se quando o melhoramento de plantas teve seu início? O milho e outras culturas mostram detalhes que atestam que ele começou na mais remota antigüidade e, indubitavelmente, nªo era um trabalho cientificamente dirigido. O me- lhoramento executado pelo homem primitivo resultava da simples procura de tipos mais adequados para satisfazer a suas necessidades. O milho constitui um caso típico. OriginÆrio do Novo Mundo, onde foi domesticado pelos índios, hÆ milhares de anos, espalhou-se pelas AmØricas, a partir do MØxico (seu provÆvel centro de origem), e, quando aqui aportaram, os europeus encontraram centenas e centenas de variedades conservadas pelas vÆrias tribos indígenas (GALIANT, 1992). O germoplasma legado pelos índios e por outros povos da antigüidade começou a passar pelo processo dirigido de melhoramento, principalmente a partir do sØculo XIX. PorØm, desprovidos dos conhecimentos científicos necessÆrios para um trabalho consciente, os melhoristas dessa Øpoca eram apenas pessoas prÆticas que tinham habilidade de selecionar, dentre muitas outras, as plantas que apresenta- vam diferenças e que podiam ser de interesse econômico. Nessa Øpoca, o melhoramento de plantas era apenas uma arte.

Após a redescoberta das leis de Mendel, e com o avanço de outros ramos científicos, o melhoramento de plantas passou a possibilitar aos melhoristas a criaçªo de novos tipos de plantas, pela modificaçªo dirigida dos caracteres hereditÆrios. Hoje, rendimentos da ordem de 23,9 t/ha de milho (WITTER, 1975) e 7,4 t/ha de soja (CHOU et al., 1977) jÆ foram alcançados. É verdade que tais rendimentos somente foram possíveis com a ajuda do melhoramento do ambiente para as plantas, por intermØdio de adubaçªo, irrigaçªo, controle de pragas, doenças e plantas daninhas e outras prÆticas agrícolas. É igualmente verdade que somente essas prÆticas, sem o auxílio dos progressos no melhoramento de plantas, nªo permitiriam aqueles elevados rendimentos.

Para alcançar seus objetivos os melhoristas tŒm contado com o auxílio de algumas ferramentas valiosas. Dois dos principais fatores da evoluçªo, a recombinaçªo e a seleçªo, tŒm sido intensivamente utilizados pelos melhoristas, com o emprego de mØtodos refinados desenvolvidos na primeira metade deste sØculo. As mutaçıes, o terceiro grande fator da evoluçªo, sªo instrumentos adicionais, capazes de auxiliar os mØtodos convencionais de melhoramento, mais que substituí-los, para o aumento da variabilidade genØtica das espØcies. A esterilidade masculina tambØm tem sido empregada, pois facilita e barateia o trabalho de cruzamentos para a criaçªo de híbridos de culturas alógamas e, no caso de autógamas, abre perspectivas para o uso prÆtico da heterose, por intermØdio de variedades híbridas (DUVICK, 1986). O uso dos sistemas de incompatibilidade nas plantas, para a criaçªo de variedades híbridas, e os cruzamentos interespecíficos, para a aquisiçªo de novos genes, tambØm tŒm sido efetivos em algumas espØcies. JÆ nos œltimos anos surgiu nova e altamente promissora ferramenta, a biologia molecular.

Os Avanços Durante o SØculo X O SØculo X tem sido marcado por

Figura 2 - Aumento populacional durante a transiçªo para a agricultura. Fonte: FLANNERY (1973)

70 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento - Encarte Especial grandes descobertas ou desenvolvimentos que tiveram profundo impacto na maneira de se fazer o melhoramento de plantas. Antes de tudo houve houve a redescoberta das leis de Mendel, no início do sØculo. Por volta de 1910 aconteceu a descoberta da heterose. A dØcada de 20 foi marcada pelo desenvolvimento dos mØtodos clÆssicos de melhoramento. Na dØcada de 30 a euforia foi em funçªo da descoberta da mutagŒnese e da utilizaçªo dos mØtodos estatísticos. Na dØcada seguinte, de 40, ocorreram os grandes avanços na genØtica quantitativa. Na dØcada de 50 a fisiologia, na de 60 a bioquímica, na de 70, a cultura de tecidos e na de 80 a biologia molecular (BORÉM, 1998). To- davia, com base na experiŒncia acumulada em 45 anos de melhoramento de milho, DUVICK (1986), relata que os maiores avanços que presenciou no melhoramento de plantas foram: a implementaçªo do uso de maquinaria e computadores nos programas de melhoramento; a prÆtica de duas ou mais geraçıes ao ano, diminuindo o tempo para a obtençªo de novas variedades; e o aumento na rapidez da comunicaçªo entre melhoristas ao redor do mundo, por meio de do fax e do correio eletrônico. As contribuiçıes do melhoramento de plantas, fundamentado em conhecimentos científicos, tŒm permitido produçıes que atendam a deman- da mundial de alimentos (WOLF, 1986). A Revoluçªo Verde certamente foi uma das maiores demonstraçıes do impacto econômico e social que o melhoramento de plantas pode ter no mundo. Nesse caso, a introduçªo de genes para baixa estatura em trigo e, mais adiante, em outros cereais, como arroz, possibilitou um incremento significativo na adaptaçªo e produtividade dessas espØcies. TambØm possibilitou o uso maior de fertilizantes nitrogenados, gerando o emprego de pacotes tecnológicos, mesmo em países de terceiro mundo, com aumento significativo na produçªo mundial de alimentos (BORLAUG, 1968; BORLAUG 1969). Os avanços continuaram, pois a ve- locidade da evoluçªo da ciŒncia Ø enorme. Por exemplo, a estrutura da hØlice dupla do DNA foi elucidada em 1953. Vinte anos mais tarde, em 1973, a descoberta das enzimas de restriçªo abriu as portas da biologia molecular aos cientistas. A primeira planta transgŒnica, na qual um gene de bactØria foi inserido de forma estÆvel no genoma vegetal, foi produzida em 1983. Naquela ocasiªo, previsıes futurísticas da contribuiçªo da biotecnologia foram ensaiadas na mídia, tanto por leigos quanto pelos próprios cientistas, criando alta expectativa de suas aplicaçıes. A euforia era a tônica no meio científico. Inœmeras empresas, de grande a pequeno porte, foram criadas, atraídas pelo entusiasmo prevalecente na Øpoca e a maioria delas fechou as portas (BORÉM, 1998).

A maioria das previsıes na Ærea da biotecnologia nªo se concretizou dentro do cronograma estabelecido e o ceticismo com a Ærea fez muitos colocarem os pØs no chªo. Atualmente, os resultados de muitas das previsıes feitas, inicialmente, jÆ estªo comprovadamente documentadas. Acredita-se que, embora com certo acaso, os benefícios da biotecnologia terªo impacto na grande maioria dos programas de melhoramento. Novas empresas nessa Ærea estªo abrindo as portas para um mercado altamente promissor. Com os pØs no chªo e com a sociedade manifestando certa resistŒncia a alguns dos produtos obtidos, a partir de processos biotecnológicos, pode-se dizer que a biotecnologia estÆ saindo a sua infância.

O primeiro produto transgŒnico comercializado no mundo foi o tomate Flavr-Savr, lançado em 1996 nos EUA e modificado por tØcnicas do DNA recombinante pela Calgene Co., para retardar o seu amadurecimento pós-colheita. VÆrios outros exemplos jÆ estªo no mercado, como a variedade de algodªo Ingard , lançada em outubro de 1996 na AustrÆlia. Ingard Ø portadora do gene Bt da bactØria Bacillus thuringienses, que confere resistŒncia às lagartas da família dos Lepidópteros. Nos EUA exis-

Cevadas cultivadas e silvestres:domesticaçªoBiotecnologia: revoluçªo verdedo próximo milŒnio?HØlice dupla do DNA, descoberta em 1953

Da esquerda para direita: picadeira de forrageiras, enxada e sulcador prØ-históricos

Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento - Encarte Especial 71 tem, atØ a presente data, cerca de 15 produtos geneticamente modificados sendo comercializados, como a soja Roundup Ready , resistente ao herbicida glifosate, vÆrios híbridos de milho portadores do gene Bt, algumas variedades de tomate resistentes a insetos e herbicidas, clones de batata resistentes a vírus e variedades de canola com melhor qualidade de óleo (KUBICEK, 1997).

Em questionÆrio respondido por 32 melhoristas do setor pœblico e 23 do setor privado, responsÆveis por mais de vinte diferentes culturas, em diversos países, a importância atual dos marcadores moleculares no desenvolvimento de variedades foi considerada pequena, mas grande para o futuro próximo. Neste mesmo levantamento a maioria dos melhoristas informaram acreditar que as principais aplicaçıes dos marcadores moleculares seriam: introgressªo de fatores monogŒnicos, assistida por marcadores, transferŒncia de QTLs e transgenes, assistida por marcadores e seleçªo de progenitores (LEE, 1995). Conforme tambØm relatado por LEE (1995), as principais limitaçıes atuais para a utilizaçªo dos marcadores moleculares no desenvolvimento de cultivares seriam: o custo da tecnologia, a interaçªo genótipo x marcador e a dificuldade operacional da tØcnica.

Segundo JONES & CASSELLS (1995), na dØcada de 90 as pesquisas em genØtica nas universidades da Europa e AmØrica do Norte tŒm sido direcionadas predominantemente para a biologia molecular e a transformaçªo gŒnica. Em decorrŒncia, o nœmero de universidades nos países desenvolvidos que oferecem treinamento em níveis de graduaçªo e pós-graduaçªo em genØtica e melhoramento clÆssicos tem declinado, com sØrias conseqüŒncias para a sociedade.

Com a marcante reduçªo dos recursos pœblicos disponíveis para patrocínio de todos os tipos de pesquisas, alocar mais recursos em biotecnologia pode significar sacrifício do melhoramento de plantas convencional. Este Ø um problema praticamente insolœvel, mas espera-se que os órgªos financiadores de pesquisa encontrem o melhor balanço possível de investimento no melhoramento de plantas atual e no futuro. Seria contraprodutivo sacrificar os profícuos programas de melhoramento em favor da biotecnologia, que Ø considerada uma ferramenta de auxílio ao melhoramento. Durante os primeiros anos da biotecnologia cientistas, em diversos fóruns, se envolveram em discussıes que culminaram com a conclusªo de que a biotecnologia nªo substituiria o melhoramento convencional. Biotecnólogos e melhoristas, hoje, se entendem mais facilmente. Gradualmente, tambØm os órgªos administrativos e legislativos estªo passando a ter esta mesma perspectiva.

Os Benefícios e Riscos da Biotecnologia

Especula-se que haja a necessidade de uma nova Revoluçªo Verde para aumentar a produçªo de alimentos no mundo. Logo surge a pergunta: serÆ que a biotecnologia poderÆ levar o melhoramento de plantas a uma nova Revoluçªo Verde? Acredita-se que jÆ existem algumas evidŒncias que apontam ser esse fato possível. Tudo indica que o nœmero de variedades transgŒnicas de vÆrias espØcies, a serem lançadas comercialmente nos próximos anos, irÆ aumentar de forma substâncial. Varieda- des resistentes a herbicidas jÆ estªo entre o grupo de produtos predominantes para a maioria das espØcies, seguidas de resistŒncia a insetos, entre outros. A entrada, em maior escala, das plantas transgŒnicas no mercado gerarÆ, à semelhança da primeira revoluçªo verde, novos pacotes tecnológicos (com uso de herbicidas e outros insumos) e possibilitarÆ a prÆtica da agricultura em grandes extensıes. As contribuiçıes da biotecnologia para a agricultura jÆ se fazem sentir em vÆrios países onde variedades transgŒnicas vem ocupando grandes Æreas de plantio com diferentes espØ- cies. SerÆ que tal prÆtica conduzirÆ a agri- cultura a riscos?

No caso da Revoluçªo Verde, o risco devido a transferŒncia de genes foi pequeno, provavelmente pela natureza da característica em questªo, genes para estatura da planta. A situaçªo com variedades de algodªo, milho, soja, dentre outras, portadoras do gene Bt (Bacillus thuringienses), que confere resistŒncia a alguns Lepidópteros (JAMES e KRATTIGER, 1996), pode ser diferente. A transformaçªo de diferentes espØcies vegetais com o mesmo gene de resistŒncia, isto Ø, clonado da mesma estirpe de Bacillus thuringienses, poderÆ resultar em um risco endŒmico, caso o inseto supere a resistŒncia conferida pelo gene Bt, fenômeno denominado de vulnerabilidade biotecnológica interespecífica.

Eventualmente, a melhoramento poderÆ encontrar platôs de rendimentos com as restriçıes impostas pela piramidaçªo (MILACH & CRUZ, 1997) de genes disponibilizados pela biotecnologia ou existentes no germoplasma, resultando no que Ø denominado de arresto gŒnico. Por outro lado, a biotecnologia criarÆ novas perspectivas ainda nªo imaginadas pelo melhorista, o que possibilitarÆ superar os limites hoje existentes. As plantas transgŒ- nicas serªo apenas parte da contribuiçªo que a biotecnologia promete dar ao melhoramento de plantas. Em artigo recente, TANKSLEY & MCCOUCH (1997) discutem a importância do uso dos recursos genØticos existentes em bancos de germoplasma e presentes, muitas vezes, em espØcies silvestres. Os autores apontam que a possibilidade de se acessar a variabilidade genØtica no DNA, com o uso de marcadores moleculares, irÆ revolucionar a forma como esta variabilidade serÆ explorada em programas de melhoramento de plantas no futuro. Somente o uso correto da biotecnologia como auxiliar ao melhoramento, permitirÆ que os riscos sejam minimizados e os benefícios maximizados.

O surgimento de diversas tØcnicas complementares ao melhoramento de plantas no SØculo X tem trazido vÆrias liçıes. A primeira delas foi que nenhuma tecnologia por si só pode substituir a prÆtica do melhoramento de plantas. Isso decorre de vÆrios fatores. Novas tecnologias podem auxiliar na criaçªo de variabilidade e/ou seleçªo de genótipos superiores, mas a avaliaçªo a campo de materiais superiores ainda Ø uma etapa fundamental enquanto, a agricultura for praticada como tem sido feito atØ hoje. Outra liçªo Ø de que o emprego de qualquer nova tecnologia raramente Ø de uso indiscriminado para

Preservaçªo gŒnica em nitrogŒnio líquido

72 Biotecnologia CiŒncia & Desenvolvimento - Encarte Especial todas as espØcies vegetais, assim, enquanto as mutaçıes induzidas, ainda hoje, tŒm grande impacto no melhoramento de espØcies vegetativas, como as plantas ornamentais, certamente tiveram um impacto aquØm do esperado para os cereais. Certamente o mesmo se aplicarÆ para o uso da biotecnologia no dia-a-dia, que poderÆ ter e jÆ estÆ tendo impacto no melhoramento de diversas espØcies, mas provavelmente serÆ inviÆvel para outras. Acredita-se que a expectativa gerada em torno do uso de novas tØcnicas e o impulso de aplicÆ-las indiscriminadamente a qualquer espØcie vegetal tŒm sido os fatores principais do desapontamento e posterior ceticismo dos melhoristas. Talvez uma alternativa para a questªo de investir ou nªo em uma nova tecnologia seja perguntar-se primeiro como esta pode auxiliar na soluçªo daqueles problemas enfrentados pelo melhorista e se o farÆ diferentemente das metodologias clÆssicas do melhoramento. AlØm disso, se a relaçªo custo x benefício favorece o uso da tecnologia em questªo. A expectativa Ø de que o melhoramento de plantas, nas primeiras dØcadas do próximo milŒnio, continuarÆ evoluindo, mas as mudanças nªo acontecerªo de forma tªo drÆstica. A fonte de genes mais utilizada no desenvolvimento varietal continuarÆ sendo o germoplasma nœcleo das espØcies cultivadas. Os principais mØto- dos para o desenvolvimento de novas variedades tambØm serªo aqueles que utilizam a hibridaçªo. A mais onerosa etapa no desenvolvimento varietal continuarÆ a ser a das avaliaçıes de campo para as características quantitativas e a necessidade do trabalho em equipe multidisciplinar tornar-se-Æ mais evidente. A biotecnologia serÆ gradativamente incorporada à rotina do melhoramento, como instrumento para desenvolver novas variedades, tornando o melhoramento genØtico mais preciso. Dois dos seus objetivos: serªo diminuir o tempo para obtençªo de novas variedades e expandir o conjunto gŒnico disponível para cada programa de melhoramento. Em que espØcies ela terÆ maior impacto e como o seu emprego se justificarÆ no dia-a-dia do melhoramento serªo perguntas a serem respondidas com o próprio tempo.

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Campo experimental de trigoBanco de germoplasma: segurança de genes para o futuro

Nicolai Ivanovich Vavilov - geneticista russo que identificou os centros de origem das espØcies cultivadas

Comunicado Novartis

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