Interação de drogas sinergismo e antagonismo fisico

Interação de drogas sinergismo e antagonismo fisico

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TEMA: INTERAÇÃO DE DROGAS: SINERGISMO E ANTAGONISMO FÍSICO

ALUNO:

Boa Vista, Outrubro/2010

1- INTRODUÇÃO AO TEMA

O restabelecimento da saúde de um paciente está baseado tanto no diagnóstico correto como na adoção de uma terapêutica adequada. O conhecimento das propriedades básicas das substâncias utilizadas para este fim, bem como de sua ação farmacológica, é fundamental para a prática da medicina. Porém isto não é suficiente, pois é preciso pensar que o corpo humano é um sistema complexo formado por uma infinidade de substâncias que fatalmente entrarão em reação com os fármacos administrados. Também é natural de se pensar que no caso da administração com fins terapêuticos, ou não, de mais de uma substância, estas possam se interagir entre si no organismo. Os efeitos de um medicamento, quando administrado concomitantemente com outros, podem ser diferentes dos efeitos esperados se este medicamento fosse empregado isoladamente.

A prescrição de vários medicamentos para o tratamento de uma patologia é uma prática muito comum. Nos hospitais, a maioria dos pacientes pode receber várias drogas simultaneamente. No caso dos pacientes ambulatoriais, além dos medicamentos prescritos, muitos costumam consumir analgésicos, medicamentos para resfriados, antiácidos, anticoncepcionais e outras drogas sem prescrição. Considerando a existência de medicamentos com vários princípios ativos, a probabilidade de interação entre os vários fármacos e modificação dos efeitos terapêuticos é muito alta.

A interação potencial de drogas é a expressão que se refere às possibilidades de que uma droga possa alterar os efeitos farmacológicos de outra droga administrada concomitantemente. O resultado final pode ser a intensificação, inclusive com o aparecimento de efeitos tóxicos, ou a diminuição dos efeitos de uma ou de duas drogas. Ou ainda o aparecimento de novo efeito que não é observado com nenhum dos dois fármacos usados isoladamente. Resumindo, podemos obter três tipos básicos de interações entre medicamentos. São eles:

Sinergismo de adição: onde o efeito final é igual à soma dos efeitos das duas drogas isoladas

Sinergismo de potenciação: onde o efeito final é maior que a soma dos efeitos individuais

Antagonismo: onde uma droga antagoniza o efeito de outra droga

Na prática clínica, muitas das interações medicamentosas têm importância relativa, com pequeno potencial lesivo para os pacientes, porém há interações com efeitos colaterais graves, podendo inclusive levar o paciente a óbito, o que ressalta a importância do conhecimento dessas possíveis interações.

O conhecimento dos mecanismos prováveis das interações medicamentosas é a única maneira do profissional de saúde estar bem preparado para analisar novos achados de modo sistemático. Para planejar um regime terapêutico adequado ao paciente, é necessário estar familiarizado com os princípios básicos das interações entre as drogas.

As interações medicamentosas mais importantes ocorrem com aqueles fármacos apresentam toxicidade facilmente reconhecível e baixa índice terapêutico, de tal modo que mudanças relativamente pequenas no efeito da droga podem ter conseqüências adversas significantes. Ainda mais, as interações entre drogas podem ser importantes se a doença que está sendo controlado com a droga é grave ou potencialmente fatal quando não tratada e se os objetivos finais terapêuticos estão claramente definidos.

As interações envolvendo mecanismos farmacocinéticos são as mais freqüentes e promovem, muitas vezes, influência significativa sobre a terapêutica. As interações que envolvem a absorção, a distribuição, a biotransformação e a depuração renal recebem muita atenção e muitos exemplos são encontrados na literatura médica.

Todavia, as interações medicamentosas não são um mal que precisa ser evitado. Pelo contrário, a industria farmacêutica utiliza-se de várias dessas interações para melhorar seus produtos. Como exemplo dessas “boas” interações, podemos citar:

- aumento da eficácia terapêutica

. Exemplo: trimetoprin + sulfametoxazol, broncodilatadores + anti-secretores;

-

redução dos efeitos tóxicos

. Exemplo: associação de sulfas (cristalúria);

- obtenção de maior duração de efeito.

Exemplo: probenecida + penicilinas;

- combinação de latência curta com duração de efeito prolongado. Exemplo: penicilina G + penicilina procaína;

- impedimento ou retardo do aparecimento de resistência bacteriana

. Exemplo: esquema tríplice anti-tbc

;

2 - CLASSIFICAÇÃO DAS INTERAÇÕES MEDICAMENTOSAS

As interações medicamentosas podem ser classificadas por seu mecanismo de instalação. Estes mecanismos nem sempre são totalmente conhecidos e geralmente são complexos, o que torna difícil classificá-los com precisão. Além disso, a interação muitas vezes é resultante de mais de um mecanismo, porém, conforme o mecanismo predominante, as interações podem ser classificadas em físico-químicas, farmacodinâmicas e farmacocinéticas.

2.1 - INTERAÇÕES FÍSICO-QUÍMICAS (OU FARMACÊUTICAS)

Pode haver interações entre duas ou mais substâncias por mecanismos puramente físico-químicos. Estas interações podem ser chamadas de farmacêuticas, porque se referem àquelas interações antes das drogas serem administradas no organismo, especialmente com misturas destinadas a uso intravenoso.

Estas reações físico-químicas podem resultar na inativação dos efeitos biológicos de uma ou ambas as drogas ou na formação de novo composto, cuja atividade difere da esperada. Tais reações podem exteriorizar-se por precipitação, turvação, floculação e alterações na cor da mistura. Contudo, a ausência dessas alterações não garante a inexistência de interação; neste caso somente o conhecimento dessa possibilidade impede o uso indevido.

Os mecanismos físico-químicos freqüentemente observados nas interações medicamentosas compreendem as reações de óxido-redução, inativação de um medicamento pela incidência de luz (como por exemplo, fotólise da água oxigenada), fenômenos de adsorção (como por exemplo, o caso do carvão ativo que adsorve os alcalóides na sua superfície porosa), reações de precipitação e formação de complexos, neutralização ácido-básica.

A seguir estão demonstrados alguns exemplos de interações físico-químicas ou incompatibilidades farmacêuticas que podem ocorrer.

- Os beta-lactâmicos (antibióticos) podem ser inativados pelo pH ácido de soros glicosados.

- Alguns antineoplásicos, como a doxorrubicina, devem ser protegidos da luz por serem fotossensíveis e devem ser administrados em equipos escuros.

- Um agente conservador pode inativar outro medicamento. Ex. bissulfito para as penicilinas.

- O gluconato de cálcio e fosfato de potássio se forem misturados em nutrição parenteral podem precipitar.

- As penicilinas e as cefalosporinas reagem com o grupo amino dos aminoglicosídeos e os inativam, portanto não devem ser misturados em soluções intravenosas.

- As tetraciclinas são agentes quelantes (ligadores) eficientes contra vários cátions com os quais formam complexos pouco solúveis.

- Inativação do nitroprussiato pela luz (o nitroprussiato é um nitrovasodilatador utilizado no controle da hipertensão severa e é administrado por infusão intravenosa contínua em ambiente hospitalar).

2.2 - INTERAÇÕES FARMACODINÂMICAS

São as interações em que os efeitos bioquímicos e fisiológicos finais são resultantes das ações farmacodinâmicas próprias de cada agente terapêutico administrado e podem ocorrer em nível de receptores e estruturas intimamente associadas a eles (como por exemplo, enzimas), ou ainda quando os fármacos agem em sistemas diferentes, mas o efeito de um deles é alterado pelo efeito do outro.

As interações farmacodinâmicas são quase sempre previsíveis se tivermos um profundo conhecimento da farmacologia das drogas envolvidas.

A grande maioria das drogas atua sobre receptores específicos, com exceção de anestésicos, a maioria dos hipnóticos e sedativos, álcoois, drogas osmoticamente ativas, drogas acidificantes e/ou alcalinizantes e anti-sépticos. Ao final desse tópico, listarei alguns exemplos de receptores.

As interações farmacodinâmicas podem ser sinérgicas ou antagônicas dos efeitos tóxicos ou benéficos e são divididas em:

a) Interações sobre receptores: Quando duas ou mais drogas atuam sobre o mesmo sistema de receptores. Por exemplo, às interações entre agonista e antagonista adrenérgico.

b) Interações sobre o sistema de controle fisiológico:Quando duas mais substâncias, mesmo agindo em receptores distintos, produzem seu efeito em um mesmo sistema fisiológico, como por exemplo, os vasodilatadores e os diuréticos que atuando por mecanismos diferentes vão diminuir a pressão arterial.

Pode afirmar também que alguns dos efeitos secundários de várias drogas ocorrerem devido a interações farmacodinâmicas. Uma droga pode alterar o meio interno normal, desse modo aumentando ou diminuindo o efeito de outro fármaco. Um exemplo bem conhecido deste tipo de interação é a intensificação dos efeitos tóxicos da digoxina como resultado de uma hipocalemia induzida por diuréticos.

Além de interações entre medicamentos diferentes, podemos citar ainda as interações entre medicamentos e outras substâncias. Essas interações podem influenciar tanto positiva quanto negativamente as ações dos fármacos. Cita-se a seguir exemplos de substâncias que podem interferir na ação de fármacos:

- alimentos;

- drogas (álcool, cigarro, maconha, cocaína);

- solventes;

- poluentes;

Por exemplo, à ingestão de alimentos pode afetar a absorção gastrintestinal de muitos medicamentos, assim como algumas substâncias presentes no alimento podem interagir com determinados fármacos. O álcool pode influenciar o metabolismo dos medicamentos assim como potencializar a ação de outros depressores do Sistema Nervoso.

Para finalizar, cita-se ainda a interferência do estado patológico do paciente sobre a ação de alguns medicamentos. Os estados patológicos que mais podem interferir na ação de um fármaco são:

- diabetes;

- hiper ou hipotireoidismo;

- distúrbios gastrintestinais;

- distúrbios renais;

- distúrbios hepáticos;

- alterações nos níveis séricos de proteínas;

Considera-se ainda a interferência da idade e da constituição genética na ação dos medicamentos.

2.2.1 - RECEPTORES FARMACOLÓGICOS

Um receptor farmacológico é qualquer componente biológico que interage com uma molécula da droga, produzindo um efeito sobre o organismo. Quando a ligação da droga ao componente não surte efeito algum, como no caso da ligação dos medicamentos às albuminas, o componente não é denominado receptor. A seguir, temos exemplos de receptores farmacológicos:

a - Receptores do tipo inespecíficos:

1.a - Água: Os diuréticos osmóticos, como o manitol, não são reabsorvidos pelo rim e, portanto, retém água na luz do túbulo renal, que de outra forma seria reabsorvida. Portanto, eles atuam sobre a água corporal ao produzirem diurese. Alguns laxantes, como o Agar ou a metilcelulose, apresentam moléculas grandes demais para serem absorvidas pelo intestino. Quando administrado por via oral, elas incham por absorverem água, retendo assim uma quantidade maior de água na luz intestinal. A massa resultante promove a mobilidade intestinal e alivia a constipação. Os dextrans de alto peso molecular, quando injetados por via endovenosa, fazem com que a água dos tecidos entre para a circulação expandindo a volemia.

2.a - Íons H+ ou OH-: Drogas como o cloreto de amônio e bicarbonato de sódio, que são utilizadas com o propósito de acidificar/alcalinizar a urina, atuam sobre os íons H+ ou OH-.

3.a - Íons metálicos: Podem ser considerados como receptores dos agentes quelantes. Dimercaprol-Hg, Penicilamina-Cu (na doença de Wilson) e o EDTA-Pb.

b - Receptores do tipo específicos:

1.b - Enzimas: Várias classes de medicamentos atuam sobre enzimas como, por exemplo, alguns antibacterianos, antineoplásicos, cianeto, digitálicos, antidepressivos, anti-hipertensivos, etc.

2.b - Ácidos Nucléicos: Podemos citar a ligação DNA-actinomicina D (antineoplásico e antiinflamatório) e a ligação RNA-estreptomicina (liga-se à subunidade 30S  do ribossomo provocando uma leitura errada da mensagem codificada no mRNA).

3.b - Esteróis da membrana: Os antibióticos poliênicos (nistatina, anfotericina B) ligam-se especificamente ao ergosterol e causam um vazamento ou lise da membrana da célula fúngica.

2.3 - INTERAÇÕES FARMACOCINÉTICAS

São assim chamadas as interações em que um dos fármacos modifica a cinética de outro administrado concomitantemente. Em 1953, Dost propôs o termo farmacocinética para descrever o movimento da droga através do organismo. A farmacocinética igualmente estuda quantitativamente a cronologia dos processos metabólicos da absorção, distribuição e excreção das drogas.

As interações farmacocinéticas são as mais freqüentes e promovem, muitas vezes, influência significativa sobre a terapêutica medicamentosa. Ao contrário das interações farmacodinâmicas que são quase sempre previsíveis, as alterações na farmacocinética de uma droga induzida por outra não costumam ser intuitivamente óbvias. Essas interações recebem muita atenção, e muitos exemplos são encontrados na literatura.

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